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View in PDF(opens in a new window)TUDO É NÚMERO
NO PITAGORISMO ANTIGO?
Gabriele Cornelli*
RESUMO: A questão “tudo é numéro?”, título não por acaso
do célebre artigo de 1989 de Zhmud, na Phronesis, apresenta
um desafio ao testemunho aristotélico, extremamente importante, segundo o qual a teoria de que “tudo é número” seria a
definição fundamental da filosofia pitagórica. Um desafio como
este está longe de ser algo fácil, especialmente quando se considera que as histórias tanto da filosofia como da matemática
antigas não pareceram ter muitas dúvidas de que esta definição
seja correta. Este ensaio deseja submeter a afirmação de Aritóteles de que os pitagóricos acreditavam que tudo era número a
uma revisão crítica. Nossa análise revelará, para além de simples
variações semânticas, uma contradição teorética fundamental,
que o próprio Aristóteles parece incapaz de resolver.
PALAVRAS-CHAVE: Filosofia Antiga, Pitagorismo, Aristóteles, Números.
ABSTRACT: The question, “All is number?”, significantly
the title of Zhmud’s famous 1989 article in Phronesis, opens
a challenge to the extremely important Aristotelian testimony
that “all is number” was the fundamental definition of Pythagorean philosophy. Such a challenge is anything but easy, especially when one considers that, so far, the histories of both
ancient philosophy and ancient mathematics seemed to have
no doubts that this definition was correct. This paper aims to
submit Aristotle’s claim that the Pythagoreans believed that
“all is number” to critical review. Our analysis of the many
ways that Aristotle states the thesis “all is number” will reveal,
beyond merely semantic variations, a fundamental theoretical
contradiction that Aristotle himself seems incapable of solving.
KEY-WORDS: Ancient Philosophy, Pythagoreanism, Aristotle, Numbers.
*Cátedra UNESCO Archai
Universidade de Brasília
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View in PDF(opens in a new window)1. O presente ensaio constituise de uma revisão de uma parte
do capítulo quarto de meu livro
O pitagorismo como categoria
historiográfica (Coimbra,
2011). A pesquisa da qual
o livro resultou foi apoiada
pela CAPES/Ministério da
Educação/Brasil (Projeto
18218121) e pelo Ministerio
de Economía y Competitividad
del gobierno español pelo
projeto “Utilización del
vocabulario mítico-religioso en
la formación de la terminología
presocrática” (FFI2012-32647).
2. Orig.: μάλιστα μέντοι
γνώριμα παρὰ πᾶσιν
ἐγένετο πρῶτον μὲν
ὡς ἀθάνατον εἶναι
φησὶ τὴν ψυχήν, εἶτα
μεταβάλλουσαν εἰς ἄλλα
γένη ζῴων, πρὸς δὲ τούτοις
ὅτι κατὰ περιόδους τινὰς
τὰ γενόμενά ποτε πάλιν
γίνεται, νέον δ’οὐδὲν ἁπλῶς
ἔστι, καὶ ὅτι πάντα τὰ
γινόμενα ἔμψυχα ὁμογενῆ
δεῖ νομίζειν. φέρεται γὰρ
εἰς τὴν Ἑλλάδα (Porph.
VP: 19).
3. Burkert (1972: 122-123),
apesar da resistência tanto por
parte de Rathmann (1933:
3ss.), como de Wehrli, que
não acolhe o capítulo 19
de Porfírio em seu volume
dedicado a Dicearco (Wehrli
1944), segue a tradição desta
atribuição que conta com a
anuência de Rohde (1871:
566), Burnet (1908: 92), Lévy
(1926: 50), Zeller e Mondolfo
(1938: 314). E acrescenta
argumentos francamente
convincentes, fundamentados
no tom cético que a passagem
deixa transparecer e que não
pode certamente ser atribuído
ao crente Porfírio: deverá sem
mais plausivelmente criação
de Dicearco, cético pupilo
de Aristóteles, que em outros
fragmentos revela o mesmo
ceticismo e ironia: este afirma,
por exemplo, que alma seria
uma simples palavra (fr. 7
Wehrli) e que Pitágoras teria
O resumo da filosofia pitagórica por Porfírio: uma
ausência significativa
Porfírio resume em poucas linhas o que a tradição passará a considerar como as doutrinas centrais do Pitágoras histórico1. Seu resumo é mais significativo por aquilo que deixa de
mencionar do que pelo que ele cita:
Algumas das afirmações [de Pitágoras] ganharam notoriedade
praticamente geral: 1) afirma que a alma é imortal; 2) que
transmigra em outras espécies de seres vivos; 3) que, periodicamente, o que já aconteceu uma vez volta a acontecer, e nada
é absolutamente novo; e 4) que todos os seres animados devem
ser considerados como do mesmo gênero. Ao que parece foi
mesmo Pitágoras a introduzir pela primeira vez estas crenças
na Grécia (Porph. VP: 19)2.
De fato, no bojo dessas doutrinas apontadas como
originárias não aparece nenhuma referência à matemática
ou à teoria astronômica, por exemplo, ou mesmo à cosmologia e à política, que têm, ao contrário, papel fundamental para a definição do pitagorismo em outros extratos da
tradição. A ausência é ainda mais significativa quando se
pensa que a tradição já remonta provavelmente ao pupilo
de Aristóteles, Dicearco3. Ela sugere a necessidade de uma
consideração mais atenta da história da atribuição ao pitagorismo antigo de uma teoria matemática ou de alguma
relação com o estudo dos números4.
Longe da confiança que Zeller depositava na possibilidade de resumir as doutrinas do pitagorismo na teoria
pela qual o número seria a essência de todas as coisas (junto
com as doutrinas da harmonia, do fogo central e das esferas), todas elas significativamente presentes nos fragmentos de Filolau, a crítica contemporânea submeteu a uma
profunda revisão o pretenso dogma aristotélico pelo qual,
no pitagorismo, “tudo é número”. A tradição interpretativa, certamente encabeçada em tempos mais recentes por
Frank (1923), acostumou-se a considerar toda a matemática pitagórica como uma invenção acadêmica, posterior,
portanto, aos mesmos fragmentos de Filolau, que devem,
eles mesmos, ser considerados espúrios. A influência do
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View in PDF(opens in a new window)ceticismo de Frank é tamanha que mesmo alguém como
Cherniss (1935), que diverge dele na concepção fundamental do valor a ser atribuído ao testemunho de Aristóteles, ao menos neste ponto concordar com ele. O consenso
dos comentadores é especialmente impressionante quando
diz respeito àquele que consideramos como um dos loci
fundamentais desse debate, isto é, o valor a ser conferido
aos fragmentos de Filolau:
Os fragmentos atribuídos a Filolau são certamente espúrios,
por eles conterem elementos que não podem ser mais antigos
que Platão. Erich Frank reuniu as evidências contra os fragmentos; e, apesar de sua própria teoria sobre suas origens e a
conclusão de argumentos certamente muito fracos [...], sua
análise torna supérfluo ter de recomeçar esse caso esmagador
contra eles (Cherniss 1935: 386)5.
Mais recentemente, a posição de Frank e da grande
maioria dos comentadores recebeu profunda revisão crítica por parte de autores como Burkert (1972: 238-277) e
Kirk, Raven e Schofield (1983: 324). Especialmente significativos, nesse sentido, são os esforços de Huffman, tanto
em seu artigo de 1988 quanto, especialmente, em sua monografia inteiramente dedicada a Filolau e aos problemas
da autenticidade de seus fragmentos (1993), a primeira
inteiramente dedicada ao filósofo de Crotona depois da
monografia de Boeckh de 18196. Essa revisão abre novas
perspectivas hermenêuticas e, junto com os recentes estudos de (1989; 1997 e agora 2012 e 2013), representa uma
pedra angular para a definição do lugar da matemática na
construção da tradição pitagórica7.
Três versões da doutrina pitagórica dos números
A pergunta “Tudo é número?”, que intitula significativamente o célebre artigo de Zhmud na revista Phronesis
de 1989 (“All is number?”), inaugura uma contestação do
testemunho aristotélico central para a historiografia do pitagorismo, segundo a qual “tudo é número” seria a definição
13
sido, no passado, uma bela
cortesã (fr. 36 Wehrli).
4. Não é por acaso, de fato,
que diversos comentadores
já clássicos se deram conta da
importância dessa passagem
para reposicionar
teoreticamente as origens da
filosofia pitagórica em estreita
conexão com as temáticas
ético-religiosas. Cf. para isso
De Vogel (1964: 16) e Guthrie
(1962: 186).
5. Orig.: The fragments
attributed to Philolaus are surely
spurious, since they contain
elements that cannot be older
than Plato. Erich Frank has
gathered the evidence against
the fragments; and, apart from
his own theory as to their origin
and his conclusion of certain very
weak arguments […] his analysis
makes it superfluous to restate the
overwhelming case against them”
6. Sobre a concordância
geral dos comentadores com
o ceticismo de Frank, cf.,
entre outros, Burnet (1908:
279-284) e Lévy (1926:
70ss.). Não é certamente o
caso de concordar, portanto,
com Spinelli (2003; 145
n345), quando “despacha”
a questão da autenticidade
dos fragmentos desta forma:
“apesar do muito que já se
escreveu a favor e contra
eles, toda a argumentação
se encontra exposta, de um
modo adequado, somente nos
trabalhos de três tratadistas”:
Bywater, Frank e Mondolfo.
7. A bem da verdade, é o caso
de ressaltar que o próprio
Frank teria em seguida
amenizado, em seus escritos
sucessivos, uma posição que,
por seu ceticismo extremo e,
de certa forma, paralisador,
não resistiu às críticas dos
outros comentadores. De fato,
em 1955, deverá admitir que
“it can hardly be doubted that
Pythagoras was the originator of
this entire scientific development:
Page 4
View in PDF(opens in a new window)he was a rational thinker rather
than an inspired mystic” (1955:
82). Não obstante, em sua
resenha do livro de Von Fritz
sobre a política pitagórica,
sua verve cética ainda aparece
fortemente presente (Frank
1943).
8. Ainda que algumas
sugestões nesse sentido já
haviam sido formuladas
por Huffman (1988), em
seu artigo sobre o papel
do número na filosofia
de Filolau, as observações
não foram declaradamente
recebidas no artigo de
Zhmud (1989: 292 n62),
pois este foi desenvolvido
paralelamente ao artigo do
primeiro.
9. Cf. para as citações,
Heath (1921: 67), Guthrie
(1962: 229ss.), Huffman
(1988: 5 e 1993: 57).
10. Orig.: τὰ τῶν
ἀριθμῶν στοιχεῖα τῶν
ὄντων στοιχεῖα πάντων
ὑπέλαβον εἶναι, καὶ τὸν
ὅλον οὐρανὸν ἁρμονίαν
εἶναι καὶ ἀριθμόν (Met.
fundamental da filosofia pitagórica8. Uma tarefa certamente
nada fácil, especialmente quando se considera que tanto a
história da filosofia antiga quanto aquela da matemática antiga não pareceram ter muitas dúvidas, até então, em relação
a essa mesma atribuição9.
E os motivos para tal confiança aparentemente não
faltam. Com efeito, em Aristóteles, a atribuição da doutrina do “tudo é número” aos pitagóricos é recorrente e
acaba por resumir aquela que é a interpretação aristotélica
do pitagorismo.
Aristóteles afirma repetidamente que:
1.
2.
3.
4.
5.
6.
“Pensavam serem os elementos dos números os elementos
de todas as coisas
e que a totalidade do céu é harmonia e número” (Met.
986a3)10.
“Os números, conforme dissemos, correspondem à totalidade do céu” (Met. 986a21)11.
“Eles dizem que os números são as próprias coisas” (Met.
987b28)12.
“Aqueles [filósofos] dizem que as coisas são número”
(Met. 1083b17)13.
“Fizeram os números serem as coisas que são” (Met.
1090b23)14.
986a3).
11. Orig.: ἀριθμοὺς δέ,
καθάπερ εἴρηται, τὸν
ὅλον οὐρανόν (Met.
986a21).
12.Orig.: οἱ δ’ ἀριθμοὺς
εἶναί φασιν αὐτὰ
τὰ πράγματα (Met.
987b28).
13. Orig.: ἐκεῖνοι δὲ
τὸν ἀριθμὸν τὰ ὄντα
λέγουσιν (Met. 1083b17).
14. Orig.: εἶναι μὲν
Aristóteles, assim, por seis vezes, faz os pitagóricos afirmarem que a realidade como um todo (tá ónta, tón ólon oûranon, tá prágmata) “é número”.
Em contrapartida, por outras sete vezes, Aristóteles
parece sugerir que os pitagóricos digam algo levemente
distinto:
1.
2.
ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ
ὄντα (Met. 1090b23).
15. Orig.: ἀριθμὸν δ’
ἄλλον μηθένα εἶναι παρὰ
τὸν ἀριθμὸν τοῦτον ἐξ
οὗ συνέστηκεν ὁ κόσμος
(Met. 990b21).
3.
4.
“Não há outro número além do número pelo qual está
constituído o mundo” (Met. 990a21)15.
“Também para os pitagóricos só existe o número matemático: mas eles afirmam que este não é separado e que,
antes, é dele que se sustentam as coisas sensíveis,
pois eles constroem o céu inteiro com números” (Met.
1080b16-19)16.
“É impossível afirmar que [...] os corpos são feitos de números” (Met. 1083b11)17.
Page 5
View in PDF(opens in a new window)“Fizeram os números serem as coisas que são, mas não de
maneira separada, e sim de números são constituídas as
coisas que são” (Met. 1090a23-24)18.
“Fazem derivar os corpos físicos dos números” (Met.
1090a32)19.
“Chegam ao mesmo resultado também aqueles que consideram que o céu é feito de números” (De caelo 300a16)20.
Nas citações acima, o que Aristóteles faz os pitagóricos
afirmarem, mais precisamente, é que a constituição do mundo se daria ex arithmôn, isto é, com os números como sua
matéria constitutiva (e, portanto, imanente).
Essa variabilidade da lectio aristotélica marca toda
sua abordagem do pitagorismo (Burkert 1972: 45). Aqui
a apresentação da doutrina do “tudo é número” por Aristóteles é, no limite, contraditória e apresenta basicamente
três diferentes significados21. Para além da primeira versão, que se refere à identificação fundamental dos números com os objetos sensíveis, duas outras versões são fornecidas por Aristóteles.
A segunda delas é a da identificação dos princípios dos
números com os princípios das coisas que são:
Os assim chamados pitagóricos são contemporâneos e até
mesmo anteriores a estes filósofos [Leucipo e Demócrito].
Eles por primeiros aplicaram-se às matemáticas, fazendo-as progredir e, nutridos por elas, acreditaram que os
princípios delas eram os princípios de todos os seres (Met.
985b23-26)22.
Essa versão pode ser aproximada daquela de Met. 986a3,
que no lugar de archaí refere-se a stoichéia.
A terceira é a da imitação dos números pelos objetos reais, na célebre passagem em que é desenhado um paralelismo
com a concepção platônica da participação:
Os pitagóricos dizem que os seres subsistem por imitação dos
números. Platão, ao contrário, diz por participação, mudando
apenas o nome. De todo modo tanto uns como o outro descuidaram igualmente de indicar o que significa participação e
imitação das ideias (Met. 987b11-14)23.
15
16. Orig.: καὶ οἱ
Πυθαγόρειοι δ’ ἕνα, τὸν
μαθηματικόν, πλὴν οὐ
κεχωρισμένον ἀλλ’ ἐκ
τούτου τὰς αἰσθητὰς
οὐσίας συνεστάναι φασίν.
τὸν γὰρ ὅλον οὐρανὸν
κατασκευάζουσιν ἐξ
ἀριθμῶν (Met. 1080b1619).
17 Orig.: ὸ δὲ τὰ σώματα
ἐξ ἀριθμῶν εἶναι
συγκείμενα, [...] ἀδύνατόν
ἐστιν (Met. 1083b11).
18.Orig.: εἶναι μὲν
ἀριθμοὺς ἐποίησαν τὰ
ὄντα, οὐ χωριστοὺς δέ,
ἀλλ’ ἐξ ἀριθμῶν τὰ ὄντα
(Met. 1090a23-24).
19. Orig.: ποιεῖν ἐξ
ἀριθμῶν τὰ φυσικὰ
σώματα (Met. 1090a32).
20. Orig.: Τὸ δ’ αὐτὸ
συμβαίνει καὶ τοῖς ἐξ
ἀριθμῶν συντιθεῖσι
τὸν οὐρανόν (De caelo
300a16). Observa com
razão Huffman (1988:
5 n15; 1993: 57 n2) que
Aristóteles inclui, nestes,
também os atomistas.
21. Reproduzem essa
mesma tripartição
Cherniss (1935: 386),
Zhmud (1989: 284-286) e
Huffman (1993: 60).
22. Orig.: ν δὲ τούτοις
καὶ πρὸ τούτων οἱ
καλούμενοι Πυθαγόρειοι
τῶν μαθημάτων
ἁψάμενοι πρῶτοι ταῦτά
τε προήγαγον, καὶ
ἐντραφέντες ἐν αὐτοῖς τὰς
τούτων ἀρχὰς τῶν ὄντων
ἀρχὰς ᾠήθησαν εἶναι
πάντων (Met. 985b 23-26).
Page 6
View in PDF(opens in a new window)A primeira versão, segundo a qual “os números são as
coisas”, é evidentemente contraditória com as outras duas.
Cherniss (1935: 387) anota, com razão, que Aristóteles
procura conciliar esta primeira versão com a segunda, aqui
citada, pela qual os números seriam princípios de todas
das coisas. O sucesso de sua tentativa depende de ele forçar
uma teoria da derivação da realidade do número um que,
todavia, além de não existir como tal nas fontes, aparentemente confunde a cosmologia pitagórica com a teoria
dos números (Cherniss 1935: 39). Tentativa, esta, que
o próprio Aristóteles parece reconhecer como falimentar
quando afirma:
23. Orig.: οἱ μὲν γὰρ
Πυθαγόρειοι μιμήσει
τὰ ὄντα φασὶν εἶναι
τῶν ἀριθμῶν, Πλάτων
δὲ μεθέξει, τοὔνομα
μεταβαλών. τὴν μέντοι γε
μέθεξιν ἢ τὴν μίμησιν ἥτις
ἂν εἴη τῶν εἰδῶν ἀφεῖσαν ἐν
κοινῷ ζητεῖν (Met. 987b11-
14).
24. Orig.: οὐθὲν δὲ διώρισται
οὐδὲ ὁποτέρως οἱ ἀριθμοὶ
αἴτιοι τῶν οὐσιῶν καὶ τοῦ
εἶναι, πότερον ὡς ὅροι (οἷον
αἱ στιγμαὶ τῶν μεγεθῶν,
καὶ ὡς Εὔρυτος ἔταττε τίς
ἀριθμὸς τίνος, οἷον ὁδὶ μὲν
ἀνθρώπου ὁδὶ δὲ ἵππου,
ὥσπερ οἱ τοὺς ἀριθμοὺς
ἄγοντες εἰς τὰ σχήματα
τρίγωνον καὶ τετράγωνον [...]
(Met. 1092b8-13).
25. Orig.: Numbers they
held to be groups of units, the
units being material points
between which there is ‘breath’
or a material ‘void’; and they
quite literally identified all
phenomenal objects with
Esses filósofos também não explicam de que modo os números são causas das substâncias e do ser. São causas enquanto
limites das grandezas, e do mesmo modo como Eurito estabelecia o número de cada coisa? (Por exemplo, determinado número para o homem, outro para o cavalo, reproduzindo com
pedrinhas a forma dos viventes, de modo semelhante aos que
remetem os números às figuras do triângulo e do quadrado
[...] (Met. 1092b8-13)24.
Com a referência a Eurito, Aristóteles introduz uma teoria que foi chamada de “atomismo numérico”, pela qual os
números seriam as coisas porque os números (pensados como
pséphoi, pedrinhas) constituem a matéria da qual as coisas são
feitas. Com razão, de fato, anota Cherniss (1951: 336) que,
dessa forma, os números poderão identificar qualquer tipo de
objeto fenomênico:
Pensaram os números como grupos de unidades, sendo as
unidades pontos materiais entre aquilo que é “sopro” ou
um “vazio” material; e identificaram literalmente todos
os objetos fenomênicos por meio de uma tal agregação de
pontos, fossem eles divisíveis ou menos. Esta era mais uma
materialização do número do que uma materialização da
natureza, mas esta parecia indubitalvelmente aos pitagóricos a única maneira de explicar o mundo físico nos termos
daquelas proposições genuinamente matemáticas que eles
haviam provado serem independemente válidas (Cherniss
1951: 336)25.
Page 7
View in PDF(opens in a new window)Tannery (1887b: 258ss.), Cornford (1923: 7 ss.) e o
próprio Cherniss (1935, 387), fascinados pela primitividade
do método atomístico-numérico de Eurito, consideraram-no
efetivamente antigo. Todos seguem basicamente Frank (1923:
50) e sua hipótese segundo a qual a teoria teria sido emprestada por Arquitas do mesmo Demócrito. Não por acaso, a
referência da citação de Met. 985b23-26 é a Leucipo e Demócrito, isto é, à tradição atomista, da qual a teoria pitagórica é aproximada. Além disso, foi vislumbrada na polêmica
zenoniana contra a pluralidade exatamente uma referência ao
atomismo numérico dos pitagóricos. Todavia, Burkert (1972:
285-288) e Kirk, Raven e Schofield (1983: 277-278) colocaram em sérias dúvidas essa atribuição. Os argumentos para
isso não faltam26.
Entretanto, não é difícil imaginar que a materialidade
dos números pitagóricos possua um sentido mais arcaico, sem
a necessidade de postular necessariamente um atomismo numérico, sentido este bem resumido pela já clássica definição
de Nussbaum:
A noção de arithmos é sempre conectada de forma muito próxima com a operação do contar. Para que algo seja um arithmos deve ser de tal forma que possa ser contado – o que em
geral significa que ou possui partes distintas e ordenadas ou
que seja uma parte distinta de um interior maior. Fornecer o
arithmos de algo que há no mundo corresponde a responder à
pergunta “quantos” deste. E quando o grego responde “dois”
ou “três”, ele não considera que esteja introduzindo uma nova
entidade, e sim que esteja separando ou medindo as entidades
que já estão em questão (Nussbaum 1979: 90)27.
O número seria, ainda, “ele próprio uma coisa” (Burkert
1972: 265)28. No mesmo contexto, Burkert anota com razão
que não deve ser esquecido que o ἀριθμὸς possui certo “som
aristocrático”, que remete para aquilo que “conta” no sentido
de ser importante, de “valer a pena” ser contado. O termo
pode ser assim aproximado ao ἀρχὴ pré-socrático.
Assim, a segunda concepção, acima citada, segundo a qual
os princípios dos números seriam os princípios de todas as coisas, corresponderá mais facilmente àquela que Cherniss (1935:
390) define como uma “construção aristotélica da tese pitagóri-
17
such aggregations of points,
without, of course, considering
whether these material points
were themselves divisible
or not. This was rather a
materialization of number than
a mathematization of nature,
but it undoubtedly seemed to
the Pythagoreans to be the only
way of explaining the physical
world in terms of those genuinely
mathematical propositions
which they had proved to be
independently valid.
26. Ainda que não seja o
caso de referir aqui todos
eles. Para os argumentos
contrários à tese de Frank,
cf. Cherniss (1935; 388389). Para os argumentos
contrários à tese da
polêmica zenoniana, cf.
Burkert (1972: 285-289).
27. Orig.: the notion of
arithmos is always very
closely connected with the
operation of counting. To
be an arithmos, something
must be such as to be counted
- which usually means that
it must either have discrete
and ordered parts or be
a discrete part of a larger
whole. To give the arithmos
of something in the world is
to answer the question ‘how
many’about it. And when
the Greek answers ‘two’ or
‘three’ he does not think of
himself as introducing an
extra entity, but as dividing
or measuring the entities
already in question.
28. Orig.: “Is itself a thing”
(Burkert 1972: 265).
Page 8
View in PDF(opens in a new window)29. Orig.: ἐν τῆι γενέσει·
πρώτη μὲν γὰρ ἀρχὴ εἰς
μέγεθος στιγμή, δευτέρα
γραμμή, Τρίτη ἐπιφάνεια,
τέταρτον στερεόν (44 A13
DK). Cherniss (1935: 391)
considera a probabilidade
de Aristóteles ter derivado
também integralmente
de Espeusipo a lista dos
contrários de Met. 986a22,
ainda que simplesmente
como a mais bem acabada
lista que estava à sua
disposição. Sem negar,
portanto, a possibilidade de
existirem outras listas que
podiam ser originalmente
pitagóricas.
30. Orig.: πάντα τὰ
πράγματα ἀπεικάζων
τοῖς ἀριθμοῖς (Aristox.
fr. 23,4 Werli).
ca”. Aristóteles teria sido levado a esta síntese, de um lado, pela
dificuldade de aceitar a noção pitagórica material de número
(aquela das pedrinhas de Eurito, que devia considerar demasiadamente simplória), por outro lado, por considerar mais
procedente compreender a existência dos números pitagóricos
da mesma maneira como os platônicos tratavam dela, isto é,
considerando os árithmoi como archaí. Porém, com isso, Aristóteles faz deslizar toda a problemática da teoria dos números
pitagórica para o âmbito acadêmico. Com efeito, Frank (1923:
255) sugere que a fonte dessa “incompreensão” de Aristóteles
seja Espeusipo e, portanto, aquela parte da Academia profundamente ligada às tradições pitagóricas. Espeusipo seria, de fato,
citado diretamente por Aristóteles em Metafísica (1085a33),
quando menciona aqueles “pelos quais o ponto não é um, mas
semelhante ao um”, isto é, oîon to én. O ponto, de fato, joga um
papel central no trabalho de Espeusipo, que, além de estudioso
de Filolau, declarava abertamente ter baseado neste último seus
escritos. Essa afirmação encontra-se no fr. 4 (Lang) de Espeusipo, preservado por Nicomaco como parte do livro do primeiro
Sobre os números pitagóricos. O mesmo fragmento constitui a
prova direta da derivação acadêmica da teoria dos princípios
dos números. Assim, de fato afirmaria Espeusipo: “quando se
considera a geração: o primeiro princípio do qual se gera a grandeza é o um, o segundo a linha, o terceiro a superfície, o quarto
o sólido” (44 A13 DK // Fr. 4 Lang)29.
É também contraditória com a primeira tese a terceira,
isto é, a ideia da mímesis dos números pelos objetos reais. É
verdade que essa tese é referida por Aristóteles com precisão
somente uma vez (Met. 987b11), no interior da passagem em
que a concepção pitagórica é identificada com aquela platônica, da participação. Isso faz Cherniss (1935: 392) e Zhmud
(1989: 186) considerarem bastante provável que Aristóteles
esteja tentando diminuir de alguma forma a originalidade da
ideia de méthexis platônica, apontando ao mesmo tempo para
Aristoxeno, cujo antagonismo com Platão é bastante atestado.
De fato, um testemunho deste último reproduz a mesma ideia
da imitação: Pitágoras “assemelha todas as coisas aos números” (fr. 23, 4 Werli)30.
Em verdade, o próprio Aristóteles refere-se novamente a
algo bastante parecido ao conceito de mímesis em outras passagens em que se refere aos números pitagóricos e utiliza termos ligados ao campo semântico da semelhança:
Page 9
View in PDF(opens in a new window)Dado que justamente nos números, mais que no fogo, na terra e na água, eles achavam que viam muitas semelhanças com
as coisas que são e que se geram; por exemplo, consideravam
que determinada propriedade dos números era a justiça, outra
a alma e o intelecto, outra ainda o momento e tempo oportuno e, em poucas palavras, de modo semelhante para todas as
outras coisas (Met. 985b27-32)31.
É, portanto, nesse sentido das homoiómata que deve ser
compreendida a referência à mímesis32.
Também a citação acima das pedrinhas de Eurito, em
outra página de Metafísica (Met. 1092b8-13), pode ser remetida para o interior desse mesmo campo semântico da semelhança e da imitação. Alexandre de Afrodísia, por sua vez, em
seu comentário à Metafísica de Aristóteles, explicita o raciocínio que teria levado à definição da semelhança da justiça com
o número quatro:
Partindo do pressuposto de que o caráter específico da justiça
seja a proporcionalidade e a igualdade, e percebendo que esta
propriedade está presente nos números, por este motivo os
pitagóricos diziam que a justiça é o primeiro número quadrado; [...] Este número alguns diziam que fosse o quatro, pois é
o primeiro quadrado, e também porque é dividido em partes
iguais e é igual ao produto destas (de fato, é duas vezes dois)
(In Metaph. 38, 10 Hayduck)33.
Burkert (1972: 44-45) anota que esse conceito de
mímesis deve corresponder, senão na terminologia utilizada por Aristóteles, ao menos em seu sentido, a uma teoria
pré-socrática, e não ainda platônica. A ideia fundamental da magia ou da medicina hipocrática é aquela de uma
correspondência “de mão dupla” entre duas entidades (o
corpo e o cosmo, a arte e a natureza). No caso específico, simplesmente reafirmaria uma correspondência, uma
imitação do cosmo com o número e vice-versa. O mesmo
Cornford (1922) considerava essa ideia da imitação muito
antiga, por causa exatamente de sua característica mística, que o comentador aproxima diretamente, por meio da
etimologia (mímos = ator), aos cultos dionisíacos e ao fato
de os protagonistas dos cultos desempenharem o papel do
próprio deus:
19
31. Orig.: ἐν δὲ τούτοις
ἐδόκουν θεωρεῖν
ὁμοιώματα πολλὰ τοῖς
οὖσι καὶ γιγνομένοις,
μᾶλλον ἢ ἐν πυρὶ καὶ
γῇ καὶ ὕδατι, ὅτι τὸ μὲν
τοιονδὶ τῶν ἀριθμῶν
πάθος δικαιοσύνη τὸ δὲ
τοιονδὶ ψυχή τε καὶ νοῦς
ἕτερον δὲ καιρὸς καὶ τῶν
ἄλλων ὡς εἰπεῖν ἕκαστον
ὁμοίως (Met. 985b27-32).
32. Cf. para esta
aproximação Centrone
(1996: 107-108).
33. Orig.: τῆς μὲν
γὰρ δικαιοσύνης ἴδιον
ὑπολαμβάνοντες εἶναι τὸ
ἀντιπεπονθός τε καὶ ἴσον,
ἐν τοῖς ἀριθμοῖς τοῦτο
εὑρίσκοντες ὄν, διὰ τοῦτο
καὶ τὸν ἰσάκις ἴσον ἀριθμὸν
πρῶτον ἔλεγον εἶναι
δικαιοσύνην (…) τοῦτον
δὲ οἱ μὲν τὸν τέσσαρα
ἔλεγον, ἐπεὶ πρῶτος
Page 10
View in PDF(opens in a new window)ὢν τετράγωνος εἰς ἴσα
διαιρεῖται καὶ ἔστιν ἴσος
(δὶς γὰρ δύο) (In Metaph.
38, 10 Hayduck).
34. Orig.: “At that stage
‘likeness to God’ amounts
to temporary identification.
Induced by orgiastic means,
by Bacchic ecstasy or Orphic
sacramental feast, it is a
foretaste of the final reunion. In
Pythagoreanism the conception
is toned down, Apollinized.
The means is no longer ecstasy
or sacrament, but theoria,
intellectual contemplation of
the universal order”. Concorda
com a possibilidade desta
origem “mística dos
números” também Casertano
(2009: 67).
35. Burnet (1908, 119), por
outro lado, alerta que não
se devem levar a sério essas
passagens: “They are mere
sports of the analogical fancy”.
36. Este é também um
dos motivos que obriga
a descartar a hipótese de
Burnet (1908: 355) e Taylor
(1911:178s), retomada
também por Delatte
(1922: 108ss.), segundo a
qual o pitagorismo seria o
inventor da teoria das formas
platônicas. Assim, Burnet:
“the doctrine of ‘forms’ (eíde,
ideíai) originally took shape in
Pythagorean circles, perhaps
under Sokratic influence”
(1908: 355).
A esta altura, “semelhança com deus” equivale a uma identificação temporária. Induzida pelos sentidos orgiásticos, pelo
êxtase báquico ou pelas festas sacramentais órficas, é o aperitivo da reunião final. No pitagorismo, a concepção é mitigada,
apolinizada. O sentido não é mais êxtase, ou sacramento, mas
teoria, contemplação intelectual da ordem universal (Cornford 1922: 143)34.
Contra essas hipóteses, todavia, joga o fato de Aristóteles, em verdade, não indicar a imitação de prágmata, e sim
realidades abstratas como a justiça, o tempo etc35. De toda
forma, ainda que se possa conceder que Aristóteles esteja se
referindo aqui a uma doutrina do protopitagorismo, de estilo acusmático, é certamente o caso de anotar que, na página
sucessiva (Met. 987b29), nega veementemente que os pitagóricos concordem com Platão acerca do papel de méthexis
atribuído aos números por este último. O “esclarecimento” de
Aristóteles sugeriria, neste caso, que uma intenção polêmica
antiacadêmica devesse ser talvez a mais apropriada para explicar este apax da referência à mímesis36.
É possível concluir que as três versões da doutrina “tudo
é número” (aquela da identificação, dos números como princípios e esta última da imitação) aparecem articuladas de maneira imperfeita e, no limite, contraditória, em sua tradição
no interior da obra aristotélica.
Todavia, é bastante significativo que Aristóteles não mencione em algum momento que as três diferentes lectiones do “tudo é
número” devam pertencer a diferentes grupos ou momentos no
interior do pitagorismo. De certa forma, parece ainda considerá-las senão coerentes entre si, ao menos conciliáveis, e as refere todas, indistintamente, aos “assim chamados pitagóricos”.
O reconhecimento disso levou diversos autores a adotarem soluções conciliatórias para o problema. In primis, o
próprio Zeller. Ainda que considerasse que o testemunho de
Aristóteles devesse ser tomado com bastante cuidado nesse
caso, sua proximidade histórica com as doutrinas pitagóricas
deveria garantir, de certa forma, a procedência da especial articulação presente na Metafísica. Assim, para Zeller:
Não há dúvida de que na exposição de Aristóteles devemos
procurar antes de tudo e somente sua própria maneira de ver,
e não um imediato testemunho da realidade de fato, todavia
Page 11
View in PDF(opens in a new window)mesmo neste caso [da teoria numérica] tudo fala a favor de
um reconhecimento do fato de que esta sua maneira de ver
estivesse fundamentada sobre um direto conhecimento da
efetiva conexão das ideias próprias do pitagorismo (Zeller e
Mondolfo 1932: 486)37.
Frank (1923: 77 n196) e Rey (1933: 116), exatamente
para exorcizar a possibilidade de incompatibilidade delas, imaginam a possibilidade de Aristóteles ter compreendido as três
versões como derivadas logicamente uma da outra. De maneira
especial, Rey elabora uma proposta conciliatória entre a versão
dos números serem as coisas e aquela dos números imitarem as
coisas: os números seriam as coisas quando se considera sua
natureza e imitariam as coisas quando se considerassem suas
propriedades (1933: 356ss.)38. Mais elaborada é a argumentação conciliatória de Raven (1948: 43-65), segundo a qual:
Supor, como muitos comentadores parecem supor, que Aristóteles ficou totalmente confuso sobre isso não somente levaria para a porta dele um grande peso, mas também demoliria,
com isso, a base central sobre a qual qualquer reconstrução
confiável do pitagorismo deve ser erigida (Raven 1948: 63)40.
Em aberta polêmica com Cornford (1923: 10) e sua
ideia de que Aristóteles estaria aqui apresentando, sem distingui-los, dois momentos do pitagorismo (um primeiro ligado à
ideia de uma materialidade dos números, um segundo em que
os pitagóricos estariam mais preocupados com a composição
numérica da realidade), Raven propõe, ao contrário, uma radical indissociabilidade do uso dual dos números no interior
do pitagorismo antigo39. Aristóteles estaria assim simplesmente recebendo deste último uma concepção da natureza como
igual aos números, no sentido de constituir uma agregação
de unidades espaciais (1948: 62). Contudo, os números não
constituiriam somente a matéria da realidade, e sim estariam
também na origem das diferenças qualitativas que distinguem
uns objetos materiais dos outros. Somente assim seria possível
pensar tanto a versão da imitação como aquela dos números
dos princípios como articulada com a primeira versão41.
É certamente possível ao menos afirmar que a ideia de mímesis atribuída aos pitagóricos por Aristóteles não tem muito a
compartilhar com a paralela concepção platônica de mímesis se21
37. Orig.: non v´há dubbio
che nella esposizione di
Aristotele noi dobbiam
cercare anzi tutto e soltanto
il suo proprio modo di
vedere, e non un´immediata
testimonianza sulla realtà
di fatto. Tuttavia anche in
questo caso tutto parla in
favore di un riconoscimento
del fatto che questo suo modo
di vedere si fondasse su una
diretta conoscenza della
effettiva connessione d´idee
propria del pitagorismo.
38. Para críticas à proposta
de Frank e Rey, cf. tanto
Cherniss (1935: 386) como
Burkert (1972: 44 n86).
39. Orig.: To suppose, as
so many scholars appear to
suppose, that Aristotle was
hopelessly confused about it, is
not only to lay a very serious
charge at his door, but also,
incidentally, to demolish the
main basis upon which any
reliable reconstruction of
Pythagoreanism must be erected.
40 Orig.: To suppose, as
so many scholars appear to
suppose, that Aristotle was
hopelessly confused about it, is
not only to lay a very serious
charge at his door, but also,
incidentally, to demolish the
main basis upon which any
reliable reconstruction of
Pythagoreanism must be erected.
41. Sobre a mesma ideia,
cf. também Guthrie (1962:
Page 12
View in PDF(opens in a new window)gundo a qual as realidades fenomênicas imitam, no sentido de
serem feitas “à semelhança de”, outras realidades suprasensíveis de
nível ontológico superior, isto é, as formas. E, se essa observação é
correta, o que Aristóteles deve atribuir aos pitagóricos, quando fala
da mímesis, não pode ser outra coisa senão uma genérica correspondência entre as coisas e as relações numéricas que as explicam,
que as tornam inteligíveis. Resume bem a questão Casertano:
42. Orig.: Intelligibilità
immanente, appunto,
e non trascendente le
cose stesse. Ecco perchè le
formule pitagoriche ‘le
cose sono numeri’ e ‘le cose
somigliano ai numeri’ non
sono in contrasto, ma sono
espressioni di una medesima
intuizione fondamentale,
che è quella dell´omogeneità
tra realtà e pensiero, tra
leggi della realtà e leggi del
pensiero: capire le cose è
essenzialmente rispecchiarle,
riprodurre a livello mentale
quella struttura, pienamente
intelligibile, che è propria
della realtà materiale.
43. Centrone (1996: 105)
anota neste sentido que
l´interesse [di Aristotele] per
il pitagorismo, i cui pregi
in definitiva consistono
solo nell´assenza dei difetti
propri della filosofia dei
platonici, non è soverchiante,
ed è anzi determinado
proprio dalle affinitità con le
dottrine platoniche.
Inteligibilidade imanente, portanto, e não trascendente às coisas
mesmas. É por este motivo que as fórmulas pitagóricas “as coisas
são números” e “as coisas assemelham-se aos números” não estão
em contraste; ao contrário, são expressões de uma mesma intuição fundamental, que é aquela da homogeneidade entre realidade e pensamento, entre as leis da realidade e as leis do pensamento: compreender as coisas é essencialmente espelhá-las, reproduzir
em nível mental aquela estrutura, plenamente inteligível, que é
própria da realidade material (Casertano 2009: 65)42.
Apesar de estar clara, portanto, aquela que podia ter sido
a intuição fundamental dos pitagóricos, isto é, a possibilidade
de compreender a natureza pelos números, o fato é que a tentativa de conciliação aristotélica entre as diferentes versões da
teoria não pareceu, de toda forma, bem-sucedida.
Se, além do mais, considera-se que a versão principal da
doutrina pitagórica, aquela da identidade do número com as
realidades, obedece diretamente à intenção polêmica de Aristóteles com o platonismo, levando-o a considerar o árithmos
pitagórico como causa material, em oposição à militância platônica em favor da causa formal (Cherniss 1935: 360), torna-se difícil definir indiscutivelmente qual seria o valor historiográfico da doutrina pitagórica do “tudo é número”43.
Difícil, mas não impossível.
Uma primeira solução: uma redução aristotélica
A esta questão do valor da afirmação aristotélica “tudo é
número” como descrição válida da filosofia pitagórica foram
propostas duas soluções.
A primeira parte da contestação radical da validade do testemunho aristotélico, chegando a simplesmente negar que ao
protopitagorismo corresponda uma doutrina do número tout
court. Os motivos para essa contestação não faltam e podem ser
Page 13
View in PDF(opens in a new window)resumidos, fundamentalmente, no paradoxo de uma doutrina
que, ainda que amplamente atestada na principal fonte para o
pitagorismo antigo, isto é, Aristóteles, todavia não parece encontrar confirmação nos testemunhos mais antigos. É desse paradoxo que Zhmud (1989), no artigo citado anteriormente, começa
sua argumentação. É certamente o caso de segui-la passo a passo.
O horizonte em que se insere a reflexão de Zhmud é aquele de uma história da tradição que define a categoria pitagorismo a partir de uma identificação doutrinária. Nesse sentido, a
preocupação fundamental do autor é aquela de contrastar a impressão que o texto aristotélico parece deixar de que a definição
de “alguém que fala de números” seria a melhor definição de
um pitagórico. O critério identitário revelaria quanto de circular, quanto de petitio principii, haveria nessa utilização do critério dos números para identificar um pitagórico (Zhmud 1989:
272). De fato, apesar de diversas tentativas a esse respeito, nenhum historiador – afirma Zhmud – teve sucesso na busca de
qualquer doutrina sobre os números nas fontes pré-aristotélicas
sobre o pitagorismo (Zhmud 1989: 272).
A partir desses argumentos, Zhmud admite somente
duas possibilidades de solução da questão: ou a expressão
“tudo é número” pertenceria a um antigo e secreto ensinamento do “divino” Pitágoras, do qual todavia não se teria
alguma referência nas fontes mais antigas (e que, portanto,
deveria ter sido revelado diretamente a Aristóteles); ou esta
expressão, assim como a doutrina a ela vinculada, não seria
de fato de alguma maneira uma doutrina pitagórica44. Esta
segunda possibilidade corresponde a uma já clássica posição
de Burnet, para quem“o próprio Pitágoras não teria deixado
nenhuma doutrina desenvolvida sobre o tema, enquanto os
pitagóricos do quinto século não se interessaram em acrescentar nada deste tipo à tradição da escola” (1908: 119)45.
Ainda que não deva maravilhar, depois dos estudos de Cherniss, que o método “historiográfico” aristotélico tenha a liberdade
de operar reformulações e traduções em seus mesmos termos das
doutrinas de seus predecessores, é todavia o caso de perguntar-se
o que levaria Aristóteles a postular exatamente essa doutrina do
“tudo é número”, que, na forma atual, não devia ser pitagórica.
O que foi dito até aqui pode já sugerir um primeiro esboço de resposta a essa pergunta: de certa forma, Aristóteles é confrontado com grande diversidade de fontes pitagóricas, tanto
antigas (Hipaso) quanto dele mais próximas (Ecfanto, Filolau,
23
44. Assim comenta
Zhmud: If we do not wish to
think that the central dogma
of Pythagorean philosophy
was secret, then it would be
quite reasonable to suppose:
either this dogma was not
central, or it was not a
dogma at all. Only very few
of those who write about
Pythagorean philosophy
arrive at such a paradoxical
conclusion (Zhmud 1989:
275). Sobre a prática do
segredo na comunidade
pitagórica mais antiga, cf.
Cornelli (2011: 92ss).
45. Orig.: Pythagoras himself
left no developed doctrine
on the subject, while the
Pythagreans of the fifth century
did not care to add anything of
the sort to the school tradition.
Da mesma ideia também
Gigon (1945: 142).
Page 14
View in PDF(opens in a new window)Arquitas). Contudo, para as finalidades internas à Metafísica de
Aristóteles, conforme se viu acima, essa pletora de pitagóricos
precisava ser reconduzida a um denominador comum, a uma
escola que, de certa forma, coubesse no percurso histórico-teorético que Aristóteles pretendia desenhar em sua doxografia.
Sem essa redução aos mínimos termos teóricos, de fato, seria impossível inserir os pitagóricos no interior do modelo agônico com o qual Aristóteles descreve a história dos predecessores
(Cherniss 1935: 349). Somente dessa forma, por exemplo, o arché
pitagórico encontra seu lugar de antagonista da causa material
jônica. Ao mesmo tempo, todavia, exatamente certa imprecisão
terminológica das fontes pitagóricas (da qual, como vimos, Aristóteles parece reclamar em Met. 1092b1-13) permite a inserção do
número pitagórico como, ao mesmo tempo, precursor da causa
formal platônica. Vale pensar se a reclamação de Aristóteles não
seria um blefe, pois se o número já não tivesse esta dupla valência,
bem, Aristóteles a teria provavelmente inventado, pois ela calça-se
à perfeição no interior de seu modelo doxográfico.
Assim, a postulação de “tudo é número” teria sido a
solução de um problema de Aristóteles e, de certa forma, o
início de uma longa tradição que, a partir de Zeller (Zeller
e Mondolfo 1938: 435), reduziu a categoria pitagorismo aos
estreitos limites dessa doutrina metafísica.
Uma segunda solução: Filolau
46. Concordam com isso
Burkert (1972: 236),
Zhmud (1989: 281),
Huffman (1993:57) e
Centrone (1996:105).
É a partir desse impasse hermenêutico deixado pela
solução acima, isto é, da invenção aristotélica de uma categoria historiográfica (“os assim chamados pitagóricos”) e
de um denominador comum doutrinário para esta (“tudo é
número”), que toma corpo uma segunda solução ao problema. Essa segunda solução empreende especificamente uma
reavalição das fontes pitagóricas do século V aEC em busca
de possíveis referenciais históricos da expressão “assim chamados pitagóricos” de Aristóteles.
A começar por uma observação importante: a grande quantidade de referências ao pitagorismo e à teoria dos números em
Aristóteles revela um fato inquestionável: Aristóteles devia mesmo possuir diversos textos pitagóricos, por assim dizer, na mesa
dele46. Algumas passagens de Aristóteles sugerem que a certeza
com a qual considera inquestionáveis certas afirmações sobre os
pitagóricos depende exatamente do fato de ele ter acesso a uma
suficientemente ampla literatura de autoria deles. É o caso da dis24
Page 15
View in PDF(opens in a new window)cussão sobre se os pitagóricos consideravam o mundo gerado ou
não. Aristóteles afirma ser impossível duvidar disso: “Se os pitagóricos admitem ou não um processo de geração dos entes eternos,
é questão sobre a qual não resta dúvida” (Met. 1091a13)47. Da
mesma forma, demonstra ter absoluta certeza de que os pitagóricos não haviam tratado dos corpos sensíveis: “Não disseram absolutamente nada sobre o fogo, nem sobre a terra, nem sobre os
outros corpos” (Met. 990a16-17)48.
Além disso, a tradição informa-nos que Aristóteles dedicou ao menos dois livros aos pitagóricos como tais, sem contar
as obras dedicadas especificamente a Pitágoras ou a um ou outro pitagórico específico, como teria sido o caso de Arquitas49.
A resposta à pergunta sobre quais seriam esses “assim chamados pitagóricos” aos quais Aristóteles quer atribuir a doutrina
dos números depende, assim, em boa parte da possibilidade
de identificação desses livros. Contudo, os únicos livros dos
quais temos notícia, pela tradição, são aqueles de Filolau e
Arquitas. Como Aristóteles parece tratar deste último à parte,
e não debaixo do guarda-chuva dos assim chamados, o mais
provável é que sejam exatamente os livros de Filolau os textos
pitagóricos que estavam na mesa de Aristóteles.
Este segundo caminho de solução seria representado,
portanto, por Filolau.
É o caso de anotar, ainda, que não se deve maravilhar,
que não se chegou antes a essa mesma conclusão metodológica, segundo a qual a solução do problema da atribuição da
doutrina “tudo é número” fosse o estudo dos fragmentos de
Filolau. Grande parte da tradição, a começar pelo próprio
Cherniss (1935: 386), conforme se acenou acima, não pôde
seguir nesse sentido, pois, na esteira de Frank (1923), considerava os textos de Filolau espúrios. Somente a partir da
“redescoberta” do valor de parte essencial dos fragmentos de
Filolau, já com Burkert (1972, 218ss.) e depois com Huffman
(1988; 1993), é que foi possível trilhar esse caminho.
A recente reavaliação do valor histórico dos fragmentos
de Filolau permite, portanto, novos passos hermenêuticos
anteriormente impossíveis. Contudo, responder à pergunta sobre quem seriam os pitagóricos na obra de Aristóteles
com Filolau e, portanto, com o pitagorismo do V século aEC,
continua carregando sérias dificuldades para a identificação
aristotélica dos pitagóricos como aqueles para os quais “tudo
é número”; por um simples motivo: mesmo em Filolau não há
referência explícita a essa doutrina do “tudo é número”.
25
47. Orig.: οἱ μὲν οὖν
Πυθαγόρειοι πότερον
οὐ ποιοῦσιν ἢ ποιοῦσι
γένεσιν οὐδὲν δεῖ
διστάζειν (Met. 1091a13).
48. Orig.: διὸ περὶ πυρὸς
ἢ γῆς ἢ τῶν ἄλλων τῶν
τοιούτων σωμάτων οὐδ’
ὁτιοῦν εἰρήκασιν (Met.
990a16-17).
49. Para ampla discussão
dessas obras e todas as
referências ao caso, cf.
Burkert (1972, 29 n5).
Page 16
View in PDF(opens in a new window)Por óbvios motivos não poderemos entrar no labirinto
da questão filolaica para avaliar em que medida uma solução
dessa questão possa se apresentar também como solução para
a atribuição ao pitagorismo antigo de alguma teoria numérica.
Avaliei esta questão no meu livro, publicado aqui pela Classica
Ditalia em 2011, e desde então venho discutindo, com certo
sucesso, minha proposta com os colegas que se dedicam ao
estudo das tradições pitagóricas. Será certamente um grande
prazer poder voltar aqui para continuar esta discussão, é claro.
Todavia, creio que este esboço da problemática e a primeira
solução aqui indicadas podem dar – por assim dizer – bastante
pano para a manga para a nossa discussão.
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