Tracos do pensamento pitagorico na medicina hipocratica

Author
Cairus, H.F.
Published in
UERJ: II Seminario de filosofia antiga
Year
2009
Subject
HIPPOCRATES
Language
Español
Category
C9 Medicine
Archive number
4995

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Haas Pi Tragos do pensamento pitagórico na medicina hipocratica’ Henrique F. Cairus (UFRJ) hcairus@ufrj.br Julieta Alsina (Mestranda~UFRJ) julieta.alsina@gmail.com Este texto visa a apresentar um pequeno acervo que fomos coletando no caminho de nossa pesquisa. Esse acervo ainda continua marginal para o nosso trabalho, mas, ainda que marginal, tornou-se imprescindivel, por ser a chave para a compreensäo de varios pontos cruciais na leitura dos textos da Coleçäo hipocrática. Trata-se de um inventário da presenga de ideias atribuidas a alguns pensadores pré-socráticos, especialmente aos pitagóricos. Os filósofos säo, por vezes, nomeados, o que nos serve como guia na elaboraçäo desse inventário, ainda que um guia insuficiente, cujas lacunas devem ser preenchidas pela percepçäo das convergências de ideias, mormente de ideias provenientes de perspectivas cosmogönicas. A elaboragäo desse inventärio, contudo, näo deve perder de vista que houve e hä uma certa fotuna critica que superestimou a relaçäo entre a medicina hipocrätica e a filosofia dita pré-socrática. Sem ousar subverter expectativas, comecemos por Alcmeon de Crotona. Diögenes Laércio (VIII, 83) afirma que o discurso de Alcmeon € mais médico do que aquele que seria de um fisiólogo. Ta mAeiota ye larpıka Aéyer, diz Diögenes Laércio. Mais do que isso, Diögenes afırma que “ele parece ter sido o primeiro a escrever um discurso fisico” (loc.cit.), opiniäo também compartilhada por Clemente de Alexandria (Stromateis, I, 78). Sabemos também, através de Galeno, que sua obra tinha por nome Peri physeos, titulo que, de resto, era comum entre os antigos. Ecio, por outro lado, oferece um breve testemunho da teoria do médico/fisiélogo de Crotona acerca da satide, teoria que veremos presente em todos os tratados do Corpus hippocraticum, sem excegäo: ‘Apresentado no III SEMINARIO DE FILOSOFIA ANTIGA (UERJ, 2009)

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Traços do pensamento pitagórico na medicina hipocrática1 Henrique F. Cairus (UFRJ) hcairus@ufrj.br Julieta Alsina (Mestranda-UFRJ) julieta.alsina@gmail.com Este texto visa a apresentar um pequeno acervo que fomos coletando no caminho de nossa pesquisa. Esse acervo ainda continua marginal para o nosso trabalho, mas, ainda que marginal, tornou-se imprescindível, por ser a chave para a compreensão de vários pontos cruciais na leitura dos textos da Coleção hipocrática. Trata-se de um inventário da presença de ideias atribuídas a alguns pensadores pré-socráticos, especialmente aos pitagóricos. Os filósofos são, por vezes, nomeados, o que nos serve como guia na elaboração desse inventário, ainda que um guia insuficiente, cujas lacunas devem ser preenchidas pela percepção das convergências de ideias, mormente de ideias provenientes de perspectivas cosmogônicas. A elaboração desse inventário, contudo, não deve perder de vista que houve e há uma certa fotuna crítica que superestimou a relação entre a medicina hipocrática e a filosofia dita pré-socrática. Sem ousar subverter expectativas, comecemos por Alcmeon de Crotona. Diógenes Laércio (VIII, 83) afirma que o discurso de Alcmeon é mais médico do que aquele que seria de um fisiólogo. Τὰ πλεῖστά γε ἰατρικὰ λέγει, diz Diógenes Laércio. Mais do que isso, Diógenes afirma que “ele parece ter sido o primeiro a escrever um discurso físico” (loc.cit.), opinião também compartilhada por Clemente de Alexandria (Stromateis, I, 78). Sabemos também, através de Galeno, que sua obra tinha por nome Perì phýseos, título que, de resto, era comum entre os antigos. Écio, por outro lado, oferece um breve testemunho da teoria do médico/fisiólogo de Crotona acerca da saúde, teoria que veremos presente em todos os tratados do Corpus hippocraticum, sem exceção: Apresentado no III SEMINÁRIO DE FILOSOFIA ANTIGA (UERJ, 2009)

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Alcmeon disse ser a constituição da saúde o equilíbrio das propriedades: do úmido, do seco, do frio, do quente, do amargo, do doce e dos restantes, e a monarquia entre eles produz doença, pois a monarquia de cada uma é o que causa destruição. Assim, a doença sobrevém por um lado quando há um excesso de calor ou de frio, ou de outras, quando devida à abundância ou à carência de um alimento, o que ocorre em partes como o sangue, a medula ou o cérebro. Essas partes podem ser também afetadas por causas externas, como certas qualidades de águas, certas regiões, pela fadiga ou por experimentar-se uma necessidade ou devido ao que lhes estiver perto. Mas ainda quanto à saúde, ela é a justa medida da mistura das qualidades. 2 Assim como pensara Anaximandro, para quem a tensão entre contrários resulta em uma díke3 – já que a prevalência de uma substância sobre outra é injustiça, adikía –, Alcmeon leva essa teoria ao corpo e à compreensão da saúde como um equilíbrio (isonomia) das propriedades que a compõem, enquanto a doença se configura como a monarquia de uma dessas propriedades. Os termos isonomia e monarquia marcam a aplicação de conceitos políticos à esfera física. É curioso notar, nesse fragmento, a inversão da concepção de pólis como um corpo, que viria a ser um tópos na historiografia de Tucídides (MOLLO, 1994). A face política do discurso que apologiza o meio termo e a justa medida tem sua mais ilustre expressão em Sólon, mas a palavra de Sólon era também a do poeta, e pertencia a um universo cultural onde o poeta, como lembra Detienne, detinha a memória-verdade. Não se deve olvidar que o μηδὲν ἄγαν era sobretudo uma inscrição depositada no oráculo de Delfos. Essa circunstância aferia mais valor a esse princípio do que poderia conferir-lhe a empiria que se apoderará do discurso grego 2 Ἀλκμαίων [ἔλεξε] τῆς μὲν ὑγιείας εἶναι συνεκτικὴν τὴν <ἰσονομίαν> τῶν δυνάμεων, ὑγροῦ, ξηροῦ, ψυχροῦ, θερμοῦ, πικροῦ, γλυκέος καὶ τῶν λοιπῶν, τὴν δ' ἐν αὐτοῖς μοναρχίαν νόσου ποιητικήν· φθοροποιὸν γὰρ ἑκατέρου μοναρχίαν. καὶ νόσον συμπίπτειν ὡς μὲν ὑφ' οὗ ὑπερβολῆι θερμότητος ἢ ψυχρότητος, ὡς δὲ ἐξ οὗ διὰ πλῆθος τροφῆς ἢ ἔνδειαν, ὡς δ' ἐν οἷς ἢ αἷμα ἢ μυελὸν ἢ ἐγκέφαλον. ἐγγίνεσθαι δὲ τούτοις ποτὲ κἀκ τῶν ἔξωθεν αἰτιῶν, ὑδάτων ποιῶν ἢ χώρας ἢ κόπων ἢ ἀνάγκης ἢ τῶν τούτοις παραπλησίων. τὴν δὲ ὑγείαν τὴν σύμμετρον τῶν ποιῶν κρᾶσιν. Aetius, V,xiv, 1; Alcmeon fr.4DK 3 Ἀ. ... <ἀρχὴν> .... εἴρηκε <τῶν ὄντων τὸ ἄπειρον .... ἐξ ὧν δὲ ἡ γένεσίς ἐστι τοῖς οὖσι, καὶ τὴν φθορὰν εἰς ταῦτα γίνεσθαι κατὰ τὸ χρεών· διδόναι γὰρ αὐτὰ δίκην καὶ τίσιν ἀλλήλοις τῆς ἀδικίας κατὰ τὴν τοῦ χρόνου τάξιν.> Anaximandro, fr.1DK

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a partir do V século. Nesse ponto, seria muito difícil discordar de Francis Cornford (1981), que em seu texto sobre o conhecimento empírico considera que a grande contribuição do Corpus hippocraticum para o pensamento ocidental foi a introdução do empirismo. A eficácia da justa medida comprovada pela observação sistemática e comparativa poderia comparar-se às verdades de Tirésias e dos τεκμήρια em Édipo Rei. O meio termo como um valor comprovável inaugura também a época dos valores suscetíveis de comprovação, na medida em que seu caráter político vai se firmando na cultura grega. Nos séculos V e IV a.C., o princípio de Alcmeon, tradução fisiológica do μηδὲν ἄγαν, ganhou vulto através dos textos das escolas médicas de Cós e Cnido. Platão refere-se a esse princípio no Banquete, no discurso do médico Erixímaco: “pois a medicina, para dizê-lo resumidamente, é um conhecimento do que há de erótico no corpo, em relação à repleção e à vacuidade”4. O par esvaziamento e repleção tem lugar de extremo valor na dietética, uma vez que codifica os efeitos das comidas e bebidas e da ginástica num movimento complementar de falta e excesso: ... pois os exercícios físicos e as comidas apresentam propriedades opostas entre si, mas se complementam com vistas à saúde. Porque os exercícios físicos produzem por natureza um gasto do acumulado, enquanto os alimentos e bebidas restauram o esvaziado5. Esse binômio, portanto, fundamenta a explicação dos processos fisiológicos básicos da dieta, que constituem o movimento alternado no qual se baseia o funcionamento saudável do corpo, de acordo com a proporção de ambos exercícios e alimentos (τὰς ξυμμετρίας τῶν πόνων πρὸς τὸ πλῆθος τῶν σιτίων). “ἔστι γὰρ ἰατρική, ἰατρική, ὡς ἐν κεφαλαίῳ εἰπεῖν, έπιστήμη τῶν τοῦ σώματος ἐρωτικῶν πρὸς πλησμονὴν καὶ κένωσιν” Banquete, 186c 5 Ὑπεναντίας μὲν γὰρ ἀλλήλοισιν ἔχει τὰς δυνάμιας σῖτα καὶ πόνοι, ξυμφέρονται δὲ ἀλλήλοισι πρὸς ὑγείην· πόνοι μὲν γὰρ πεφύκασιν ἀναλῶσαι τὰ ὑπάρχοντα· σιτία δὲ καὶ ποτὰ ἐκπληρῶσαι τὰ κενωθέντα. (Da dieta, I, 2)

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O médico tratadista do livro I do Da dieta, num estilo semelhante ao de Arquelau – para quem “a água por ação do quente quando se junta desce para a região mais baixa devido ao elemento ígneo, fazendo a terra, e no percurso, cria o ar”6 – afirma que os seres vivos, tanto o homem como todos os outros, estão constituídos por dois elementos, divergentes pela sua propriedade, convergentes pela sua utilidade (διαφόροιν τὴν δύναμιν, συμφόροιν τὴν χρήσιν): fogo e água. Ambos combinados são auto-suficientes frente a todos os outros e para si mesmos; mas cada um por si, separadamente, não é nada nem para si mesmo, nem para nenhum outro. Quanto à sua propriedade, cada um possui a seguinte: o fogo pode mover tudo por meio de tudo e a água, nutrir tudo a partir de tudo. 7 Os tratados do Corpus hippocraticum que apresentam uma parte polêmica – seja o Da medicina antiga, o Da doença sagrada, o Da natureza do homem, o Da arte ou o Da dieta – são especialmente interessantes para o estudo da relação entre a medicina grega e o mundo no qual ela estava inserida. Não é possível, por exemplo negligenciar-se os primeiros parágrafos do tratado Da natureza do homem, da lavra de Pólibo, genro e discípulo direto do próprio Hipócrates, quando se pretende averiguar a esfera de influência dos pensadores présocráticos, muito particularmente dos monistas: Quem costuma ouvir aqueles que falam sobre a natureza humana, além do que concerne à medicina, para ele, este discurso não é interessante de ser ouvido. Digo, pois, não ser o homem, por completo, nem ar nem fogo nem água nem terra nem nenhum outro elemento que não é 6 Diógenes Laercio, V, 42 Ξυνίσταται μὲν οὖν τὰ ζῶα τά τε ἄλλα πάντα καὶ ὁ ἄνθρωπος ἀπὸ δυοῖν, διαφόροιν μὲν τὴν δύναμιν, συμφόροιν δὲ τὴν χρῆσιν, πυρὸς λέγω καὶ ὕδατος. Ταῦτα δὲ ξυναμφότερα αὐτάρκεά ἐστι τοῖσί τε ἄλλοισι πᾶσι καὶ ἀλλήλοισιν, ἑκάτερον δὲ χωρὶς οὔτε αὐτὸ ἑωυτῷ οὔτε ἄλλῳ οὐδενί. Τὴν μὲν οὖν δύναμιν αὐτῶν ἑκάτερον ἔχει τοιήνδε· τὸ μὲν γὰρ πῦρ δύναται πάντα διὰ παντὸς κινῆσαι, τὸ δὲ ὕδωρ πάντα διὰ παντὸς θρέψαι (Da dieta I, 3)

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manifesto no interior do próprio homem. Mas deixo de lado aqueles que querem falar tais coisas. Certamente não me parece que os que dizem tais coisas as conheçam perfeitamente. Usam todos o mesmo juízo, e não dizem as mesmas coisas; mas desse juízo eles chegam à mesma conclusão. Dizem, pois, ser uno algo que existe, e ser este uno o uno e o todo, mas não concordam sobre os nomes. Diz um deles ser o ar o uno e o todo; o outro ser o fogo; o outro, a água; o outro, a terra. Cada um acrescentando ao próprio discurso testemunhas e provas que nada são. Quando, pois, todos utilizam o mesmo juízo, mas não dizem as mesmas coisas, é evidente que não as conhecem. [...] Parece-me, porém, que estes homens derrubam-se a si mesmos nos termos dos seus discursos, por inabilidade, e restabelecem o discurso de Mélissos. (NH, 1Littré) Galeno, no comentário ao tratado hipocrático Da natureza do homem (NHH, 29) explica que Mélissos acreditava haver uma única substância, indestrutível e não engendrada, sobre a qual se apoiam o quatro elementos. Segundo o médico de Pérgamo, Mélissos chama essa substância de “um e todo”. Esse esclarecimento de Galeno elucida a opção terminológica de Pólibo nessa passagem. Segundo ele, para este filósofo, o “uno” não era nenhum dos quatro elementos, mas outro, sem origem ou fim, que dá suporte aos demais. Nesse sentido, Pólibo teria tomado Mélissos como representante de todas as vertentes monistas. O mesmo fez Isócrates: Houve um que pretendeu que os elementos fossem em número infinito: Empédocles, que eles são quatro, com o ódio e o amor entre eles; Íon, que eles não mais do que três; Alcmeon, dois somente; Mélissos, um, e Górgias, absolutamente nenhum.8 Não por acaso, também o autor do tratado Da medicina antiga cita o filósofo Empédocles de Agrigento, cuja teoria dos quatro elementos parece ter eco em muitos aspectos da medicina hipocrática: Da permuta, 268

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O discurso daqueles refere-se à filosofia como a de Empédocles ou de outros que escreveram a respeito da phýsis, de um princípio, sobre o que é o homem, como foi formado e de que elementos ele se constitui9 Dessa passagem, pode-se inferir principalmente que a Escola Hipocrática conhecia aquele pensador, e essa certeza revela nitidamente o intercâmbio entre as ideias da Escola médica e as do filósofo: As carnes nascem da mistura em partes iguais dos quatro elementos: os nervos, do fogo e da terra misturados ao dobro de água; as unhas, nos seres vivos, nascem com o ar; os ossos são formados de uma mistura de duas partes de água e de terra, adicionadas, no interior da terra, de quatro partes de fogo; o suor e as lágrimas advém da liquefação do sangue tornado mais fluido pelo aumento da sua tenuidade. (DK A 78) Mas não é essa teoria de Empédocles a que se verá expressa no Da natureza do homem, porém não se pode negligenciar a afinidade entre o fragmento e a tese de Pólibo. É irrefutável que o filósofo de Agrigento tenha sido influente na teoria dos quatro humores, que, no tratado, são, tal qual as rhízai10 de Empédocles, modulados pelos estados físicos úmido, seco, quente e frio. Galeno percebera a infiltração da filosofia de Empédocles no tratado hipocrático Da natureza do homem, sobre o qual declara: Hipócrates foi o primeiro, pelo que sabemos, a dizer que os elementos são misturados. (...) Nisto difere de Empédocles. De fato, este afirma que fomos engendrados dos mesmos elementos dos quais fala Hipócrates, nós assim como tudo que há sobre a terra, não uma mistura 9 Τείνει δὲ αὐτέοισιν ὁ λόγος ἐς φιλοσοφίην, καθάπερ Ἐμπεδοκλῆς ἢ ἄλλοι οἳ περὶ φύσιος γεγράφασιν ἐξ ἀρχῆς ὅ τί ἐστιν ἄνθρωπος, καὶ ὅπως ἐγένετο πρῶτον καὶ ὅπως ξυνεπάγη. Da medicina antiga, 20Littré 10 Empédocles (fr DK A 29) chama os quatro elementos de rhízai, donde teriam surgido todas as coisas. Cada rhíza, segundo o fragmento citado, tem por atributo dois estados físicos. Assim, por exemplo, o úmido e o frio são atributos da água

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total recíproca, mas por justaposição e por contato. (NHH, XV, 49) Já o autor do tratado Da natureza do homem, ao apresentar a conhecida teoria dos quatro humores, é categórico ao afirmar: O corpo do homem contem sangue, fleuma, bile amarela e negra, esta é a natureza do corpo, através da qual adoece e tem saúde. Tem saúde precisamente quando estes humores são harmônicos em proporção, em propriedade e em quantidade, sobretudo quando são misturados. O homem adoece quando há falta ou excesso de um desses humores, ou quando ele se separa no corpo e não se une aos demais. (NH, 4Littré)11 A quantidade dos quatro humores varia de acordo com a oscilação, no ambiente, desses estados físicos. Afirma o médico tratadista que o fleuma, frio e úmido, predomina no inverno; o sangue, quente e úmido, na primavera; a bile amarela, quente e seca, no verão; e a bile negra, fria e seca, no outono (NH, 7). A tese da predominância de um ou outro humor numa determinada estação do ano tem, também, curiosa ligação com as ideias de Empédocles. Pólibo chega mesmo a exemplificar a teoria lembrando como uma planta retira da terra aquilo que for mais de acordo com a sua natureza constitutiva. No fragmento de Empédocles, podem-se notar os primeiros sinais dessa tese, notadamente no fragmento DK A 90: “O doce atrai o doce; o amargo se enlaça no amargo; o acre encontrará o acre; o ardente arranca o ardente”12. Diferente de Empédocles, para Anaxágoras de Clazómenas, a percepção não é dada pelos semelhantes, mas pelos contrários, condição que condiz com muitos dos 11 Τὸ δὲ σῶμα τοῦ ἀνθρώπου ἔχει ἐν ἑωυτῷ αἷμα καὶ φλέγμα καὶ χολὴν ξανθήν τε καὶ μέλαιναν, καὶ ταῦτ' ἐστὶν αὐτέῳ ἡ φύσις τοῦ σώματος, καὶ διὰ ταῦτα ἀλγέει καὶ ὑγιαίνει. Ὑγιαίνει μὲν οὖν μάλιστα, ὁκόταν μετρίως ἔχῃ ταῦτα τῆς πρὸς ἄλληλα κρήσιος καὶ δυνάμιος καὶ τοῦ πλήθεος, καὶ μάλιστα μεμιγμένα ᾖ· ἀλγέει δὲ ὁκόταν τι τουτέων ἔλασσον ἢ πλέον ᾖ ἢ χωρισθῇ ἐν τῷ σώματι καὶ μὴ κεκρημένον ᾖ τοῖσι ξύμπασιν. ὣς γλυκὺ μὲν γλυκὺ μάρπτε, πικρὸν δ' ἐπὶ πικρὸν ὄρουσεν, ὀξὺ δ' ἐπ' ὀξὺ ἔβη, αερὸν δ' ἐποχεῖτο δαηρῶι.

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escritos hipocráticos, principalmente com algumas passagens do Da dieta e do Perì tékhnes. Teofrasto, no seu tratado Sobre a percepção diz que Anaxágoras pensa que a percepção é por contrários, pois o semelhante não é afetado pelo semelhante (...), uma coisa que é igualmente quente ou fria nem esquenta, nem esfria, e nem mesmo reconhecer o doce ou o acre pelos seus semelhantes, mas é pelo calor que reconhecemos o frio e pelo salgado, o bebível, o doce pelo amargo, em função da deficiência de cada um. Todas as percepções são acompanhadas de dor, pois diz que tudo já está presente em nós (...) e tudo que não é semelhante produz dor pelo contato; e a presença dessa dor torna-se clara, ou por uma duração muito longa ou por um excesso de sensação.13 Numa postura não tão semelhante à de Anaxágoras, mas que mesmo assim deixa entrever algumas ideias do filósofo, o autor do Da natureza do homem diz: Além dessas coisas, é preciso saber também isto: que as doenças que a repleção engendra, a evacuação as cura; as doenças que surgem pela evacuação, a repleção as cura; as que são oriundas do exercício, a pausa cura, e as que são geradas pela inércia, cura-as o exercício. Para resumir: o médico deve pôr-se em oposição às constituições das doenças, às características físicas, às estações e às idades, e relaxar o que estiver tenso, e retesar o que estiver relaxado. Pois, assim, o sofrimento cessaria de fato, e parece-me ser isto a cura. “Pois tudo é semelhante sendo distinto, concorda não concordando, possui razão, não tendo razão. Oposta é a direção de cada uma das coisas, completando-se entre si. Pois nómos e phýsis, através dos quais obtemos tudo, não concordam concordando”14 continua o autor do Da dieta, quanto à tensão e complementação 13 Sobre a percepção, 27-28. Πάντα γὰρ ὅμοια, ἀνόμοια ἐόντα· καὶ σύμφορα πάντα, διάφορα ἐόντα· διαλεγόμενα, οὐ διαλεγόμενα· γνώμην ἔχοντα, ἀγνώμονα· ὑπεναντίος ὁ τρόπος ἑκάστων, ὁμολογούμενος. Νόμος γὰρ καὶ φύσις, οἷσι πάντα διαπρησσόμεθα, οὐχ ὁμολογέεται ὁμολογεόμενα· Da dieta, I, 11.

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entre os opostos, cujo maior exemplo talvez seja o par nómos-phýsis, que remete a um argumento suspeitamente retórico de uma oposição humano-divino. Quanto à percepção visual, o tratado Perì tékhnes apresenta ecos da bem conhecida sentença do filósofo de Clazómenas ‘ὄψις γὰρ τῶν ἀδήλων τὰ φαινόμενα’ [pois o invisível se manifesta através do visível ], quando coloca em questão a ação do médico diante da impossibilidade de ver com os olhos os sinais, sintomas ou sémata, das doenças que são dýsopta, isto é, de difícil percepção, uma vez que não existe doença que não apresente sinais, e recorre, mais uma vez, ao exame minucioso através das funções congitivas dos outros sentidos, justificando: Pois certamente nenhuma das coisas ditas se pode conhecer por vê-las com os olhos; portanto, eu mesmo chamei de invisíveis estas coisas e assim foram julgadas pela tékhne, não que por serem invisíveis fossem dominantes, mas foram submetidas até onde foi possível. É possível, na medida em que as naturezas dos doentes admitam serem examinadas e as dos que investigam tenham a disposição de serem investigadas. Pois se com os olhos as víssemos, as conheceríamos só depois de muito esforço e de muito tempo; uma vez que as coisas que fogem ao exame dos olhos são submetidas ao exame através da inteligência.15 Nesse aspecto, o Da medicina antiga proclama que o métron do saber médico tem que ser a “sensação do corpo” (aísthesis toû sómatos) do paciente, (1Littré, 588-590) o que se revela como um critério determinante no processo de diagnose. A “aísthesis toû sómatos” nesta passagem é em geral entendida como uma ‘inversão do conceito de aísthesis, que é liberado do estigma de subjetividade e convertido em critério científico objetivo’ (Diller, 1952 apud Schiefsky, 2005, p.47), o que poderia ser entendido como indício de um ‘desapassivamento’ do sentir, em detrimento da concepção de aísthesis como um páskhein, ligada mais a uma reação do corpo do paciente (aos alimentos ou mesmo às sensações, como propõe Da arte, 11

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Anaxágoras), mas um sentir ativo, se relacionado à iatrikè tékhne e à diánoia do médico para detectar as doenças. A partir do século XIX, com a descoberta do Anônimo de Londres, que continha uma diminuta parte da 'enciclopédia' no Liceu aristotélico – provavelmente de autoria de um discípulo direto de Aristóteles, Mênon – foi possível lançar luzes sobre as idéias médicas de pensadores que até então não tinham sido relacionados com essa temática. Dentre estes, vale destacar Hípon de Samos e Filolau de Crotona, ambos fortemente influenciados por Pitágoras. O primeiro, monista, possivelmente influenciado por Tales16 De acordo com Anônimo de Londres, “Hípon, o crotoniense, opina que existe em nós uma umidade natural, através da qual sentimos e por meio da qual vivemos. Quando essa umidade existe, o animal vive, mas quando essa umidade é consumida, o animal morre” 17. Essa concepção de Hípon de Crotona está bastante afinada com a idéia hipocrática de que vida está ligada à presença do úmido. Tal convergência pode levantar alguma hipótese de influência, mas ainda é pouco para confirmá-la. Outro filósofo nomeado pelo Anônimo de Londres é, como já dito, Filolau de Crotona, cujas idéias médicas podiam ser, até então, quando muito, supostas. A partir desse testemunho, conhece-se o seu interesse por questões relacionadas à fisiologia e à medicina, num escrito de embriologia, ao estilo da tradição dos escritos médicos. Segundo o texto: Filolau de Crotona sustenta a opinião de que os corpos se compõem do quente, pois eles não participam do frio, sendo este o seu raciocínio a partir de considerações como as seguintes: o esperma é quente, e é o esperma que produz a coisa viva, e o lugar em que ele é depositado é, como ele, quente; e aquilo que é semelhante a alguma coisa tem o mesmo poder que aquilo a que se assemelha. Visto que, portanto, o fator produtivo não participa no frio, e que, também, o lugar em que é depositado não participa do frio, é claro que a coisa viva produzida também há de ser da mesma 16 É o que parece denunciar o lugar central que ocupa a água em seu pensamento. v. DELATTRE Anonymus Londinensis, 11,12

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natureza. (...) Imediatamente após o nascimento, a coisa viva inspira o ar do exterior, que é frio; e então por necessidade, expele-o de novo. Este desejo do ar exterior surge, para que, como resultado da inalação do ar, nossos corpos, que por natureza são demasiado quentes, possam ser refrescados por ele.18 Em postura análoga, o capítulo 10 do tratado Da dieta afirma, quando se refere à geração do embrião, que O fogo que está no interior é o mais abundante e consegue fazer uma passagem mais ampla, porque o úmido é ali mais abundante, e isso é o que chamamos de ventre. Dali saiu para fora, uma vez que fica sem alimento, e criou os dutos para o ar respirado e para a obtenção e distribuição de alimentos Quanto às doenças, sabe-se que elas eram causadas por três humores: o sangue, a bile e o fleuma, e elas aconteciam pelo excesso ou pela falta de calor, nutrição e frio. Sua concepção da natureza do homem devia relacionar-se com a sua teoria cosmológica segundo a qual o fogo ocupava o centro do universo, sendo ele um princípio diretor. A relação dessas teorias biológicas com sua hipótese fundamental que consistia em explicar o mundo pela harmonia de dois princípios contrários, o limitado e o ilimitado. Porém ecos dessa teoria podem ser percebidos em diversas passagens do livro I do tratado Da dieta. Este texto tem apenas por intuito apresentar um breve inventário de algumas das inúmeras ideias filosóficas na medicina hipocrática. Dizemos breve inventário, pois certamente seria tarefa de outro porte fazer um levantamento de todas as ideias que possam ser percebidas naqueles textos, já que escritos numa época em que o trânsito de saberes conhecia fronteiras muito particulares, ora muito tênues, ora aparentemente rígidas. Anonymus Londinensis, XVIII, 8 (DK 44 A 27)

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Bibliografia Exceto os textos do Corpus hippocraticum, os textos gregos utilizados neste trabalho foram retirados do CD-ROM Thesaurus Linguae Graecae (http://www.tlg.uci.edu/). ARISTÓTELES. Problema XXX, 1: O homem de gênio e a melancolia . Introdução, tradução e notas de Jackie PIGEAUD. Rio de Janeiro: Lacerda, 1998. CAIRUS, Henrique Fortuna. O vocabulário fisiológico do tratado hipocrático Da natureza do homem. Dissertação de Mestrado em Letras Clássicas. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1994. ________ & RIBEIRO Júnior, Wilson A. Textos hipocráticos: o doente, o médico, a doença. Rio de Janeiro: Ed.Fiocruz, 2005 ________. Os limtes do sagrado na nosologia hipocrática. Tese de Doutorado em Letras Clássicas. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1999. CORNFORD, F. Principium sapientiae: as origens do pensamento grego. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1989. DELATTRE, Daniel. Les pythagoriciens rédents. In: DUMONT, Jean-Paul (ed.). Les présocratiques. Paris: Gallimard, 1988. DETIENNE, M. Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988. FRIAS, I. Doença do corpo, doença da alma: medicina e filosofia na Grécia clássica. São Paulo: Loyola, 2005. GIL, Luis. Therapeia: La medicina popular en el mundo clásico. Madrid: Guadarrama, 1969.

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OEUVRES complètes d'Hippocrate. Traduction, introduction et notes philologiques par Émile LITTRÉ. Paris, Academie Royale de Médecine, tomo I, 1839; tomo II, 1840; tomo IV, 1844; tomo VI, 1849; tomo VII, 1851; tomo VIII, 1853; tomo IX, 1861a; tomo X, 1861b. PELLEGRIN, Pierre. Médecine hippocratique et philosophie. HIPPOCRATE. De l’art médical . Paris: Le livre de poche, 1994. pp.14-40.