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1
INICIAC O AO PRINCIPIO
Rubens Garcia Nunes Sobrinho*
0 ültimo dia de vida de Sôcrates,
© Universidade Federal de
RESUMO: No diálogo que dramatiza a última discussao
Ubertändia. Núcleo de
filosófica de Sócrates e suas últimas palavras em vida, Platäo
Estudas em Filosofia Antiga
se apropria de um acervo de imagens moldadas nos quadros
e Humanidades (NEFAH).
:
comemorado no Fédon, demarca o advento da
imortalidade da Filosofia. A encenaçäo possui uma
mentais dos cultos de mistérios gregos para ingressar os prin- |
.
importancia dramática suficiente para que Platäo
cipios fundamentais de sua Filosofia. Seus interlocutores,
.
Consigne a esse diälogo o esboço dos principios
filósofos representantes de uma tradigáo pitagérica, ensejam
de sua visäo causal de mundo. A estranheza da
uma sofisticada argumentagio que promove uma inflexdo
:
radical na tradiçäo religiosa iniciática e nas correntes filosóatitude de alegria de Söcrates exige uma
justificativa do seu pröprio gänero de vida. No
ficas que investigam os principios causais de todas as coisas.
Este estudo se detém na análise do significado técnico confemomento mesmo de morrer, Söcrates estä feliz:
rido por Platáo à iniciaçäo, à alma-harmonia e no significasua atitude & incompativel com a perda dos valores
do das últimas palavras de Sócrates: um convite de iniciaçäo
reputados como nobres e bons pela cidade. Por
—
ao Principio,
essa
PALAVRAS-CHAVE: Iniciagáo, principio, harmonia.
:
razäo,
Sôcrates
levanta,
para
seus
interlocutores, a questäo: Qual è a vida de maior
valor? Uma vida voltada para os prazeres, ou a
INITIATION TO THE PRINCIPLE
vida filosöfica? Essas questi es apontam para o
problema da natureza da vida filoséfica e de como
ABSTRACT: In the dialogue that dramatizes Socrates’
se distingue o auténtico filösofo.
last philosophical discussion and words, Plato borrows a stock
of images which were shaped on the Greek mystery cults’
A questäo da ordenaçäo dos valores e do
mindsets in order to introduce the fundamental principles of
valor da vida suscita a questäo do valor dos
his own Philosophy. His philosophic interlocutors, who
represent a Pythagorean tradition, present the opportunity
apetites associados as sensagı es do corpo (té
:
of a sophisticated argumentation that promotes an extreme
soma aistheseön), em oposiçäo ao valor do
pensamento isolado da interferéncia desses
inflection on the religious tradition and philosophical notions,
afetos. O verdadeiro filósofo, segundo o Sócrates
which investigates the causal principles of all things. This
do Fédon, nem confere o maior valor aos prazeres
study relies on the technical meaning of initiation, soulharmony and Socrates” last words: an invitation of initiation
to the principle.
KEYWORDS: Initiation, principle, harmony
©
associados ao corpo nem considera que as
sensagies do corpo propiciem um conhecimento
acurado e seguro.
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)INICIAÇÃO AO PRINCÍPIO
Rubens Garcia Nunes Sobrinho*
*
RESUMO: No diálogo que dramatiza a última discussão
filosófica de Sócrates e suas últimas palavras em vida, Platão
se apropria de um acervo de imagens moldadas nos quadros
Universidade Federal de
Uberlândia. Núcleo de
Estudos em Filosofia Antiga
e Humanidades (NEFAH).
O último dia de vida de Sócrates,
comemorado no Fédon, demarca o advento da
imortalidade da Filosofia. A encenação possui uma
mentais dos cultos de mistérios gregos para ingressar os prinimportância dramática suficiente para que Platão
cípios fundamentais de sua Filosofia. Seus interlocutores,
consigne a esse diálogo o esboço dos princípios
filósofos representantes de uma tradição pitagórica, ensejam
uma sofisticada argumentação que promove uma inflexão
radical na tradição religiosa iniciática e nas correntes filosóde sua visão causal de mundo. A estranheza da
atitude de alegria de Sócrates exige uma
ficas que investigam os princípios causais de todas as coisas.
justificativa do seu próprio gênero de vida. No
Este estudo se detém na análise do significado técnico confemomento mesmo de morrer, Sócrates está feliz:
rido por Platão à iniciação, à alma-harmonia e no significasua atitude é incompatível com a perda dos valores
do das últimas palavras de Sócrates: um convite de iniciação
reputados como nobres e bons pela cidade. Por
ao Princípio.
essa razão, Sócrates levanta, para seus
PALAVRAS-CHAVE: Iniciação, princípio, harmonia.
INITIATION TO THE PRINCIPLE
ABSTRACT: In the dialogue that dramatizes Socrates’
last philosophical discussion and words, Plato borrows a stock
interlocutores, a questão: Qual é a vida de maior
valor? Uma vida voltada para os prazeres, ou a
vida filosófica? Essas questões apontam para o
problema da natureza da vida filosófica e de como
se distingue o autêntico filósofo.
of images which were shaped on the Greek mystery cults’
A questão da ordenação dos valores e do
mindsets in order to introduce the fundamental principles of
valor da vida suscita a questão do valor dos
his own Philosophy. His philosophic interlocutors, who
apetites associados às sensações do corpo (tó
represent a Pythagorean tradition, present the opportunity
soma aisthéseón), em oposição ao valor do
of a sophisticated argumentation that promotes an extreme
pensamento isolado da interferência desses
inflection on the religious tradition and philosophical notions,
which investigates the causal principles of all things. This
study relies on the technical meaning of initiation, soulafetos. O verdadeiro filósofo, segundo o Sócrates
do Fédon, nem confere o maior valor aos prazeres
harmony and Socrates’ last words: an invitation of initiation
associados ao corpo nem considera que as
to the principle.
sensações do corpo propiciem um conhecimento
KEYWORDS: Initiation, principle, harmony
acurado e seguro.
Page 3
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)Os sentidos enganam e a realidade dos seres
argumentativa e narrativa, que se desdobra
não se permite apreender através deles. Se os
caracteristicamente numa espécie de bricolage.
sentidos não são garantia segura para o
O amálgama de um complexo de elementos
conhecimento, então “quando a alma pode tocar
tradicionais, dispostos numa sequência de
1
a verdade” ? A apreensão da ousía, essência de
imagens, sugere a hipótese de que Platão ao
cada coisa, aquilo que cada ser é em si mesmo,
mesmo tempo em que fundamenta teses na
ocorre por meio dos sentidos ou por meio da
tradição, rompe com ela, modificando-a através
reflexão depurada (Fédon 65d11-e04)?
de uma nova transmissão re-significada. Como
Para responder estas questões, ao mesmo
afirma Radcliffe Edmonds, “uma narrativa
tempo éticas, epistemológicas e ontológicas,
dramatiza “valores”, mostrando na perspectiva
Platão se apropria de um acervo cultural próprio
do narrador, o que é bom e o que é inútil ou
aos cultos de mistério, para que, analogicamente,
mau” e salienta que os elementos tradicionais
recorrendo a concepções e imagens compartisão evocativos (em vez de descritivos) de
lhadas pela cidade, pudesse introduzir a exposição
associações que ultrapassam o significado
das causas primeiras de todas as coisas (95e09).
imediato. Os desdobramentos desencadeados pela
Os antigos cultos de mistério gregos,
sequência de imagens, ações e caracteres,
segundo Giovanni Casadio (2010, p. 3-5),
através da estrutura da narrativa, carregam em
distinguem-se, para efeito de análise, em
seu bojo “significação” para a audiência (CASADIO,
modalidades diversas nas quais de destaca,
2010, p. 74-75).
especialmente, o caráter da transmissão de uma
A referência a uma antiga tradição justifica
a inflexão que o próprio Platão opera na
sabedoria tradicional:
homologia entre a Filosofia e a iniciação,
Mistérios, em geral, implicam cerimônias especiais
esboçando modos concorrentes de interpretar e
e
re-significar um acervo de saberes, potências,
frequentemente conectadas com o ciclo anual da
crenças, afetos e imagens religiosas em uma
agricultura. Usualmente eles envolvem o destino de
transposição determinante para a mentalidade de
poderes divinos sendo venerados e a comunicação de
um novo gênero de vida e um novo tipo de éthos.
sabedoria religiosa, que habilita o iniciado a vencer a
A homologia entre o bíos dos cultos de mistério e
morte. Eles eram parte da vida religiosa geral, mas
suas correspondentes imagens míticas, exigidos
separados do culto público, que era acessível a todos.
para a iniciação, indica que a significação ético-
Por essa razão, eram também chamados “cultos
política aportada pelo exercício filosófico não
secretos”( aporreta). (...) “Mistério, propriamente,
encontra referentes no mundo físico, mas somente
envolve toda uma estrutura iniciatória, de alguma
num acervo compartilhado de crenças e afetos
duração e complexidade, cujo tipo (e em muitos casos
que modelam os quadros mentais de uma
o real modelo...) é Eleusis. O “culto místico” envolve
comunidade, valores coletivos que configuram o
não a iniciação, mas, antes, uma relação de intensa
psiquismo norteador para as percepções e o agir
comunhão, tipicamente extática ou entusiástica com
humanos (WINKELMAN, 2010, p. 14, ss).
que
são
caracteristicamente
esotéricas
a divindade (ex: frenesi Báquico ou o kibeboí de
Assim como na chamada antiga tradição
Cybele). O culto “misteriosófico”oferece uma
(palaiòs lógos - Fédon 70c) dos mistérios há uma
antropologia, escatologia e meios práticos de reunião
transmissão iniciática para que os puros
individual com a divindade, cuja forma primitiva e
encontrem a bem-aventurança no Hades, na
original é o Orfismo.
Filosofia há o exercício catártico da vida virtuosa
e do pensamento depurado. A pureza ritual é
No Fédon, Platão amalgama elementos
assimilada aos raciocínios isolados das sensações
díspares da tradição religiosa grega e, por isso,
corporais: a alma raciocina mais belamente,
aponta para uma composição ao mesmo tempo
quando despreza os sentidos e foge das sensações
1. póte hé psykés aleteías
háptetai (Fédon, 65b).
Page 4
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)corporais e procura, o mais possível, isolar-se
mas a posse da verdade e o pensamento isolado
em si mesma e tornar-se si mesma ( dzeteî dè
do corpo.
auté kath’autén gígnesthai). Este isolamento da
Por que, Sócrates delega a fala a um
alma através dos raciocínios (logídzesthai) é
hipotético filósofo anônimo? Em primeiro lugar,
correlato ao modo de aquisição do conhecimento
pode-se ressaltar a adequação do discurso à
e da manifestação da realidade daquilo que ocupa
natureza da alma dos ouvintes. Símias e Cebes
o pensamento. A grandeza, a saúde, a força e a
explicitamente são vinculados a Filolau de Crótona
realidade (tés ousías) de todas as coisas e o que
e à antiga tradição (palaios logos) que serve de
cada uma delas é em si mesma, exigem uma
princípio para a interdição ao suicídio. Em seguida,
catártica das sensações (tás aisthétá). Somente o
o passo indica que as referências aos males do
pensamento em si mesmo ( auté té diânoia), o
corpo (an tínes nósoi, Fédon, 66c) remetem para
pensamento sem mistura, isolado e sem comunhão
o miásma, as antigas faltas, a mácula que se
com o corpo, pode sair à caça (epikheiroî théreúein
transmite como peste para as gerações e para a
théreúein tôn óntôn) dos seres, da verdade e da
cidade. Como afirma Vernant (1994, p. 107), “o
inteligência purificada (phrónésin). A purificação,
miasma se purifica sempre com uma lavagem,
anunciada por um filósofo genuíno (Fédon 65bmas também ‘se consome’, ‘adormece’, ‘se
67e), representa o sumário daquilo que já
dispersa’. É uma mancha e também uma coisa
representa uma transposição em relação aos ritos
que rouba, um ‘peso’, uma ‘doença’ uma
purificatórios das seitas de mistério.
perturbação, ‘uma ferida’, ‘um sofrimento’. O
Pierre Boyancé (1994, 85-95) correlaciona
vocabulário indica que Platão se apropria de uma
esta ascese filosófica a um acervo órfico cujo
tradição filosófica associada às práticas rituais
escopo seria a separação dos elementos titânicos
de lustração, como os mistérios de Elêusis e outras
da psykhé de sua parte divina. O discurso, que
práticas iniciáticas, comodamente rotuladas de
Sócrates consigna a um anônimo, descreve um
órficas. Assim como as faltas, os crimes de
caminho sagrado purificatório, uma trilha
sangue, ou a impiedade transmitem-se numa
(atrapós) que demarca o itinerário da razão e da
cadeia de impureza, a purificação está relacionada
investigação. O alvo da investigação é identificado
à transmissão iniciática, a ritos que suscitam a
com a verdade e seu princípio de ação com um
passagem de um estado para outro mais elevado.
apetite pela sua posse (me pote ktesômetha hikanôs
Essa transmissão consolida todo um gênero de
hoù epithymoûmen ). Na prescrição iniciática do
vida modelado por exercícios espirituais. A
filósofo genuíno, há uma concepção quase
iniciação, tal como o miasma, pressupõe uma
material de que a alma está dispersa como sopro
cadeia de transmissão que remonta à antiga
nos elementos corporais e que a sua mistura com
tradição, o princípio e a fonte da pureza.
o corpo engendra toda sorte de males e
No seu comentário às lâminas de ouro
impedimentos para a aquisição da verdade e a
órficas, Giovanni Carratelli, observa que as
caça aos seres. A mistura da alma ao corpo segue
instruções mortuárias objetivam servir de guia para
na esteira do mito de Dioniso Zagreu, esquartejado
que a alma do iniciado seja liberta das faltas
e devorado pelos Titãs. Não obstante, a trilha
mediante a iniciação ( mýésis ). Os ritos
iniciática descrita no Fédon não promove a
compreendem
separação dos elementos divinos do elemento
reconhecimento ( sýnthéma ), ou palavras de
corporal titânico mediante ritos purificatórios. Em
passe, o segredo, provas dolorosas (pathématha)
vez disso, a exaltação iniciática dá lugar a um
e a referência constante a Mnémosyne,
apetite pelo pensamento purificado: a phrónesis.
personificação divina da memória. Há o importante
Há uma homologia entre o caminho sagrado dos
papel do guia, o mystagogos, na condução de
ritos iniciáticos e a trilha filosófica. Todavia, o
estatutos diversos entre os recipiendários: os
alvo deste itinerário não é mais a pureza ritual,
Báckhoi são superiores aos mýstai. A palavra de
instruções,
fórmulas
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)passe, ou a fórmula de reconhecimento, pressupõe
delimitar suas origens em certos contextos. Mas,
o exercício menemônico que faculta o conhecias imagens míticas e alusões ao misticismo grego
mento da origem divina, anterior à vida terrestre.
que aparecem em Platão sugerem um emprego
As expiações e as lustrações catárticas suscitam
caleidoscópico de elementos tradicionais, que
a prevalência do elemento divino da alma. Na
varia segundo o movimento de cada diálogo. Para
lâmina mortuária encontrada na necrópole de
o intérprete dos diálogos, o contexto é a suma
Hipônio em uma tumba datada no fim do séc. V.
tradicional das seitas de mistério gregas. Como
encontram-se as instruções:
afirma Giovanni Casadio, se há uma fronteira – e
isto está além de questão – que demarca os limites
Tu irás na morada bem construída de Hades: à
entre Dionisismo (uma realidade concreta) e o
direita há uma fonte, ao lado dela se ergue um cipreste
Orfismo (uma realidade muito mais nebulosa), nós
branco; é lá que descem as almas dos mortos e onde
somos incapazes de determinar precisamente onde
elas se refrescam.
esta fronteira se encontra (CASADIO, 2010, p. 36-
Desta fonte tu não te aproximarás
37.). Mais do que estabelecer distinções canônicas
Mas, mais adiante, tu encontrarás uma água fria
entre dionisismo, orfismo ou pitagorismo, cumpre
que corre do lago de Mnemosýne; acima dela se
focar os esquemas invariantes de pensamento nas
encontram guardas.
seitas de mistério e as homologias corres-
Eles te interrogarão, em seguro discernimento,
porque tu exploras as trevas de Hades obscuro.
pondentes que emergem no movimento dramáticodialógico dos mitos platônicos.
Dize: ‘Eu sou filho da Terra e do Céu estrelado.
A personificação da memória relaciona-se
Eu queimo de sede e desfaleço. Dê-me rápido
com o rito de purificação pela água que permite o
De beber da água fria que vem do lago de
acesso à via sagrada. A purificação propiciada pela
memória ressalta a primazia do pensamento, nôus,
Mnemosýne’.
E eles te interrogarão pelo querer do rei ctônico.
na experiência iniciática que ascende o aspirante
Eles te darão de beber do lago de Mnemosýne.
à alétheiã. A fórmula de reconhecimento eu sou
E tu, quando tiveres bebido, percorrerás a via
filho da Terra e do Céu estrelado identifica o
aspirante com a estirpe divina e sugere sua
sagrada,
Sobre a qual também os outros mystai e báckhoi
2
avançam na glória. (I A 1. 9-11.)
purificação ritual prévia: ela serve como palavra
de passe que garante o acesso à divindade. A
katabasis descrita na lâmina funerária alude ao
Como observa Radcliffe Edmonds (in:
cumprimento de uma purificação prévia pressu-
CASADIO, 2010, p. 72 ss.), as referências a
posta, à prova da passagem e ao esforço vinculado
Perséfone, a Mnemosýne e a Dioniso tem levado
a uma potência psíquica personificada em
os historiadores da religião grega a rotular as
Mnemosýne. Platão se apropria desse acervo da
instruções iniciáticas, contidas nas lâminas
antiga tradição com a finalidade protréptica de
funerárias de ouro, como órficas, báquicas, egípcias
apresentar a Filosofia como um exercício de morte
e pitagóricas ou ainda eleusinas. Embora alguns
e a kátarsis como purificação do pensamento.
editores correlacionem as instruções das lâminas
de ouro a uma katabasis que remontaria a um
A verdade, a realidade da sabedoria, da justiça, da
poema órfico, ou a um livro dos mortos pitagórigo,
coragem, consistem sem dúvida em uma purifi-
Edmonds salienta que, infortunadamente, os
cação de todas as coisas e o próprio pensamento
textos escatológicos são excessivamente vagos
(phrónésis) não é senão um meio de purificação. Há
para identificá-los precisamente com alguma
uma
vertente religiosa.
estabelecerem entre nós as iniciações não tenham
grande
chance
de
que
aqueles
que
Muitos eruditos esforçam-se no sentido de
sido homens fracos. Mas a realidade dos seres deve
encontrar um estema de influências que permita
ser oculta em enigmas (ainíttesthai) quando eles
2. Tradução de Giovanni P.
Carratelli (2003, p. 35).
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)dizem que “aquele que chega no Hades sem ter
performance ritual que envolve procissões,
conhecido os mistérios, sem ser iniciado, aquele
carregar e agitar tirsos ornamentados, gritos
será deitado na lama, mas aquele que foi purificado
sacrificiais (eyoî), dança e vinho (CASADIO, 2010,
e iniciado, uma vez lá chegando, habitará com os
p. 46-60). Clara Acker (2008, 16-29) estabelece
deuses. De fato, como dizem aqueles que tratam das
uma meticulosa distinção o culto a Dioniso e os
iniciações, “numerosos são os portadores de tirso
cultos de mistérios órficos. O dionisismo seria
(narthekophóroi), raros os Bákkhoi.
um apanágio das mulheres, as Bacantes, as
Fédon 69b12-c2.
mênades, e envolve a exaltação dos rituais
omofágicos, as danças, os ritmos, o entusiasmo
do vinho e, sobretudo, o simbolismo do parto. O
A distinção hierárquica entre os impuros e
orfismo, por outro lado, sugere práticas ascéticas
os puros de um lado, e entre os mýstai e os
e interdições catárticas em ritos purificatórios que
bákkhoi de outro, indica a tese protréptica de
implicam o vegetarianismo e o afastamento e
apresentar a Filosofia como um exercício iniciático
desvalorização da mulher.
de ascensão ao princípio último da realidade dos
Não obstante, a terminologia empregada
seres. A purificação é transposta para a purificação
na inscrição da lâmina de Hipônio evidencia que
do pensamento e das virtudes por meio da
as expressões mýstai e bákkhoi pertencem a um
phrónesis. A homologia entre o segredo e a
acervo cultural comum de imagens que configura
realidade, posta sob forma enigmática para evitar
o mesmo pano de fundo para a classe geral dos
a apropriação por aqueles que não passaram pelo
cultos de mistério. As instruções funerárias
longo exercício catártico é mantida: não ser puro
evocam uma ascensão iniciática na via sagrada
e se apossar do que é puro, e de fato, é preciso
para que o recipiendário seja acolhido entre os
temê-lo, é algo interdito (ou themitón, Fédon,
bem-aventurados: glória reservada aos puros que
67b01).
passaram pelas provas. Somente os puros possuem
Todavia, a menção aos portadores de tirso
a potência psíquica unificadora da memória,
e bákkhoi, no Fédon, suscita controvérsias. A qual
condição para o proferimento da palavra de passe,
tradição se refere o passo? Quais são os ritos e
o sýntema, e o conhecimento da alétheia,
qual é o contexto que suscita a analogia entre
reservado aos bákkhoi mediante o inaudito – os
iniciação aos mistérios e iniciação filosófica? Ana
apórrheta. Como salienta Boyancé, as purificações
J. Cristóbal, em um instigante estudo acerca do
órfico-pitagóricas referenciam-se no mito de
campo semântico das expressões bákkhos e
Dioniso Zagreu, desmembrado pelos Titãs, e
bakkheúein, indica que os termos possuem
podem perfeitamente coexistir com rituais
significados diferentes entre os círculos
báquicos de livramento, com hinos, danças, coros
reconhecidos como órficos e o culto a Dioniso.
e a alegria extática, as paidiá hédonôn, censu-
Bákkos e bákkhoi são denominações daqueles que
radas por Platão como um tipo de orfismo báquico
passaram por ritos purificatórios ou extáticos
(República, II 363c). A separação dos elementos
vinculados a Dioniso. Tais ritos induzem a um
titânicos operada pela encantação musical e da
estado místico, de intensa afetividade decorrente
harmonia de afetos coexiste com as práticas
da exaltação e entusiasmo provocado pelo deus.
cultuais de exaltação báquica dionisíaca e com a
Bákkos é o atributo de um seguidor de Dioniso
ventura eleusina.
Bakkhos. O verbo bakkheúein, por outro lado,
A tensão entre a multidão dos portadores
denota a possessão divina e, dentre todos os
de tirso e os poucos bakkhoi sugere uma gradação
testemunhos, somente Eurípides o emprega no
entre narthékophóroi e iniciados. No Górgias, a
sentido de adoração a Dioniso. A ação de
oposição entre os ininteligentes, não-iniciados,
bakkheúein descreve simultaneamente os afetos
(anoétous amýetous, Górgias, 493a07) e os mýstai
experimentados no transe delirante e a
aponta para uma polarização radical entre seres
Page 7
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)irrefletidos, que se entregam aos apetites, e
de esconjuração, pretendiam constranger os
aqueles que buscam a proporção harmônica da
deuses e expiar os crimes.
alma.
Todavia, no Fédon, Platão se vale de uma
Eles produzem uma multidão de livros de Museu e
gradação entre o conjunto de recipiendários
Orfeu, filhos da Lua e das Musas, diz-se. Eles regram
seguidores de Dioniso, todos portadores de tirso,
seus sacrifícios sob a autoridade destes livros e fazem
e os poucos que atingem o paroxismo da
acreditar não somente aos particulares, mas à cidade,
presentificação divina: os bakkhoi. Assim como a
que se pode, pelos sacrifícios e jogos prazerosos
dramatização ritual e a entronização do candidato
(paidiás hédonôn), ser absolvidos e purificados de
não são garantes suficientes para uma experiência
seu crime, enquanto vivo e mesmo após sua morte.
divina, assim também a pretensão à Filosofia não
Eles chamam iniciações, estes ritos (teletás) que
pode ser levada a bom termo sem o longo exercício
nos livram de males no outro mundo e que não se
da harmônica da alma mediante a purificação das
pode sacrificar sem esperar terríveis suplícios.
virtudes operada pela phrónesis. Para que se
República, 364 e – 365 a.
possua a fórmula secreta de reconhecimento, os
apórrheta, é necessário que se esteja depurado
Boyancé assimila as teletai com os mistérios
por toda uma vida filosófica iniciática. O segredo
de Elêusis. Mas, como evidencia a exegese do
é indissociável dos ritos iniciáticos. O próprio
comentador de Derveni, a crítica à degeneração
significado de mysteria, num sentido largo, pode
do vínculo entre longas práticas de exercício
ser simplesmente “segredos”. O exegeta do papiro
espiritual e do papel da inteligência na busca
de Derveni, uma espécie de crítico pré-socrático
pela verdade com o segredo e a transmissão oral
dos ritos órficos afirma, na Coluna VII 4-7
de uma sabedoria, já fazia parte da reflexão
(Fabienne Jourdan, 2003), que o poema órfico
filosófica pré-socrática. No Teeteto (155e-156a),
examinado é algo estranho e, para os homens,
Platão adverte, en passant, que o jovem olhe em
composto enigmático. Orfeu, entretanto, não
derredor, para que não aconteça que algum não
desejou empregar formulas enigmáticas para
iniciado ouvisse o que era dito. Este cuidado indica
suscitar a erística, mas em enigmas, dizer grandes
a transposição filosófica do estatuto iniciático para
coisas (légein en ainígmasin dé megála). O
a investigação terapêutica operada pela Filosofia,
comentador censura as fórmulas escritas que
que exige a preparação da alma.
suscitam disputas e indica, ao contrário, a
No Protágoras, Platão encena uma magnífica
elocução oral como veículo de revelação das
cena que alude ironicamente à exploração dos
grandes coisas.
ritos de Elêusis operada pelos Sofistas. A
A transposição operada por Platão em
encenação dramática do Protágoras é a mímesis
relação à antiga tradição (palaiós lógos) implica
de uma iniciação nos mistérios que coloca em
que a Filosofia é o verdadeiro caminho iniciático
perigo a alma . O inventário histórico das iniciações
3. ti oûn? Oistha eis hoión tina
e o Filósofo, o verdadeiro Bacante. Trata-se não
e mistérios empreendido por Walter Burkert (1993,
kíndynon hypothéson tèn psykhén?
; (Protágoras 313a01-02).
mais de um gênero de vida catártico orientado
527-577) permite a distinção dos elementos
para o livramento das faltas no além, mas de um
alusivos da encenação dramática do Protágoras.
4. poías ergasías epistátes
(312d05) fabricante de
exercício de morte, que consiste na purificação
O jovem Hipócrates, desejoso de iniciar-se nos
do pensamento, dos afetos próprios e da virtude.
mistérios da prática da sabedoria , pretende
Esse exercício exige um longo esforço, um cuidado
receber um ensino transmitido por um guia,
de si que é, também, uma therapéia psykhé, que
embora não saiba o que dizer sobre o seu
culmina na inteligência do princípio último, causa
conteúdo, efetivamente inexprimível, análogo do
da existência de todos os seres. O próprio Platão
árreton, o segredo dos mistérios. Protágoras
3
4
empreende severa crítica aos mendicantes órficos
aparece como um guia, um mystagogos, a quem
que, mediante seus livros de Orfeu, e fórmulas
Hipócrates confiará sua alma esperando adquirir
68
praticas do saber equivalente
ao epistémon, sábio
(LIDDELL; SCOTT, 1997, p. 554).
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)um novo estatuto e experimenta, simultaneaobstante a ironia, indícios característicos da ação
mente, o medo próprio ao grande perigo de expor
ritual. O ritual é um conjunto de ações
sua alma a um pharmakon desconhecido e a
redirecionadas para a demonstração, exposição
promessa de uma nova realidade radiante. Como
apontada para o olhar, é um falar mediante gestos
profano suplicante, o recipiendário, protomýstes,
estereotipados e padronizados, independentes da
se dirige à casa do rico Cálias, equivalente do
situação e afetos atuais (BURKERT, 1997, p. 35-
telestérion, templo das iniciações, ou da caverna,
37). A harmonia do coro provoca alegria em
símbolo secreto, do oculto e do transcendente
Sócrates. A alegria e o devaneio das iniciações
(BURKERT, 1993 p. 555). Após percorrer a via, o
eleusinas são intimamente ligados à dança e à
candidato se depara com a porta que separa o
música rítmica (BURKERT, 1993, p. 557). Seguesagrado do profano. A passagem pela porta exige
se a alusão direta à descida ao Hades, katabasis,
a passagem pelo seu guardião, um eunuco que
símbolo da iniciação, em que Herácles e Tântalo
parodia os temíveis guardas de Zeus (Protágoras
são ironicamente substituídos por Hípias e Pródico
320d) ou os guardiões postados à entrada do
de Céos (Protágoras, 315b-d).
Hades (BURKERT, 1993, p. 558). Sócrates, como
No Fédon (85b ss), Símias expõe a
espécie de hierophantés que irá mostrar as coisas
concepção de que a alma é uma harmonia. Como
sagradas, termina o assunto profano impuro antes
tal, ela resulta da consonância de elementos
de bater à porta, pois não é permitido misturar o
materiais e, por isso, só pode ser consequente a
impuro ao puro.
esses elementos e não sua causa. O corpo
A entrada é vetada, porque o guarda os
apresenta uma tensão entre elementos opostos,
toma por sofistas e fecha violentamente a porta.
o quente e o frio, o seco e o úmido, cujo
A iniciação protagoriana opera a mudança no
desarranjo constitui a causa das doenças. Sócrates
estatuto do ser, em direção ao melhor, transforcritica a concepção de que a alma é uma harmonia
5
mando metabállô e metabletéon . O verbo metano sentido material, pois uma mera combinação
5. oúto dè kaì em té Paidéia apo
hetéras éxeos epì tén ameíno
bállô designa uma virada súbita, conversão ou,
harmoniosa de elementos materiais não pode
metabletéon: ho mèn iatròs
pharmàkois metabállei, ho dè
mais propriamente em Platão, uma mudança no
possuir propriedades contraditórias com seus
gênero de vida (LIDELL-SCOTT, 1996, p. 1109).
elementos constituintes.
sophistés lógois
(Teeteto, 167a.04-06).
Assim como o médico, mediante os phármakoi,
Uma harmonia de elementos materiais
muda as disposições do corpo, o sofista muda as
pressupõe a possibilidade de gradações diversas,
disposições da alma pelo seu ensino iniciático
segundo o maior ou menor grau de consonância
(Teeteto, 167a.04-06). A porta fechada e guardada
dos elementos. Quanto maior for a combinação,
da casa de Cálias separa os ritos internos
maior será a harmonia. Se a alma fosse uma
discretos da abertura ao olhar coletivo e delimita
harmonia de elementos materiais, uma alma
a ocultação do mistério aos profanos.
carregada de vícios seria menos harmoniosa do
O apresentante Sócrates enuncia uma
que uma alma virtuosa e, por conseguinte, seria
explicação que serve de sýnthema, palavra de
menos alma, o que não pode ser admitido. Em
passe que franqueia a entrada no recinto sagrado.
contrapartida, se não há uma alma que seja
A declaração de que não são sofistas possui o
menos alma que outra, então não há harmonia
efeito ritual de garantir que não são impuros
que seja mais intensa que outra, ou seja, uma
(314c-e). A entrada no recinto sagrado revela o
mesma harmonia não pode participar, ao mesmo
rito dos discursos sagrados, hieroì lógoi, de
tempo da harmonia e da ausência de harmonia.
Protágoras. Um séquito de estrangeiros
Além disso, a alma não pode ter um estatuto
encantados, como se fora pelo charme do próprio
secundário em relação ao corpo. A alma não deriva
Orfeu, o segue cosmicamente em evoluções
nem obedece aos processos corporais, mas, como
circulares ritualmente regulares. A vívida e
sede da razão, regra, pelo domínio dos desejos,
espetacular caricatura da cena fornece, não
as necessidades corporais. Como a alma não segue
Page 9
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)aos impulsos determinados pelos elementos em
o banho e dá as últimas instruções acerca de sua
tensão no corpo, mas os domina e tem mestria
família, sua mulher e três crianças. Toda a cena
sobre eles, a sua natureza é diferente das dos
alude a provas preparatórias para uma iniciação
elementos do corpo e, por isso, a alma não pode
que terá curso, notadamente, o rito purificatório
ser uma harmonia: ela possui harmonia. Platão
da água. O sacrifício, como nota Burkert, a ação
transpõe o conceito material de harmonia para a
sagrada, cumprida sobre o lugar sagrado, na hora
sua concepção de consonância e afinidade com o
sagrada, pelo autor da consagração é degolar os
divino. Essa transposição enseja o argumento de
animais sacrificiais, hiereueín os hiereía (2005, p.
que a alma é princípio de regramento e tende a
20 ss.).
assemelhar-se com as Formas. Toda a discussão
Nesse momento, o sol se punha no ocidente:
acerca das causas que dá origem à concepção
momento que anuncia o ponto alto dos ritos
das Formas está calcada numa crítica a concepções
iniciáticos, depois que todas as provas foram
pitagóricas, sobretudo as de Alcméon de Crótona
6
concluídas. O carcereiro se aproxima e afirma que
6. Alcméon de Crótona define a
saúde como isonomia e como
e de Filolau. Há causas necessárias e causas
Sócrates é o mais doce e o melhor dentre todos
últimas verdadeiras. Os quatro elementos da physis
os homens com quem conviveu. Anuncia, como
mistura simétrica de qualidades
(tên sýmmetron tôn poiôn
e as relações numéricas inteligíveis são
um hiereús, mestre do drama, que é chegado o
krásin). A harmonía resulta de
um equilíbrio ao mesmo tempo
necessários para a inteligência, mas não se
momento de beber o veneno e chora. Sócrates
identificam com o inteligível. As verdadeiras
agradece a generosidade das lágrimas derramadas
causas são as “coisas em si mesmas” ordenadas
pelo carcereiro. Em seguida, o executor traz a
e harmonizadas segundo o Bem. O meio de
taça com o veneno e a estende para que Sócrates
ordenado. Kairós, symmetría e
eurythmía configuram uma
inteligibilidade do kosmos é a phrónesis, cuja sede
a pegue. A sequência dramática, que encena as
percepção refinada de harmonia.
A noção de symmetría se
é a alma. As relações numéricas, indispensáveis
últimas palavras de Sócrates, ainda ecoa o tributo
para a inteligibilidade não são intrínsecas às
ao mais excelente, ao mais sapiente e ao mais
desdobra entre os pré-socráticos
como proporção, ou uma
coisas, nem a harmonia configura uma consojusto dos homens (arístou kaì állôs phronimôtátou
identidade de relações. A
transposição de semelhança de
nância de coisas, mas estão no âmbito da psykhé
kaì dikaiotátou , Fédon, 118a) – euphémein de
relações se desdobra na
analogia: identidade ou
e constituem uma consonância com as Formas,
Fédon após o sacrifício do mestre:
espacial e temporal e, nesse
sentido, há uma equivalência
semântica kairós-sýmmetros, o
momento oportuno num arranjo
semelhança de lógoi. A função da
analogia consiste em remeter
causas fundamentais de todas as coisas.
uma multiplicidade de lógoi a
uma unidade. Função unificadora,
Os últimos instantes de Sócrates, conforme
– Ao menos eu suponho ser permitido – e mesmo
foram narrados por Platão, imortalizam não
obrigatório - fazer uma prece aos deuses para que a
a proporção geométrica e a
expressão matemática da
somente a Filosofia como atividade que se
sorte seja favorável a esta mudança de morada daqui
identidade de relações designam
outro aspecto correlato da
identifica com a busca da virtude, mas um gênero
para lá embaixo... Essa é pois a minha prece e que
de vida iniciático que se distingue da vida profana.
assim seja.
harmonia: a noção de mediania,
o méson, o meio-termo –
O Filósofo, que é um iniciado, é identificado não
somente pelo modo como vive, mas pelo modo
como morre. Nos seus últimos momentos, após
E dizendo isso, leva a taça tranquilamente,
metrética dos afetos. A medida
do tempo e o esforço de
facilmente, a esvazia (...)
Mas
que
fazem,
mesótes – que se estende para o
âmbito da psykhé como
meus
caros?...
Sois
conciliação entre o período lunar
e o solar engendram o problema
ter discutido longamente sobre quatro provas da
verdadeiramente espantosos! Se mandei sair as
imortalidade e narrado sobre o destino futuro da
mulheres, foi por essa razão – para evitar falsas notas...
matemático e geométrico da
comensurabilidade. A harmônica
alma, Sócrates encaminha-se para um banho,
Pois ouvi dizer que se deve morrer em bom augúrio.
pitagórica conecta
simultaneamente noções
para que as mulheres não tivessem o trabalho de
Aquietai-vos e mantende-vos bem! Tomados de
qualitativas e quantitativas,
temporais e espaciais, ritmo e
lavar um cadáver. Críton, seu amigo mais íntimo,
vergonha, conseguimos reter o pranto. Ele então deu
pede-lhe suas últimas instruções. Sócrates
uns passos em volta, até que disse sentir as pernas
consonância musical com o
equilíbrio de opostos, no corpo,
recomenda que os ouvintes tenham “cuidado de
pesadas e se deitou de costas – tal como o homem lhe
si mesmos” e afirma que seu sepultamento
prescrevera. Entretanto, o que lhe ministrara o veneno,
deveria seguir os costume, já que somente seu
apalpando-lhe o corpo, observava-lhe de tempos a
corpo seria sepultado e que sua alma estaria entre
tempos os pés e as pernas. Em seguida, apertando
os bem-aventurados. Em seguida, Sócrates toma
com força um pé, perguntou-lhe se ainda sentia, ao
na alma e na cidade. (PERILLÉ,
2005. p. 24-65).
Page 10
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)que ele respondeu que não. Recomeçou depois pela
esquecimento, é o par oposto de Mnemosýne, a
parte inferior das pernas; e, assim subindo, nos fez ver
memória. Quem bebesse, na entrada do Hades,
que se tornava frio e rígido. Sem deixar de o palpar,
o mundo dos mortos bolorento, da água de Léthe,
observou-nos que, quando lhe atingisse o coração,
esquecia tudo da vida humana e, semelhante a
seria o fim... e já praticamente toda a região do ventre
morto, entrava no mundo da Noite. Esquecimento
estava gelada quando Sócrates, descobrindo o rosto –
é a água da morte. Ninguém entra no reino
pois tinha-o, com efeito, coberto – disse estas palavras,
tenebroso da Noite sem ter bebido dessa água,
as últimas que proferiu:
sem ter bebido nessa fonte, sem ter perdido a
– Críton, devemos um galo a Asclépio... Pagai7
7. Trad. de Dixsaut com
modificações.
lhe, não vos esquecei !
Fédon 111a-118a.
consciência, a lembrança, a esperança. Morte,
Thánatos, é irmão de Hýpnos, sono, ambos, filhos
da negra Noite (HESÍODO, 1993, 211ss.).
As imagens evocam uma identidade de
8. Pausânias, ao descrever o
templo de Hermes em Tanagra
menciona o cruzamento entre
uma raça guerreira de galos e
outra dos pássaros negros (1979,
VI, 4).
Para um pitagórico o galo é uma ave
relações homólogas: aquilo que se produz no plano
consagrada ao sol e à lua. Os pitagóricos
físico se reproduz no plano iniciático. O despertar
substituíram a necromancia pela arithmomanteía,
do sono para um novo plano de luz indica a
a adivinhação numérica, que não deixou de ser
passagem da irreflexão para a phrónesis. Por essa
uma alektryomanteía, a consagração do galo
razão, o galo, arauto da aurora, encarna a
branco, ave sagrada pitagórica. Um antigo
vigilância e é a manifestação dinâmica da vida.
preceito pitagórico manda elevar o galo, mas não
Efetivamente, trata-se da luz da inteligência que
sacrificá-lo, pois ele é consagrado à lua e ao sol
deve dissipar a obscuridade e opacidade do mundo
(BOYANCÉ,1993, p. 141 ss.). O galo indica a hôra,
profano que existe em cada homem (MAINGUY,
o momento favorável e propício para a travessia
2006, p. 228). Ademais, o galo associa-se à
e anuncia uma nova vida, uma nova aurora de
coragem guerreira , que são as virtudes necessáluz. Por possuir um dom divinatório natural, ele
rias para se afrontar a morte e, por conseguinte,
é o símbolo da vigilância e da coragem necessária
a via iniciática. Segundo Platão (Fédon 68c), o
para a última viagem. Associado a Asclépio, o
medo é um índice de que a alma está presa ao
galo evoca o anúncio da saúde física e psíquica.
corpo. A conseqüência imediata do vínculo ao
Para os gregos, o galo é também consagrado aos
corpo é o desejo por alvos corporais, como as
Dioscuros, os heróis-divinos protetores da
riquezas e as honras, daí o medo disseminado da
navegação cujo emblema é associado ao sol e à
morte. Em contrapartida, o abandono de tais
lua – a ilha dos bem-aventurados. Os Dioscuros
desejos corporais caracteriza o oposto do medo:
associam-se às iniciações de confrarias guerreiras
a coragem que é necessária para a filosofia e
e ritos de passagem entre os quais faz parte o
para a vida virtuosa. É preciso coragem para abanarrostar a morte (BURKERT, 1993, p. 414).
donar os apetites e um estado permanente de
Toda a vida pitagórica é uma busca pela
8
vigilância e inteligência depurada.
conquista da harmonia da alma e uma preparação
No Fédon, Platão define a Filosofia como
para a morte. O galo é o arauto que anuncia o
exercício de morte, meléthe thánatou. O filósofo
momento favorável para a última viagem, é a
é aquele que, embora vivo, anela pela morte; é
ave que anuncia a luz. Irène Mainguy (2006, p.
aquele que faz de toda a sua vida um cuidado
228) observa que o galo é um emblema solar
constante no exercício que culmina, no último
cujo apanágio é o presságio do retorno à
momento, na atitude de confiante alegria diante
claridade. Este presságio implica, por conseqüênda morte iminente. Nos cultos iniciáticos gregos,
cia, o despertar de um período de sono para a
o sacrifício é o ato irreversível pelo qual um novo
retomada do estado da vigília. O sono é homólogo
estado é atingido. Na transposição platônica, o
à morte das faculdades propriamente intelectivas.
longo esforço purificatório de um gênero de vida
Nas antigas narrativas sobre a memória, Léthe, o
virtuoso é apresentado como sacrifício de travessia
Page 11
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)– diabatéria. Quando o sacrifício é acompanhado
linguagem cifrada (acessível somente aos
de um novo gênero de vida, ele se torna uma
iniciados na Filosofia), de que a busca da virtude
iniciação (BURKERT, 2005, p. 48). Se a vida toda
e a justiça exigem um critério absoluto, princípio
é uma preparação para a morte e a última viagem
e realidade causal, e um referencial que está
exige a purificação da alma, o deus terapêutico
para além do tempo da vida. A justiça só é
é Asclépio.
possível se for posta na perspectiva da eternidade
O herói-divino médico é filho de Apolo,
e da imortalidade da alma. O fato de Sócrates
também médico, e deus da luz solar. Asclépio
dedicar suas últimas palavras a Asclépio indica
cresceu e aprendeu suas artes com o centauro
que uma vida iniciática consagrada à aquisição
Quíron e torna-se um médico tão excelente que
da virtude e da sabedoria é coroada com a
faz ressuscitar um morto com sua arte. A
harmonia da alma e que, nos seus últimos
ressurreição operada por Asclépio acarreta a
instantes, no momento em que o sol se põe no
intervenção de Zeus que o fulmina com um raio
ocidente, ele já entrevê o raiar de uma nova
(BURKERT, 1993, 416 ss). Asclépio é o pai de
vida de luz.
Hygieia, a saúde, e de Panacéia e está para sempre
A retomada dos cultos de mistério deve
vinculado ao nome de Apolo, patrono da harmonia
levar em conta que assim como as ações
da alma e da saúde psíquica. Chamado de o herói
terapêuticas para o corpo, as técnicas, os
9
que cura todos os tipos de doença por Píndaro ,
phármakoi, os exercícios e a alimentação
Asclépio é cultuado por toda a Grécia como um
adequada propiciam um equilíbrio somático, as
deus-herói proclamado sobre cada terra e mar e
ações terapêuticas para a alma, o exercício das
como inventou toda medicina que ele desejou para
virtudes e o alimento espiritual propiciam um
o doente e para levantar os mortos (PAUSANIAS,
equilíbrio determinante para a purificação
2, 26, 4).
psíquica e um modo de vida virtuoso. O holocausto
Do ponto de vista iniciático, o problema
de um galo para Asclépio indica a passagem
médico fundamental é saber se o funcionamento
para um gênero de vida mais elevado, que se
psíquico e o funcionamento somático são
reconhece propriamente como iniciação. Diante
complementares. A iniciação envolve técnicas
da contingência dos eventos que compõem a
para a manutenção da saúde corporal e, ao mesmo
vida, diante da efemeridade da experiência
tempo, as práticas virtuosas que expressam e
pessoal, somente uma certeza permanece
promovem a saúde psíquica. A perversão latente
inexorável: o momento da morte, última viagem.
da alma é a doença projetada num futuro que
A experiência humana é o palco de gêneros de
ultrapassa os umbrais da morte e que não pode
vida referenciados tão somente na duração da
ser removida sem a terapêutica eficaz da virtude.
existência e que, por essa razão, buscam
No eterno, não existe impunidade, assim como
significação na luta pelo poder, na acumulação
não existe causa sem efeito e esta conexão
de bens e na fama.
aparece no Górgias (524d) como o vínculo causal
Mas, todos aqueles que passaram pela
necessário e inexorável entre a maneira de viver
verdadeira iniciação socrática vêem-se diante de
e a constituição psíquica.
um galo prenunciador da travessia. Por essa razão,
as últimas palavras de Sócrates devem constituir
CONCLUSÃO
uma advertência de que o tempo da vida não
pode ser tomado como se fora a totalidade do
Os momentos finais de Sócrates, magistempo (pãs khrónos, República 486a). Elas ainda
tralmente registrados pela lavra genial de
reverberam como apelo inalienável: todos os que
Platão, configuram mais do que uma homenagem
são realmente iniciados – e somente esses – devem
que imortalizaria o seu mestre: eles esboçam
um galo a Asclépio.
uma manifestação vigorosa, e expressa em
Que não se esqueçam de pagá-lo.
9. Píticas 3, 7.
Page 12
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