Zalmoxis e Pitagoras: relacoes de katabasis e imortalidade da aima

Auteur
Coutinho, L.
Publié dans
Hypnos
Année
2015
Sujet
ZALMOXIS
Langue
Español
Catégorie
C12 Religion
Numéro d'archive
7729

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15-03-16 15:50 CAPA ACESSO SOBRE ANTERIORES NOTICIAS CADASTRO PESQUISA OPEN JOURNAL ATUAL SYSTEMS INSTITUTO HYPNOS Ajuda do sistema Capa > Edicöes anteriores > n. 35 (2015) ASSINATURA n. 35 (2015) Acesse o sistema para verificar sua assinatura ze USUARIO Sumario Login | Traducao Senha| | Teof Metafisi David Torrijos-Castrillejo PDE Acesso | Artigos NOTIFICAGÖES Mostracäo e demonstracäo do eros dialético Jovelina Maria Ramos de Souza PDF Uma revisdo do fragmento B3 de Parmênides William Henry Furness Altman Alguns aspectos sobre o direito natural © Lembrar usuario e e Visualizar Assinar IDIOMA na Etica a Nicömaco de PDE Aristoteles (EN, V, 10, 1134b18 - 113 Selecione o idioma Portugués (Brasil) + Submeter | Jefferson Luiz França As implicacées éticas da natureza do conhecimento em Platäo e Espinosa PDF Jayme Paviani CONTEUDO DA REVISTA Pesquisa Akrasia e irracionalidade em Euripides: notas sobre Hipólito e PDE Medeia Escopo da Busca (todos Daniel Simäo Nascimento +) Pesquisar | Comunicacöes Procurar Zalmoxis e Pitágoras: relacöes de Katabasis e imortalidade da Luciano Coutinho Amore Razäo no proieto educative da cidade platômca José Trindade Santos Wy — PDE La 4 e Por Edicäo e Por Autor e Por titulo PDF TAMANHO DE FONTE ISSN: 2177-5346 INFORMAGÖES e Para leitores + Para Autores :/ /www.hypnos.org.br/revista/index.php/hypnos/issue/view/39/showToc Pagina 1 van 2

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DE KAT˘BASIS E IMORTALIDADE DA ALMA ZALMOXIS AND PYTHAGORAS: RELATIONS BETWEEN KATABASIS AND IMMORTALITY OF THE SOUL LUCIANO COUTINHO* Resumo: O mito de Zalmóxis é amplamente recordado em textos antigos. No relato de Heródoto, provavelmente o mais antigo, a condição de Zalmóxis, como escravo de Pitágoras, chama atenção: condição que o próprio historiador parece duvidar. Alguns questionamentos acerca dessa relação, entretanto, deixam entrever importantes noções sobre a psyche; noções que permeiam as lendas que se referem às duas figuras. Além da ideia de imortalidade da alma, as diferenças entre as percepções trácia e grega transparecem nessas lendas. O presente trabalho, portanto, busca compreender algumas possibilidades comparativas entre essas lendárias figuras.. Palavras-chave: Zalmóxis; Pitágoras; Imortalidade da alma. Comunicações ZALMŁXIS E PIT˘GORAS: RELAÇ›ES Abstract: The myth of Zalmoxis is extensively recorded in ancient texts. In the narration of Herodotus, which is probably the oldest one, the condition of Zalmoxis, as a slave of Pythagoras, attracts attention – a condition which the historian himself seems to doubt. However, some questions about this relationship enable us to perceive important notions about the psyche – notions that permeate the legends that refer to the two characters. Apart from the idea of the immortality of the psyche, the differences between the Thracian and the Greek perception shine through these legends. In this sense, this work seeks to understand some possibilities for a comparison between these legendary figures. Keywords: Zalmoxis; Pythagoras; Immortality of soul. INTRODUÇÃO Os getas, diz Heródoto nas Histórias, “consideram-se imortais” (HERÓDOTO, Hist. 4, 93, 1-2)1 e acreditam que, depois da morte, vão ter com Zalmóxis, um daimon (idem. 4, 94, 2-3)2. Já, para os gregos do Helesponto, * Luciano Coutinho é doutorando em Estudos Clássicos (Filosofia Antiga) pela Universidade de Coimbra-UC, Portugal. 1 ἀθανατίζοντα̋; Ἀθανατίζουσι. 2 Σάλμοξιν δαίμονα. 15/09/2015 19:50:57

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no relato do historiador, no entanto, Zalmóxis teria sito um homem, escravo de Pitágoras (idem. 4, 95, 1-2). As duas versões no relato herodotiano revelam não uma mera contradição, mas antes uma relevante convergência entre as duas lendárias figuras. Na versão grega, Zalmóxis ensinava que seus convivas e familiares ganhariam a imortalidade (idem. 4, 95, 12-14)3, mas teria sido um homem, escravo de Pitágoras: “Eu ouvi os Gregos que vivem em Helesponto dizerem que Zálmoxis era um homem e que, em Samos, viveu como escravo de Pitágoras, filho de Mnesarco” (idem. 4, 95, 1-4)4. Ao próprio Heródoto, esse relato dos gregos que viviam na Trácia parece um anacronismo insustentável: “No que diz respeito, acerca deste episódio e das instalações subterrâneas, nem acredito nem deixo de acreditar. Mas estou convencido de que Salmóxis precedeu em muitos anos Pitágoras”5. Mesmo desacreditada pelo próprio Heródoto, a relação escravo/mestre é fundamental para se conhecer determinados processos do mito e do rito ligados às duas figuras. Se os Gregos da Trácia fizeram uma relação entre Zalmóxis e Pitágoras é porque, em alguma medida, havia certa semelhança entre seus mitos, lendas e rituais. Tal ligação pode auxiliar em uma busca mais fundamentada para se entender a simbologia do mito geta. Para Eliade, esse encontro funciona como uma comprovação de que Zalmóxis estaria verdadeiramente ligado à imortalidade da alma: “O fato de que Pitágoras foi nomeado como fonte de doutrina religiosa de Zalmóxis indica que o culto do deus Geta envolve crença na imortalidade da alma e certos ritos do tipo iniciático” (ELIADE, 1972, p.258-259)6. “Que existia alguma analogia entre Zalmóxis e Pitágoras, é algo que deve ter ocorrido aos colonizadores gregos da Trácia, de quem Heródoto ouviu a estória” (DODDS, 2002, p. 148), e ao que parece, tal analogia dá-se pela ligação temática: a crença de ambos na imortalidade. Ao apresentar Zalmóxis e Pitágoras como portadores de uma mesma crença, pela suposta ligação entre escravo e senhor, segundo a versão grega, o historiador deixa entrever 3 ἀναδιδάσκειν ὡ̋ οὔτε αὐτὸ̋ οὔτε οἱ συμπόται αὐτοῦ οὔτε οἱ ἐκ τούτων αἰεὶ γινόμενοι ἀποθανέονται, ἀλλ’ ἥξουσι ἐ̋ χῶρον τοῦτον ἵνα αἰεὶ περιεόντε̋ ἕξουσι τὰ πάντα ἀγαθά. 4 Ὡ̋ δὲ ἐγὼ πυνθάνομαι τῶν τὸν Ἑλλήσποντον καὶ Πόντον οἰκεόντων Ἑλλήνων, τὸν Σάλμοξιν τοῦτον ἐόντα ἄνθρωπον δουλεῦσαι ἐν Σάμῳ, δουλεῦσαι δὲ Πυθαγόρῃ τῷ Μνησάρχου. HDT. 4, 96, 1-4; tradução de Silva & Guerreiro (2000). “The fact that Pythagoras was named as the source of Zalmokxis’s religious doctrine indicates that the cult of the Getic god involved belief in the immortality of the soul and certain rites of the initiatory type”. 5 6 15/09/2015 19:50:57

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Luciano Coutinho não apenas que o culto à divindade geta envolveria a crença na imortalidade da alma, como também a hipótese oposta de que Zalmóxis seria um homem e não uma divindade (HERÓDOTO, Hist. 4, 95, 1). Tal relato dos gregos da Trácia condiciona a leitura a uma perspectiva irônica e trágica a respeito dos trácios, na medida em que acreditariam, como divindade, em um homem que teria sido escravo de um grego. O relato faz o destino dos trácios assemelhar-se ao suposto destino de sua divindade: escravidão e morte. O historiador, nesse sentido, deixa entrever que essa imponderabilidade de acreditar na imortalidade, diante da real ameaça de invasão, os teria levado à morte – e porque não dizer à escravidão também, como se sabe das consequências de guerras na antiguidade – e não à imortalidade como acreditavam. Em meio a essa problemática, Dodds levanta a seguinte questão: “Pitágoras não havia prometido aos seus seguidores que eles viveriam novamente, tornando-se finalmente daemones ou mesmo deuses?” (DODDS, 2002, p. 148). ZALMÓXIS E PITÁGORAS: A FILOSOFIA DE KATABASIS DA PSYCHE Mesmo que a história originária da divindade trácia seja apenas “uma simples transferência para Pitágoras do que Heródoto e, depois dele, Helânico pegaram de Zalmóxis, o deus Geta” (BURKERT, 1972, p.156)7, é possível encontrar pistas do que os autores antigos deixaram acerca de uma possível transição da crença na imortalidade nas lendas que envolvem as figuras de Pitágoras e de Zalmóxis. Nascido em Lesbos, no século V a.C., Helânico teria escrito, em seu Mores Barbarici, um breve, mas importante, relato sobre o mito trácio. O historiador, em suas impressões, é, além de primeiro escritor depois de Heródoto a mencionar a figura de Zalmóxis, o primeiro a colocá-lo como um humano em definitivo8. Sua exposição faz crer que a figura de Zalmóxis, além de humana, tornar-se-ia conhecida por ser um dos iniciadores da filosofia. Isso visa dar ao mito não apenas dimensão de realidade, mas também de veracidade, já que a tentativa de Helânico é a de encontrar argumentos factuais que provem a humanidade do trácio. “a simple transference to Phytagoras of what Herodotus and, after him, Hellanicus had reported of Zalmoxis, the Getic god ”. 8 Cf. Helânico MB. 73. 7 15/09/2015 19:50:57

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A afirmação de Burkert de que “é duvidoso se a ‘câmara subterrânea’ realmente pertence à tradição de Zalmóxis” (BURKERT, 1972, p.158)9 é fundamental para desvelar o que seria parte de lendas sobre Pitágoras no núcleo do mito trácio relatado originariamente em Heródoto. É mais fácil supor que a tal instalação subterrânea seja realmente uma sobreposição de imagem das lendas pitagóricas para o mito de Zalmóxis do que propriamente um elemento original do mito. Baseado nessa intuição, Burkert propõe uma passagem de Estrabão10, como prova de que o mito de Zalmóxis está ligado a uma montanha e não a uma instalação subterrânea. Dada a forte tendência para as tradições religiosas a se apegar aos lugares santos, podemos acreditar que, no tempo de Heródoto, também, os trácios pensavam Zalmóxis como estando em seu monte santo, e não em uma habitação subterrânea em algum lugar (BURKERT, 1972, p.158-159)11 Mesmo sendo a tal instalação uma sobreposição da visão grega para o mito trácio, mesmo assim, guarda uma dimensão do subterrâneo, ainda que não uma instalação. De tal maneira, o “monte santo” só pode ser compreendido nesse contexto com uma imagem subterrânea de caverna em seu interior.12 Outros elementos parecem convencer a esse respeito, e o principal deles é a reação, descrita em Heródoto, contra relâmpagos e trovões por parte dos trácios (HERÓDOTO, Hist. 4, 94, 4). Eles atiram flechas para o ar, “It is doubtfull whether the “subterranean chamber” really belong in the Zalmoxis tradition”. Cf. Str. 8, 3, 298. 11 “Given the strong tendency for religious traditions to cling to holy places, we may believe that in Herodotus’ time, to, the Thracians thought of Zalmoxis as being on his holy mountain, and not in an underground dwelling somewhere”. 12 Seria possível especular sobre a questão da montanha representar um misto entre subterrâneo e celestial, como ocorre no Egito com as pirâmides, montanhas artificiais como diria Gombrich (1999: 55), em que, funcionando como arquitetura tumular, simbolizam, na crença do antigo Egito, a ligação entre a vida no plano subterrâneo/terrestre e no plano celestial. O deus Osíris seria, nessa perspectiva, provavelmente a divindade ctônica mais representativa, já que seu esquartejamento, praticamente xamânico, pelo irmão Set, e sua ressurreição pela(s) irmã(s) Ísis e Nefti (Bresciani 2001: 462) no mundo ínfero lhe teria sido propício para, depois das trevas, subir ao lado de Rá e manter a eterna ligação entre esses mundos. Quer dizer, com essa jornada ele representa a superação das trevas e a renovação diária da vida, da luz: “E inunda as Duas Terras como o disco solar no amanhecer” (Araújo 2000: 342). O Livro dos mortos, que tem como nome original Livro para sair à luz, representa muito bem essa capacidade dual de Osíris. O livro trata de encantamentos populares, na grande maioria dirigida a essa divindade, para que o morto, ao haver decorado certa fórmula, certa encantação, estivesse habilitado a repetir o percurso de Osíris: das trevas à luz. 9 10 15/09/2015 19:50:57

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Isso leva a crer que Zalmóxis não é, portanto, uma divindade celestial, na medida em que as manifestações celestiais são combatidas e rejeitadas. Resta, dessa forma, dizer que Zalmóxis representa uma divindade terrestre ou subterrânea.14 Ou ainda, que representa as duas partes, o terrestre e o subterrâneo, já que, depois da katábasis ao mundo ínfero (idem. 4, 95, 19)15 e de lá ter passado três anos (idem. 4, 95, 17-18)16, ele teria reaparecido no quarto ano a seus convivas (idem. 4, 95, 19-20)17. 289 Luciano Coutinho quando, no céu, há relâmpagos e trovões, para indicar que não aceitam outra divindade, sobretudo celestial, senão o único deus Zalmóxis13. Assim, a montanha indicada por Estrabão, que Burkert acredita ser o local sagrado de Zalmóxis, seria o espaço arquitetônico que guardaria sua caverna - daí a ideia dos informantes de Heródoto indicarem a instalação subterrânea como um equivalente de caverna. Segundo Estrabão, Zalmóxis teria voltado para a Trácia depois de “ter aprendido coisas sobre os corpos celestes com Pitágoras” (Geogr. 7, 3, 5, 2-3)18, “bem como as coisas (aprendidas) com os Egípcios” (Geogr. 7, 3, 5, 3)19. Após tal aprendizado teria se destado entre seu povo, que nada conhecia sobre tais coisas, segundo faz parecer Estrabão, tornando-se, assim, notório, porque ele poderia fazer previsões a partir dos sinais celestes, e, finalmente, ele convenceu o rei a levá-lo como um parceiro no governo, alegando que ele era competente para relatar a vontade dos deuses, e embora no início Esses fatos tornam frágeis a leitura de que Zalmóxis não estaria ligado ao subterrâneo de Burkert. 14 Parece que há no relato dos gregos que viviam na Trácia uma ideia de planejamento, na medida em que Zalmóxis faz tornar crível aquilo que ensinava: “No quarto ano (ele) apareceu para os trácios, tornaram-se, assim, credíveis para eles as coisas (que) disse Zalmóxis” Τετάρτῳ δὲ ἔτεϊ ἐφάνη τοῖσι Θρήιξι, καὶ οὕτω πιθανά σφι ἐγένετο τὰ ἔλεγε ὁ Σάλμοξι̋. Ταῦτά φασί μιν ποιῆσαι. (HDT. 4, 95, 19 - 4, 96, 1). “Para além do motivo etnocêntrico, que tende a diminuir a divindade dos Getas, com a sugestão de que Zalmóxis, na Grécia, havia sido não somente um homem, mas até um escravo, a passagem de Heródoto revela-se, com todo o sarcasmo do qual o historiador é capaz, uma sátira das tradições ligadas à katábasis. A morte aparente de Zalmóxis, de fato, não passa de um truque, na tentativa de convencer seus concidadãos de sua imortalidade. A remissão indireta aqui à figura de Pitágoras é certamente significativa: como a dizer que, ao falar de imortalidade da alma, ele é a referência imediata” (Cornelli 2010: 146). 15 Essa imagem é associada à morte de Zalmóxis, já que ele foi “lamentado e chorado como morto”: Οἱ δέ μιν ἐπόθεόν τε καὶ ἐπένθεον ὡ̋ τεθνεῶτα. 16 καταβὰ̋ δὲ κάτω ἐ̋ τὸ κατάγαιον οἴκημα διαιτᾶτο ἐπ’ ἔτεα τρία. 17 Τετάρτῳ δὲ ἔτεϊ ἐφάνη τοῖσι Θρήιξι. 18 Πυθαγόρᾳ καί τινα τῶν οὐρανίων παρ’ ἐκείνου μαθεῖν. 19 τὰ δὲ καὶ παρ’ Αἰγυπτίων. 13 15/09/2015 19:50:57

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ele era apenas feito sacerdote do Deus que foi mais honrado no seu país (idem. 7, 3, 5)20. Segundo o historiador, foi nessa vertente que sua condição histórica ter-se-ia desenvolvido: primeiro um simples homem; segundo um homem de conhecimento; depois, um homem politicamente importante; em seguida, um relator da vontade de deus; por fim, ele próprio um deus (idem. 7, 3, 5, 4-10)21, que, “tendo descido a uma região cavernosa inacessível aos outros, lá viveu” (idem. 7, 3, 5, 11-12)22. Estrabão tenta desenvolver a ideia de que Zalmóxis teria sumido da vida cotidiana, o que lhe atribuía algum tipo de imagem divina, como aparece no relato originário, já que ele continuaria, por intermédio do rei e de seus próprios assistentes, a revelar as vontades divinas, agora representadas por ele, embora fosse ele próprio um homem. A instalação, em Heródoto, seria, portanto, a tentativa de resgatar o tipo mais propício da representação subterrânea: a caverna. ZALMÓXIS E PITÁGORAS: REPRESENTAÇÕES XAMÂNICAS A Trácia teria sido largamente “influenciada” pela cultura xamânica (DODDS, 2002, pp. 143-144). Tal imagem de descida da alma ao mundo ínfero é bastante comum ainda hoje em várias culturas tribais como é o caso de algumas regiões da Sibéria, da Ásia, da América, dentre outras (ELIADE, 2002). A respeito da possibilidade comparativa entre o ritual xamânico de katabasis e o ritual de Zalmóxis, que teria descido “para buscar inspirada sabedoria na câmara subterrânea” (CORNFORD, 1952, p. 89)23, incluindo sua relação com Pitágoras, será fundamental analisar a descrição de Heródoto acerca dos jantares que a Zalmóxis oferecia para explanar sobre a imortalidade, enquanto mandava construir a instalação subterrânea. “… because he could make predictions from the celestial signs; and at last he persuaded the king to take him as a partner in the government, on the ground that he was competent to report the will of the gods; and although at the outset he was only made a priest of the god who was most honoured in their country”. 21 Cf. ἐπανελθόντα δ’ εἰ̋ τὴν οἰκείαν σποῠ δασθῆναι παρὰ τοῖ̋ ἡγεμόσι καὶ τῷ ἔθνει προλέγοντα τὰ̋ 20 ἐπισημασία̋, τελευτῶντα δὲ πεῖσαι τὸν βασιλέα κοινωνὸν τῆ̋ ἀρχῆ̋ αὐτὸν λαβεῖν ὡ̋ τὰ παρὰ τῶν θεῶν ἐξαγγέλλειν ἱκανόν· καὶ κατ’ ἀρχὰ̋ μὲν ἱερέα κατασταθῆναι τοῦ μάλιστα τιμωμένου παρ’ αὐτοῖ̋ θεοῦ, μετὰ ταῦτα δὲ καὶ θεὸν προσαγορευθῆναι. 22 καὶ καταλαβόντα ἀντρῶδέ̋ τι χωρίον ἄβατον τοῖ̋ ἄλλοι̋ ἐνταῦθα διαιτᾶσθαι. 23 “to seek inspired wisdom in an underground chamber”. 15/09/2015 19:50:57

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Se Zalmóxis pode ser considerado, de fato, um xamã25, não é propriamente a questão. Mas a imagem da instalação subterrânea, de que Heródoto faz menção, não pode ser negada enquanto representatividade dos rituais iniciáticos do xamanismo. Neles, os xamãs, conhecidos por seus poderes extáticos, desprendem sua alma do corpo para alçar viagens místicas por lugares desconhecidos, cuja imagem mais comum é a descida ao mundo ínfero. O princípio do ritual é adquirir conhecimento dos seres demoníacos para aprender a lidar com as intempéries da vida. As semelhanças com o xamanismo tornam inevitável a comparação. Pitágoras, por sua vez, formando a triangulação entre as personagens citadas, parece estar nessa mesma linha de ritual de katabasis, pela imagem de jantares dogmáticos em que ensinaria acerca da imortalidade da alma. Pitágoras teria sido “um mago e xamã (ainda que cientista, ao menos à maneira dele)” (CORNELLI, 2010, p. 61). Por isso, apesar de absurda a relação escravo/ mestre apontada pelos testemunhos gregos, ela não é totalmente nonsense: [...] não seria possível talvez que até um “xamã” pudesse realizar façanhas intelectuais sem necessariamente vesti-las de uma forma racional ou conceitual? (BURKERT, 1972, p. 209)26 A pergunta de Burkert a respeito do pitagorismo e suas vertentes místicas é fundamental para expressar como, para os antigos pensadores, as relações de conhecimento vinham, muitas vezes, de outros estados de consciência27. Nesse sentido, a triangulação xamã, Zalmóxis, Pitágoras parece ligar-se a essa imagem mistérica. O homem zalmoxiano, no rito relatado por Heródoto, que seria morto pelas lanças, teria a função de encontrar-se com Zalmóxis para que este pudesse socorrer as necessidades do povo. O deus desaparecido, nesse 291 Luciano Coutinho Durante os jantares que lhes oferecia, metia-lhes na cabeça a ideia de que nem ele, nem os convivas, nem, por sua vez, os seus descendentes haveriam de morrer nunca, mas que seriam levados para um lugar onde viveriam para sempre rodeados de uma felicidade completa. E, ao mesmo tempo que actuava da forma que referi e vendia estas teorias, mandou edificar uma dependência subterrânea (HERÓDOTO. Hist. 4, 95, 3)24 Tradução de Silva & Guerreiro (2000). Eliade (2002: 425) nega a possibilidade a partir de premissas antropológicas, o que torna cabível a negação. Mas em âmbito simbólico-filosófico há de se rever a questão. 26 “may not even a ‘shaman’ perhaps accomplish intellectual feats, without necessarily clothing them in strictly rational or conceptual form?”. 27 Cf. Kingsley 1999, p. 144. 24 25 15/09/2015 19:50:58

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viés, funciona como uma espécie de xamã com poderes mágicos, para a (re) organização cósmica de seus convivas. Por outro lado, algumas diferenças entre o mito trácio e as lendas pitagóricas são cruciais para captar-se melhor determinadas nuances sobre a concepção de imortalidade da alma em cada uma das figuras. Tais diferenças saltam aos olhos na análise do sacrifício do homem zalmoxiano. Em uma das vertentes do pitagorismo, os rituais de descida são associados à purificação da alma, como melhoramento para as outras encarnações: a imortalidade da alma seria uma “consequência da doutrina de metempsicose, e é esta doutrina que ele faz todo esforço para enculcar” (ELIADE, 1972, pp. 260-261)28. Os rituais de descida das lendas que a tradição reconta sobre Pitágoras são associados à purificação da alma, como preparação para a vida pós-morte.29 A referência de Heródoto às duas personagens indica o ensinamento da imortalidade da alma pelas duas figuras. Em ambas, há um tipo de apropriação da imagem de descida a mundos ínferos. Imagem que se dá pela instalação subterrânea, que está frequentemente ligada à tradição pitagórica: O andreon que Zalmóxis havia construído, em que ele recebeu os principais cidadãos e discursou sobre a imortalidade, é reminiscência tanto da câmara em que Pitágoras ensinou em Crotona quanto dos cômodos em que os banquetes rituais das sociedades secretas religiosas tiveram lugar. Tais cenas de banquetes rituais são abundantemente documentadas, mais tarde, monumentos encontrados na Trácia e na área do Danúbio (ELIADE, 1972, p. 260)30. No ritual zalmoxiano, no entanto, não há qualquer menção ao princípio moral diante da vida, assim como, no ritual xamânico, também não o há. O pitagorismo, por outro lado, assume a ideia de iniciação associada a “consequence of the doctrine of metempsychosis, and it is this doctrine which he makes every effort to inculcate”. 29 Esse princípio parece ter certa centralidade no pitagorismo, como aparece, ainda como intuição, na teoria de Burnet, que é contestada por De Vogel. A esse respeito cf. as considerações de Cornelli (2010, pp. 34-35). 30 “The andreon that Zalmoxis had built, and in which he received the principal citizens and discoursed on immortality, is reminiscent both of the chamber in which Pythagoras taught at Crotona and the rooms in which the ritual banquets of the secret religious societies took place. Such scenes of ritual banquets are abundantly documented later on monuments found in Thrace and in the Danubian area”. 28 15/09/2015 19:50:58

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Luciano Coutinho aspectos morais31. O aspecto moral tira da ideia de benção divina, e também de um acontecimento cósmico que marca a importância de um ou de outro cidadão, a força da purificação ou da salvação ou ainda da superação de uma necessidade. Tais consequências passam a depender exclusivamente da postura pessoal, pela purificação e pela ação da psyche. CONSIDERAÇÕES FINAIS A doutrina da imortalidade, portanto, estaria no cerne da mudança de atitude diante da vida no cenário antigo da Grécia. Mudança que levaria o homem a agir segundo aspectos morais. Ou seja, a vida passa a ser praticada segundo parâmetros que são determinados pela consciência e pelas atitudes da psyche. Com isso, a crença em agentes anímicos externos, como é o caso do mito de Zalmóxis (assim como é descrito em Heródoto), aos poucos, acaba por deixar espaço para uma concepção da vida psíquica mais ética, baseada na atitude moral de cada um. A tradição grega pela qual Zalmóxis teria sido escravo de Pitágoras é, tudo parece indicar, historicamente incorreta e revela uma forte marca helenocêntrica, já que os gregos, para aproximarem a temática da imortalidade da alma tratada pelas duas figuras, recorrem a uma condição relacional bastante duvidoso para apontar a possível semelhança temática. A semelhança ocorrida pelos gregos entre Zalmóxis e Pitágoras em relação à ideia da imortalidade da alma buscara corrigir seu uso e enfatizar o sentido moral da imortalidade. Recebido em fevereiro 2015 Aprovado em maio 2015 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Fontes primárias ARISTÓTELES. Sobre a alma. Trad. Ana Maria Lóio. Lisboa: Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2010. Referimo-nos ao pitagorismo em sua expressão tardia do século V e IV a.C. em que a figura de Pitágoras passa a simbolizar um tipo de figura reformadora, em sentido intelectualista e aristocrático, da imortalidade da alma em sentido órfico: “Sinal inequívoco desta mediação pitagórica é a moralização da metempsicose” (Cornelli 2010: 157). 31 15/09/2015 19:50:58

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ELLANICO. L’opera storiografica di Ellanico di Lesbo. A cura di Delfino Ambaglio. Pisa: Giardini, 1980. HERÓDOTO. Histórias. Trad. Maria de Fátima Silva e Cristina Abranches Guerreiro. Lisboa: Edições 70, 2000. STRABO. The geography. Translate by H. L. Jones. Harvard: Harvard University Press, 1932. Fontes secundárias ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade. Brasília: Editora UnB e Imprensa Oficial, 2000. BRESCIANI, Edda. Teste religiosi dell’ antico Egitto. Milano: Arnoldo Mondadori, 2001. BURKERT, Walter. Lore and science in ancient Pythagoreanism. Translated by Edwin L. Minar, Jr. Harvard: Harvard University Press, 1972. CORNELLI, Gabriele. O pitagorismo como categoria historiográfica. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanístico da Universidade de Coimbra, 2010. CORNFORD, F. M. Principium Sapientiae – The Origins of Greek Philosophical Thought. Cambridge: Cambridge University Press, 1952. DODDS, E. R. Os Gregos e o Irracional. Trad. Paulo Domenech Oneto. São Paulo: Escuta, 2002. ELIADE, Mircea. Zalmoxix, the Vanishing God. Translated by William R. Trask. Chicago: University of Chicago, 1972. _____. O xamanismo e as técnicas arcaicas do êxtase. Trad. Beatriz PerroneMoisés e Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2002. GOMBRICH, E. H. J. A história da arte. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 1999. IMMERWAHR, H. R. Form and thought in Herodotus. Cleveland: Press of Western Reserve University, 1966. KINGSLEY, Peter. In the dark places of wisdon. California: Golden Sufi Center, 1999. SILVA, Maria de Fátima. Língua e identidade e convivência étnica nas Histórias de Heródoto. Humanitas 61, Coimbra: Universidade de Coimbra, pp. 59-82, 2009. 15/09/2015 19:50:58