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CORNE Li,
Le NÀ
Os nümeros e a natureza do mundo no pitagorismo antigo
Autor(es):
Cornelli, Gabriele
Publicado por:
Imprensa da Universidade de Coimbra
URL
persistente:
tin:
URI:http://hdl.handle.net/10316.2/29940
DOI:
DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0744-3_2
Accessed :
24-Apr-2014 21:34:59
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Autor(es):
Cornelli, Gabriele
Publicado por:
Imprensa da Universidade de Coimbra
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URI:http://hdl.handle.net/10316.2/29940
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DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0744-3_2
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View in PDF(opens in a new window)CONFERÊNCIAS
& DEBATES
INTERDISCIPLINARES
ESPAÇOS DO
PENSAMENTO
CIENTÍFICO DA
ANTIGUIDADE
CARMEN SOARES
COORDENAÇÃO
IMPRENSA DA
UNIVERSIDADE
DE COIMBRA
COIMBRA
UNIVERSITY
PRESS
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View in PDF(opens in a new window)CONFERÊNCIAS & DEBATES INTERDISCIPLINARES corresponde
a uma coleção destinada a promover a missão prioritária do Instituto de
Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, a saber: estimular a
investigação avançada, incentivando o cruzamento fértil entre áreas de saber
e a agregação de equipas, no sentido de garantir capacidade de airmação
internacional da investigação cientíica da Universidade de Coimbra.
Os volumes que a integram abordam temáticas diversas, unidas por um
denominador comum: o diálogo entre diferentes domínios cientíicos.
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Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra (IIIUC)
Imprensa da Universidade de Coimbra
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CORPO EDITORIAL
A mílcar Falcão (Diretor do IIIUC)
Carmen Soares (Subdiretora do IIIUC)
João Malva (Subdiretor do IIIUC)
C ONCEPÇÃO GRÁFICA
António Barros
I NFOGRAFIA DA C APA
Carlos Costa
P AGINAÇÃO
Nelson Henriques
E XECUÇÃO GRÁFICA
Simões & Linhares
ISSN
2183-1610
ISBN
978-989-26-0743-6
ISBN D IGITAL
978-989-26-0744-3
DOI
http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0744-3
D EPÓSITO LEGAL
O BRA PUBLICADA COM O APOIO DE :
© D EZEMBRO 2013, I MPRENSA DA U NIVERSIDADE DE C OIMBRA
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PENSAMENTO
CIENTÍFICO DA
ANTIGUIDADE
CARMEN SOARES
COORDENAÇÃO
IMPRENSA DA
UNIVERSIDADE
DE COIMBRA
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UNIVERSITY
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View in PDF(opens in a new window)OS NÚMEROS E A NATUREZA DO MUNDO
NO PITAGORISMO ANTIGO
Numbers and the nature of the world
in ancient pythagoreanism
Gabriele Cornelli
Universidade de Brasília
RESUMO
A pergunta “Tudo é número?”, que intitula significativamente o célebre artigo de Zhmud
na revista Phronesis de 1989 (“All is number?”), inaugura uma contestação do testemunho
aristotélico central para a historiografia do pitagorismo, segundo a qual “tudo é número” seria
a definição fundamental da filosofia pitagórica. Tarefa esta não certamente fácil, especialmente
quando se considera que tanto a história da filosofia antiga quanto aquela da matemática
antiga não pareceram ter muitas dúvidas, até então, em relação a essa mesma atribuição.
O presente ensaio deseja submeter a revisão crítica a afirmação aristotélica pela qual os
pitagóricos acreditariam tudo ser número”. Nossa análise das várias passagens e maneiras
pelas quais Aristóteles afirma isso revelará, para além de meras variantes semânticas, uma
contradição teor ética fundamental que o próprio Aristóteles parece incapaz de resolver.
Três diferentes versões da doutrina estão, de fato, presentes na doxografia aristotélica: a)
uma identificação dos números com os objetos sensíveis; b) uma identificação dos princípios
dos números com os princípios das coisas que são; c) uma imitação dos números pelos
objetos reais. Enquanto as versões a) e c) revelaram clara intenção polêmica de Aristóteles
contra a militância platônica pela causa formal, a versão b), dos números como causas
formais da realidade, demonstra ser uma reconstrução aristotélica da tese pitagórica. A
esta reconstrução Aristóteles teria sido levado de um lado pela dificuldade de aceitar a
noção pitagórica material de número, por outro lado, por considerá-la mais próxima à sua
sensibilidade, fortemente marcada pela recepção dessa mesma teoria em âmbito acadêmico.
PALAVRAS-CHAVE: Filosofia Antiga, Pitagorismo, Aristóteles, Números.
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/978-989-26-0744-3_2
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View in PDF(opens in a new window)ABSTRACT
The question, “All is number?”, signiicantly the title of Zhmud’s 1989 article in Phronesis,
opens a challenge to the extremely important Aristotelian testimony that “all is number”
was the fundamental deinition of Pythagorean philosophy. Such a challenge is anything but
easy, especially when one considers that, so far, the histories of both ancient philosophy
and ancient mathematics seemed to have no doubts that this deinition was correct. This
paper aims to submit Aristotle’s claim that the Pythagoreans believed that “all is number” to
critical review. Our analysis of the many ways that Aristotle states the thesis “all is number”
will reveal, beyond merely semantic variations, a fundamental theoretical contradiction that
Aristotle himself seems incapable of solving. Three different versions of the doctrine are in
fact present in the Aristotelian doxography: a) an identiication of numbers with the sensible
objects; b) an identiication of the principles of numbers with the principles of things that
are; c) an imitation of objects by numbers. While versions a) and c) seem to identify numbers with the material cause of reality, in terms (“imitation”) reminiscent of Plato, version
b), numbers as formal causes of reality, is an Aristotelian reconstruction of the Pythagorean
theory. Aristotle would have been pushed to such a reconstruction by the dificulty he found
in accepting the Pythagorean material notion of number, and by considering it closer to its
sensitivity, strongly marked by the reception of that same theory in the Academic realm.
KEY-WORDS: Ancient Philosopophy, Pythagoreanism, Aristotle, Numbers..
O R E S U M O DA F I L O S O F I A P I TAG Ó R I C A P O R P O R F Í R I O :
U M A AU S Ê N C I A S I G N I F I C AT I VA
Porfírio resume em poucas linhas aquelas que a tradição passará a considerar como as doutrinas centrais do Pitágoras histórico.1 Seu resumo é mais
signiicativo por aquilo que deixa de mencionar do que pelo que ele cita:
Algumas das afirmações [de Pitágoras] ganharam notoriedade praticamente geral: 1) afirma que a alma é imortal; 2) que transmigra em outras
espécies de seres vivos; 3) que, periodicamente, o que já aconteceu uma
vez volta a acontecer, e nada é absolutamente novo; e 4) que todos os
1 O presente ensaio constitui-se de uma revisão de uma parte do capítulo quarto de
meu livro O pitagorismo como categoria historiográfica (Coimbra, 2011). A pesquisa da qual
esse resultou foi apoiada pela CAPES/Ministério da Educação/Brasil (Projeto 18218 12 1).
Page 11
View in PDF(opens in a new window)seres animados devem ser considerados como do mesmo gênero. Ao que
parece foi mesmo Pitágoras a introduzir pela primeira vez estas crenças
na Grécia (Porph. VP: 19). 2
De fato, no bojo dessas doutrinas apontadas como originárias, não
aparece nenhuma referência à matemática ou à teoria astronômica, por
exemplo, ou mesmo à cosmologia e à política, que têm, ao contrário,
papel fundamental para a definição do pitagorismo em outros estratos
da tradição. A ausência é ainda mais significativa quando se pensar que
a tradição remonta provavelmente já ao pupilo de Aristóteles Dicearco.3
Ela sugere a necessidade de uma consideração mais atenta da história da
atribuição ao pitagorismo antigo de uma teoria matemática ou de alguma
relação com o estudo dos números. 4
Longe da confiança que Zeller depositava na possibilidade de resumir
as doutrinas do pitagorismo na teoria pela qual o número seria a essência
de todas as coisas (junto com as doutrinas da harmonia, do fogo central
e das esferas), todas elas significativamente presentes nos fragmentos
de Filolau, a crítica contemporânea submeteu a uma profunda revisão
o pretenso dogma aristotélico pelo qual, no pitagorismo, “tudo é número”. A tradição interpretativa, certamente encabeçada em tempos mais
2 Orig.: μάλιστα μέντοι γνώριμα παρὰ πᾶσιν ἐγένετο πρῶτον μὲν ὡς ἀθάνατον εἶναι φησὶ τὴν
ψυχήν, εἶτα μεταβάλλουσαν εἰς ἄλλα γένη ζῴων, πρὸς δὲ τούτοις ὅτι κατὰ περιόδους τινὰς τὰ γενόμενά
ποτε πάλιν γίνεται, νέον δ’οὐδὲν ἁπλῶς ἔστι, καὶ ὅτι πάντα τὰ γινόμενα ἔμψυχα ὁμογενῆ δεῖ νομίζειν.
φέρεται γὰρ εἰς τὴν Ἑλλάδα (Porph. VP: 19).
3 Burkert (1972: 122-123), apesar da resistência por parte tanto de Rathmann (1933:
3ss.) como de Wehrli, que não acolhe o capítulo 19 de em seu volume dedicado a Dicearco
(Wehrli 1944), segue a tradição desta atribuição que conta com a anuência de Rohde (1871:
566), Burnet (1908: 92), Lévy (1926: 50), Zeller e Mondolfo (1938: 314). E acrescenta argumentos francamente convincentes, fundamentados no tom cético que a passagem deixa
transparecer e que não pode certamente sem atribuído ao crente Porfírio: deverá sem mais
plausivelmente criação de Dicearco, cético pupilo de Aristóteles, que em outros fragmentos
revela o mesmo ceticismo e ironia: este afirma, por exemplo, que alma seria uma simples
palavra (fr. 7 Wehrli) e que Pitágoras teria sido, no passado, uma bela cortesã (fr. 36 Wehrli). A passagem foi incluída como fr. 40 na mais recente edição de Dicearco por Mirhady
(Fortenbaugh & Schütrumpf 2001).
4 Não é acaso, de fato, que diversos comentadores já clássicos se deram conta da importância dessa passagem para reposicionar teoreticamente as origens da filosofia pitagórica
em estreita conexão com as temáticas ético-religiosas. Cf. para isso De Vogel (1964: 16) e
Guthrie (1962: 186).
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View in PDF(opens in a new window)recentes por Frank (1923), acostumou-se a considerar toda a matemática
pitagórica como uma invenção acadêmica, posterior, portanto, aos mesmos
fragmentos de Filolau, que devem, eles mesmos, ser considerados espúrios. A influência do ceticismo de Frank é tamanha ao ponto de alguém
como Cherniss (1935), que diverge dele na concepção fundamental do
valor a ser atribuído ao testemunho de Aristóteles, concordar, ao invés,
neste ponto com o primeiro.
O consenso dos comentadores é especialmente impressionante quando
diz respeito àquele que consideramos como um dos loci fundamentais
desse debate, isto é, o valor a ser conferido aos fragmentos de Filolau:
Os fragmentos atribuídos a Filolau são certamente espúrios, por eles
conterem elementos que não podem ser mais antigos que Platão. Erich
Frank reuniu as evidências contra os fragmentos; e, apesar de sua própria teoria sobre suas origens e a conclusão de argumentos certamente
muito fracos [...], sua análise torna supérfluo ter de recomeçar o devastante caso contra eles (Cherniss 1935: 386). 5
Mais recentemente, a posição de Frank, e da grande maioria dos comentadores, recebeu profunda revisão crítica, por parte de autores como
Burkert (1972: 238-277) e Kirk, Raven e Schofield (1983: 324).
Especialmente significativos, nesse sentido, são os esforços de Huffman,
tanto em seu artigo de 1988 quanto, especialmente, em sua monografia
inteiramente dedicada a Filolau e aos problemas da autenticidade de
seus fragmentos (1993): a primeira inteiramente dedicada ao filósofo de
Crotona depois da monografia de Boeckh de 1819.6 Essa revisão abre
5 Orig.: The fragments attributed to Philolaus are surely spurious, since they contain
elements that cannot be older than Plato. Erich Frank has gathered the evidence against the
fragments; and, apart from his own theory as to their origin and his conclusion of certain
very weak arguments […] his analysis makes it superfluous to restate the overwhelming
case against them.
6 Para uma geral concordância dos comentadores com o ceticismo de Frank, cf., entre
outros, Burnet (1908: 279-284) e Lévy (1926: 70ss.). Não é certamente o caso de concordar,
portanto, com Spinelli (2003; 145 n345), quando “despacha” a questão da autenticidade dos
fragmentos desta forma: “apesar do muito que já se escreveu a favor e contra eles, toda a
Page 13
View in PDF(opens in a new window)novas perspectivas hermenêuticas e, junto com os recentes estudos de
(1989; 1997 e agora 2012 e 2013), representa uma pedra angular para a
definição do lugar da matemática na construção da tradição pitagórica. 7
T R Ê S V E R S Õ E S DA D O U T R I N A P I TAG Ó R I C A D O S N Ú M E R O S
A pergunta “Tudo é número?”, que intitula significativamente o célebre
artigo de Zhmud na revista Phronesis de 1989 (“All is number?”), inaugura
uma contestação do testemunho aristotélico central para a historiografia do pitagorismo, segundo a qual “tudo é número” seria a definição
fundamental da filosofia pitagórica. 8 Tarefa esta não certamente fácil,
especialmente quando se considera que tanto a história da filosofia antiga
quanto aquela da matemática antiga não pareceram ter muitas dúvidas,
até então, em relação a essa mesma atribuição. 9
E os motivos para tal confiança aparentemente não faltam. Com efeito,
em Aristóteles, a atribuição da doutrina do “tudo é número” aos pitagóricos
recorre diversas vezes e acaba por resumir aquela que é a interpretação
aristotélica do pitagorismo.
Aristóteles afirma repetidamente que:
“Pensavam serem os elementos dos números os elementos de todas
as coisas
argumentação se encontra exposta, de um modo adequado, somente nos trabalhos de três
tratadistas”: Bywater, Frank e Mondolfo.
7 A bem da verdade, é o caso de ressaltar que o próprio Frank teria em seguida amenizado, em seus escritos sucessivos, uma posição que, por seu ceticismo extremo e, de
certa forma, paralisador, não resistiu às críticas dos outros comentadores. De fato, em
1955, deverá admitir que it can hardly be doubted that Pythagoras was the originator of
this entire scientific development: he was a rational thinker rather than an inspired mystic
(1955: 82). Não obstante, em sua resenha do livro de Von Fritz sobre a política pitagórica,
sua verve cética ainda aparece fortemente presente (Frank 1943).
8 Ainda que algumas sugestões nesse sentido já haviam sido formuladas por Huffman
(1988), em seu artigo sobre o papel do número na filosofia de Filolau, as observações
não foram declaradamente recebidas no artigo de Zhmud (1989: 292 n62), pois este foi
desenvolvido paralelamente ao artigo do primeiro.
9 Cf. para as citações, Heath (1921: 67), Guthrie (1962: 229ss.), Huffman (1988: 5 e 1993: 57).
Page 14
View in PDF(opens in a new window)e que a totalidade do céu é harmonia e número” (Met. 986a3). 10
“Os números, conforme dissemos, correspondem à totalidade do céu”
(Met. 986a21). 11
“Eles dizem que os números são as próprias coisas” (Met. 987b28). 12
“Aqueles [filósofos] dizem que as coisas são número” (Met. 1083b17).13
“Fizeram os números serem as coisas que são” (Met. 1090b23). 14
Aristóteles, assim, por seis vezes, faz os pitagóricos airmarem que a realidade como um todo (tá ónta, tón ólon oûranon, tá prágmata) “é número”.
Em contrapartida, por outras sete vezes, Aristóteles parece sugerir que
os pitagóricos digam algo levemente distinto:
“Não há outro número além do número pelo qual está constituído o
mundo” (Met. 990a21). 15
“Também para os pitagóricos só existe o número matemático: mas
eles afirmam que este não é separado e que, antes, é dele que se sustentam as coisas sensíveis, pois eles constroem o céu inteiro com números”
(Met. 1080b16-19). 16
“É impossível afirmar que [...] os corpos são feitos de números” (Met.
1083b11). 17
10 Orig.: τὰ τῶν ἀριθμῶν στοιχεῖα τῶν ὄντων στοιχεῖα πάντων ὑπέλαβον εἶναι, καὶ τὸν ὅλον
οὐρανὸν ἁρμονίαν εἶναι καὶ ἀριθμόν (Met. 986a3).
11 Orig.: ἀριθμοὺς δέ, καθάπερ εἴρηται, τὸν ὅλον οὐρανόν (Met. 986a21).
12 Orig.: οἱ δ› ἀριθμοὺς εἶναί φασιν αὐτὰ τὰ πράγματα (Met. 987b28).
13 Orig.: ἐκεῖνοι δὲ τὸν ἀριθμὸν τὰ ὄντα λέγουσιν (Met. 1083b17).
14 Orig.: εἶναι μὲν ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ ὄντα (Met. 1090b23).
15 Orig.: ἀριθμὸν δ› ἄλλον μηθένα εἶναι παρὰ τὸν ἀριθμὸν τοῦτον ἐξ οὗ συνέστηκεν ὁ κόσμος
(Met. 990b21).
16 Orig.: καὶ οἱ Πυθαγόρειοι δ› ἕνα, τὸν μαθηματικόν, πλὴν οὐ κεχωρισμένον ἀλλ› ἐκ τούτου τὰς
αἰσθητὰς οὐσίας συνεστάναι φασίν. τὸν γὰρ ὅλον οὐρανὸν κατασκευάζουσιν ἐξ ἀριθμῶν (Met. 1080b16-19).
17 Orig.: ὸ δὲ τὰ σώματα ἐξ ἀριθμῶν εἶναι συγκείμενα, [...] ἀδύνατόν ἐστιν (Met. 1083b11).
Page 15
View in PDF(opens in a new window)“Fizeram os números serem as coisas que são, mas não de maneira
separada, e sim de números são constituídas as coisas que são” (Met.
1090a23-24). 18
“Fazem derivar os corpos físicos dos números” (Met. 1090a32). 19
“Chegam ao mesmo resultado também aqueles que consideram que
o céu é feito de números” (De caelo 300a16). 20
Nas citações acima, o que Aristóteles faz os pitagóricos afirmarem, mais
precisamente, é que a constituição do mundo se daria ex arithmôn, isto
é, com os números como sua matéria constitutiva (e, portanto, imanente).
Essa variabilidade da lectio aristotélica marca toda sua abordagem ao
pitagorismo (Burkert 1972: 45). Não diferentemente, aqui a apresentação
da doutrina do “tudo é número” por Aristóteles é, no limite, contraditória
e apresenta basicamente três diferentes significados. 21 Para além da primeira versão, que se refere à identificação fundamental dos números com
os objetos sensíveis, duas outras versões são fornecidas por Aristóteles.
A segunda delas é a da identificação dos princípios dos números com
os princípios das coisas que são:
Os assim chamados pitagóricos são contemporâneos e até mesmo
anteriores a estes filósofos [Leucipo e Demócrito]. Eles por primeiros
aplicaram-se às matemáticas, fazendo-as progredir e, nutridos por elas,
acreditaram que os princípios delas eram os princípios de todos os seres
(Met. 985b23-26). 22
18 Orig.: εἶναι μὲν ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ ὄντα, οὐ χωριστοὺς δέ, ἀλλ› ἐξ ἀριθμῶν τὰ ὄντα (Met.
1090a23-24).
19 Orig.: ποιεῖν ἐξ ἀριθμῶν τὰ φυσικὰ σώματα (Met. 1090a32).
20 Orig.: Τὸ δ› αὐτὸ συμβαίνει καὶ τοῖς ἐξ ἀριθμῶν συντιθεῖσι τὸν οὐρανόν (De caelo 300a16).
Observa com razão Huffman (1988: 5 n15; 1993: 57 n2) que Aristóteles inclui, nestes,
também os atomistas.
21 Reproduzem essa mesma tripartição Cherniss (1935: 386), Zhmud (1989: 284-286)
e Huffman (1993: 60).
22 Orig.: Ἐν δὲ τούτοις καὶ πρὸ τούτων οἱ καλούμενοι Πυθαγόρειοι τῶν μαθημάτων ἁψάμενοι
πρῶτοι ταῦτά τε προήγαγον, καὶ ἐντραφέντες ἐν αὐτοῖς τὰς τούτων ἀρχὰς τῶν ὄντων ἀρχὰς ᾠήθησαν
εἶναι πάντων (Met. 985b 23-26).
Page 16
View in PDF(opens in a new window)Essa versão pode ser aproximada daquela de Met. 986a3, que no lugar
de archaí refere-se a stoichéia.
A terceira é a da imitação dos números pelos objetos reais, na célebre passagem em que é desenhado um paralelismo com a concepção
platônica da participação:
Os pitagóricos dizem que os seres subsistem por imitação dos números. Platão, ao contrário, diz por participação, mudando apenas o
nome. De todo modo tanto uns como o outro descuidaram igualmente de indicar o que significa participação e imitação das ideias (Met.
987b11-14). 23
A primeira versão, pela qual “os números são as coisas”, é evidentemente
contraditória com as outras duas. Cherniss (1935: 387) anota, com razão,
que Aristóteles procura conciliar esta primeira versão com a segunda,
aqui citada, pela qual os números seriam princípios de todas das coisas.
O sucesso de sua tentativa depende de ele forçar uma teoria da derivação da realidade do número um que, todavia, além de não existir como
tal nas fontes, aparentemente confunde a cosmologia pitagórica com a
teoria dos números (Cherniss 1935: 39). Tentativa, esta, que o próprio
Aristóteles parece reconhecer como falimentar quando afirma:
Esses filósofos também não explicam de que modo os números são
causas das substâncias e do ser. São causas enquanto limites das grandezas, e do mesmo modo como Eurito estabelecia o número de cada
coisa? (Por exemplo, determinado número para o homem, outro para
o cavalo, reproduzindo com pedrinhas a forma dos viventes, de modo
semelhante aos que remetem os números às figuras do triângulo e do
quadrado [...] (Met. 1092b8-13). 24
23 Orig.: οἱ μὲν γὰρ Πυθαγόρειοι μιμήσει τὰ ὄντα φασὶν εἶναι τῶν ἀριθμῶν, Πλάτων δὲ μεθέξει,
τοὔνομα μεταβαλών. τὴν μέντοι γε μέθεξιν ἢ τὴν μίμησιν ἥτις ἂν εἴη τῶν εἰδῶν ἀφεῖσαν ἐν κοινῷ
ζητεῖν (Met. 987b11-14).
24 Orig.: οὐθὲν δὲ διώρισται οὐδὲ ὁποτέρως οἱ ἀριθμοὶ αἴτιοι τῶν οὐσιῶν καὶ τοῦ εἶναι, πότερον
ὡς ὅροι (οἷον αἱ στιγμαὶ τῶν μεγεθῶν, καὶ ὡς Εὔρυτος ἔταττε τίς ἀριθμὸς τίνος, οἷον ὁδὶ μὲν ἀνθρώπου
Page 17
View in PDF(opens in a new window)Com a referência a Eurito, Aristóteles introduz uma teoria que foi
chamada de “atomismo numérico”, pela qual os números seriam as coisas
porque os números (pensados como pséphoi, pedrinhas) constituem a
matéria pela qual as coisas são feitas. Com razão, de fato, anota Cherniss
(1951: 336) que, dessa forma, os números poderão identificar qualquer
tipo de objeto fenomênico:
Pensaram os números como grupos de unidades, sendo as unidades
pontos materiais entre aquilo que é “sopro” ou um “vazio” material; e
identificaram literalmente todos os objetos fenomênicos por meio de
uma tal agregação de pontos, fossem eles divisíveis ou menos. Esta
era mais uma materialização do número do que uma materialização da
natureza, mas esta parecia indubitalvelmente aos pitagóricos a única
maneira de explicar o mundo físico nos termos daquelas proposições
genuinamente matemáticas que eles haviam provado serem independemente válidas (Cherniss 1951: 336). 25
Tannery (1887b: 258ss.), Cornford (1923: 7 ss.) e o próprio Cherniss
(1935, 387), fascinados pela primitividade do método atomístico-numérico
de Eurito, consideraram-no efetivamente antigo. Todos seguem basicamente
Frank (1923: 50) e sua hipótese pela qual a teoria teria sido emprestada
por Arquitas do mesmo Demócrito.
Não por acaso, a referência da citação de Met. 985b23-26 é a Leucipo
e Demócrito, isto é, à tradição atomista, à qual a teoria pitagórica é
aproximada. Além disso, foi vislumbrada na polêmica zenoniana contra
a pluralidade exatamente uma referência ao atomismo numérico dos
pitagóricos. Todavia, Burkert (1972: 285-288) e Kirk, Raven e Schofield
ὁδὶ δὲ ἵππου, ὥσπερ οἱ τοὺς ἀριθμοὺς ἄγοντες εἰς τὰ σχήματα τρίγωνον καὶ τετράγωνον [...] (Met.
1092b8-13).
25 Orig.: Numbers they held to be groups of units, the units being material points between
which there is ‘breath’ or a material ‘void’; and they quite literally identified all phenomenal objects with such aggregations of points, without, of course, considering whether these
material points were themselves divisible or not. This was rather a materialization of number
than a mathematization of nature, but it undoubtedly seemed to the Pythagoreans to be
the only way of explaining the physical world in terms of those genuinely mathematical
propositions which they had proved to be independently valid.
Page 18
View in PDF(opens in a new window)(1983: 277-278) colocaram em sérias dúvidas essa atribuição. Os argumentos para isso não faltam. 26
Entretanto, não é difícil imaginar que a materialidade dos números
pitagóricos possua um sentido mais arcaico, sem a necessidade de postular necessariamente um atomismo numérico. Sentido este bem resumido
pela já clássica definição de Nussbaum:
A noção de arithmos é sempre conectada de forma muito próxima
com a operação do contar. Para que algo seja um arithmos deve ser de
tal forma que possa ser contado – o que em geral significa que ou possui
partes distintas e ordenadas ou que seja uma parte distinta de um interior maior. Fornecer o arithmos de algo que há no mundo corresponde
a responder à pergunta “quantos” deste. E quando o grego responde
“dois” ou “três”, ele não considera que esteja introduzindo uma nova
entidade, e sim que esteja separando ou medindo as entidades que já
estão em questão (Nussbaum 1979: 90). 27
O número seria, ainda, “ele próprio uma coisa” (Burkert 1972: 265). 28
No mesmo contexto, Burkert anota com razão que não deve ser esquecido
que o ἀριθμός possui certo “som aristocrático”, que remete para aquilo
que “conta” no sentido de ser importante, de “valer a pena” ser contado.
O termo pode ser assim aproximado ao de ἀρχή pré-socrático.
Assim, a segunda concepção, acima citada, pela qual os princípios
dos números seriam os princípios de todas as coisas, corresponderá mais
facilmente àquela que Cherniss (1935: 390) define como uma “construção
aristotélica da tese pitagórica”. Aristóteles teria sido levado a esta síntese,
26 Ainda que não seja o caso de referir aqui todos eles. Para os argumentos contrários
à tese de Frank, cf. Cherniss (1935; 388-389). Para os argumentos contrários à tese da polêmica zenoniana, cf. Burkert (1972: 285-289).
27 Orig.: the notion of arithmos is always very closely connected with the operation of
counting. To be an arithmos, something must be such as to be counted - which usually means that it must either have discrete and ordered parts or be a discrete part of a
larger whole. To give the arithmos of something in the world is to answer the question ‘how
many’about it. And when the Greek answers ‘two’ or ‘three’ he does not think of himself as
introducing an extra entity, but as dividing or measuring the entities already in question.
28 Orig.: Is itself a thing (Burkert 1972: 265).
Page 19
View in PDF(opens in a new window)de um lado, pela dificuldade de aceitar a noção pitagórica material de
número (aquela das pedrinhas de Eurito, que devia considerar demasiadamente simplória), por outro lado, por considerar mais procedente
compreender a existência dos números pitagóricos da mesma maneira
como os platônicos tratavam dela, isto é, considerando os arithmoí como
archaí. Porém, com isso, Aristóteles faz deslizar toda a problemática da
teoria dos números pitagórica para o âmbito acadêmico.
Com efeito, Frank (1923: 255) sugere que a fonte dessa “incompreensão” de Aristóteles seja Espeusipo e, portanto, aquela parte da Academia
profundamente ligada às tradições pitagóricas. Espeusipo seria, de fato,
citado diretamente por Aristóteles em Metafísica (1085a33), quando
menciona aqueles “pelos quais o ponto não é um, mas semelhante ao
um”, isto é, oîon to én.
O ponto, de fato, joga um papel central no trabalho de Espeusipo,
que, além de estudioso de Filolau, declarava abertamente ter baseado
neste último seus escritos. Essa afirmação encontra-se no fr. 4 (Lang) de
Espeusipo, preservado por Nicomaco como parte do livro do primeiro
Sobre os números pitagóricos.
O mesmo fragmento constitui a prova direta da derivação acadêmica
da teoria dos princípios dos números. Assim, de fato afirmaria Espeusipo:
“quando se considera a geração: o primeiro princípio do qual se gera a
grandeza é o um, o segundo a linha, o terceiro a superfície, o quarto o
sólido” (44 A13 DK // Fr. 4 Lang). 29
É também contraditória com a primeira tese a terceira, isto é, a ideia
da mímesis dos números pelos objetos reais. A bem ver, essa tese é referida por Aristóteles com precisão somente uma vez (Met. 987b11), no
interior da passagem em que a concepção pitagórica é identificada com
aquela platônica da participação. Isso faz Cherniss (1935: 392) e Zhmud
29 Orig.: ἐν τῆι γενέσει· πρώτη μὲν γὰρ ἀρχὴ εἰς μέγεθος στιγμή, δευτέρα γραμμή, Τρίτη ἐπιφάνεια,
τέταρτον στερεόν (44 A13 DK). Cherniss (1935: 391) considera a probabilidade de Aristóteles
ter derivado também integralmente de Espeusipo a lista dos contrários de Met. 986a22, ainda
que simplesmente como a mais bem acabada lista que estava à sua disposição. Sem negar,
portanto, a possibilidade de existirem outras listas que podiam ser originalmente pitagóricas.
Page 20
View in PDF(opens in a new window)(1989: 186) considerarem bastante provável que Aristóteles esteja tentando
diminuir de alguma forma a originalidade da ideia de méthexis platônica, apontando ao mesmo tempo para Aristoxeno, cujo antagonismo com
Platão é bastante atestado.
De fato, um testemunho deste último reproduz a mesma ideia da imitação: Pitágoras “assemelha todas as coisas aos números” (fr. 23, 4 Werli).30
Em verdade, o próprio Aristóteles refere-se novamente a algo bastante
parecido ao conceito de mímesis em outras passagens em que se refere
aos números pitagóricos e utiliza termos ligados ao campo semântico
da semelhança:
Dado que justamente nos números, mais que no fogo, na terra e na
água, eles achavam que viam muitas semelhanças com as coisas que são
e que se geram; por exemplo, consideravam que determinada propriedade dos números era a justiça, outra a alma e o intelecto, outra ainda o
momento e tempo oportuno e, em poucas palavras, de modo semelhante
para todas as outras coisas (Met. 985b27-32). 31
É, portanto, nesse sentido das homoiómata que deve ser compreendida
a referência à mímesis. 32
Também a citação acima das pedrinhas de Eurito, em outra página
de Metafísica (Met. 1092b8-13), pode ser remetida para o interior desse
mesmo campo semântico da semelhança e da imitação. Alexandre de
Afrodísia, por sua vez, em seu comentário à Metafísica de Aristóteles,
explicita o raciocínio que teria levado à definição da semelhança da justiça com o número quatro:
Partindo do pressuposto de que o caráter específico da justiça seja
a proporcionalidade e a igualdade, e percebendo que esta propriedade
30 Orig.: πάντα τὰ πράγματα ἀπεικάζων τοῖς ἀριθμοῖς (Aristox. fr. 23,4 Werli).
31 Orig.: ἐν δὲ τούτοις ἐδόκουν θεωρεῖν ὁμοιώματα πολλὰ τοῖς οὖσι καὶ γιγνομένοις, μᾶλλον ἢ
ἐν πυρὶ καὶ γῇ καὶ ὕδατι, ὅτι τὸ μὲν τοιονδὶ τῶν ἀριθμῶν πάθος δικαιοσύνη τὸ δὲ τοιονδὶ ψυχή τε καὶ
νοῦς ἕτερον δὲ καιρὸς καὶ τῶν ἄλλων ὡς εἰπεῖν ἕκαστον ὁμοίως (Met. 985b27-32).
32 Cf. para esta aproximação Centrone (1996: 107-108).
Page 21
View in PDF(opens in a new window)está presente nos números, por este motivo os pitagóricos diziam que a
justiça é o primeiro número quadrado; [...] Este número alguns diziam
que fosse o quatro, pois é o primeiro quadrado, e também porque é
dividido em partes iguais e é igual ao produto destas (de fato, é duas
vezes dois) (In Metaph. 38, 10 Hayduck). 33
Burkert (1972: 44-45) anota que esse conceito de mímesis deve corresponder, senão na terminologia utilizada por Aristóteles, ao menos
em seu sentido, a uma teoria pré-socrática, e não já platônica. A ideia
fundamental da magia ou da medicina hipocrática é aquela de uma correspondência “de mão dupla” entre duas entidades (o corpo e o cosmo,
a arte e a natureza). No caso específico, simplesmente reafirmaria uma
correspondência, uma imitação do cosmo com o número e vice-versa. O
mesmo Cornford (1922) considerava essa ideia da imitação muito antiga,
por causa exatamente de sua característica mística, que o comentador
aproxima diretamente, por meio da etimologia (mímos = ator), aos cultos
dionisíacos e ao fato de os protagonistas dos cultos desempenharem o
papel do próprio deus:
A esta altura “semelhança com deus” equivale a uma identificação
temporária. Induzida pelos sentidos orgiásticos, pelo êxtase báquico
ou pelas festas sacramentais órficas, é o aperitivo da reunião final. No
pitagorismo, a concepção é mitigada, apolinizada. O sentido não é mais
êxtase, ou sacramento, mas teoria, contemplação intelectual da ordem
universal (Cornford 1922: 143). 34
33 Orig.: τῆς μὲν γὰρ δικαιοσύνης ἴδιον ὑπολαμβάνοντες εἶναι τὸ ἀντιπεπονθός τε καὶ ἴσον,
ἐν τοῖς ἀριθμοῖς τοῦτο εὑρίσκοντες ὄν, διὰ τοῦτο καὶ τὸν ἰσάκις ἴσον ἀριθμὸν πρῶτον ἔλεγον εἶναι
δικαιοσύνην (…) τοῦτον δὲ οἱ μὲν τὸν τέσσαρα ἔλεγον, ἐπεὶ πρῶτος ὢν τετράγωνος εἰς ἴσα διαιρεῖται
καὶ ἔστιν ἴσος (δὶς γὰρ δύο) (In Metaph. 38, 10 Hayduck).
34 Orig.: At that stage ‘likeness to God’ amounts to temporary identification. Induced
by orgiastic means, by Bacchic ecstasy or Orphic sacramental feast, it is a foretaste
of the final reunion. In Pythagoreanism the conception is toned down, Apollinized. The
means is no longer ecstasy or sacrament, but theoria, intellectual contemplation of the universal order. Concorda com a possibilidade desta origem “mística dos números” também
Casertano (2009: 67).
Page 22
View in PDF(opens in a new window)Contra essas hipóteses, todavia, joga o fato de Aristóteles, a bem ver,
não indicar a imitação de prágmata, e sim realidades abstratas como a
justiça, o tempo etc. 35 De toda forma, ainda que se possa conceder que
Aristóteles esteja se referindo aqui a uma doutrina do protopitagorismo, de
estilo acusmático, é certamente o caso de anotar que, na página sucessiva
(Met. 987b29), exclui veementemente que os pitagóricos concordem com
Platão com o papel de méthexis atribuído aos números por este último.
A “precisação” de Aristóteles sugeriria, neste caso, que uma intenção
polêmica antiacadêmica devesse ser talvez a mais apropriada para explicar
este apax da referência à mímesis. 36
É possível concluir que as três versões da doutrina “tudo é número”
(aquela da identificação, dos números como princípios e esta última da
imitação) aparecem articuladas de maneira imperfeita e, no limite, contraditória, em sua tradição no interior da obra aristotélica.
Todavia, é bastante significativo que Aristóteles não mencione em
algum momento que as três diferentes lectiones do “tudo é número”
devam pertencer a diferentes grupos ou momentos no interior do pitagorismo. De certa forma, parece ainda considerá-las, senão coerentes entre
si, ao menos conciliáveis, e as refere todas, indistintamente, aos “assim
chamados pitagóricos”.
O reconhecimento disso levou diversos autores a adotarem soluções
conciliatórias para o problema. In primis, o próprio Zeller. Ainda que
considerasse que o testemunho de Aristóteles devesse ser tomado com
todos os cuidados do caso, sua proximidade histórica com as doutrinas
pitagóricas deveria garantir, de certa forma, a procedência da especial
articulação destas neste contidas.
Assim, para Zeller:
35 Burnet (1908, 119), por outro lado, alerta que não se devem levar a sério essas passagens: They are mere sports of the analogical fancy.
36 Este é também um dos motivos que obriga a descartar a hipótese de Burnet (1908:
355) e Taylor (1911:178s), retomada também por Delatte (1922: 108ss.), pela qual o pitagorismo seria o inventor da teoria das formas platônicas. Assim, Burnet: the doctrine of
‘forms’ (eíde, ideíai) originally took shape in Pythagorean circles, perhaps under Sokratic
influence (1908: 355).
Page 23
View in PDF(opens in a new window)Não há dúvida de que na exposição de Aristóteles devemos procurar
antes de tudo e somente sua própria maneira de ver, e não um imediato
testemunho da realidade de fato, todavia mesmo neste caso [da teoria
numérica] tudo fala a favor de um reconhecimento do fato de que esta
sua maneira de ver estivesse fundamentada sobre um direto conhecimento da efetiva conexão das ideias próprias do pitagorismo (Zeller e
Mondolfo 1932: 486). 37
Frank (1923: 77 n196) e Rey (1933: 116), exatamente para exorcizar
a possibilidade de incompatibilidade delas, imaginam a possibilidade de
Aristóteles ter compreendido as três versões como derivadas logicamente
uma da outra.
De maneira especial, Rey elabora uma proposta conciliatória entre a
versão dos números serem as coisas e aquela dos números imitarem as
coisas: os números seriam as coisas quando se considera sua natureza e
imitariam as coisas quando se considerassem suas propriedades (1933:
356ss.). 38
Mais elaborada é a argumentação conciliatória de Raven (1948: 4365), pela qual:
Supor, como muitos comentadores parecem supor, que Aristóteles
ficou totalmente confuso sobre isso não somente levaria para a porta
dele um grande peso, mas também demoliria, com isso, a base central
sobre a qual qualquer reconstrução confiável do pitagorismo deve ser
erigida (Raven 1948: 63). 39
37 Orig.: non v´há dubbio che nella esposizione di Aristotele noi dobbiam cercare anzi
tutto e soltanto il suo proprio modo di vedere, e non un´immediata testimonianza sulla
realtà di fatto. Tuttavia anche in questo caso tutto parla in favore di un riconoscimento del
fatto che questo suo modo di vedere si fondasse su una diretta conoscenza della effettiva
connessione d´idee propria del pitagorismo.
38 Para críticas à proposta de Frank e Rey, cf. tanto Cherniss (1935: 386) como Burkert
(1972: 44 n86).
39 Orig.: To suppose, as so many scholars appear to suppose, that Aristotle was hopelessly
confused about it, is not only to lay a very serious charge at his door, but also, incidentally,
to demolish the main basis upon which any reliable reconstruction of Pythagoreanism must
be erected.
Page 24
View in PDF(opens in a new window)Em aberta polêmica com Cornford (1923: 10) e sua ideia de que
Aristóteles estaria aqui apresentando, sem distingui-los, dois momentos
do pitagorismo (um primeiro ligado à ideia de uma materialidade dos
números, um segundo em que os pitagóricos estariam mais preocupados
com a composição numérica da realidade), Raven propõe, ao contrário,
uma radical indissociabilidade do uso dual dos números no interior do
pitagorismo antigo. 40
Aristóteles estaria assim simplesmente recebendo deste último uma
concepção da natureza como igual aos números, no sentido de constituir
uma agregação de unidades espaciais (1948: 62). Contudo, os números
não constituiriam somente a matéria da realidade, e sim estariam também à origem das diferenças qualitativas que distinguem uns objetos
materiais dos outros. Somente assim seria possível pensar tanto a versão
da imitação como aquela dos números dos princípios como articulada
com a primeira versão. 41
É certamente possível ao menos afirmar que a ideia de mímesis atribuída aos pitagóricos por Aristóteles não tem muito a compartilhar com
a paralela concepção platônica de mímesis pela qual as realidades fenomênicas imitam, no sentido de serem feitas “à semelhança de”, outras
realidades suprasensíveis de nível ontológico superior, isto é, as formas.
E, se essa observação é correta, o que Aristóteles deve atribuir aos pitagóricos, quando fala da mímesis, não pode ser outra coisa senão uma
genérica correspondência entre as coisas e as relações numéricas que as
explicam, que as tornam inteligíveis.
Resume bem a questão Casertano:
Inteligibilidade imanente, portanto, e não trascendente às coisas
mesmas. É por este motivo que as fórmulas pitagóricas “as coisas são
números” e “as coisas assemelham-se aos números” não estão em contraste; ao contrário, são expressões de uma mesma intuição fundamental,
40 Cornford afirma de fato que: Aristotle himself draws attention to the two diverse
ways of making numbers ‘the causes of substances and being’, which, in my view,
are characteristic of the two different schools of Pythagoreans (Cornford 1923: 10).
41 Sobre a mesma ideia, cf. também Guthrie (1962: 230s).
Page 25
View in PDF(opens in a new window)que é aquela da homogeneidade entre realidade e pensamento, entre
as leis da realidade e as leis do pensamento: compreender as coisas é
essencialmente espelhá-las, reproduzir em nível mental aquela estrutura,
plenamente inteligível, que é própria da realidade material (Casertano
2009: 65). 42
Apesar de estar clara, portanto, aquela que podia ter sido a intuição
fundamental dos pitagóricos, isto é, a possibilidade de compreender a
natureza pelos números, o fato é que a tentativa de conciliação aristotélica entre as diferentes versões da teoria não pareceu, de toda forma,
bem-sucedida.
Se, além do mais, considera-se que a versão principal da doutrina
pitagórica, aquela da identidade do número com as realidades, obedece
diretamente à intenção polêmica de Aristóteles com o platonismo, levando-o a considerar o árithmos pitagórico como causa material, em oposição
à militância platônica em favor da causa formal (Cherniss 1935: 360),
torna-se difícil definir indiscutivelmente qual seria o valor historiográfico
da doutrina pitagórica do “tudo é número”. 43
Difícil, mas não impossível.
U M A P R I M E I R A S O L U Ç ÃO : U M A R E D U Ç ÃO A R I S TO T É L I C A
A esta questão do valor da afirmação aristotélica “tudo é número” como
descrição válida da filosofia pitagórica foram propostas duas soluções.
42 Orig.: Intelligibilità immanente, appunto, e non trascendente le cose stesse. Ecco perchè le formule pitagoriche ‘le cose sono numeri’ e ‘le cose somigliano ai numeri’ non sono
in contrasto, ma sono espressioni di una medesima intuizione fondamentale, che è quella
dell´omogeneità tra realtà e pensiero, tra leggi della realtà e leggi del pensiero: capire le cose
è essenzialmente rispecchiarle, riprodurre a livello mentale quella struttura, pienamente
intelligibile, che è propria della realtà materiale.
43 Centrone (1996: 105) anota neste sentido que l´interesse [di Aristotele] per il pitagorismo, i cui pregi in definitiva consistono solo nell´assenza dei difetti propri della filosofia
dei platonici, non è soverchiante, ed è anzi determinado proprio dalle affinitità con le
dottrine platoniche.
Page 26
View in PDF(opens in a new window)A primeira parte da contestação radical da validade do testemunho
aristotélico, chegando a simplesmente negar que ao protopitagorismo
corresponda uma doutrina do número tout court. Os motivos para essa
contestação não faltam e podem ser resumidos, fundamentalmente, no
paradoxo de uma doutrina que, ainda que amplamente atestada na principal fonte para o pitagorismo antigo, isto é, Aristóteles, todavia não
parece encontrar confirmação nos testemunhos mais antigos.
É desse paradoxo que Zhmud (1989), no artigo citado anteriormente,
começa sua argumentação. É certamente o caso de segui-la passo a passo.
O horizonte em que se insere a reflexão de Zhmud é aquele de uma
história da tradição que define a categoria pitagorismo a partir de uma
identificação doutrinária. Nesse sentido, a preocupação fundamental do
autor é aquela de contrastar a impressão que o texto aristotélico parece
deixar de que a definição de “alguém que fala de números” seria a melhor definição de um pitagórico. O critério identitário revelaria quanto de
circular, quanto de petitio principii, haveria nessa utilização do critério
dos números para identificar um pitagórico (Zhmud 1989: 272).
De fato, apesar de diversas tentativas a esse respeito, nenhum historiador – afirma Zhmud – teve sucesso na busca de qualquer doutrina
sobre os números nas fontes pré-aristotélicas sobre o pitagorismo (Zhmud
1989: 272).
A partir desses argumentos, Zhmud admite somente duas possibilidades de solução da questão: ou a expressão “tudo é número” pertenceria
a um antigo e secreto ensinamento do “divino” Pitágoras, do qual todavia
não se teria alguma referência nas fontes mais antigas (e que, portanto,
deveria ter sido revelado diretamente a Aristóteles); ou esta expressão,
assim como a doutrina a ela colegada, não seria de fato de alguma maneira uma doutrina pitagórica. 44
44 Assim comenta Zhmud: If we do not wish to think that the central dogma of Pythagorean
philosophy was secret, then it would be quite reasonable to suppose: either this dogma was
not central, or it was not a dogma at all. Only very few of those who write about Pythagorean
philosophy arrive at such a paradoxical conclusion (Zhmud 1989: 275). Sobre a prática do
segredo na comunidade pitagórica mais antiga, cf. Cornelli (2011: 92ss).
Page 27
View in PDF(opens in a new window)Esta segunda possibilidade corresponde a uma já clássica posição
de Burnet, pela qual “o próprio Pitágoras não teria deixado nenhuma
doutrina desenvolvida sobre o tema, enquanto os pitagóricos do quinto
século não se interessaram em acrescentar nada deste tipo à tradição da
escola” (1908: 119). 45
Ainda que não deva maravilhar, depois dos estudos de Cherniss, que
o método “historiográfico” aristotélico tenha a liberdade de operar reformulações e traduções em seus mesmos termos das doutrinas de seus
predecessores, é todavia o caso de perguntar-se o que levaria Aristóteles
a postular exatamente essa doutrina do “tudo é número”, que, na forma
atual, não devia ser pitagórica.
O que foi dito até aqui pode já sugerir um primeiro esboço de resposta
a essa pergunta: de certa forma, Aristóteles é confrontado com grande
diversidade de fontes pitagóricas, tanto antigas (Hipaso) quanto a ele
mais próximas (Ecfanto, Filolau, Arquitas). Contudo, para as finalidades
internas à Metafísica de Aristóteles, conforme se viu acima, essa pletora
de pitagóricos precisava ser reconduzida a um denominador comum, a
uma escola que, de certa forma, coubesse no percurso histórico-teorético
que Aristóteles pretendia desenhar em sua doxografia.
Sem essa redução aos mínimos termos teóricos, de fato, seria impossível inserir os pitagóricos no interior do modelo agônico pelo qual
Aristóteles descreve a história dos predecessores (Cherniss 1935: 349).
Somente dessa forma, por exemplo, o arché pitagórico encontra seu lugar
de antagonista da causa material jônica. Ao mesmo tempo, todavia, exatamente certa imprecisão terminológica das fontes pitagóricas (da qual,
como vimos, Aristóteles parece reclamar em Met. 1092b1-13) permite a
inserção do número pitagórico como, ao mesmo tempo, precursor da
causa formal platônica.
Vale pensar se a reclamação de Aristóteles não seja um blefe, pois
se o número já não tivesse esta dupla valência, bem, Aristóteles a teria
45 Orig.: Pythagoras himself left no developed doctrine on the subject, while the Pythagreans of the fifth century did not care to add anything of the sort to the school tradition.
Da mesma ideia também Gigon (1945: 142).
Page 28
View in PDF(opens in a new window)provavelmente inventado, pois ela calça à perfeição no interior de seu
modelo doxográfico.
Assim, a postulação de “tudo é número” teria sido a solução de um
problema de Aristóteles e, de certa forma, o início de uma longa tradição
que, a partir de Zeller (Zeller e Mondolfo 1938: 435), reduziu a categoria
pitagorismo aos estreitos limites dessa doutrina metafísica.
U M A S E G U N DA S O L U Ç ÃO : F I L O L AU
É a partir desse impasse hermenêutico deixado pela solução acima, isto
é, da invenção aristotélica de uma categoria historiográfica (“os assim
chamados pitagóricos”) e de um denominador comum doutrinário para
esta (“tudo é número”), que toma corpo uma segunda solução ao problema. Essa segunda solução empreende especificamente uma reavalição das
fontes pitagóricas do século V aEC em busca de possíveis referenciais
históricos da expressão “assim chamados pitagóricos” de Aristóteles.
A começar de uma observação importante: a grande quantidade de
referências ao pitagorismo e à teoria dos números em Aristóteles revela
um fato inquestionável: Aristóteles devia mesmo possuir diversos textos
pitagóricos, por assim dizer, na mesa dele. 46
Algumas passagens de Aristóteles sugerem que a certeza com a qual
considera inquestionáveis certas afirmações sobre os pitagóricos dependa exatamente do fato de ele ter acesso a uma suficientemente ampla
literatura de autoria deles. É o caso da discussão sobre se os pitagóricos
considerassem o mundo gerado ou não. Aristóteles afirma ser impossível
duvidar disso:
“Se os pitagóricos admitem ou não um processo de geração dos entes
eternos, é questão sobre a qual não resta dúvida” (Met. 1091a13). 47
46 Concordam com isso Burkert (1972: 236), Zhmud (1989: 281), Huffman (1993:57) e
Centrone (1996:105).
47 Orig.: οἱ μὲν οὖν Πυθαγόρειοι πότερον οὐ ποιοῦσιν ἢ ποιοῦσι γένεσιν οὐδὲν δεῖ διστάζειν
(Met. 1091a13).
Page 29
View in PDF(opens in a new window)Da mesma forma, Aristóteles demonstra ter absoluta certeza de que
os pitagóricos não haviam tratado dos corpos sensíveis: “Não disseram
absolutamente nada sobre o fogo, nem sobre a terra, nem sobre os outros
corpos” (Met. 990a16-17). 48
Além disso, a tradição informa-nos que Aristóteles dedicou ao menos
dois livros aos pitagóricos como tais, sem contar as obras dedicadas especificamente a Pitágoras ou a um o outro pitagórico específico, como
teria sido o caso de Arquitas. 49
A resposta à pergunta sobre quais seriam esses “assim chamados
pitagóricos” aos quais Aristóteles quer atribuir a doutrina dos números
depende, assim, em boa parte da possibilidade de identificação desses
livros. Contudo, os únicos livros dos quais temos notícia, pela tradição,
são aqueles de Filolau e Arquitas. Como Aristóteles parece tratar deste
último à parte, e não debaixo do guarda-chuva dos assim chamados, o
mais provável é que sejam exatamente os livros de Filolau os textos pitagóricos que estavam na mesa de Aristóteles.
Este segundo caminho de solução seria representado, portanto, por
Filolau.
É o caso de anotar, ainda, que não deve maravilhar, que não se chegou antes a essa mesma conclusão metodológica, pela qual a solução do
problema da atribuição da doutrina “tudo é número” fosse o estudo dos
fragmentos de Filolau.
Grande parte da tradição, a começar pelo próprio Cherniss (1935:
386), conforme se acenou acima, não pôde seguir nesse sentido, pois,
na esteira de Frank (1923), considerava os textos de Filolau espúrios.
Somente a partir da “redescoberta” do valor de parte essencial dos fragmentos de Filolau, já com Burkert (1972, 218ss.) e depois com Huffman
(1988; 1993), é que foi possível trilhar esse caminho.
A recente reavaliação do valor histórico dos fragmentos de Filolau
permite, portanto, novos passos hermenêuticos anteriormente impossí48 Orig.: διὸ περὶ πυρὸς ἢ γῆς ἢ τῶν ἄλλων τῶν τοιούτων σωμάτων οὐδ› ὁτιοῦν εἰρήκασιν (Met.
990a16-17).
49 Para ampla discussão dessas obras e todas as referências ao caso, cf. Burkert (1972,
Page 30
View in PDF(opens in a new window)veis. Contudo, responder à pergunta sobre quem seriam os pitagóricos
na obra de Aristóteles com Filolau e, portanto, com o pitagorismo do V
século aEC, continua carregando sérias dificuldades para a identificação
aristotélica dos pitagóricos como aqueles pelos quais “tudo é número”;
por um simples motivo: mesmo em Filolau não há referência explícita a
essa doutrina do “tudo é número”.
O B S E RVAÇ Õ E S F I N A I S
Por motivos de economia de espaço não poderemos entrar no labirinto
da questão filolaica para avaliar em que medida uma solução dessa
questão possa se apresentar também como solução para a atribuição
ao pitagorismo antigo de alguma teoria numérica. Procurei avaliar esta
questão em outra sede (Cornelli 2013), e remetemos o leitor que quiser
acompanhar os detalhes desta segunda solução para a discussão lá contida.
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