Iniciao ao principio

Auteur
Nune Sobrinho, R.G.
Publié dans
Archai
Année
2011
Sujet
INITIATION
Langue
Español
Catégorie
C12 Religion
Numéro d'archive
2584

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Y1SBu eS SDRAM AS = GN A? Ur L p 6 3 gita 1 INICIAC O AO PRINCIPIO Rubens Garcia Nunes Sobrinho* 0 ültimo dia de vida de Sôcrates, © Universidade Federal de RESUMO: No diálogo que dramatiza a última discussao Ubertändia. Núcleo de filosófica de Sócrates e suas últimas palavras em vida, Platäo Estudas em Filosofia Antiga se apropria de um acervo de imagens moldadas nos quadros e Humanidades (NEFAH). : comemorado no Fédon, demarca o advento da imortalidade da Filosofia. A encenaçäo possui uma mentais dos cultos de mistérios gregos para ingressar os prin- | . importancia dramática suficiente para que Platäo cipios fundamentais de sua Filosofia. Seus interlocutores, . Consigne a esse diälogo o esboço dos principios filósofos representantes de uma tradigáo pitagérica, ensejam de sua visäo causal de mundo. A estranheza da uma sofisticada argumentagio que promove uma inflexdo : radical na tradiçäo religiosa iniciática e nas correntes filosóatitude de alegria de Söcrates exige uma justificativa do seu pröprio gänero de vida. No ficas que investigam os principios causais de todas as coisas. Este estudo se detém na análise do significado técnico confemomento mesmo de morrer, Söcrates estä feliz: rido por Platáo à iniciaçäo, à alma-harmonia e no significasua atitude & incompativel com a perda dos valores do das últimas palavras de Sócrates: um convite de iniciaçäo reputados como nobres e bons pela cidade. Por — ao Principio, essa PALAVRAS-CHAVE: Iniciagáo, principio, harmonia. : razäo, Sôcrates levanta, para seus interlocutores, a questäo: Qual è a vida de maior valor? Uma vida voltada para os prazeres, ou a INITIATION TO THE PRINCIPLE vida filosöfica? Essas questi es apontam para o problema da natureza da vida filoséfica e de como ABSTRACT: In the dialogue that dramatizes Socrates’ se distingue o auténtico filösofo. last philosophical discussion and words, Plato borrows a stock of images which were shaped on the Greek mystery cults’ A questäo da ordenaçäo dos valores e do mindsets in order to introduce the fundamental principles of valor da vida suscita a questäo do valor dos his own Philosophy. His philosophic interlocutors, who represent a Pythagorean tradition, present the opportunity apetites associados as sensagı es do corpo (té : of a sophisticated argumentation that promotes an extreme soma aistheseön), em oposiçäo ao valor do pensamento isolado da interferéncia desses inflection on the religious tradition and philosophical notions, afetos. O verdadeiro filósofo, segundo o Sócrates which investigates the causal principles of all things. This do Fédon, nem confere o maior valor aos prazeres study relies on the technical meaning of initiation, soulharmony and Socrates” last words: an invitation of initiation to the principle. KEYWORDS: Initiation, principle, harmony © associados ao corpo nem considera que as sensagies do corpo propiciem um conhecimento acurado e seguro.

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INICIAÇÃO AO PRINCÍPIO Rubens Garcia Nunes Sobrinho* * RESUMO: No diálogo que dramatiza a última discussão filosófica de Sócrates e suas últimas palavras em vida, Platão se apropria de um acervo de imagens moldadas nos quadros Universidade Federal de Uberlândia. Núcleo de Estudos em Filosofia Antiga e Humanidades (NEFAH). O último dia de vida de Sócrates, comemorado no Fédon, demarca o advento da imortalidade da Filosofia. A encenação possui uma mentais dos cultos de mistérios gregos para ingressar os prinimportância dramática suficiente para que Platão cípios fundamentais de sua Filosofia. Seus interlocutores, consigne a esse diálogo o esboço dos princípios filósofos representantes de uma tradição pitagórica, ensejam uma sofisticada argumentação que promove uma inflexão radical na tradição religiosa iniciática e nas correntes filosóde sua visão causal de mundo. A estranheza da atitude de alegria de Sócrates exige uma ficas que investigam os princípios causais de todas as coisas. justificativa do seu próprio gênero de vida. No Este estudo se detém na análise do significado técnico confemomento mesmo de morrer, Sócrates está feliz: rido por Platão à iniciação, à alma-harmonia e no significasua atitude é incompatível com a perda dos valores do das últimas palavras de Sócrates: um convite de iniciação reputados como nobres e bons pela cidade. Por ao Princípio. essa razão, Sócrates levanta, para seus PALAVRAS-CHAVE: Iniciação, princípio, harmonia. INITIATION TO THE PRINCIPLE ABSTRACT: In the dialogue that dramatizes Socrates’ last philosophical discussion and words, Plato borrows a stock interlocutores, a questão: Qual é a vida de maior valor? Uma vida voltada para os prazeres, ou a vida filosófica? Essas questões apontam para o problema da natureza da vida filosófica e de como se distingue o autêntico filósofo. of images which were shaped on the Greek mystery cults’ A questão da ordenação dos valores e do mindsets in order to introduce the fundamental principles of valor da vida suscita a questão do valor dos his own Philosophy. His philosophic interlocutors, who apetites associados às sensações do corpo (tó represent a Pythagorean tradition, present the opportunity soma aisthéseón), em oposição ao valor do of a sophisticated argumentation that promotes an extreme pensamento isolado da interferência desses inflection on the religious tradition and philosophical notions, which investigates the causal principles of all things. This study relies on the technical meaning of initiation, soulafetos. O verdadeiro filósofo, segundo o Sócrates do Fédon, nem confere o maior valor aos prazeres harmony and Socrates’ last words: an invitation of initiation associados ao corpo nem considera que as to the principle. sensações do corpo propiciem um conhecimento KEYWORDS: Initiation, principle, harmony acurado e seguro.

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Os sentidos enganam e a realidade dos seres argumentativa e narrativa, que se desdobra não se permite apreender através deles. Se os caracteristicamente numa espécie de bricolage. sentidos não são garantia segura para o O amálgama de um complexo de elementos conhecimento, então “quando a alma pode tocar tradicionais, dispostos numa sequência de 1 a verdade” ? A apreensão da ousía, essência de imagens, sugere a hipótese de que Platão ao cada coisa, aquilo que cada ser é em si mesmo, mesmo tempo em que fundamenta teses na ocorre por meio dos sentidos ou por meio da tradição, rompe com ela, modificando-a através reflexão depurada (Fédon 65d11-e04)? de uma nova transmissão re-significada. Como Para responder estas questões, ao mesmo afirma Radcliffe Edmonds, “uma narrativa tempo éticas, epistemológicas e ontológicas, dramatiza “valores”, mostrando na perspectiva Platão se apropria de um acervo cultural próprio do narrador, o que é bom e o que é inútil ou aos cultos de mistério, para que, analogicamente, mau” e salienta que os elementos tradicionais recorrendo a concepções e imagens compartisão evocativos (em vez de descritivos) de lhadas pela cidade, pudesse introduzir a exposição associações que ultrapassam o significado das causas primeiras de todas as coisas (95e09). imediato. Os desdobramentos desencadeados pela Os antigos cultos de mistério gregos, sequência de imagens, ações e caracteres, segundo Giovanni Casadio (2010, p. 3-5), através da estrutura da narrativa, carregam em distinguem-se, para efeito de análise, em seu bojo “significação” para a audiência (CASADIO, modalidades diversas nas quais de destaca, 2010, p. 74-75). especialmente, o caráter da transmissão de uma A referência a uma antiga tradição justifica a inflexão que o próprio Platão opera na sabedoria tradicional: homologia entre a Filosofia e a iniciação, Mistérios, em geral, implicam cerimônias especiais esboçando modos concorrentes de interpretar e e re-significar um acervo de saberes, potências, frequentemente conectadas com o ciclo anual da crenças, afetos e imagens religiosas em uma agricultura. Usualmente eles envolvem o destino de transposição determinante para a mentalidade de poderes divinos sendo venerados e a comunicação de um novo gênero de vida e um novo tipo de éthos. sabedoria religiosa, que habilita o iniciado a vencer a A homologia entre o bíos dos cultos de mistério e morte. Eles eram parte da vida religiosa geral, mas suas correspondentes imagens míticas, exigidos separados do culto público, que era acessível a todos. para a iniciação, indica que a significação ético- Por essa razão, eram também chamados “cultos política aportada pelo exercício filosófico não secretos”( aporreta). (...) “Mistério, propriamente, encontra referentes no mundo físico, mas somente envolve toda uma estrutura iniciatória, de alguma num acervo compartilhado de crenças e afetos duração e complexidade, cujo tipo (e em muitos casos que modelam os quadros mentais de uma o real modelo...) é Eleusis. O “culto místico” envolve comunidade, valores coletivos que configuram o não a iniciação, mas, antes, uma relação de intensa psiquismo norteador para as percepções e o agir comunhão, tipicamente extática ou entusiástica com humanos (WINKELMAN, 2010, p. 14, ss). que são caracteristicamente esotéricas a divindade (ex: frenesi Báquico ou o kibeboí de Assim como na chamada antiga tradição Cybele). O culto “misteriosófico”oferece uma (palaiòs lógos - Fédon 70c) dos mistérios há uma antropologia, escatologia e meios práticos de reunião transmissão iniciática para que os puros individual com a divindade, cuja forma primitiva e encontrem a bem-aventurança no Hades, na original é o Orfismo. Filosofia há o exercício catártico da vida virtuosa e do pensamento depurado. A pureza ritual é No Fédon, Platão amalgama elementos assimilada aos raciocínios isolados das sensações díspares da tradição religiosa grega e, por isso, corporais: a alma raciocina mais belamente, aponta para uma composição ao mesmo tempo quando despreza os sentidos e foge das sensações 1. póte hé psykés aleteías háptetai (Fédon, 65b).

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corporais e procura, o mais possível, isolar-se mas a posse da verdade e o pensamento isolado em si mesma e tornar-se si mesma ( dzeteî dè do corpo. auté kath’autén gígnesthai). Este isolamento da Por que, Sócrates delega a fala a um alma através dos raciocínios (logídzesthai) é hipotético filósofo anônimo? Em primeiro lugar, correlato ao modo de aquisição do conhecimento pode-se ressaltar a adequação do discurso à e da manifestação da realidade daquilo que ocupa natureza da alma dos ouvintes. Símias e Cebes o pensamento. A grandeza, a saúde, a força e a explicitamente são vinculados a Filolau de Crótona realidade (tés ousías) de todas as coisas e o que e à antiga tradição (palaios logos) que serve de cada uma delas é em si mesma, exigem uma princípio para a interdição ao suicídio. Em seguida, catártica das sensações (tás aisthétá). Somente o o passo indica que as referências aos males do pensamento em si mesmo ( auté té diânoia), o corpo (an tínes nósoi, Fédon, 66c) remetem para pensamento sem mistura, isolado e sem comunhão o miásma, as antigas faltas, a mácula que se com o corpo, pode sair à caça (epikheiroî théreúein transmite como peste para as gerações e para a théreúein tôn óntôn) dos seres, da verdade e da cidade. Como afirma Vernant (1994, p. 107), “o inteligência purificada (phrónésin). A purificação, miasma se purifica sempre com uma lavagem, anunciada por um filósofo genuíno (Fédon 65bmas também ‘se consome’, ‘adormece’, ‘se 67e), representa o sumário daquilo que já dispersa’. É uma mancha e também uma coisa representa uma transposição em relação aos ritos que rouba, um ‘peso’, uma ‘doença’ uma purificatórios das seitas de mistério. perturbação, ‘uma ferida’, ‘um sofrimento’. O Pierre Boyancé (1994, 85-95) correlaciona vocabulário indica que Platão se apropria de uma esta ascese filosófica a um acervo órfico cujo tradição filosófica associada às práticas rituais escopo seria a separação dos elementos titânicos de lustração, como os mistérios de Elêusis e outras da psykhé de sua parte divina. O discurso, que práticas iniciáticas, comodamente rotuladas de Sócrates consigna a um anônimo, descreve um órficas. Assim como as faltas, os crimes de caminho sagrado purificatório, uma trilha sangue, ou a impiedade transmitem-se numa (atrapós) que demarca o itinerário da razão e da cadeia de impureza, a purificação está relacionada investigação. O alvo da investigação é identificado à transmissão iniciática, a ritos que suscitam a com a verdade e seu princípio de ação com um passagem de um estado para outro mais elevado. apetite pela sua posse (me pote ktesômetha hikanôs Essa transmissão consolida todo um gênero de hoù epithymoûmen ). Na prescrição iniciática do vida modelado por exercícios espirituais. A filósofo genuíno, há uma concepção quase iniciação, tal como o miasma, pressupõe uma material de que a alma está dispersa como sopro cadeia de transmissão que remonta à antiga nos elementos corporais e que a sua mistura com tradição, o princípio e a fonte da pureza. o corpo engendra toda sorte de males e No seu comentário às lâminas de ouro impedimentos para a aquisição da verdade e a órficas, Giovanni Carratelli, observa que as caça aos seres. A mistura da alma ao corpo segue instruções mortuárias objetivam servir de guia para na esteira do mito de Dioniso Zagreu, esquartejado que a alma do iniciado seja liberta das faltas e devorado pelos Titãs. Não obstante, a trilha mediante a iniciação ( mýésis ). Os ritos iniciática descrita no Fédon não promove a compreendem separação dos elementos divinos do elemento reconhecimento ( sýnthéma ), ou palavras de corporal titânico mediante ritos purificatórios. Em passe, o segredo, provas dolorosas (pathématha) vez disso, a exaltação iniciática dá lugar a um e a referência constante a Mnémosyne, apetite pelo pensamento purificado: a phrónesis. personificação divina da memória. Há o importante Há uma homologia entre o caminho sagrado dos papel do guia, o mystagogos, na condução de ritos iniciáticos e a trilha filosófica. Todavia, o estatutos diversos entre os recipiendários: os alvo deste itinerário não é mais a pureza ritual, Báckhoi são superiores aos mýstai. A palavra de instruções, fórmulas

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passe, ou a fórmula de reconhecimento, pressupõe delimitar suas origens em certos contextos. Mas, o exercício menemônico que faculta o conhecias imagens míticas e alusões ao misticismo grego mento da origem divina, anterior à vida terrestre. que aparecem em Platão sugerem um emprego As expiações e as lustrações catárticas suscitam caleidoscópico de elementos tradicionais, que a prevalência do elemento divino da alma. Na varia segundo o movimento de cada diálogo. Para lâmina mortuária encontrada na necrópole de o intérprete dos diálogos, o contexto é a suma Hipônio em uma tumba datada no fim do séc. V. tradicional das seitas de mistério gregas. Como encontram-se as instruções: afirma Giovanni Casadio, se há uma fronteira – e isto está além de questão – que demarca os limites Tu irás na morada bem construída de Hades: à entre Dionisismo (uma realidade concreta) e o direita há uma fonte, ao lado dela se ergue um cipreste Orfismo (uma realidade muito mais nebulosa), nós branco; é lá que descem as almas dos mortos e onde somos incapazes de determinar precisamente onde elas se refrescam. esta fronteira se encontra (CASADIO, 2010, p. 36- Desta fonte tu não te aproximarás 37.). Mais do que estabelecer distinções canônicas Mas, mais adiante, tu encontrarás uma água fria entre dionisismo, orfismo ou pitagorismo, cumpre que corre do lago de Mnemosýne; acima dela se focar os esquemas invariantes de pensamento nas encontram guardas. seitas de mistério e as homologias corres- Eles te interrogarão, em seguro discernimento, porque tu exploras as trevas de Hades obscuro. pondentes que emergem no movimento dramáticodialógico dos mitos platônicos. Dize: ‘Eu sou filho da Terra e do Céu estrelado. A personificação da memória relaciona-se Eu queimo de sede e desfaleço. Dê-me rápido com o rito de purificação pela água que permite o De beber da água fria que vem do lago de acesso à via sagrada. A purificação propiciada pela memória ressalta a primazia do pensamento, nôus, Mnemosýne’. E eles te interrogarão pelo querer do rei ctônico. na experiência iniciática que ascende o aspirante Eles te darão de beber do lago de Mnemosýne. à alétheiã. A fórmula de reconhecimento eu sou E tu, quando tiveres bebido, percorrerás a via filho da Terra e do Céu estrelado identifica o aspirante com a estirpe divina e sugere sua sagrada, Sobre a qual também os outros mystai e báckhoi 2 avançam na glória. (I A 1. 9-11.) purificação ritual prévia: ela serve como palavra de passe que garante o acesso à divindade. A katabasis descrita na lâmina funerária alude ao Como observa Radcliffe Edmonds (in: cumprimento de uma purificação prévia pressu- CASADIO, 2010, p. 72 ss.), as referências a posta, à prova da passagem e ao esforço vinculado Perséfone, a Mnemosýne e a Dioniso tem levado a uma potência psíquica personificada em os historiadores da religião grega a rotular as Mnemosýne. Platão se apropria desse acervo da instruções iniciáticas, contidas nas lâminas antiga tradição com a finalidade protréptica de funerárias de ouro, como órficas, báquicas, egípcias apresentar a Filosofia como um exercício de morte e pitagóricas ou ainda eleusinas. Embora alguns e a kátarsis como purificação do pensamento. editores correlacionem as instruções das lâminas de ouro a uma katabasis que remontaria a um A verdade, a realidade da sabedoria, da justiça, da poema órfico, ou a um livro dos mortos pitagórigo, coragem, consistem sem dúvida em uma purifi- Edmonds salienta que, infortunadamente, os cação de todas as coisas e o próprio pensamento textos escatológicos são excessivamente vagos (phrónésis) não é senão um meio de purificação. Há para identificá-los precisamente com alguma uma vertente religiosa. estabelecerem entre nós as iniciações não tenham grande chance de que aqueles que Muitos eruditos esforçam-se no sentido de sido homens fracos. Mas a realidade dos seres deve encontrar um estema de influências que permita ser oculta em enigmas (ainíttesthai) quando eles 2. Tradução de Giovanni P. Carratelli (2003, p. 35).

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dizem que “aquele que chega no Hades sem ter performance ritual que envolve procissões, conhecido os mistérios, sem ser iniciado, aquele carregar e agitar tirsos ornamentados, gritos será deitado na lama, mas aquele que foi purificado sacrificiais (eyoî), dança e vinho (CASADIO, 2010, e iniciado, uma vez lá chegando, habitará com os p. 46-60). Clara Acker (2008, 16-29) estabelece deuses. De fato, como dizem aqueles que tratam das uma meticulosa distinção o culto a Dioniso e os iniciações, “numerosos são os portadores de tirso cultos de mistérios órficos. O dionisismo seria (narthekophóroi), raros os Bákkhoi. um apanágio das mulheres, as Bacantes, as Fédon 69b12-c2. mênades, e envolve a exaltação dos rituais omofágicos, as danças, os ritmos, o entusiasmo do vinho e, sobretudo, o simbolismo do parto. O A distinção hierárquica entre os impuros e orfismo, por outro lado, sugere práticas ascéticas os puros de um lado, e entre os mýstai e os e interdições catárticas em ritos purificatórios que bákkhoi de outro, indica a tese protréptica de implicam o vegetarianismo e o afastamento e apresentar a Filosofia como um exercício iniciático desvalorização da mulher. de ascensão ao princípio último da realidade dos Não obstante, a terminologia empregada seres. A purificação é transposta para a purificação na inscrição da lâmina de Hipônio evidencia que do pensamento e das virtudes por meio da as expressões mýstai e bákkhoi pertencem a um phrónesis. A homologia entre o segredo e a acervo cultural comum de imagens que configura realidade, posta sob forma enigmática para evitar o mesmo pano de fundo para a classe geral dos a apropriação por aqueles que não passaram pelo cultos de mistério. As instruções funerárias longo exercício catártico é mantida: não ser puro evocam uma ascensão iniciática na via sagrada e se apossar do que é puro, e de fato, é preciso para que o recipiendário seja acolhido entre os temê-lo, é algo interdito (ou themitón, Fédon, bem-aventurados: glória reservada aos puros que 67b01). passaram pelas provas. Somente os puros possuem Todavia, a menção aos portadores de tirso a potência psíquica unificadora da memória, e bákkhoi, no Fédon, suscita controvérsias. A qual condição para o proferimento da palavra de passe, tradição se refere o passo? Quais são os ritos e o sýntema, e o conhecimento da alétheia, qual é o contexto que suscita a analogia entre reservado aos bákkhoi mediante o inaudito – os iniciação aos mistérios e iniciação filosófica? Ana apórrheta. Como salienta Boyancé, as purificações J. Cristóbal, em um instigante estudo acerca do órfico-pitagóricas referenciam-se no mito de campo semântico das expressões bákkhos e Dioniso Zagreu, desmembrado pelos Titãs, e bakkheúein, indica que os termos possuem podem perfeitamente coexistir com rituais significados diferentes entre os círculos báquicos de livramento, com hinos, danças, coros reconhecidos como órficos e o culto a Dioniso. e a alegria extática, as paidiá hédonôn, censu- Bákkos e bákkhoi são denominações daqueles que radas por Platão como um tipo de orfismo báquico passaram por ritos purificatórios ou extáticos (República, II 363c). A separação dos elementos vinculados a Dioniso. Tais ritos induzem a um titânicos operada pela encantação musical e da estado místico, de intensa afetividade decorrente harmonia de afetos coexiste com as práticas da exaltação e entusiasmo provocado pelo deus. cultuais de exaltação báquica dionisíaca e com a Bákkos é o atributo de um seguidor de Dioniso ventura eleusina. Bakkhos. O verbo bakkheúein, por outro lado, A tensão entre a multidão dos portadores denota a possessão divina e, dentre todos os de tirso e os poucos bakkhoi sugere uma gradação testemunhos, somente Eurípides o emprega no entre narthékophóroi e iniciados. No Górgias, a sentido de adoração a Dioniso. A ação de oposição entre os ininteligentes, não-iniciados, bakkheúein descreve simultaneamente os afetos (anoétous amýetous, Górgias, 493a07) e os mýstai experimentados no transe delirante e a aponta para uma polarização radical entre seres

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irrefletidos, que se entregam aos apetites, e de esconjuração, pretendiam constranger os aqueles que buscam a proporção harmônica da deuses e expiar os crimes. alma. Todavia, no Fédon, Platão se vale de uma Eles produzem uma multidão de livros de Museu e gradação entre o conjunto de recipiendários Orfeu, filhos da Lua e das Musas, diz-se. Eles regram seguidores de Dioniso, todos portadores de tirso, seus sacrifícios sob a autoridade destes livros e fazem e os poucos que atingem o paroxismo da acreditar não somente aos particulares, mas à cidade, presentificação divina: os bakkhoi. Assim como a que se pode, pelos sacrifícios e jogos prazerosos dramatização ritual e a entronização do candidato (paidiás hédonôn), ser absolvidos e purificados de não são garantes suficientes para uma experiência seu crime, enquanto vivo e mesmo após sua morte. divina, assim também a pretensão à Filosofia não Eles chamam iniciações, estes ritos (teletás) que pode ser levada a bom termo sem o longo exercício nos livram de males no outro mundo e que não se da harmônica da alma mediante a purificação das pode sacrificar sem esperar terríveis suplícios. virtudes operada pela phrónesis. Para que se República, 364 e – 365 a. possua a fórmula secreta de reconhecimento, os apórrheta, é necessário que se esteja depurado Boyancé assimila as teletai com os mistérios por toda uma vida filosófica iniciática. O segredo de Elêusis. Mas, como evidencia a exegese do é indissociável dos ritos iniciáticos. O próprio comentador de Derveni, a crítica à degeneração significado de mysteria, num sentido largo, pode do vínculo entre longas práticas de exercício ser simplesmente “segredos”. O exegeta do papiro espiritual e do papel da inteligência na busca de Derveni, uma espécie de crítico pré-socrático pela verdade com o segredo e a transmissão oral dos ritos órficos afirma, na Coluna VII 4-7 de uma sabedoria, já fazia parte da reflexão (Fabienne Jourdan, 2003), que o poema órfico filosófica pré-socrática. No Teeteto (155e-156a), examinado é algo estranho e, para os homens, Platão adverte, en passant, que o jovem olhe em composto enigmático. Orfeu, entretanto, não derredor, para que não aconteça que algum não desejou empregar formulas enigmáticas para iniciado ouvisse o que era dito. Este cuidado indica suscitar a erística, mas em enigmas, dizer grandes a transposição filosófica do estatuto iniciático para coisas (légein en ainígmasin dé megála). O a investigação terapêutica operada pela Filosofia, comentador censura as fórmulas escritas que que exige a preparação da alma. suscitam disputas e indica, ao contrário, a No Protágoras, Platão encena uma magnífica elocução oral como veículo de revelação das cena que alude ironicamente à exploração dos grandes coisas. ritos de Elêusis operada pelos Sofistas. A A transposição operada por Platão em encenação dramática do Protágoras é a mímesis relação à antiga tradição (palaiós lógos) implica de uma iniciação nos mistérios que coloca em que a Filosofia é o verdadeiro caminho iniciático perigo a alma . O inventário histórico das iniciações 3. ti oûn? Oistha eis hoión tina e o Filósofo, o verdadeiro Bacante. Trata-se não e mistérios empreendido por Walter Burkert (1993, kíndynon hypothéson tèn psykhén? ; (Protágoras 313a01-02). mais de um gênero de vida catártico orientado 527-577) permite a distinção dos elementos para o livramento das faltas no além, mas de um alusivos da encenação dramática do Protágoras. 4. poías ergasías epistátes (312d05) fabricante de exercício de morte, que consiste na purificação O jovem Hipócrates, desejoso de iniciar-se nos do pensamento, dos afetos próprios e da virtude. mistérios da prática da sabedoria , pretende Esse exercício exige um longo esforço, um cuidado receber um ensino transmitido por um guia, de si que é, também, uma therapéia psykhé, que embora não saiba o que dizer sobre o seu culmina na inteligência do princípio último, causa conteúdo, efetivamente inexprimível, análogo do da existência de todos os seres. O próprio Platão árreton, o segredo dos mistérios. Protágoras 3 4 empreende severa crítica aos mendicantes órficos aparece como um guia, um mystagogos, a quem que, mediante seus livros de Orfeu, e fórmulas Hipócrates confiará sua alma esperando adquirir 68 praticas do saber equivalente ao epistémon, sábio (LIDDELL; SCOTT, 1997, p. 554).

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um novo estatuto e experimenta, simultaneaobstante a ironia, indícios característicos da ação mente, o medo próprio ao grande perigo de expor ritual. O ritual é um conjunto de ações sua alma a um pharmakon desconhecido e a redirecionadas para a demonstração, exposição promessa de uma nova realidade radiante. Como apontada para o olhar, é um falar mediante gestos profano suplicante, o recipiendário, protomýstes, estereotipados e padronizados, independentes da se dirige à casa do rico Cálias, equivalente do situação e afetos atuais (BURKERT, 1997, p. 35- telestérion, templo das iniciações, ou da caverna, 37). A harmonia do coro provoca alegria em símbolo secreto, do oculto e do transcendente Sócrates. A alegria e o devaneio das iniciações (BURKERT, 1993 p. 555). Após percorrer a via, o eleusinas são intimamente ligados à dança e à candidato se depara com a porta que separa o música rítmica (BURKERT, 1993, p. 557). Seguesagrado do profano. A passagem pela porta exige se a alusão direta à descida ao Hades, katabasis, a passagem pelo seu guardião, um eunuco que símbolo da iniciação, em que Herácles e Tântalo parodia os temíveis guardas de Zeus (Protágoras são ironicamente substituídos por Hípias e Pródico 320d) ou os guardiões postados à entrada do de Céos (Protágoras, 315b-d). Hades (BURKERT, 1993, p. 558). Sócrates, como No Fédon (85b ss), Símias expõe a espécie de hierophantés que irá mostrar as coisas concepção de que a alma é uma harmonia. Como sagradas, termina o assunto profano impuro antes tal, ela resulta da consonância de elementos de bater à porta, pois não é permitido misturar o materiais e, por isso, só pode ser consequente a impuro ao puro. esses elementos e não sua causa. O corpo A entrada é vetada, porque o guarda os apresenta uma tensão entre elementos opostos, toma por sofistas e fecha violentamente a porta. o quente e o frio, o seco e o úmido, cujo A iniciação protagoriana opera a mudança no desarranjo constitui a causa das doenças. Sócrates estatuto do ser, em direção ao melhor, transforcritica a concepção de que a alma é uma harmonia 5 mando metabállô e metabletéon . O verbo metano sentido material, pois uma mera combinação 5. oúto dè kaì em té Paidéia apo hetéras éxeos epì tén ameíno bállô designa uma virada súbita, conversão ou, harmoniosa de elementos materiais não pode metabletéon: ho mèn iatròs pharmàkois metabállei, ho dè mais propriamente em Platão, uma mudança no possuir propriedades contraditórias com seus gênero de vida (LIDELL-SCOTT, 1996, p. 1109). elementos constituintes. sophistés lógois (Teeteto, 167a.04-06). Assim como o médico, mediante os phármakoi, Uma harmonia de elementos materiais muda as disposições do corpo, o sofista muda as pressupõe a possibilidade de gradações diversas, disposições da alma pelo seu ensino iniciático segundo o maior ou menor grau de consonância (Teeteto, 167a.04-06). A porta fechada e guardada dos elementos. Quanto maior for a combinação, da casa de Cálias separa os ritos internos maior será a harmonia. Se a alma fosse uma discretos da abertura ao olhar coletivo e delimita harmonia de elementos materiais, uma alma a ocultação do mistério aos profanos. carregada de vícios seria menos harmoniosa do O apresentante Sócrates enuncia uma que uma alma virtuosa e, por conseguinte, seria explicação que serve de sýnthema, palavra de menos alma, o que não pode ser admitido. Em passe que franqueia a entrada no recinto sagrado. contrapartida, se não há uma alma que seja A declaração de que não são sofistas possui o menos alma que outra, então não há harmonia efeito ritual de garantir que não são impuros que seja mais intensa que outra, ou seja, uma (314c-e). A entrada no recinto sagrado revela o mesma harmonia não pode participar, ao mesmo rito dos discursos sagrados, hieroì lógoi, de tempo da harmonia e da ausência de harmonia. Protágoras. Um séquito de estrangeiros Além disso, a alma não pode ter um estatuto encantados, como se fora pelo charme do próprio secundário em relação ao corpo. A alma não deriva Orfeu, o segue cosmicamente em evoluções nem obedece aos processos corporais, mas, como circulares ritualmente regulares. A vívida e sede da razão, regra, pelo domínio dos desejos, espetacular caricatura da cena fornece, não as necessidades corporais. Como a alma não segue

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aos impulsos determinados pelos elementos em o banho e dá as últimas instruções acerca de sua tensão no corpo, mas os domina e tem mestria família, sua mulher e três crianças. Toda a cena sobre eles, a sua natureza é diferente das dos alude a provas preparatórias para uma iniciação elementos do corpo e, por isso, a alma não pode que terá curso, notadamente, o rito purificatório ser uma harmonia: ela possui harmonia. Platão da água. O sacrifício, como nota Burkert, a ação transpõe o conceito material de harmonia para a sagrada, cumprida sobre o lugar sagrado, na hora sua concepção de consonância e afinidade com o sagrada, pelo autor da consagração é degolar os divino. Essa transposição enseja o argumento de animais sacrificiais, hiereueín os hiereía (2005, p. que a alma é princípio de regramento e tende a 20 ss.). assemelhar-se com as Formas. Toda a discussão Nesse momento, o sol se punha no ocidente: acerca das causas que dá origem à concepção momento que anuncia o ponto alto dos ritos das Formas está calcada numa crítica a concepções iniciáticos, depois que todas as provas foram pitagóricas, sobretudo as de Alcméon de Crótona 6 concluídas. O carcereiro se aproxima e afirma que 6. Alcméon de Crótona define a saúde como isonomia e como e de Filolau. Há causas necessárias e causas Sócrates é o mais doce e o melhor dentre todos últimas verdadeiras. Os quatro elementos da physis os homens com quem conviveu. Anuncia, como mistura simétrica de qualidades (tên sýmmetron tôn poiôn e as relações numéricas inteligíveis são um hiereús, mestre do drama, que é chegado o krásin). A harmonía resulta de um equilíbrio ao mesmo tempo necessários para a inteligência, mas não se momento de beber o veneno e chora. Sócrates identificam com o inteligível. As verdadeiras agradece a generosidade das lágrimas derramadas causas são as “coisas em si mesmas” ordenadas pelo carcereiro. Em seguida, o executor traz a e harmonizadas segundo o Bem. O meio de taça com o veneno e a estende para que Sócrates ordenado. Kairós, symmetría e eurythmía configuram uma inteligibilidade do kosmos é a phrónesis, cuja sede a pegue. A sequência dramática, que encena as percepção refinada de harmonia. A noção de symmetría se é a alma. As relações numéricas, indispensáveis últimas palavras de Sócrates, ainda ecoa o tributo para a inteligibilidade não são intrínsecas às ao mais excelente, ao mais sapiente e ao mais desdobra entre os pré-socráticos como proporção, ou uma coisas, nem a harmonia configura uma consojusto dos homens (arístou kaì állôs phronimôtátou identidade de relações. A transposição de semelhança de nância de coisas, mas estão no âmbito da psykhé kaì dikaiotátou , Fédon, 118a) – euphémein de relações se desdobra na analogia: identidade ou e constituem uma consonância com as Formas, Fédon após o sacrifício do mestre: espacial e temporal e, nesse sentido, há uma equivalência semântica kairós-sýmmetros, o momento oportuno num arranjo semelhança de lógoi. A função da analogia consiste em remeter causas fundamentais de todas as coisas. uma multiplicidade de lógoi a uma unidade. Função unificadora, Os últimos instantes de Sócrates, conforme – Ao menos eu suponho ser permitido – e mesmo foram narrados por Platão, imortalizam não obrigatório - fazer uma prece aos deuses para que a a proporção geométrica e a expressão matemática da somente a Filosofia como atividade que se sorte seja favorável a esta mudança de morada daqui identidade de relações designam outro aspecto correlato da identifica com a busca da virtude, mas um gênero para lá embaixo... Essa é pois a minha prece e que de vida iniciático que se distingue da vida profana. assim seja. harmonia: a noção de mediania, o méson, o meio-termo – O Filósofo, que é um iniciado, é identificado não somente pelo modo como vive, mas pelo modo como morre. Nos seus últimos momentos, após E dizendo isso, leva a taça tranquilamente, metrética dos afetos. A medida do tempo e o esforço de facilmente, a esvazia (...) Mas que fazem, mesótes – que se estende para o âmbito da psykhé como meus caros?... Sois conciliação entre o período lunar e o solar engendram o problema ter discutido longamente sobre quatro provas da verdadeiramente espantosos! Se mandei sair as imortalidade e narrado sobre o destino futuro da mulheres, foi por essa razão – para evitar falsas notas... matemático e geométrico da comensurabilidade. A harmônica alma, Sócrates encaminha-se para um banho, Pois ouvi dizer que se deve morrer em bom augúrio. pitagórica conecta simultaneamente noções para que as mulheres não tivessem o trabalho de Aquietai-vos e mantende-vos bem! Tomados de qualitativas e quantitativas, temporais e espaciais, ritmo e lavar um cadáver. Críton, seu amigo mais íntimo, vergonha, conseguimos reter o pranto. Ele então deu pede-lhe suas últimas instruções. Sócrates uns passos em volta, até que disse sentir as pernas consonância musical com o equilíbrio de opostos, no corpo, recomenda que os ouvintes tenham “cuidado de pesadas e se deitou de costas – tal como o homem lhe si mesmos” e afirma que seu sepultamento prescrevera. Entretanto, o que lhe ministrara o veneno, deveria seguir os costume, já que somente seu apalpando-lhe o corpo, observava-lhe de tempos a corpo seria sepultado e que sua alma estaria entre tempos os pés e as pernas. Em seguida, apertando os bem-aventurados. Em seguida, Sócrates toma com força um pé, perguntou-lhe se ainda sentia, ao na alma e na cidade. (PERILLÉ, 2005. p. 24-65).

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que ele respondeu que não. Recomeçou depois pela esquecimento, é o par oposto de Mnemosýne, a parte inferior das pernas; e, assim subindo, nos fez ver memória. Quem bebesse, na entrada do Hades, que se tornava frio e rígido. Sem deixar de o palpar, o mundo dos mortos bolorento, da água de Léthe, observou-nos que, quando lhe atingisse o coração, esquecia tudo da vida humana e, semelhante a seria o fim... e já praticamente toda a região do ventre morto, entrava no mundo da Noite. Esquecimento estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto – é a água da morte. Ninguém entra no reino pois tinha-o, com efeito, coberto – disse estas palavras, tenebroso da Noite sem ter bebido dessa água, as últimas que proferiu: sem ter bebido nessa fonte, sem ter perdido a – Críton, devemos um galo a Asclépio... Pagai7 7. Trad. de Dixsaut com modificações. lhe, não vos esquecei ! Fédon 111a-118a. consciência, a lembrança, a esperança. Morte, Thánatos, é irmão de Hýpnos, sono, ambos, filhos da negra Noite (HESÍODO, 1993, 211ss.). As imagens evocam uma identidade de 8. Pausânias, ao descrever o templo de Hermes em Tanagra menciona o cruzamento entre uma raça guerreira de galos e outra dos pássaros negros (1979, VI, 4). Para um pitagórico o galo é uma ave relações homólogas: aquilo que se produz no plano consagrada ao sol e à lua. Os pitagóricos físico se reproduz no plano iniciático. O despertar substituíram a necromancia pela arithmomanteía, do sono para um novo plano de luz indica a a adivinhação numérica, que não deixou de ser passagem da irreflexão para a phrónesis. Por essa uma alektryomanteía, a consagração do galo razão, o galo, arauto da aurora, encarna a branco, ave sagrada pitagórica. Um antigo vigilância e é a manifestação dinâmica da vida. preceito pitagórico manda elevar o galo, mas não Efetivamente, trata-se da luz da inteligência que sacrificá-lo, pois ele é consagrado à lua e ao sol deve dissipar a obscuridade e opacidade do mundo (BOYANCÉ,1993, p. 141 ss.). O galo indica a hôra, profano que existe em cada homem (MAINGUY, o momento favorável e propício para a travessia 2006, p. 228). Ademais, o galo associa-se à e anuncia uma nova vida, uma nova aurora de coragem guerreira , que são as virtudes necessáluz. Por possuir um dom divinatório natural, ele rias para se afrontar a morte e, por conseguinte, é o símbolo da vigilância e da coragem necessária a via iniciática. Segundo Platão (Fédon 68c), o para a última viagem. Associado a Asclépio, o medo é um índice de que a alma está presa ao galo evoca o anúncio da saúde física e psíquica. corpo. A conseqüência imediata do vínculo ao Para os gregos, o galo é também consagrado aos corpo é o desejo por alvos corporais, como as Dioscuros, os heróis-divinos protetores da riquezas e as honras, daí o medo disseminado da navegação cujo emblema é associado ao sol e à morte. Em contrapartida, o abandono de tais lua – a ilha dos bem-aventurados. Os Dioscuros desejos corporais caracteriza o oposto do medo: associam-se às iniciações de confrarias guerreiras a coragem que é necessária para a filosofia e e ritos de passagem entre os quais faz parte o para a vida virtuosa. É preciso coragem para abanarrostar a morte (BURKERT, 1993, p. 414). donar os apetites e um estado permanente de Toda a vida pitagórica é uma busca pela 8 vigilância e inteligência depurada. conquista da harmonia da alma e uma preparação No Fédon, Platão define a Filosofia como para a morte. O galo é o arauto que anuncia o exercício de morte, meléthe thánatou. O filósofo momento favorável para a última viagem, é a é aquele que, embora vivo, anela pela morte; é ave que anuncia a luz. Irène Mainguy (2006, p. aquele que faz de toda a sua vida um cuidado 228) observa que o galo é um emblema solar constante no exercício que culmina, no último cujo apanágio é o presságio do retorno à momento, na atitude de confiante alegria diante claridade. Este presságio implica, por conseqüênda morte iminente. Nos cultos iniciáticos gregos, cia, o despertar de um período de sono para a o sacrifício é o ato irreversível pelo qual um novo retomada do estado da vigília. O sono é homólogo estado é atingido. Na transposição platônica, o à morte das faculdades propriamente intelectivas. longo esforço purificatório de um gênero de vida Nas antigas narrativas sobre a memória, Léthe, o virtuoso é apresentado como sacrifício de travessia

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– diabatéria. Quando o sacrifício é acompanhado linguagem cifrada (acessível somente aos de um novo gênero de vida, ele se torna uma iniciados na Filosofia), de que a busca da virtude iniciação (BURKERT, 2005, p. 48). Se a vida toda e a justiça exigem um critério absoluto, princípio é uma preparação para a morte e a última viagem e realidade causal, e um referencial que está exige a purificação da alma, o deus terapêutico para além do tempo da vida. A justiça só é é Asclépio. possível se for posta na perspectiva da eternidade O herói-divino médico é filho de Apolo, e da imortalidade da alma. O fato de Sócrates também médico, e deus da luz solar. Asclépio dedicar suas últimas palavras a Asclépio indica cresceu e aprendeu suas artes com o centauro que uma vida iniciática consagrada à aquisição Quíron e torna-se um médico tão excelente que da virtude e da sabedoria é coroada com a faz ressuscitar um morto com sua arte. A harmonia da alma e que, nos seus últimos ressurreição operada por Asclépio acarreta a instantes, no momento em que o sol se põe no intervenção de Zeus que o fulmina com um raio ocidente, ele já entrevê o raiar de uma nova (BURKERT, 1993, 416 ss). Asclépio é o pai de vida de luz. Hygieia, a saúde, e de Panacéia e está para sempre A retomada dos cultos de mistério deve vinculado ao nome de Apolo, patrono da harmonia levar em conta que assim como as ações da alma e da saúde psíquica. Chamado de o herói terapêuticas para o corpo, as técnicas, os 9 que cura todos os tipos de doença por Píndaro , phármakoi, os exercícios e a alimentação Asclépio é cultuado por toda a Grécia como um adequada propiciam um equilíbrio somático, as deus-herói proclamado sobre cada terra e mar e ações terapêuticas para a alma, o exercício das como inventou toda medicina que ele desejou para virtudes e o alimento espiritual propiciam um o doente e para levantar os mortos (PAUSANIAS, equilíbrio determinante para a purificação 2, 26, 4). psíquica e um modo de vida virtuoso. O holocausto Do ponto de vista iniciático, o problema de um galo para Asclépio indica a passagem médico fundamental é saber se o funcionamento para um gênero de vida mais elevado, que se psíquico e o funcionamento somático são reconhece propriamente como iniciação. Diante complementares. A iniciação envolve técnicas da contingência dos eventos que compõem a para a manutenção da saúde corporal e, ao mesmo vida, diante da efemeridade da experiência tempo, as práticas virtuosas que expressam e pessoal, somente uma certeza permanece promovem a saúde psíquica. A perversão latente inexorável: o momento da morte, última viagem. da alma é a doença projetada num futuro que A experiência humana é o palco de gêneros de ultrapassa os umbrais da morte e que não pode vida referenciados tão somente na duração da ser removida sem a terapêutica eficaz da virtude. existência e que, por essa razão, buscam No eterno, não existe impunidade, assim como significação na luta pelo poder, na acumulação não existe causa sem efeito e esta conexão de bens e na fama. aparece no Górgias (524d) como o vínculo causal Mas, todos aqueles que passaram pela necessário e inexorável entre a maneira de viver verdadeira iniciação socrática vêem-se diante de e a constituição psíquica. um galo prenunciador da travessia. Por essa razão, as últimas palavras de Sócrates devem constituir CONCLUSÃO uma advertência de que o tempo da vida não pode ser tomado como se fora a totalidade do Os momentos finais de Sócrates, magistempo (pãs khrónos, República 486a). Elas ainda tralmente registrados pela lavra genial de reverberam como apelo inalienável: todos os que Platão, configuram mais do que uma homenagem são realmente iniciados – e somente esses – devem que imortalizaria o seu mestre: eles esboçam um galo a Asclépio. uma manifestação vigorosa, e expressa em Que não se esqueçam de pagá-lo. 9. Píticas 3, 7.

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