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Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)Tudo é número: uma análise conceitual
da ideia de número em Pitágoras
Carlos Lisboa Duarte [1], Hegildo Holanda Gonçalves [2], Nádia Pinheiro Nóbrega [3]
[1] carlos_lisboatf@hotmail.com. [2] holandahg@hotmail.com. [3] prof.nadia.nobrega@gmail.com. Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia da Paraíba - Campus Cajazeiras.
Resumo
O presente trabalho faz uma análise do conceito de número a partir do pensamento de Pitágoras, bem como
busca uma aproximação das reflexões históricas da Escola Pitagórica no contexto grego da Antiguidade
Clássica. O objetivo norteador do estudo é analisar a teoria dos números inteiros na filosofia pitagórica como
causa última do homem e da matéria. Do ponto de vista dos procedimentos metodológicos, a pesquisa foi do
tipo bibliográfica, desenvolvida a partir de material já publicado, constituído, principalmente, de livros e artigos
de periódicos, por meio dos quais se buscou um diálogo com os estudos desenvolvidos acerca do assunto em
questão. Por intermédio da pesquisa, chegou-se aos seguintes achados: primeiro, Pitágoras considerava o
número como o princípio formador do universo, no entanto acreditava que o número constituía-se do acordo
entre um elemento indeterminado ou ilimitado e outro determinante ou limitante, e, a partir daí, tinham origem
todas as coisas; segundo, para os pitagóricos, a estruturação dos números partia do pressuposto de que,
nos números pares, predominava o elemento indeterminado e, nos ímpares, o elemento limitante. Por esse
motivo, eles tinham os números ímpares como perfeitos, pois na sua distribuição os números ímpares sempre
possuíam um elemento limitante. Em suma, tanto Pitágoras quanto os pitagóricos tinham, no culto ao número,
a base tanto da sua filosofia quanto do seu modo de vida.
Palavras-chave: Matemática. Filosofia. Número. Pitágoras. Escola Pitagórica.
Abstract
This work is an analysis of the number concept based on the thoughts of Pythagoras, well as to seek an
approximation of the historical reflections of the Pythagorean School in the Greek context of Classical Antiquity.
The guiding objective of the study is to analyze the theory of the integers in the Pythagorean philosophy
as ultimate cause of man and matter. From Methodological procedures point of view, the research was the
bibliographical type, developed from already published material constituted, primarily, of books and journal
articles through which we sought a dialogue with the developed studies concerning the subject in question.
Through research it was reached the following findings: First, Pythagoras considered the number as the
forming principle of the universe. However, he believed that the number constitutes the agreement between
an indeterminate or unlimited element and another determinant or limiting and from there had been origin all
things; Second, to the Pythagoreans the structure of numbers started from the assumption that in even numbers
in even numbers predominates the indeterminate element and in the odd numbers the limiting element, for
this reason they had the odd numbers as perfects, because in their distribution the odd numbers always had a
limiting element. In sum, both Pythagoras as the Pythagoreans had in the cult of the number the basis of both
his philosophy and his way of life.
Keywords: Mathematics. Philosophy. Number. Pythagoras. Pythagorean School.
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Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)1 Introdução
A ideia de número começou a ser discutida de
forma mais profunda a partir do surgimento da filosofia, que viria a revolucionar o campo do pensamento
humano no que tange às interpretações a respeito da
vida e condição humana na terra, por meio da razão
orientada pelo espírito crítico e racional, contrariamente às antigas teorias centradas em mitos. Nesse
sentido, o presente artigo traz uma análise, numa
interface da filosofia com a matemática, do conceito
de número a partir do pensamento de Pitágoras, e
uma aproximação das reflexões históricas da Escola
Pitagórica no contexto grego da Antiguidade Clássica.
Esta reflexão é resultado de uma pesquisa bibliográfica, fundamentada na filosofia e na matemática,
com o objetivo de analisar, conceitualmente, a ideia
de número como causa última do homem e da matéria, na concepção de Pitágoras. Assim sendo, no que
tange à coleta de dados para a realização do estudo,
foram utilizadas fontes secundárias, uma vez que, sobre o conceito de número em Pitágoras, o que existe
são apenas fragmentos de obras. Desse modo, foi
estabelecido um diálogo com autores que pudessem
nos levar a uma melhor compreensão dos termos ora
mencionados. Nesse sentido, nos servimos, em primeiro lugar, das reflexões de autores como: Almeida
(2003), Conte (2010), Maier (2005), Os Pré-Socráticos
(1996), Reale e Antiseri (2002) e Santos et al. (2002).
Como o foco da pesquisa estava na noção de número, especificamente na escola pitagórica, evitamos
utilizar autores da contemporaneidade, tais como
Frege e outros que abordam a ideia de número, mas
em outro viés, evitando-se, assim, entrar em outra
perspectiva de abordagem que não fosse a neste
trabalho proposta, considerando o tempo disponível
para tal fim.
A história da humanidade sempre foi marcada
por inúmeros questionamentos acerca da origem do
universo e de tudo que o constitui. Nessa incessante
busca por respostas, o ser humano encontrou na
filosofia e na matemática o embasamento necessário
para que pudesse articular e formular explicações que
o ajudasse a compreender e esclarecer as obscuridades por trás do surgimento do universo. Vários foram
os estudiosos que se dedicaram a buscar respostas
para essas questões, entretanto nenhum se destacou
como Pitágoras e os membros da escola pitagórica.
A escola pitagórica, como era conhecida, tinha
o número como o princípio formador de tudo o que
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existe. Para eles, o número representava a essência
das coisas, até mesmo coisas abstratas como a razão, a beleza e o sofrimento; tudo surgia a partir de
alterações e associações de números, dando origem
ao universo e a toda matéria que existe.
Pitágoras e seus seguidores procuravam, por
meio de estudos no campo da matemática, explicar
como tudo o que existe se forma a partir de um princípio gerador que, para eles, era o número. Segundo
relatos históricos, no entanto, grande parte do conhecimento que Pitágoras utilizava nas suas pesquisas é
proveniente de estudos que ele realizou no Egito e na
Babilônia, onde já se fazia uso de técnicas de medição
utilizando-se o princípio de um triângulo retângulo,
procedimento que, mais tarde, Pitágoras desenvolveria dando origem ao famoso Teorema de Pitágoras,
levando a crer que muito do que ele desenvolveu
teve influência direta de estudos desenvolvidos por
outras civilizações.
Em culturas mais antigas, como a mesopotâmica, que pregavam a doutrina do nome como meio de
explicar o surgimento e a origem de tudo o que existe, a associação da ideia de número já se encontrava
bem difundida.
A partir de conjecturas promovidas pelos preceitos defendidos pela doutrina do nome, na qual nome=
número, passou-se a considerar o número como sagrado, devido à capacidade de este ser representado
e combinado de diversas maneiras, chegando ao
ponto de até mesmo reis o utilizar como uma espécie
de código para representar os seus nomes e os nomes de divindades.
Diante de tantas reflexões acerca da ideia de
número e após os pitagóricos terem chegado à conclusão de que o número era o princípio constituinte de
tudo, foram iniciados, então, os questionamentos a
respeito de como os números surgiam. Com isso, os
pitagóricos desenvolveram a ideia de que os números originavam-se a partir de aglomerações de unidades, desenvolvendo, assim, a teoria dos números
figurados, que atribuía a cada número determinadas
características que os diferenciavam uns dos outros.
A escola pitagórica no início utilizava o alfa (α) para
realizar a representação gráfica dos números, criando a ideia de que a unidade α = 1, em seguida, se
passou a fazer o uso de pontos (•) para demonstrar
essa teoria.
Assim, o presente artigo está estruturado em
dois momentos, a saber: no primeiro momento, é feito um apanhado da filosofia em seu nascedouro, em
Pagina 3
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)um período que ficou conhecido como pré-socrático,
uma vez que é nessa época que se situa a filosofia
pitagórica; em um segundo momento, é feito um
apanhado sobre a história e o pensar da Escola Pitagórica e Pitágoras, destacando-se a ideia de número
como causa última do homem e da matéria.
2 A filosofia e os pré-socráticos
No decorrer da história, a filosofia recebeu inúmeras contribuições de grandes pensadores e estudiosos, promovendo uma abertura mais ampla no
campo dos questionamentos e dos debates ligados
ao pensamento humano. Homero, sendo um dos primeiros pensadores a fazer parte desse movimento,
contribuiu para o desenvolvimento da racionalidade
humana por meio de suas Epopéias, pois, por intermédio da poesia, o homem grego não só cantou a
ruptura com as arcaicas formas de viver ou pensar
como também preparou, de maneira adventícia, a era
científica e filosófica que floresceu na Grécia a partir
do século VI a.C e se espalhou por todo o ocidente,
causando uma verdadeira reviravolta na maneira de
ver o mundo e de interpretá-lo. Assim,
Em poesias o homem grego canta o declínio das
arcaicas formas de viver ou pensar, enquanto
prepara o futuro advento da era científica e filosófica que a Grécia conhecerá a partir do século
VI a.C. (PRÉ-SOCRÁTICOS, 1996, p. 7).
Podemos notar, entretanto, que, no início do
século VI a.C., ocorreram inúmeras mudanças no
pensamento grego da época no que diz respeito às
ideias pautadas nas Epopéias Homéricas, que acabaram acarretando o declínio desse tipo de concepção
de pensar, como nos é exposto em os Pré-Socráticos
(1996, p. 15):
Esse tipo de construção cedeu lugar a uma nova
e mais radical forma de pensamento racional,
que não partia da tradição mítica, mas de realidades apreendidas na experiência humana
cotidiana. Fruto da progressiva valorização da
“medida Humana” e da laicização da cultura
efetuada pelos gregos, despontou, nas colônias
da Ásia Menor, uma nova mentalidade, que
coordenou racionalmente os dados da experiência sensível, buscando integrá-los numa
visão compreensiva e globalizadora. Dentro
desse espírito surgiram na Jônia, as primeiras
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concepções científicas e filosóficas da cultural
ocidental, propostas pela escola de Mileto.
O advento da filosofia trouxe consigo inúmeros
questionamentos e pensamentos divergentes no que
se refere à origem do Universo como um todo. Mediante um pensar cada vez mais racional e evoluído,
muitos filósofos e estudiosos que viam a racionalidade como a chave libertadora, capaz de desvendar os
mistérios antes sem explicação, começaram a questionar e criar hipóteses de como teve origem tudo o
que existe.
A filosofia nasce em uma atitude de ruptura
com a concepção mitológica de ver o homem e o
mundo. A filosofia nascente, também chamada de
pré-socrática, tinha como principal ponto de investigação ou análise a natureza (physis) e buscava o
princípio (arché) de todas as coisas. O termo physis
tem, fundamentalmente, dois sentidos: o primeiro se
refere ao conjunto dos seres que povoam o universo,
exceto aquilo que é produzido pelo homem. Nesse
sentido, a natureza se confunde com a totalidade das
coisas; o segundo se refere ao que as coisas são, isto
é, à essência mesma das coisas, ao seu modo de ser.
A pergunta basilar dos filósofos pré-socráticos
é: qual é a natureza das coisas? Em outros termos,
eles queriam saber qual era a lei interna que regia as
coisas.
Na forma de pensar grega antiga não existia a
ideia de criacionismo (proveniente, principalmente,
do judaísmo e do cristianismo) para a qual é possível
se fazer surgir algo do nada. Para os gregos isso era
inconcebível, uma vez que sempre se faz necessário
um princípio originário (arché). A pergunta, então, é:
qual é o princípio originário de todas as coisas? Os
pré-socráticos, portanto, almejam explicar a realidade que existe a partir de algo (princípio) que há dentro
das coisas. Com isso, a filosofia começa a se distanciar
das explicações míticas e a construir um pensamento
lógico-racional. Os filósofos pré-socráticos podem
ser considerados monistas quando defendem a existência de um único princípio originário para todas as
coisas, ou pluralistas quando defendem a existência
de diversos princípios.
Vários filósofos se destacaram nesse período:
Tales, Anaximandro e Anaxímenes de Mileto, Xenofanes de Colofón, Heráclito de Éfeso, Parmênides de
Elea, Pitágoras e os pitagóricos, Empédocles, Anaxágoras, Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera.
Vejamos abaixo, en passant, o pensamento de Tales,
Pagina 4
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)Anaximandro e Anaxímenes como forma de exemplificação da filosofia cosmológica pré-socrática, e, em
seguida, adentraremos o pensamento pitagórico.
Um dos instauradores do pensamento filosófico,
Tales de Mileto, filósofo, matemático e fundador de
um movimento que ficou conhecido, na época, como
Escola de Mileto, proporcionou imensuráveis contribuições nos mais diversos campos do conhecimento
científico e filosófico. Tales defendia a ideia de que
todas as coisas originaram-se da água. Para ele,
A água seria a physis, que, no vocabulário da
época, abrangia tanto a acepção de “fonte originária” quanto a de “processo de surgimento e
de desenvolvimento”, correspondendo perfeitamente a “gênese” (PRÉ-SOCRÁTICOS, 1996,
p. 15).
Já Anaximandro, encarregado de chefiar a escola
de Mileto, em meados do século VI a.C., apresentava
pressupostos de que o universo seria um produto
de inúmeras mudanças que se sucederam em um
princípio originário no qual tudo se formou (a arché).
Tal princípio criador viria a ser o ápeiron, entendido
como a tradução de infinito e ou ilimitado. Sempre
existiram, no entanto, variadas divergências de pensamento no que se refere à interpretação do ápeiron
como sendo uma infinitude capaz de tais realizações.
Em uma passagem de os Pré-Socráticos (1996, p.
16), fica claro o pensamento de Anaximandro acerca
do assunto quando diz:
Certo é que, para Anaximandro, o ápeiron estaria animado por um movimento eterno, que
ocasionaria a separação dos pares de opostos.
No único fragmento que restou de sua obra,
Anaximandro afirma que, ao longo do tempo,
os opostos pagam entre si as injustiças reciprocamente cometidas.
Para Anaxímenes, último representante da escola de Mileto, o universo e tudo o que se conhece
nada mais são que resultados de transformações de
um ar infinito pneuma ápeiron, afirmando em os Pré-Socráticos (1996, p. 16) “que todas as coisas seriam
produzidas através do duplo processo mecânico de
rarefação e condensação do ar infinito”.
Levando-se em consideração as diversas teorias
que circundaram os debates em torno da origem de
todas as coisas e em meio a tantos pressupostos teóricos levantados por tão célebres estudiosos, nenhum
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teve tanto destaque quanto Pitágoras (532 a.C.) na
investida para tentar explicar como tudo se originou.
Muito pouco ou quase nada se sabe da vida de Pitágoras, a não ser o que nos é legado pelos escritos deixados por seus seguidores, os chamados pitagóricos.
Pitágoras de Samos, como era conhecido devido
a sua origem na cidade de Samos, na Jônia, tornou-se um marco na história da antiguidade, promovendo inúmeras mudanças no campo do pensamento
humano no decorrer de sua trajetória de vida como
filósofo e matemático. Uma de suas muitas contribuições ocorreu na religião órfica, na qual ele colocou
a matemática como sendo o princípio de libertação,
vindo a sobrepujar a figura de Dionísio como via de
salvação.
As teorias pitagóricas, no entanto, não surgiram
ao acaso, pois, como quase tudo o que existe parte
da influência de algo, Pitágoras teve o seu pensamento influenciado em grande parte pela religião
órfica – citada anteriormente – da qual era membro.
Esta religião foi fundada pelo poeta Trácio de Orfeu e
recebeu o nome de seu fundador.
O orfísmo, como era conhecido, se caracterizou
como uma via contrária aos pressupostos doutrinários defendidos pela religião pública, que era centrada
no culto aos deuses, idealizados como fonte de vida
e salvação, como Zeus, Ades, Apolo, entre outros;
eram, também, detentores de qualidades e poderes
os quais estavam além da compreensão humana – os
chamados imortais; como tais, refletiam a imagem da
perfeição perante os homens e comandavam o curso
e destino da vida humana na Terra.
O orfísmo introduziu, na civilização grega, novos
conceitos e pensamentos que contribuíram para
esquematização das crenças e desenvolvimento da
compreensão e interpretação do pensar, gerando,
assim, diversos questionamentos sobre a existência
humana e a concepção de todo o universo. A religião
órfica defendia a imortalidade da alma, diferentemente das tradições gregas, regidas pelo pensamento
Homérico no qual o homem é mortal, colocando a
morte como o fim absoluto de sua existência. Pode-se
definir a ideia central do orfísmo em Reale e Antiseri
(2002, p. 18) da seguinte forma:
Em algumas lâminas órficas encontradas nos
sepulcros de seguidores dessa seita, entre
outras, podem-se ler estas palavras, que resumem o núcleo central da doutrina: “Alegra-te,
tu que sofreste a paixão: antes, não a havias
sofrido. De homem, nasceste Deus!”; “Feliz e
Pagina 5
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)bem-aventurado, serás Deus ao invés de mortal!”; “De homem, nascerás Deus, pois derivas
do divino!” O que significa que o destino último
do homem é o de “voltar a estar junto aos
deuses”.
Entre tantas contribuições de Pitágoras à religião órfica, nenhuma foi tão transformadora quanto
o movimento que ficou conhecido como o processo
de libertação da alma, no qual o homem, por meio
unicamente de seu esforço mental, consegue superar
e romper as barreiras antes impostas ao pensamento
humano, que restringiam a capacidade humana de interpretar e compreender como funcionava a relação
corpo-alma, implicando diretamente o modo como o
homem entendia a origem e o surgimento de todas
as coisas.
A partir das contradições que se instalaram no
pensamento da época, Pitágoras e seus chamados
pitagóricos começaram a expor ideias acerca do princípio originário de tudo o que existe por meio da ideia
de número que, para eles, representava a essência
das coisas e de como tudo se origina.
Para ilustrar o modo como os números se compunham, os pitagóricos faziam uso de representações
gráficas, procedendo da seguinte maneira: o um é o
ponto (.); o dois a linha (._.); o três a superfície (./)
e o quatro o volume (:). Dessa forma, os pitagóricos
conseguiam demonstrar a composição dos primeiros
números que para eles originavam todo o universo e
alma das coisas.
Para que possamos compreender melhor os
princípios pitagóricos, temos, entretanto, de nos
remeter aos pressupostos cunhados pelo Eleatismo,
conhecido como Escola Eleática, cujo primeiro participante, Parmênides (515 a.C – 450 a.C), abraçava
como seu pilar de sustentação, como nos é mostrado
em os Pré-Socráticos (1996, p. 74), o seguinte princípio de orientação:
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suficientes para validarem seus resultados acerca de
suas ideias, a partir de relações numéricas que evidenciavam a estrutura básica que compõe a essência
de tudo o que existe. Confirmando essa perspectiva,
a respeito do número em os Pré-Socráticos (1996, p.
18), cabe acrescentar que:
Pitágoras teria chegado à conclusão de que
todas as coisas são números através, inclusive,
de uma observação musical: verifica, no monocórdio, que o som produzido varia de acordo
com a extensão da corda sonora. Ou seja,
descobre que há uma dependência do som em
relação à extensão, da música (tão importante
como propiciadora de vivências religiosas estáticas) em relação à matemática.
3 A escola pitagórica e os números
O movimento conhecido como pitagorismo ou
escola pitagórica era visto como uma seita de caráter secreto, tendo pressupostos religiosos como
princípios de orientação. A escola pitagórica reunia
homens que dedicavam sua vida ao estudo da Matemática e da Filosofia, buscando, por meio dessas
duas áreas do conhecimento, respostas para os mais
variados enigmas que circundam a existência de tudo
o que existe.
Os pitagóricos, como eram conhecidos, possuíam certa influência política na vida da comunidade
onde viviam, mas não se misturavam com os demais
cidadãos e utilizavam a Matemática e a Filosofia
como base de orientação para a formação do caráter
de seus membros que, movidos pela racionalidade
promovida por essas duas vertentes do saber, conviviam no centro da cidade de Crotona, cuja localização
geográfica podemos ver abaixo, na Figura 1:
Figura 1 – Mapa da Magna Grécia
O pensamento torna-se ele mesmo livre para si
mesmo – nisto que os eleatas enunciam como
o ser absoluto, captando puramente para si o
pensamento e o movimento do pensamento
em conceitos.
Por meio de tais reflexões, os pitagóricos se
orientavam na busca incessante por formulações que
validassem seu pensamento a respeito da ideia que
envolvia a noção do número. Eles partiam do princípio de que as leis que haviam desenvolvido eram
Fonte: http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/alkimia/mat2/TRAB1.htm
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Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)Os pitagóricos tinham como símbolo uma estrela
de cinco pontas (o pentagrama) dentro de um pentágono, que eles utilizavam como meio de identificação
para se reconhecerem entre si e, assim, evitar que
pessoas que não fizessem parte da confraria tivessem acesso às reuniões nas quais eram debatidos e
demonstrados os resultados de seus estudos e pesquisas. Apresentamos o símbolo citado na Figura 2
a seguir:
Figura 2 – Estrela Pitagórica
Fonte: http://www.adorofisica.com.br/trabalhos/alkimia/mat2/TRAB1.htm
(2012).
Entre os Pitagóricos, ninguém teve tanto destaque quanto Pitágoras, cuja existência, para seus
seguidores, não refletia mais a imagem humana, mas
sim a de um deus. Pitágoras considerava o número
como o princípio formador do universo; no entanto,
acreditava que o número constituía-se do acordo entre um elemento indeterminado ou ilimitado e outro
determinante ou limitante e, a partir daí, tinham origem todas as coisas. A Escola Pitagórica considerava
os números ímpares como “masculinos” e os pares
como “femininos”, a partir da concepção de sua estrutura (REALE; ANTISERI, 2002).
Para os pitagóricos, a estruturação dos números
partia do pressuposto de que nos números pares predominava o elemento indeterminado, e nos ímpares
o elemento limitante. Por esse motivo, eles tinham
os números ímpares como perfeitos, pois, na sua distribuição, esses números sempre possuíam um elemento limitante. Os pitagóricos demonstraram esse
pensamento a partir de uma distribuição numérica,
conforme se pode ver mais claramente na Figura 3
a seguir:
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Figura 3 – Distribuição dos Números
Fonte: História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média (2002).
Em relação às formas geométricas, para esses
estudiosos, os números pares eram vistos como
“retangulares”, pelo motivo de que, se se dispusessem dois elementos num plano e, ao seu redor, se
acrescentassem quantidades pares de elementos,
obtinha-se um retângulo. Já os ímpares formavam
quadrados, resultado da repetição do mesmo procedimento anterior, porém, neste caso, utilizando-se
apenas um elemento e, ao seu redor, acrescentando-se quantidades ímpares. Podemos observar melhor
essa configuração nas Figuras 4 e 5 a seguir:
Figura 4 – Representação geométrica
dos números pares
Fonte: http://fepesp.org.br/artigos/a-escola-pitagorica (2010).
Figura 5 – Representação geométrica
dos números ímpares
Fonte: http://fepesp.org.br/artigos/a-escola-pitagorica (2010).
Pagina 7
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)O número 10 era considerado perfeito pelos pitagóricos, pois sua distribuição numérica, visualmente
organizada, formava um triângulo perfeito, tendo
em seus lados a mesma quantidade de elementos,
quatro para ser mais preciso, que eles chamavam de
a tetraktys, demonstrado na Figura 6:
Figura 6 – A Tetraktys
Fonte: http://obviousmag.org/archives/2006/08/perfeicao_divin_2.html
(2003).
Com o aprofundamento de suas teorias, os pitagóricos desenvolveram a ideia de que os números
originavam-se a partir de aglomerações de unidades, desenvolvendo, assim, a teoria dos números
figurados, que atribuía a cada número determinadas
características que os diferenciavam uns dos outros.
Eles observaram que os números figurados possuíam
distribuições poligonais bem definidas, chegando
a dividi-los da seguinte maneira, a saber: lineares,
planos ou (triangulares), quadrados, pentagonais,
hexagonais etc. Esses números eram obtidos a partir
de um processo de construção que tinha a seguinte
organização composicional, conforme nos mostra
Almeida (2003, p. 139):
1.
2.
3.
O primeiro número é sempre a unidade ou,
dito de outra maneira, a unidade é o princípio gerador desses números.
A unidade se subdivide de algum modo
(pela “inalação do vazio”?), gerando a primeira figura ou forma: triângulo, quadrado
ou pentágono. Essa primeira forma é o que
caracteriza o número: triangular, quadrado,
pentagonal, poligonal (plano), piramidal
(sólido) etc.
Essa forma, pela agregação de um gnômon,
gera o próximo número figurado.
Para os Pitagóricos, o crescimento gnomônico
dos números figurados se dava pelo acréscimo de
números ímpares a números quadrados. Com isso,
eles observaram que, após haver essa adição, os
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números quadrados mantinham suas características
iniciais de constituição inalteradas, ou seja, preservavam-se quadrados.
Continuando seus estudos sobre a teoria dos
números figurados, os pitagóricos observaram que,
além de uma distribuição poligonal, os números
apresentavam um crescimento espacial, utilizando
o princípio do crescimento gnomônico como base,
originando os números sólidos, sendo classificados,
de maneira distinta, da seguinte forma: piramidal, formado pela sobreposição de números triangulares (1,
3, 6,), por exemplo; os cúbicos, obtidos por meio de
três números iguais (2, 2, 2); os escalenos, compostos
por três números diferentes (1, 4, 7); e os paralelepipedais com formas variadas, adquiridos através das
expressões como n(n + 1), m2 (m + n), entre outras
maneiras (ALMEIDA, 2003).
A Escola Pitagórica afirmava que o número não
era apenas o elemento formador dos objetos físicos e
reais mas estava presente, também, na formação dos
seres vivos e do próprio homem, como os fenômenos
atmosféricos, os corpos celestes e os movimentos
que existiam e ganhavam forma devido aos números.
Durante muito tempo, alguns pitagóricos buscavam combinar a ideia das décadas com a dos
“contrários”, tendo assim contribuído grandemente
na cosmologia jônica. Exemplo dessas contribuições,
Aristóteles, um dos célebres pitagóricos, nos deixou
de legado a tábua dos dez contrários, na qual expressa de forma resumida os pensamentos acerca das
contrariedades por ela determinada, evidenciada a
seguir no Quadro 1:
Quadro 1 – Tábua dos dez contrários
1. Limitado – Ilimitado
2. Ímpar – Par
3. Um – Múltiplo
4. Direita – Esquerda
5. Macho – Fêmea
6. Parado – em Movimento
7. Reto – Curvo
8. Luz – Trevas
9. Bom – Mau
10. Quadrado – Retângulo
Fonte: História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média (2002).
Pagina 8
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)Nesse sentido, concordamos com Reale e
Antiseri (2002, p. 45) quando dizem:
Com os pitagóricos, o pensamento humano
realizou um passo decisivo: o mundo deixou de
ser dominado por obscuras e indecifráveis forças, tornando-se número, que expressa ordem,
racionalidade e verdade. Como afirma Filolau:
“todas as coisas que se conhecem têm número: sem este, não seria possível pensar nem
conhecer nada. (...) Jamais a mentira sopra em
direção ao número”.
As contribuições deixadas pelo pitagorismo para
nós vão muito além das simples concepções da ideia
de número, pois os pitagóricos estabeleceram correlações importantes entre os sólidos geométricos e os
quatro elementos, segundo Conte (2010, p.133):
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dando a entender que todos surgiam a partir de um
mesmo princípio formador que, para os pitagóricos,
era o número.
Sem sombra de dúvidas, o legado deixado por
Pitágoras e seus seguidores revolucionou a história
da humanidade. O Teorema de Pitágoras é considerado por muitos como a principal obra desse ilustre
pensador que mudou o mundo. A seguir, apresentamos a Equação 1, que representa esse teorema:
A² = B² + C²
(1)
Essa relação matemática expressa o Teorema de
Pitágoras, como mostram Santos et al. (2002, p. 136),
reproduzindo seu raciocínio: “Em todo triângulo retângulo, o quadrado da medida da hipotenusa é igual
à soma dos quadrados das medidas dos catetos”.
Outra importante contribuição da escola pitagórica
no campo da matemática foi o desenvolvimento do
triplo pitagórico. Um triplo de números naturais (x, y,
z) é considerado triplo pitagórico se forem atendidas
algumas exigências. É o que mostra a Equação 2:
O Tetraedro, ou pirâmide de quatro faces, é
a “forma geométrica” do Elemento FOGO.
O Hexaedro, ou cubo, ou ainda pedra cúbica, é a “forma geométrica” do Elemento
TERRA.
O Octaedro é a “forma geométrica” do
Elemento AR.
O Dodecaedro é a “forma geométrica” do
“Quinto Elemento”, que é o Éter dos alquimistas, o Akasha dos Hermetistas e a “Luz
Astral” dos ocultistas. Também denominado Esfera da Igualdade.
O Icosaedro é a “forma geométrica” da
ÁGUA.
O triplo (x, y, z) chama-se primitivo se o mdc
(máximo divisor comum) for igual a 1, como vemos
na expressão abaixo:
Apesar do entendimento de seus pares nessa
perspectiva, Pitágoras defendia a ideia de que os quatro elementos se originavam apenas da combinação
de dois deles, a TERRA e o FOGO, como Conte (2010,
p. 133) nos relata:
(4, 3, 5), (8, 6, 10), ..., (4n, 3n, 5n), ..., (12, 5,
13), (24, 10, 26), ..., (12n, 5n, 13n), ... São triplos
pitagóricos, sendo que (4, 3, 5) e (12, 5, 13) são
primitivos. Observação, com qualquer triplo pitagórico (x1, x2, x3) (primitivo) e qualquer n Є IN,
também (nx1, ny1, nz1) é um triplo pitagórico.
Para n > 1 estes últimos não são primitivos.
2.
3.
4.
5.
De acordo com esta concepção, a TERRA e o
FOGO são formados por 4/4 (uma unidade) de
sua própria natureza; a ÁGUA por três partes
de TERRA e uma de FOGO; o AR por três partes de FOGO e uma parte de TERRA.
Os sólidos geométricos utilizados pelos pitagóricos como fonte de representação dos elementos possuíam uma simetria muito peculiar entre si, de modo
que cada um se encaixava perfeitamente no outro
e, por fim, todos eram englobados por uma esfera,
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JOÃO PESSOA, Maio 2017
X² + Y² = Z²
(X, Y, Z) = 1
(2)
(3)
Vejamos alguns exemplos de triplos pitagóricos
retirados de Maier (2005, p. 53):
É preponderante ressaltar, portanto, que, no
pensamento pitagórico, os números não são puras abstrações ou simples signos, eles têm uma
dimensão material, fato que fez com que Pitágoras
os identificasse com os elementos geométricos elementares como: um-ponto, dois-linha, três-superfície
mínima, quatro-volume mínimo. É na correlação do
número com as coisas que se abre espaço para que
se construam modelos matemáticos de explicação da
natureza.
Pagina 9
Bekijk in PDF(opent in een nieuw venster)4 Considerações finais
Para além da doutrina da transmigração da alma
(ou metempsicose), cuja presença também se faz na
filosofia platônica, Pitágoras e os pitagóricos enfatizam nas suas investigações o conhecimento matemático como um instrumento de salvação que permite a
harmonia matemática tanto na ordem cosmológica
quanto na alma humana. Os pitagóricos tinham por
base que essa ordem cósmica era sustentada nas
relações numéricas e que os números possuíam um
caráter místico que harmonizava a alma e o universo.
As relações matemáticas do cotidiano fizeram os
pitagóricos considerarem o número como o princípio
(arché) originário de todas as coisas, visto que o número é a natureza mesma constituinte de todas as
realidades, daí a noção de que, para os pitagóricos,
tudo o que existe é considerado número.
Para tais estudiosos tudo se compõe a partir dos
opostos (limitado-ilimitado, par-ímpar, uno-múltiplo,
direita-esquerda, macho-fêmea, reto-curvo, luz-treva
etc.), por isso o número significa a harmonia dos contrários, uma vez que todos os números nada mais são
que uma unidade de elementos que se opõem. Desse
modo, todo o universo possui uma ordem cósmica
harmônica.
Conforme o pensamento pitagórico, o número,
por sua vez, originava-se a partir de aglomerações
de unidades, desenvolvendo, assim, a teoria dos
números figurados. Segundo essa teoria, atribuíam-se, a cada número, determinadas características
que os diferenciavam uns dos outros. Os números
figurados possuíam distribuições poligonais bem
definidas, chegando a serem divididos da seguinte
maneira: lineares, planos ou triangulares, quadrados,
pentagonais, hexagonais etc. As contribuições deixadas pelo pitagorismo, portanto, vão muito além das
concepções da ideia de número, já que os pitagóricos
estabeleceram correlações importantes entre os sólidos geométricos e os quatro elementos bem como
apresentaram uma visão de mundo que deixa de ser
dominado por obscuras e indecifráveis forças e passa
a ser número, isto é, ordem, racionalidade e verdade.
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Nº 33
CONTE, C. B. Pitágoras: Ciência e Magia na Antiga
Grécia. 4. ed. São Paulo: Editora Madras, 2010.
MAIER, R. R. Teoria dos Números:
Texto de Aula. Brasília: UnB, 2005.
SOUZA, J. C. de. Os pré-socráticos: Fragmentos,
Doxografia e Comentários. Tradução de SOUZA,
José Cavalcante; ALMEIDA, Anna Lia Amaral et
al. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1996.
REALE, G; ANTISERI, D. História da
Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 7.
ed. São Paulo: Editora Paulus, 2002.
SANTOS, C. A. M. et al. Matemática: Série Novo
Ensino Médio. 6. ed. São Paulo: Editora Ática, 2002.
Agradecimentos
Agradecimentos formais ao Instituto Federal de
Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba Campus
Cajazeiras – IFPB, aos professores do Curso de Licenciatura em Matemática e à coordenação de pesquisa
da referida instituição pelo apoio incondicional na
realização deste trabalho.
Referências
ALMEIDA, M. C. Platão Redimido: A Teoria
dos Números Figurados na Ciência Antiga e
Moderna. Curitiba: Editora Champagnat, 2003.