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Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)REVISTA DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS
AS \
Ca
VAANNA, SR.
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AT
Sobre Pitágoras e pitagóricos
Sylvio Barata Vianna
“Pharamond fut le premier roi de France.
west pas très sûr qu’il ait existé,
On
Qoi qu'il en
soit, son fils Chilpéric lui succéda...”
[= que se lè, talvez, num antigo manual — comenta Abel
Rey — poder-se-ia dizer de Pitägoras e dos pitagöricos.!
Na verdade, varias circunstâncias determinaram denso véu
de mistério em torno da figura de Pitagoras, mistério que se
estendeu a seus discipulos, notadamente, os imediatos.
Tao
misteriosa se tornou a figura de Pitagoras, que chegaram
alguns autores a duvidar — como duvidosa se apresenta a
pessoa de Faramond no trecho transcrito — de sua existéncia
fisica. Mas esta é fartamente comprovada por varios testemunhos,
conforme veremos,
dentre os
quais,
Heräclito
de
Éfeso, Heródoto de Halicarnasso, Platáo e Aristóteles.
Dentre os motivos que contribuíram para o grande mistério em torno de Pitágoras, foi, talvez,
o mais poderoso a
limitacáo das doutrinas professadas pelo mestre e, provavel1.
ABEL REY, La jeunesse de la science grecque.
Paris, 1933, p. 103.
Albin Michel,
Página 2
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a en
SOBRE PITÄGORAS E PITAGÖRICOS
3
mente, pelos seus primeiros discipulos, à palavra oral. Ver-
Parece-nos oportuno observar que essa circunstància —
dade é que escritos ha atribuidos a Pitagoras, dentre os quais,
limitacäo à palavra oral — também adotada por Sócrates,
os famosos Versos de ouro, mas que, realmente, resultaram —
fez, deste, outro grande enigma da histöria da filosofia grega.
conforme expressäo de Léon Robin — de “grosseira compilagäo
do sec. III ou IV da nossa era” .2
No discutido trabalho sobre as Vidas, doutrinas e sentenças
dos filösofos ilustres
(VIII, 67), diz Diögenes Laércio que
escreveu Pitagoras trés livros sobre a educacäo, o estadista e
a natureza, mas isto é recebido com toda incredulidade pela
maioria dos historiadores, acreditando estes que tenham sido
essas obras produzidas no see. II ou I a. C.
E mais interessante 6 lembrar que, embora nao possa nenhum
historiador do pensamento filosöfico da Grécia apresentar um
perfil trangüilo de Pitägoras nem de Söcrates, também nao
pode ignorar que tiveram ambos influéncia decisiva sobre toda
a filosofia postreior do Ocidente, o que se afigura, 4 primeira
vista, paradoxal. Referindo-se a Söcrates, escreve Brunschvicg
que se observa esse paradoxo na origem de quase todo grande
movimento de idéias: sabe-se suficientemente para afirmar-se
que tal movimento se deve 4 iniciativa e 4 ascendéncia de de-
Dos poucos autores contemporäneos que acreditam ter Piterminada personalidade; mas nado se sabe bastante para se
tagoras escrito, lembramos Gigon, para quem os pitagöricos
extirparem, dessa personalidade, os pontos obscuros, as conde orientacäo mais avancada e que, ao mesmo tempo, respeitradicóes e as lendas.* Como no caso de Sócrates, no qual nao
tavam a memoria do velho mestre, vendo, em seus trabalhos,
se pode distinguir precisamente o que foi professado por ele e
sérias dissonâncias com o progresso alcancado pela Filosofia
por Platäo, nao & possivel separar, no caso de Pitágoras, suas
da Natureza, tudo fizeram para negar-Ihe, dos mesmos, autoria.?
doutrinas das de seus discipulos, notadamente os imediatos.
Certo nos parece entretanto o ponto de vista da maioria dos
Outra circunstancia que contribuiu seriamente para o granhistoriadores que negam a existéncia de qualquer escrito de
de mistério em torno de Pitägoras: a lenda que o cercou ainda
origem pitagórica, confirmando o que, a respeito, ja dissera
vivo, tendo-se mesmo tornado ele um herói lendärio. E tudo
Jämblico (c. 250-330), filósofo neoplatönico, discípulo de Pornos faz acreditar que o proprio Pitagoras contribuia para isto.
firio (232-304), em sua Vida pitagörica, que “... jamais se
Refere-se Herödoto de Halicarnasso, historiador grego do séc.
encontrou qualquer nota pitagörica antes do tempo de Fi-
V a. C., a uma histöria que vincula Pitägoras com Zalmöxis,
lolau...”, este, famoso representante do pitagorismo e que
figura mitica da Trácia.5 E num de seus trabalhos exotéricos
floresceu na segunda metade do séc. V a. C., mais de cin-
Sobre os pitagóricos, fala Aristóteles da divisäo “altamente
qüenta anos apös a morte de Pitägoras.
secreta” dos seres humanos em trés classes: deuses, homens e
seres como Pitagoras. Escreve mais o estagirita, no mesmo
trabalho, que Pitagoras, filho de Apolo ou de Hermes, desceu
aos infernos e de la retornou; que tinha ele uma coxa de ouro,
possuia o dom da ubiqüidade e era autor de profecias... E
foi a lenda acatada por varios discipulos de Aristöteles, como
Ora, näo nos tendo chegado palavras de sua autoria, haveremos, para reconstituir sua personalidade bem
como suas
doutrinas, de recorrer a fontes intermediärias, muitas vezes,
longe de serem concordantes.
2.
LEON ROBIN, La pensée grecque et les origines de Vesprit scientifique.
Ed. Albin Michel, Paris, 1932, p. 60.
3.
OLOF GIGON, Los origenes
de la
4.
filosofia griega,
de
Parménides. Trad. de M.C. Gütiez. Gredos, Madrid, 1971, p.
Hesfodo
137.
a
LÉON BRUNSCHVICG, Le progrès de la conscience dans la philosophie
P.U.F., Paris, 1953, vol. I, p. 4.
occidentale.
HERÓDOTO, Histórias, IV, 94.
Página 3
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)SOBRE PITÁGORAS E PITAGÓRICOS
5
Clearco, Aristöxeno e outros, além de Heräclides Pôntico, fanoviciado, o período de cinco anos de siléncio. Querem alguns
moso representante da Academia e contemporaneo do estahistoriadores que se limitasse esse siléncio ás atividades de
girita
.®
natureza mistica. Mas fala-nos o mesmo Jámblico, no mencitada
cionado trabalho, que um dos mais famosos representantes
(VIII, 3), que “ se iniciou em todos os mistérios e ritos, nao
santuarios egipcios onde obteve o saber secreto concernente
da ordem, Hípaso de Metaponto, teve a leviandade de náo só
revelar a estranhos uma descoberta de Pitágoras — a qual,
de acordo com o severo regulamento da Escola, podia ser
discutida apenas entre mestre e discípulos — como de atriaos deuses...”
buir-se aquela descoberta,
De Pitägoras,
escreve Diögenes Laércio,
na
obra
sò da Grécia como de paises estrangeiros... Em Creta, desceu
ele ao antro de Ida com Epiménides; 7 também entrou nos
Refere-se Arthur Versiani Velloso a Pitagoras como “magico
ou
bruxo-mor”
a
quem se
vinculavam
pitagöricos,
pitago-
E como punigäo, teriam os confrades de Hipaso afogado-o ou alijado-o da ordem ou construido um túmulo com seu
nome,
apesar de vivo ainda.
reanos e pitagoristas, aprendendo, gradativamente, “uma cién-
Lendária que seja a história, tem ela certamente seu fundo de
cia misteriosa, hermetica, sibilina e esoterica, que tinha da
verdade. Donde parece sensato concluir-se que a discussáo
das doutrinas pitagóricas, fossem místicas ou científicas, deveria limitar-se ac ámbito da ordem. Aliás, escreve Porfírio
magia e do baixo espiritismo dos cultos órficos e asiäticos”
.®
Por estes e outros motivos, escreve Francois Millepierres
que, “para dizer-se a verdade, ainda vivo, ja passara Pitagoras para a lenda.
Nao
podemos proceder,
relativamente
a ele, de acordo com os métodos rigorosos da pesquisa histöem sua Vida de Pitágoras: “O que dizia ele a seus íntimos
ninguém pode saber com certeza, pois mantinham siléncio
impressionante”. E fácil entáo imaginar a vastidäo de assunrica. Por muito que remontassemos as fontes de informacöes,
tos que levaram para seus túmulos os representantes da
Pitagoras, sem se integrar, como Orfeu, no mito puro, apre-
Escola.
senta-se-nos como um ser sobrenatural”.?
Embora postas em dúvida, por grandes historiadores da
filosofia grega, as viagens de Pitagoras ao Oriente, as noticias
a respeito säo muito insistentes. E as atitudes acentuadamente místicas dos pitagóricos fazem-nos lembrar práticas
ou hábitos orientais orignariamente estranhos à tradicáo
grega. Sabemos, p. ex., que, dentre os hindus, os egípcios e
outros povos do Oriente, havia séria preocupacäo no sentido
de manter-se o alto saber, que era um saber sagrado, como
privilégio da casta sacerdotal. Daí, o siléncio imposto aos
intelectualmente privilegiados, isto é, aos que mereciam, pelos
seus dotes mentais, receber aquela elevada sabedoria. Sabe-se
que, mesmo depois de introduzida a escrita na India, foram
os Vedas, livros do saber sagrado hindu, transmitidos durante
séculos, de geracáo a geracäo, através da palavra oral, sendo
Mais outro motivo determinante do mistério em torno de
Pitagoras e seus discipulos imediatos: o siléncio imposto pelo
mestre a seus sequazes.
Sabe-se que fundou Pitagoras em
Crétona, na Italia Meridional, uma ordem mistica onde, evidentemente, eram discutidas as doutrinas da Escola. Informanos o referido Jamblico, em sua obra citada, que haviam os
candidatos, ao ingresso na ordem, de observar, como parte do
6.
L£ON ROBIN, op. cit., p. 59.
7.
Epiménides de Creta, contemporáneo dos Sete Sábios da Grécia —
ás vezes, considerado um deles — está, como Pitágiras, relacionado com
histórias fantásticas.
8.
ARTHUR
VERSIANI
VELLOSO,
Agir, Belo Horizonte, 1947, p.
9.
Introduçäo
à
História
da
Filosofia.
98.
FRANCOIS MILLEPIERRES, Pythagora, fils d'Apollon. Gallimard, Paris,
dotados os seus transmissores do mais elevado gabarito inte-
Página 4
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)“Como lider religioso
a época em
ue
e, ao mesmo t
e
empo, genio
ci
’
=
ignorado por ninguém", 2
SOBRE PITAGORAS E PITAGORICOS
9
encontramos em Parménides de Eléia, fundador de fato da
erado
ente atacado por outros, mas
Escola Eleata e marco decisivo na histöria da filosofia grega
em particular, e ocidental em geral: grande helenista que &,
Cornford considera-o auténtico produto (off-shoot) do pitagorismo. E acredita o mesmo autor haver Platao encontrado,
na filosofia itálica, sua principal fonte de inspiracao.! E nao
sabe Bertrand Russell de outro homem que haja tido tamanha
influéncia no ämbito do pensamento, justificando-se: “Digo
isto porquanto o que se afigure como platonismo é, desde que
analisado, pitagorismo na esséncia”.1% E apesar da severa
crítica promovida em vários trechos de sua obra, contra os
pitagóricos, manifestou Aristóteles visivel influéncia do pitagorismo. Exemplo se encontra — como observa Burnet —
ricos” où co
m os “itáliic
os”
0rn
dificuldade em
dist
do de seus disc
ipulos.
= Apesar de
tant
ivi
as dúvida
s
a
j
inguir as
ia
respeito
de Pitá
gora
s — Ca
i
na “teoria das très vidas”, atribuida por Heráclides Póntico a
Pitágoras, a qual, além de adotada pelo estagirita,'* inspirou-o
na classificacäo das ciéncias em práticas, poéticas e teóricas.!”
A “teoria das trés vidas” foi exposta por Heráclides num
de seus trabalhos que se perderam, mas que chegou a ser
lido por Cícero e Diógenes Laércio, tendo-nos entáo estes
podido transmiti-la. Conforme escreveu o grande tribuno
romano, reproduzindo o que expusera Heráclides, estivera
Pitágoras em Flionte, situada no Peloponeso e onde pronunciara ele para Leo, príncipe da Cidade, sábios discursos sobre
assuntos diversos. Maravilhado com o alto saber de Pitágoras
e com sua elogiiéncia, perguntou-lhe Leo de que ciéncia fazia
ele particularmente profissio. Respondeu-lhe Pitágoras que
náo tinha ele nenhuma ciéncia, mas que era filósofo. Surpreendido com o neologismo, indagou-lhe o principe a respeito
dos filósofos: quais eram? em que se distinguiam dos outros
12.
F.M. CORNFORD, From Religion to Philosophy. H. & Brothers,
New York, 1957, p. 194,
+2:
W.K.O.
13.
GUTHRIE, A
Press, Cambridge, 1967, vol. History of Gre
1, p. 181,
ek Philosophy,
BERTRAND RUSSELL, A History of Western Philosophy, S. and
Schuster, New York, 1945, p. 37.
University
14.
ARISTÓTELES, Etica de Nicómaco. I, 5, 1095 b, 13-1096a 4.
ARISTOTELES, Metafisica, VI, I, 1025b 26.
Página 5
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)lectual. Também no Egito, onde parece ter estado Pitagoras,
era o alto saber monopolizado pela casta sacerdotal.
Parece
entáo ter sido O mestre influenciado por essa praxe encontradiça no Oriente quando impôs, aos sectär
ios de sua ordem,
o mais rigoroso siléncio.
Queremos finalmente referir-nos a outra circunstància que
aumenta o mistério em torno de Pitägoras:
7
SOBRE PITAGORAS E PITAGORICOS
Acata Gigon a acusagäo de Heräclito, contida no fragm.
D. 129, considerando-a confirmada por Herödoto num trecho
de suas Historias (II, 123), onde se refere este a gregos que
adotaram a doutrina da metempsicose como se fosse de sua
autoria, mas que, na verdade, era originariamente egipcia.1°
Entretanto,
Burnet,
Stain
e
outros,
grandes
conhecedoha informagöes
res da lingua grega, analisando esse trecho das Hisiörias de
contraditörias a respeito de sua honestidade intelect
ual. Com
efeito, Heräclito de Efeso, outro famoso filésof
o grego présocrätico, contemporäneo de Pitägoras, embora
de geracao
Herödoto, nao admitem que esteja o historiador se referindo
posterior, a ele se refere de modo bastan
te depreciativo:
a personalidade do passado — como seria o caso de Pitägoras
relativamente àquele autor — sim, a contemporáneos seus.
Acreditam Burnet e Stain — que também säo grandes conhecedores da filosofia grega pré-socratica — que esteja Herödoto
“Aprender muito
té-la-iam
nfo
enriquece
enriquecido Hesiodo
fanes e Hecateu”.
(fragm D.
a
e
inteligéncia;
Pitágoras,
caso
assim
conträrio,
como Xenó-
40)
se referindo a Empédocles, contemporaneo seu e que realmente
professou, como Pitàgoras, a doutrina da metempsicose. Além
disto, refere-se Herödoto a Pitagoras, noutro trecho das mes-
Outra do mesmo filösofo:
mas Histörias
(IV, 95), como “um dos näo menores säbios
dentre os gregos...”
“Pitágoras,
filho
de Mnesarco,
levou
as
pesquisas
mais
longe
do que os demais homens, e, fazendo uma selegäo
desses escritos, reivindicou, como sabedoria pröpria, o
que nada mais era
do que conhecimento de muitas coisas, uma arte
de embuste”.
(fragm.
D.
129)
Ora, de Empédocies de Agrigento, mais outro famoso pensador pré-socratico, que floresceu, aproximadamente, no ano
de 444, portanto, de geracio muito posterior à de Pitagora
s,
mas certamente entrosado
no pitagorismo,
constando mesmo
ter sido, ele proprio, representante do movimento
pitagörico,
chegaram-nos as palavras depois transcritas. Apesar
de nao
se referirem estas, expressamente, ao velho mestre,
a ele — é
a opiniäo de grandes intérpretes — devem
reportar-se:
“E dentre aqueles homens
raro saber,
(os da idade de ouro), havia um de
versado ao mäximo em
toda sorte
de obras sábias,
agio da maior riqueza de conhecimentos.
..”
(parte do fragm.
. 129)
A respeito, náo pode o testemunho de Heráclito ser levado
muito a sério, pois foi o efesino irremediävel misantropo,
verificando-se, através de suas sentencas que nos chegaram,
que rarissimos homens mereceram seus elogios. Alias, no
proprio fragm.
D. 40 de Heraclito e que transcrevemos,
observa-se sua critica impiedosa a pensadores que foram,
ao lado de Pitagoras, grandes expressöes da cultura grega.
E apesar da diserepäncia entre a referência de Heráclito e a
de Empédocles a Pitagoras, verifica-se, nos dois fragmentos,
essa concordäncia: que foi o velho mestre homem de raro
saber.
Mas näo foi sö Heräclito, com sua irremediävel misantropia,
que se insurgiu decididamente contra Pitagoras: conta-se este
dentre os mais famosos génios que despertaram, ou muita
simpatia, ou ódio intenso. A propósito, escreve Guthrie:
OLOF GIGON, op. cit., p. 138.
Página 6
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)homens? Explicou-lhe entào Pitagoras que se
lhe aparentava
a vida humana como um desses grandes mercad
os que se
organizavam por ocasiäo dos jogos e
onde a Grécia em peso
se reunia: uns ai vinham para conqui
star a gloria e con-
Seguir o prémio merecido pelos seus corpos
de atletas; outros
lá eram Jevados pela ambicäo do lucro que
contavam apurar
nas compras e vendas; mas ali se
encontravam também homens
de outra classe — os mais nobres — atraidos
unicamente pelo
desejo de ver, de observar desinteressadament
e o que la se
fazia e como as coisas se passavam. Assim
como deixamos
uma cidade para penetrar num mercado
concorrido, saimos
de uma vida anterior e nos despojamos de
nossa forma antiga
para entrar nesta vida presente:
outros, no dinheiro;
um
uns só pensam na gloria;
número
muito restrito, nada mais
levando em conta, dedica-se com ardor à
consideracäo da natureza; dizem-se estes amigos da sabedo
ria, isto &, filösofos, e,
como num mercado, a atitude mais
digna do homem livre é a
de um espectador que nenhum proveito
procure para si mesmo,
a contemplacäo e o conhecimento arreb
atam-no mais do que
qualquer outra ambicño.15
Por sua vez, reportando-se 4 mesma histór
ia exposta por
Heráclides, escreveu Diógenes Laércio
(1, 12) que tería dito
mais Pitágoras para Leo: “nenhum home
m é sábio, somente
Deus.” Isto é, a sabedoria só convinha a
Deus.
poderia pretender o homem, na sua peque
nez, era ser amigo da
Sabedoria, isto &, filösofo.
E interessante observar
O máximo que
que,
também
Platào,
adotou
a
trecho de seu Fedro (278d),
onde diz Söcrates ao personagem
que da nome ao diélogo:
“A palavra säbio, Fedro, parece-me
demasiadamente sublime,
só convindo a Deus; a expressäo amig
o da sabedoria (filösofo)
ou outra semelhante ser-Ihe-ia
mais conveniente e adequada
16.
Cicero, Tusculanas, V, 3.
ifica
por Cicero € Diógenes: Laércio, ver
AA
tivamente a Pitágoras
e gi
termo filòósofo, o a
1. Foi ele o inventor dofüo
verdade, ee —
eg
ar. Na
sofar.
ilosof
| cognatos Fili osof iai e
a
documento anterisenorgaa dedatqua
a aes nenhum áne
iquer dessas
nal
o seu, & pre
e mesmo contempor
amos,
en
tahas A
para Pitágoras, umaconsi
2. Era a Filosofia, val
te pl ada
e dizer, teörica,
palavras.
os mais a
inuta de homensse,n
as ea beclamsseposdim
nn
t
nao
te,
men
ior
ter
DE
a
e
a ps
as, como eas a A
ricas maisetcele. vad
a ilosofia dateöNat
r
ocupava-s isem
za, Preras
es x humanos, ure
m a sat "e
undo Pitágo sem, co
oe y ns scotia, seg
e
lucros r
e > ou a gloria egoouista icopros,jegfosäo do pro
Pe ps
prio no
n
desinteressada,
o
.
recompensa do mesmo genero
3. Professava Pitágoras A o
>=ee en
.
s
ado
dot
es
ser
uer
isq
qua
h
h
s
p
s
no
,
n
e bre ARTES e vegetais. E o que verificamos he>
a procedente de Empédocles de Agrigen iE
= n e representou 0 movimento pitagorico, P
com kia
arbusto e um
um
a,
moc
uma
e
o
moc
sos4sgaroe, esuma
SS
.
peixe mudo no mar.” (fragm
2
como
mesma atitude, conforme se vé num
& sua pequenez,”
11
SOBRE PITÄGORAS E PITAGÖRICOS
ida
, reproduzhe
clidesA
A
or Herca
p
a
tad
con
ri
a
istö
tor
his
na
os
ead
Bas
«Porque fui, outrora,
17)
moso vigile
nio, tambémágofaras
nes de Colofôane
mas, p
temporao de Pit
pré-socrático,
s de algumas
avé
o posterior, estemunhara, atr
i
mente, de geracä
na. Quando pasg
na doutri
s
tre a
”
:
Já Xenófa
palavras, a crenca E pe ce
l
l, na
sava este por cer to loca
conta Xenófanes — teria ele exclamado
ava um cao
Página 7
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)“Parai!
Náo batei!
: E a alma
tom de sua voz." | fragm. D la amigo. Reconheci-a pelo
O mado satiri
atirico
Xenöfanes di-no
que se pronuncia
ni tal
que nia =
a entender
ui
via sa
doutrina tradicionalmente sul
severamente 17
r :
a
à
+s
gi
=
sua vez, viria Aristóteles a critic4-la
Mica: teria Pitigoras recebid
= a famosa doutri
na? Variam
ma coisa é certa:
a informan
os referimos, de que
a teriam
. oe consideravel
mente.
cao
de Heródoto, à qual ja
SA de que foi ela profe
hindus, ve
tàgoras re Ps de havé-la et; =
| de es da Pérsia. Robustecida se coreani
com o historiador alemäo
»
a
que, quando
fato deJónia,
antiga
parte 4gb Pitágoras em Samos gina
da India,bani
mesmo sob
g be
r do império
le, eefundadocomo
vigio
i
doutrina perl. ay 0 fundou Pitágoras sua en Po
ios do ort ‘
órficos, isto &, partidárpartir
mo, seita religiosa pelosse expandiu
do =4
a
Grécia
DiziamqueossurLei"ia que fora anaseita
VI a.C.mítico
cantor
fundada por os,
século. Pedelinavers di na literatura e na arte gregas da En
aemo
bem
alma
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2nesindig
Tal
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mu
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os 6rficos — resulta er
humano da juncáo deedoissega
princípios díspares: a al
pa
paturesa divina e
‚ © O corpo, elemento grosseiro que
como sua prisä
sao ou túmul 0
EX)
4
[4
B
cottons
ável eé que tenham os
- Bemdosprov
órfico
: a doutrina
recebido
agoricos
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pitag
8,
17.
18,
John
ARISTÔTELES, Da alm
a, I, 3, 407 b, 22-26
TEODO.R
GOMPERZ,
The
Greek
Thinkers.
13
SOBRE PITAGORAS E PITAGORICOS
rina da meAcha Gomperz que se possa resdaumidar aalmdout
a pelo pecado.”
tempsicose nessa expressio: “a asquealmas, outrora, ao lado dos
De origem celestial, viviam noss
eitas. Mas cometeram
deuses, conhecendo as realidades aperf
natureza dessa falta, nao
elas uma falta. Qual tenha sido
eles tempos. Por castigo,
ha esclarecimento na literatura daqu
num corpo terreno, decaindo.
houve cada alma de encerrar-se
ou túmulo da alma.
Funciona pois © corpo como prisio dout
rina estreitamente
a
Dentre os órficos, encontrava-seo com
de Dioniso
vinculada a certo mito, conhecid éfonoa, “oao mito
, ainda meZagreu”, este, filho, de Zeus e Persério do munqual
Perseguido
do.
imp
nino, confiara o pai celestial onga
par através de diversas
pelos Titans, conseguiu a cria escafor
de touro, foi apametamorfoses, até que, assumindo aa redumazira
a pedacos por
nhada pelos seus perseguidores que que, salvo mpor
a, foi
eles devorados, exceto o coracio , criar “o novoAten
Dioniso”.
dele
levado a Zeus, que o comeu para,Zeus
zindoredu
,
raio
com um
Punindo os Titans, fulminou-os
as, nasceu a raga humana
os a cinzas. Precisamente dessas cinz principios contrarios: ©
que, consegiientemente, contém dois tado pelo corpo; € 0
titanico, indigno, desprezivel, represenos Titans devorado um
principio dionisiaco, nobre — haviam pela alma. Assim se
deus, que era Dioniso — representadoana, ou seja, a contraexplica a duplicidade da natureza hum por um s6 individuo.
adas
dicäo de condutas, mas e boas, adot
s, foì decìdidamente
A respeito, escreve Platäo que, como vimo
proinfluenciado pelos pitagéricos — tendo estes tamilobém400-c),
(Crät
fessado a doutrina — num de seus diálogos corp
o) e sema
jogando com as palavras soma (sua =
(oñua = sinal e túmulo):
o túmulo (sema) da alma,
“Dizém uns que o corpo ($0 ma) 6
durante esta vida. Como,
porque se encontra ela nele 8epultada
ma exprime o que queiri
al
a
que
lado, & por meio dele
por outro
to, convém-Ihe a
ela dizer, fala-se que, também sob este aspec
s verossimel € terem
ce mai
palavra sinal (sema). O que me pare
Página 8
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)sido os Órficos que apresentaram esse termo com o propósito de
dizer que a alma expia as faltas por que é punida, e que estä
encerrada num corpo,
como se estivesse numa prisäo..."
E de Empédocles, chegaram-nos esses fragmentos:
“Chorei
e
familiar".
para
lamentei
quando
vi
essa
regiäo
que
nfo
me
era
“De quantas honras, de que altura de felicidade caf
errar
caverna...“
nesta
terra
“Ai de
ti,
dentre
os
miserável
mortais!"
raga
de
"Estamos
mortais,
duas
nesta
vezes
amaldigoada: de quantas lutas e de quantos gemidos nasceste!"
“(A
divindade)
de carne".
revestiu
(fragm.
D.
(as
almas)
com
estranho
invólucro
118/120, 124 e 126)
Quer isto dizer que, para os sectários da doutrina, a mais
nobre atitude do homem era promover a cisäo dos laços que
prendem a alma ao corpo,
Näo poderia ocorrer tal cisäo por
meio violento como o suicidio, pois, pertencendo nés aos deuses,
a estes unicamente competia decidir de nossa vida.
Adotar
aquele meio violento seria praticar, pois, um ato de impiedade.
È o que diz Sócrates, no diálogo platónico Fédon
(62b), a
dois interlocutores pitagóricos:
-
nés,
podemos
homens,
escapar
estamos numa
nem
fugir...
espécie de
0s
deuses
posto,
velam
de
que
näo
por
nós,
que
constituimos uma de suas propriedades...”
Como livrar-se entáo o homem desse mau companheiro que
è o corpo? Pela purificacio
(#0agox).
Dentre
os
érticos,
assumia ela caráter ritual. Entre os pitagóricos, realizava-se
mediante a observáncia de principios morais e, principalmente,
pela pesquisa intelectual desinteressada. Quanto ao aspecto
moral da purificacäo dentre os pitagóricos, havia cada membro
da comunidade de propor-se, no fim do dia, trés questöes
, bem
como respondé-las: “Que fiz de bom?” “Em que
falhei?” “No
que falhei, que deixei de fazer?” Além disto, observavam
os
pitagóricos numerosos preceitos, muitos dos quais soam
táo
estranhamente, que vários historiadores consideram-nos
resultantes da sobrevivéncia de tabus primitivos. Exemplos:
“Náo
SOBRE PITÁGORAS E PITAGÓRICOS
15
atigar o fogo com a espada.” “Náo passar por cima da balanga.” “Náo se assentar sobre um alqueire.” “Nao comer
coracäo.” Autores hä entretanto, como Diögenes Laércio
(VII, 18), que, considerando o hermetismo da ordem pitagsrica, interpretam-nos simbolicamente. Assim é que, pela primeira sentenga transcrita, deve-se entender: nao provocar a
ira dos poderosos. Pela segunda: nao ultrapassar os limites
da egüidade e da justica. Pela terceira: näo se contentar com
o que se tem agora, ou seja, pensar no futuro (era o alqueire
considerado, entre 03 gregos, a medida correspondente a uma
racäo). Finalmente, a quarta: näo consumir a propria alma
com tormentos e paixöes.
A mais elevada forma de purificacäo dentre os pitagóricos
ocorria, entretanto, como dissemos, através do cultivo do alto
saber, que incluia náo só a Filosofia (no sentido restrito que
hoje atribuimos 4 palavra), como as ciéncias teóricas entáo
existentes, notadamente as matemáticas. Com a morte do
corpo, se tivesse o individuo seguido aquela vida austera que
incluia as purificacöes, estaria sua alma desvinculada dos lacos
materiais, livre da cadeia de nascimentos e mortes, apta a voltar
à situacäo celestial em que se encontrara, Caso contrário, haveria ela de peregrinar neste mundo, deste para aquele corpo, que
podia ser, como vimos, de animal inferior e, mesmo, de planta,
cumprindo assim o ciclo das purificacóes. È o que verificamos
através do fragmento D. 117, que já transcrevemos, de Empédocles de Agrigento. É o que se chama “ciclo de nascimentos
e mortes” de que devia procurar livrar-se o homem digno.
Conseguia tal liberacáo o verdadeiro filósofo, pois consistia o
filosofar na superacäo, por parte da alma, das solicitacdes
corporais. É o que diz Sócrates no mencionado diálogo platönico Fédon (64e - 65a):
“Parece-te portanto que as preocupagdes de tal homem (isto €,
do filósofo) nño dizem respeito ao corpo, mas, ao contrário,
e na medida do possivel, dele se afastam, voltando-se para a
alma?...”
Página 9
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)"Eis entäo esse primeiro ponto que estabelecemos: nas circunstáncias de que acabamos de falar, näo se verifica que procura
o filósofo, tanto quanto pode e diversamente dos demais homens,
desvincular
sua
alma
do
corpo?...”
Vejamos o que nos é possível falar, pelo menos aproximadamente, do próprio Pitágoras, sem esquecer a adverténcia de
Millepierres de que — considerado o denso véu de mistério em
torno da pessoa do velho mestre — náo podemos proceder, a
seu respeito, conforme os métodos rigorosos da pesquisa histórica.
Embora considerado tradicionalmente oriundo de Samos, é
prudente dizer apenas — como faz Burnet — que viveu Pitágoras seus primeiros anos naquela Cidade, pois autores houve
que o consideraram procedente de outros locais.
Conforme
Heráclito e Heródoto, era filho de Mnesarco, gravador. Apolodoro, o cronologista, situa seu akmé, isto é, seus quarenta anos
ou apogeu lá pelo ano de 532/1 a.C., era da tirania de Polícrates de Samos. Faz-nos tudo acreditar que, desde muito
jovem, foi dotado de singular voracidade pelo saber. Diz-nos
Diógenes Laércio (VIII, 2) que, com recomendacäo de Zoilus,
tio de Pitágoras, tornon-se este discípulo de Ferecides de Siros,
personagem muito discutida, misto de poeta e filósofo, relacionado com os Sete Sábios da Grécia, autor de famosa cosmogonia e considerado por Cícero o primeiro grego a admitir a
imortalidade da alma.TM Morto Ferecides, teria voltado Pitàgoras a Samos e se tornado discípulo de um tal Hermodamas.
2
Depois, teria visitado vârios paises orientais, dentre eles o
Egito onde, munido de uma carta de apresentacäo de Policrates,
dirigida a Amásis, entäo, faraó egipcio, pode penetrar nos santuärios daquele pais, assenhoreando-se do saber sagrado concernente aos deuses, Muitos historiadores, como Joseph Fabre,
acatam essa história, nela encontrando explicacäo para o misticismo pitagórico, que viria a medrar na Grécia, onde o génio
19,
Cicero, op. cit., I, 16,
20.
DIÓGENES LAfrcIO, op.
cit,, VIII,
2.
17
SOBRE PITÁGORAS E PITAGÓRICOS
exótica do Oriente.*% =
era livre, como se fosse uma planta talve
z, depois de ter heu
senhor de vasta bagagem cultural0 e,propösito de mee oe
tado outros paises orientais com
de la fun a =
Pitagoras voltado a Samos com 0 objetivossiv
foi impo el a re izacá
sociedade mistico-cientifica. Mas la
& merce da ss
de seu intento por se encontrar aque CidadeMeri
dional, er
de Policrates. Rumou entäo para a Itäliapor uma
meno e
barcando em Crötona, Cidade fundada
ava . Cida e
Aqueus. La fundou Pitágoras, quando jasacont
eda e que - ;
importante escola de medicina, a famo socivarı
as partes da
nos anos subseqiientes, a ramificar-se por
=
e? Variam as opiniôesal.
> a natureza daquela sociedad
a Dicearco, filösofo oa
insula itálica.
Conforme tradicäo que remonta
ava-se cin +
tético que floresceu là pelo ano de 320, tratsua
i tgs =
politica, podendo-se isto comprovar pela ou,wa
n pes
luta
governo local, pelas peripécias por que pass nta a Aris!
o 1
partidos politicos, Outra tradigío, que remoo de Aristote sa
também filésofo peripatético, contemporanee era francamente
Teofrasto, diz que a natureza da sociedad
Burnet, ae
cientifica. Para outros finalmente, comoesse
ncialmente n si
sua origem pelo menos, de uma entidade
.
r, a seus ne
cujo fim especifico consistia em asseegura
do que a oferecida pelo
uma satisfacio religiosa mais eficient
cr
icipou francameo nte
liga pitagérica part
M Pi é queativa idad
wo
po
e
ific
ient
e: mistico, filoséfico-c
4
.22
très ramos de
co-cien
Vejamos, primeiramente, 08 aspectos mistico e filoséfi
r
gorismo na velhdea P
que evoluiu O pitalivre
ereo trad
;
ne
e
, tratou-s
icionalmente
onde era o géni
0
situacáo que só fora observada, até entao, no Oriente:
Pp. Fees
21, JoserH FABRE, La pensde antique. Alcan, Paris, 1909, de
Aug.
Trad.
22. JOHN BURNET, L'aurore de la99.philosophie grecque.
Reymond, Payot, Paris, 1919, p.
Página 10
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)volvimento da atividade racional ao lado da atividade mistica.
Ao mesmo tempo que adotavam os itälicos a atitude intelectual
mais elevada — teörica, desinteressada, contemplativa — tinha
essa atitude funcäo catärtica. Também na india — como nos
demais paises do Oriente — apresentava-se a Filosofia como
soteriologia: tratava-se da “via do conhecimento”, proclam
ada
por muitos hindus como a mais eficiente para conseguir-se a
salvacäo.
Escreve Guthrie que,
“na idéia de purificacäo da
alma, aproximamo-nos do vinculo que une os aspectos religios
o
e filosófico do pitagorismo, capacitando-nos a ver,
dois elementos de um sistema unitàrio”
23
neles,
i
os
|
| A pratica da catarse — atitude mistica — levou
os pitagöricos a grandes progressos no ämbito da Filosofia
e da Ciéncia
Por outro lado, suas descobertas cientificas conduziram-nos
a
atitudes francamente misticas.
lembrado por Gomperz.
Exemplo muito ilustrativo &
Atribuiam os pitagóricos, à música
alta funcäo purificadora do espirito: informa-nos Ariatizeno
de que utilizavam eles a música para purificar
a alma, assim
como a medicina para purificar o corpo. Voltan
do ao exemplo
do velho mestre — tao entusiasta das matemáticas
como da
música — quando lhe revelou essa verificacäo
o reino maraentäo, inaccessível à penetracäo científica. Tal verificacäo levou Pits
oras
a estabelecer os intervalos musicais — quarta, quinta citava
senzivel do
musico por vocacáo. Pode-se imagi
nar — continua Gompe
rz —
melhor, o núcleo e a esséncia mesma das coisas? Dai, as
afirmativas de Aristöteles, relativas à filosofia pitagörica,
por uns, consideradas incongruentes, por outros, consonantes:
a. as coisas sáo números; b. as coisas imitam os números.
“Todo o céu — escreve o estagirita, referindo-se 4 filosofia dos
itálicos25 — 6 harmonia e número.” Dai, a “harmonia das
esferas”, proclamada pelos pitagéricos e da qual nos da noticia,
outra vez, Aristöteles: se pequenos corpos, desenvolvendo pequena velocidade ao nosso redor, produzem sons, por que nao
haveria de ocorrer outro tanto com aquelas massas gigantescas
que säo os astros? “Apoiados em tais raciocinios bem como
no argumento de que as velocidades, dependentes das distäncias, tem as proporgöes musicais, asseveraram eles (os pitagöconstitui harmonia. Considerando entretanto que possa parecer
ouvimos desde o momento em que nascemos, o que o torna indiscernivel de seu oposto, o siléncio, sendo um e outro distinguiveis
pelo contraste. Assim como os ferreiros perdem, pelo habito,
qualquer sentido de diferenciagao, o mesmo ocorre com os
demais homens.” %
Prosseguindo, proclamaram os itälicos que o número 7 constituia o tempo critico, pois os periodos de sete dias, sete meses
e sete anos têm papel preponderante no desenvolvimento dos
seres; 4 ou 9 constitui a justiça, pois se obtém cada um desses
numeros pela multiplicacäo do primeiro par e do primeiro impar
descoberta para a mecanica
dos sons. “A histöria da Ciéncia näo conhece acaso mais feliz”
23.
própria regularidade que penetra todos os setores da natureza,
estranho nao percebermos tal som, argumentaram eles que o
altos e baixos, dependiam do comprimento da corda vibrat
éria À
Imagine-se — diz Gomperz — a surpresa altamente animad
ora
quais os resultados positivos dessa
mais avancada: se se mostrou o som — um dos fenómenos
mais fugidios — mensurável no espaco, e se é o número a
medida espacial, por que náo haveria de ser ele a expressao da
Verificou
entáo o velho mestre, nos seus exercícios musicai
s, que os sons
etc. — ate aquela data, s6 discerniveis pelo ouvido
Por outro lado, esse feito no setor francamente científico
levou os itälicos ao terreno da imaginacäo mistica e filosófica
ricos) que o som emitido pelo movimento circular dos astros
utilizava Pitágoras um monocórdio que dispunha de neta
vilhoso de principios inflexiveis num terreno, até
W.K.C. GUTHRIE, op. cit., vol. 1,
p. 199.
19
música
apresentado por Gomperz, escreve ele que, cultivando a
móvel, de modo a permitir a medida de sua corda.
SOBRE PITÁGORAS E PITAGÓRICOS
24,
TEODOR GOMPERZ, op. cit., vol. I, p. 102-104.
25.
ARISTÓTELES, Metaf., I, 5, 986a, 4.
ARISTÓTELES, Do céu, II, 9, 290 b, 15-29.
Página 11
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)por si mesmos, e, na justiça, ha reciprocidade de remuneracäo
Sempre imövel, a inteligéncia é constituida da unidade, ao Haro
que a opiniäo, sempre oscilante e móvel, é constituída de numero 2. Reunindo o homem que é impar e represe
ntado pelo
numero 3, e a mulher que é par, representada pelo número
2
constitui-se o casamento do número 5, Encontrando a hermonia
sua expressäo
perfeita
pelo nümero 8.
na
oitava,
representava-se
a
Cronos era um triängulo, e Zeus,
amizade
um dodecägono. “Eis ai — escreve Salomon Reinach — nts onde
foi
levada a Geometria incipiente pela concepcäo — no fundo sults
Justa — de que o mundo é governado pelos niimeros” .28
Como se vé, a atividade cientifica que, segundo
Aristöxeno
teria sido a especifica da ordem, era inseparävel da ativid
religiosa. Foi provavelmente essa duplicidade de
ade
atividades —
mistica e intelectual — qua atraiu tantos adeptos
,
de ambos
OS sexos, para a sociedade recém-fundada, tendo uns preferido
esta, outros, aquela atividade, de acordo com
a vocacäo.
Dai
talvez, a divisäo ocorrida dentro da liga, e da qual nos dio
noticia Porfirio e Jämblico, entre “matemäticos” e st
ticos”, dedicando-se Os primeiros, notadamente, ás mais re
das pesquisas intelectuais, ao passo que preferiam
os segundos
atender, antes de tudo, aos preceitos que Se
entrosav
o aspecto mistico da ordem.
nea
Bang:DOO politica exercida pelos
pitagöricos, näo
‚
como
noutras
cidades
da
Itälia
we ter ela resultado de häbitos e costumes
aki Ep
=
si
ras
e que impressionaram
Meridional
adotados pela
favoravelmente
ocais, notadamente, os conservadores.
:en deu oportunidade
ntido de
participarem
Tal imaos representantes da liga
efetivamente
do
governo
Informa-nos o historiador Diédoro de que Télis,
lider Ab
partido popular em Síbares — Cidade famosa em toda
27.
LÉON ROBIN, op.
cit., p.
local
a Grécia
69.
'histoi
a Zoé
Hachette, Paris, tomo I, = Pepi a 20€ sur l'histoire des philosophies.
28.
SALOMON REINACH,
Le ttres
;
;
A
SOBRE PITÁGORAS E PITAGÓRICOS
21
antiga pela volutuosidade de seus habitantes — persuadiu
seus concidadäos a banir quinhentos oligarcas ricos, bem como
dividir seus haveres entre os sibaritas. Tendo os exilados
procurado refúgio em Crótona, foi esta, caso os recebesse,
ameacada de guerra por Télis. Reunida a assembléia crotoniense para decidir a questáo, esteve ela a ponto de submeterse à exigéncia do líder sibarita, nao fosse a intervengáo enérgica de Pitágoras, que convenceu 05 representantes de Crótona
a receberem os exilados. As duas cidades foram á guerra,
tendo as forcas crotonienses, comandadas pelo pitagórico €
atleta Milo, conseguido vitória espetacular. Consta mais que
os vencedores arrasaram de tal modo a Cidade vencida que,
relativamente poucos anos mais tarde, náo se encontravam
sequer seus vestígios. Ora, algum tempo antes, havia Crótona
sofrido séria derrota militar, ás margens do rio Sagra, por
parte dos locrianos, e sentia ela ainda os efeitos morais negativos do desastre quando fundara Pitágoras sua ordem. Só
por forca desse episódio, pode-se avaliar o prestigio dos pitagóricos diante dos políticos locais, notadamente, os representantes do regime conservador,
A notícia da participacäo dos pitagóricos nos negócios políticos favorece o ponto de vista daqueles historiadores que
admitem decidida influéncia de Pitágoras, sob todos os aspectos, sobre Platáo: famosa se tornou essa proclamagäo do autor
da República (V, 473 c-d) de que “enguanto os filósofos náo
se tornarem reis nos Estados ou aqueles que denominamos
reis e soberanos náo forem verdadeira e decididamente filósofos, ... náo cessaráo os males dos nossos organismos estatais nem ... os da humanidade...”
A infiltracio de elementos pitagóricos no ámbito político
de Crótona provocou antipatia por parte de muitos crotonienses, Alguns desses consideravam-nos forasteiros indesejáveis, que queriam assenhorear-se da Cidade. Viam-nos outros
através de prismas diferentes, mas também desfavoráveis.
Parece que se agravou a situagäo quando um rico represen-
Página 12
Ver en el PDF(se abre en una ventana nueva)tante da aristocracia local, Cilon, pretendeu ingressar na ordem
pitagörica, mas foi recusado por motivos de natureza moral.
Despertou-lhe a recusa ódio intenso, levando-o a uma campanha
sistematica contra a sociedade. Täo intensa foi a propaganda
promovida por Cilon contra a liga, que teria Pitagoras julgado
prudente exilar-se em Metaponto, outra Cidade da peninsula
itälica. Entretanto, continuaram os pitagöricos mandando em
Crötona, até que um dia, depois de ter convencido muitos de
seus concidadäos dos maleficios da ordem intrusa, conseguiu
Cilon, com a ajuda de um arruaceiro de nome Ninon, vinganca
espetacular contra os inimigos: a turba invadiu a casa onde
se encontravam reunidos os confrades, ateou-lhe fogo,
promovendo a matanga da quase totalidade dos integrantes da liga
local.
De acordo com versio que remonta a Aristöxeno, só
conseguiram escapar do massacre Arquipo, que se refugiou
em sua terra, Tarento, também na Italia, e Lisis, outro tarentino que, havendo-se retirado mais tarde para Tebas, teve como
discípulo o famoso general tebano Epaminondas. Náo deve ter
ocorrido o massacre antes da morte de Pitàgoras, provavelmente em Metaponto.
Escreve Porfirio em sua Vida de Pitdgoras que, apesar do
rigoroso siléncio imposto pelo velho mestre a seus discipulos,
sabia-se que professava ele as seguintes doutrinas: primeiro,
a da imortalidade da alma; depois, a da metempsicose; além
disto, a de que “as ocorréncias passadas se repetem em processo ciclico, nada havendo de absolutamente novo."; finalmente, a do parentesco de todas as coisas vivas.
Tendo-nos já referido, aqui, à doutrina da metempsicose,
falaremos das demais em outra oportunidade.
SYLVIO BARATA VIANNA
—
{
Vianna se fonde sur les études les plus classiques pour essayer de
dégager, de l’ensemble des légendes qui les entourent, les traits les plus
vraisemblables de la vie et de la personnalité de Pythagore
, et des
théories pythagoriciennes.