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GR ÉCIA ANTIGA,H OM ENAG EM
N E YO E TH EML
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)COLEGAO AEDOS/ CONSELHO EDITORIAL
Prof. dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima (coordenador da coleçäo)
Nücleo de Estudos de Representaçôes e de Imagens da Antiguidade
(NEREIDA)/Programa de Pös-Graduagäo em Histöria (PPGH) da
Universidade Federal Fluminense (UFF)
Profa. dra. Adriene Baron Tacla
(NEREIDA/ PPGH/ UFF)
Profa. dra. Ana Livia Bomfim Vieira
Universidade Estadual do Maranhäo (UEMA)
Profa. dra. Claudia Belträo da Rosa
Núcleo de Estudos e Referéncias da Antiguidade e do Medievo (NERO)/
Programa de Pós-Graduacáo em História (PPGH) da Universidade
Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
Prof. dr. Fabio de Souza Lessa
Laboratório de História Antiga (LHIA)/Programa de Pös-Graduagäo
em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRD
Profa. dra. Maria Regina Candido
Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA)/ Programa de Pös-Graduagäo
em História (PPGH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERD
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)ORGANIZADORES:
Adriene Baron Tacla
Norma Musco Mendes
Ciro Flamarion Cardoso
Alexandre Carneiro Cerqueira Lima
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DE THEML
apicuri
Rio de Janeiro
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Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)Alexandre Carneiro Cerqueira Lima
Todos os direitos reservados, Nenhuma parte desta edigäo pode ser utilizada ou reproduzida — em
qualquer meio ou formula, seja mecanico ou eletrônico, por fotocöpia, por gravacao € etc. — nem
apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorizagào da editora.
Este livro esta revisado segundo o Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa de 1990, que
entrou em vigor no Brasil em 2009.
Edigäo apoiada pela Faperj.
Editora responsavel
Rosangela Dias
Preparaçäo e revisäo
Edio Pullig
Luiz Fernando Oliveira da Silva
Revisäo e copidesque
Alvanisio Damasceno
Editoraçäo eletrônica e projeto grafico
Débora Souza
Capa
Clara Dias
Epinetron de Eretria (430-420 a.C.) — National Archacological Museum, Atenas.
Copyright: Hellenic Ministry of Culture and Tourism/ Archaeological Receipts Fund.
CIP-BRASIL. CATALOGACAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
T688
Uma trajetöria na Grécia antiga, homenagem à Neyde Theml / organizadores Adriene Baron
Tacla... [et al.]. - Rio de Janeiro : Apicuri, 2011.
408p. - (Aedos)
Inclui bibliografia
ISBN 978-85-61022-44-0
1. Grécia - História - Até 146 a.C.. 2. Civilizacào grega - Até 146 a.C. 3. Civilizaçäo antiga. 4.
Theml, Neyde. I. Tacla, Adriene Baron.
10-6201.
CDD: 938
CDU: 94(38)
30.11.10
02.12.10
2011]
Todos os direitos desta edicào reservados a Editora Apicuri
Telefone/Fax (21)2533 7917
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Ciro Flamarion Cardoso
NEYDE THEML: o lugar de professor
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Norma Musco Mendes
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UM FIO DE PALAVRAS COSTURANDO MEMORIAS ......cccsscsseesecssscsecsscssecssenes 49
Maria Manuela Ramos de Sousa e Silva
I. EM TORNO DE NEYDE................
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Identidade e alteridade em Massália e Empórion:
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Adriene Baron Tacla
O público e o privado: procissóes, banquetes e caca
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Alexandre Carneiro Cerqueira Lima
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Tramas de ritos e deuses: o limite, o estranho e o pescador ............
Ana Livia Bomfim Vieira
Atenas e Bizáncio sob a agäo do flagelo: peste e história
nas narrativas de Tucídides € Procépio.................
Ana Teresa Marques Goncalves e Lyvia Vasconcelos Baptista
Prâticas esportivas e jogos helénicos....................................
Fabio de Sonza Lessa
Mutacáo do imaginário poliade nas oragöes fúnebres em ...............
Tucidides e Hipérides
Manuel Rolph Cabeceiras
Corpo: campo de exercício de experimentaçäo comparada mamona...
Maria Regina Candido
II. VISGES DA GRÉCIA ANTIGA.............. cirie
A musica grega antiga: origem, identidade e etnicidade ...................
Fabio Vergara Cerqueira
Recepçäo da comunidade pitagórica na comédia antiga ateniense.... 209
Gabriele Cornelli e André Leonardo Chevitarese
Cidade exterritorio Aa Grecia antiga, nennen
Maria Beatriz Borba Florenzano
III. NO MUNDO ROMANO...
Construindo fronteiras religiosas em Antioquia: as homilias
Adversus Iudaeos de Joao Crisóstomo e a fixaçäo da identidade cristà... 265
Gilvan Ventura da Silva
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Da onomástica grega na Lusitânia romana............................ 301
José d'Encarnaçäo
Politica e genero nas relaçôes de poder entre Cleöpatra, Julio César
e Marco António: retratos de Plutarco de Queroneia........... 313
Margarida Maria de Carvalho e Natalia Frazao José
A identidade dos eleitos ao reino de Deus e a impureza moral
dos gentios no judaísmo do Segundo Templo ....
Monica Selvatici
IV. ANTIGUIDADE E MUNDO CONTEMPORANEO ......cccssesceessesesscens 357
A nostalgia dos impérios ou sistema de estados e suas origens
nos séculos XVI-XVII na Eutopa... ascii 359
Francisco Carlos Teixeira da Silva
Péricles segundo o Nouvel Observateur...
José Antonio Dabdab Trabulsi
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PITAGORICA NA COMEDIA
ANTIGA ATENIENSE
Gabriele Cornell e André Leonardo Chevitarese
I
Os modelos históricos gregos de associaçôes sio fundamentalmente
de dois tipos: o #biasos e a hetairia. Enquanto o primeiro esta mais
diretamente ligado a pratica comum de cultos, à partilha de ritos e
saberes mistéricos, a hefairia esta mais ligada à ideia de uma associacäo
de philoí, no sentido politico de aliados e confrades que se encontram em
um clube privado. A comunidade pitagörica € quase que unanimamente
considerada pela tradicäo uma hefairfa, ainda que bastante sui generis:
de fato, procurando justificar a violenta revolta contra os pitagöricos,
Jamblico revela o sentimento de estranhamento da populacao com
relacäo a comunidade:
Tomaram a frente da revolta exatamente aqueles que estavam em
relaçôes de parentesco mais próximas com os pitagóricos. E a razao
era que estes — exatamente como a populaçäo em geral — ficavam
irritados com a conduta dos pitagóricos em praticamente qualquer
aspecto dela, na medida em que esta era diferente (zdiasmos) daquela
dos outros (lambl VP, 255).
Essa diferença da comunidade, ligada a algumas prâticas estranhas
a cultura e economia do tempo, como aquela da partilha dos bens,
eram com toda probabilidade parte essencial do motivo da inimizade
— acenada no testemunho acima — por parte das proprias familias dos
1
Professor adjunto de filosofia da Universidade de Brasilia (UNB) e coordenador do Archai.
Professor associado de história antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
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membros da comunidade. Sublinha-se acima, no interior do panorama
da critica, a questao da presença politica da comunidade pitagorica:
essa presença sugeriria que a melhor identificacao seria mesmo com o
modelo da hetairía. E, todavia, as fontes sao bastante insistentes em nos
apresentarem uma comunidade francamente dedicada ao culto e a uma
vida comunitaria baseada em akoúsmata e sÿmbola, isto €, em palavras
secretas e sinais de identificacao. Com isso, num sentido contrario, a
comunidade pitagórica encontraria seu lugar tipológico mais no ambito
do thiasos.’
Baseando-se na inegável característica da diferenca da comunidade,
Burkert (1982, p. 2 e 3, p. 19), seguido por Riedweg (2002, p. 166-171),
considera que a melhor definicào para a comunidade pitagórica seja ©
termo sezta.* Consciente do uso comum depreciativo do termo, que leva
diversos autores, incluindo o presente, a preferir uma designacáo mais
neutra, como aquela até aqui usada de comunidade, a traduzir o grego
koinonía, Burkert reclama para o termo seta a vantagem de um uso mais
técnico, sociológico do mesmo, na esteira dos trabalhos de Bryan Wilson
e Arnaldo Momigliano (Burkert, 1982, p. 3).
Dessa forma, poderá identificar, no pitagorismo, as características
mínimas que definem uma seita, do ponto de vista da sociología dos
grupos religiosos. Estas contribuem para a descrigào da comunidade
pitagórica como de um grupo de proporgöes numéricas bastante
reduzidas, de caráter elitário, modos alternativos e algum nível de sigilo:
encontros regulares ou vida em comum, certa partilha económica e
espiritual, submissao à autoridade de um guia carismático e um forte
sentimento identitário que leva a separacao das pessoas entre nos e eles.
Açôes de vinganca contra os apóstatas, prescricóes reprodutivas que
garantam a sobrevivencia diacronica da comunidade e intensa mobilidade
geográfica concluem um retrato mo qual, como se verá, podem ser
reconhecidas as características salientes do estilo de vida pitagórico.
3
Para uma ampla resenha da terminologia utilizada pelas fontes antigas para designar a comunidade
pitagórica, cf. Minar (1942, p. 15-35). Tanto Philip (1966, p. 144) quanto Zhmud (1992, p. 241) consideram
improvável a associacáo dos pitagóricos com o modelo do thíasos por causa da evidente atuaçäo
politica da comunidade. Centrone (1996, p. 67 e 68) adota uma posiçäo menos cética, reconhecendo
que, ainda que alguns tracos esotéricos da comunidade foram de fato sublinhados pela tradicáo tardia,
este fato náo autoriza a negar tout court qualquer valor histórico a eles.
Oprimeiro a usar o termo sekte é Rohde (1898, p. 103ss).
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Na peneira da tradicäo, de fato, a classificaçäo proposta por Burkert
revela-se em geral bastante apropriada. Serao visitadas algumas das
tradicöes mais salientes que dizem respeito a esta possivel identificacäo
do pitagorismo com uma seita. As duas Vidas, de Porfirio e Jamblico
(de maneira especial esta ultima) sao ricas fontes de informaçäo sobre a
comunidade e as regras de seu bios. Ainda que marcadas por interpolagöes
tardias, € certamente possivel identificar estratos mais antigos da tradicäo
em muitos dos testemunhos.”
Numero limitado. Os pitagóricos ainda que influentes nas cidades
por eles administradas na Magna Grécia, constituiram sempre uma
comunidade minoritária, tanto no interior dos grupos aristocraticos das
mesmas cidades, como no ambito maior da cultura intelectual do seu
tempo. Apesar dos quatro discursos politicos de Pitagoras, na ocasiao da
chegada em Crotona, terem conquistado — segundo Porfirio (VP, 20) e
Jamblico (VP, 30) — um auditörio de duas mil pessoas, somente seiscentas
delas se tornaram mesmo discipulos, “nao somente conduzidos por ele
à filosofia, mas também prontos a ‘viver em comum’, como se dizia,
conforme seus preceitos” (lambl. VP, 29).° A tradicäo parece sugerir
ja uma selecäo inicial, portanto. O mesmo catálogo de Jamblico acima
citado, em sua intencäo de confar os pitagóricos, pressupoe certamente
um numero limitado deles.
Caráter elitario. A tradicao acima referida dos discursos publicos de
Pitägoras por ocasiäo da sua chegada em Crotona (Porph. IP, 20, lambl.
VP, 30), e que resulta na adesäo dos seiscentos, poderia sugerir que fazer
parte da comunidade e ter acesso aos seus ensinamentos fosse algo facil.
Uma tradicâo de Antifonte, citada por Porfirio (VP, 9), recorda que,
ainda em Samos, Pitagoras teria fundado um didaskaleion, uma escola:
chamada de hemiciclo de Pitágoras, reunia os que discutiam de negocios
püblicos. Ele proprio, todavia, refugiava-se num dvfros, nama gruta, onde
poderia se consagrar exclusivamente à filosofia; a sugerir que este carater
Para uma avaliacäo da influência da tradiçäo pitagórica sobre a evolugäo do género Vidas de
5
filésofos no mundo antigo, cf. Goulet (2001, p. 23-61, espec. p. 32-34, com uma análise de Porph. VP
e lambl. VP).
6 Comontmero de seiscentos concorda Diógenes Láercio (Vidas VIII 15). Ja para Apolônio de Tiana
o numero era ainda mais restrito, limitando-se a trezentos (FGrHist 1064 F, 254).
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elitario e exclusivo da comunidade pitagórica estaria presente já mesmo
nos anos iniciais da formacäo de Pitágoras.
O mesmo caräter exclusivista pode ser observado no rigido critério
de admissao a propria comunidade, marcado por um periodo probatório
de dokimasia:
Quando alguns jovens chegavam com o desejo de conviver com ele,
nao os admitia imediatamente, esperando que fossem examinados e
julgados. Primeiramente se inteirava das relaçôes que eles mantiveram
com seus genitores € os outros parentes antes de se aproximarem a
ele; depois verificava quem entre eles ria de maneira desconveniente,
calava ou falava de modo despropositado, e ainda quais eram suas
paixôes, quem eram seus parentes, que relacöes mantinham com
estes, a que atividades dedicavam a maior parte do dia, e qual era o
motivo de sua alegria e dor [...]. Aqueles que superavam este exame
eram desprezados por trés anos, com a intencâo de colocar A prova
sua firmeza e real amor pelo conhecimento [...]. Apös este periodo
impunha aos aspirantes um siléncio de cinco anos, pata testar sua
continéncia. Pois de todas as provas de autocontrole, aquela de
frear a lingua é certamente a mais dura, como bem demonstram os
fundadores dos ritos mistéricos (lambl. VP, p. 71e 72).
A fonte da qual bebem tanto Porfirio como Jâmblico para estas
referencias ao bios pitagörico é Nicömaco. A suspeita de que esta
extrema rigidez da organizagâo do acesso à comunidade pitagérica (três
anos de descaso, aos quais eram seguidos mais cinco de silencio) seja,
na realidade, uma retro-projeçäo dele, € levantada tanto por Von Fritz
(1940, p. 220) como por Philip (1966, p. 140). E, todavia, ha um paralelo
testemunho em Didgenes Laércio (VIII, p. 10), cuja fonte seria desta vez
Timeu, que confirmaria uma provavel antiguidade do testemunho:
[Seus discipulos] permaneciam em siléncio por cinco anos, limitandose a escutar seus discursos, sem nunca ver Pitägoras, até que nao
superassem a prova; a partir deste momento se tornavam parte de
sua casa € eram admitidos à sua presenca (DL. Vidas VIII, p. 10).
Vida em comum (cenöbio) e comunhäo dos bens. O testemunho acima
citado é rico de outros sinais sectários, como o do sigilo, e, de maneira
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especial da comunhâo dos bens. A mesma passagem de Jamblico acima
citada, referida à dokimasta dos jovens aspirantes, detalha as modalidades
dessa partilha:
Neste periodo, os bens de cada um, isto é suas propriedades,
eram colocadas em comum, e confiadas aos membros notaveis da
comunidade encarregados disso, chamados políticos: alguns deles
eram administradores, outros legisladores (lambl. TP, p. 72).
O testemunho mais antigo da comunhao dos bens parece ser
novamente o de Timeu: um escólio ao Fedro (Schol, In Phaedr. 279c)
corresponde literalmente a uma passagem do livro IX de Timeu:
Ora, quando os jovens vinham até ele e queriam viver com ele,
nao lhes permitia fazê-lo, mas respondia que era necessário que
colocassem em comum seus bens (Schol In Phaedr. 279c = FGrHist
566 F 13).
Trata-se aqui do célebre dito &oina taphilon (ou koina ta ton philon) que
aparece referido aos pitagóricos por Platao.’ Nao procede a observagäo
de Philip pela qual em Aristöteles, ao contrario, “c/s meaning is quite unPythagorean” (1966, p. 142): o trecho da Etica Nicomaqueia pot ele citado
(1159b, p. 25-32), ao contrario, ainda que sem uma referéncia direta
à origem pitagörica do dito (seria preciso), insere o koind ta philén no
interior de uma discussäo, de estampo notadamente pitagérico, sobre a
comunidade de amigos como promotora de justiça, e, de consequencia,
num evidente sentido econômico:
Parece, portanto, conforme dissemos no inicio, que amizade e justiça
digam respeito as mesmas coisas e se dêem entre as mesmas pessoas.
De fato, em cada comunidade parece haver algo de justo, e amizade.
Assim chamam-se amigos os companheiros de navegacao e de armas,
e da mesma maneira aqueles que fazem parte de outras comunidades.
Conforme participam da comunidade ha amizade, e também justiça.
E diz bem o provérbio “as coisas dos amigos säo comuns”, pois a
amizade está na comunidade (Aristóteles, EN 1159b, p. 25-32).
Cf. as referências aos passos platônicos nos parágrafos imediatamente a seguir.
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Nao por acaso diversos autores utilizaram a expressao comunismo,
ainda que muitas vezes entre aspas, dado o evidente anacronismo
do termo — para indicar esta prâtica do dito koind ta philón entre os
pitagoricos.® Esta mesma relaçäo entre phzloi e dikaion € encontrada em
Platao, que, por outro lado, nao tem duvidas em referir o dito diretamente
aos pitagóricos. Nao casualmente esta ligagäo entre pitagorismo e a philia
aparece num passo central de Republica. No comeco do livro V (449c),
Adimanto, a convite de Polemarco, repreende Socrates por ter deixado
de lado, em sua argumentacao sobre a cidade justa e perfeita, o problema
levantado pelo dito koiná ta philén aplicado a mulheres e filhos, fazendo
assim sugir a suspeita de querer fugir da questao:
Parece-nos que você esteja querendo se safar rapidamente, roubando
uma parte inteira do discurso (e nao certamente a menor) para nao
ter que discuti-lo, que tenha pensado em fugit deixando cair, de /eve,
aquele dito pelo qual, com relacäo as mulheres e as crianças, para
todos deveria ser evidente que tudo deve ser em comum entre os
amigos (Resp. V 449c).
O dito, introduzido phaulós, de leve, no livro IV (424a), requer ao
conträrio — ao dizer de Adimanto — uma explicacäo com relaçäo ao trópos
tés koinontas (V 449d), ao tipo, aos modos dessa comunhäo. Dessa forma,
Söcrates passará a representar em detalhes o gynaikefon drama da cidade.
O léxico dessa pagina é impregnado de pitagorismo: tanto a comunhao
dos bens (e de mulheres e filhos), como a importancia da escuta como
caracteristica do bios e da cidade justa, remetem imediatamente para as
caracteristicas da vida pitagörica apontadas pela tradiçäo.”
As modalidades da comunhao dos bens deviam alcancar uma
articulacäo maior do que a da simples origanizacäo da partilha dos bens
em comunidades de vida cenobitica. E certamente o que sugere o caso
de Clinias de Tarento e Proros de Cirene:
Narra-se que Clinias de Tarento, quando soube que Proros de Cirene,
um seguidor das doutrinas pitagótica, estava correndo o risco de
8 Entre eles, Minar (1942, p. 29, 32, 35), Conybeare, em sua traduçäo da Vida de Apolônio de Tiana
de Filostrato (1948-50) e Burkert (1982, p. 15).
9 Platäo refere o dito aos pitagóricos também em Lisis 207c e Leis 739c.
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perder seu patrimônio, recolheu uma soma de dinheiro e embarcou
em direcäo a Cirene, colocando em ordem os negócios de Proros,
sem importar-se nao somente com suas perdas financeiras, como
também com os perigos da navegacao (lambl. TP, p. 239).
Como também a histöria edificante de um pitagörico que havia
ficado gravemente doente durante uma longa viagem. Ao dono da
pensao que o hospedava em seus ultimos dias de vida, e que cuidava dele
com grande generosidade, o pitagórico, após ter gravado um simbolo
sobre uma tabuinha:
pediu que o pendurasse fora da porta da pensao, e que ficasse atento
caso algum transeunte reconhecesse o sinal; pois neste caso, esta
pessoa reembolsaria a ele todas as despesas e o agradeceria por sua
conta. Quando o hóspede morreu, o dono da pensao o sepultou e
cuidou com toda cura do caixao — sem preocupar-se com as despesas
ou em receber algum reconhecimento de quem eventualmente fosse
identificar a tabuinha. E, todavia, por curiosidade com relacäo à
ordem recebida, quis coloca-la à prova, expondo a tabuinha para que
pudesse ficar sempre visivel. Muito tempo depois, um pitagorico que
passava por la, reconheceu o simbolo. Perguntou entao o que havia
acontecido, e deu para o dono da pensäo uma quantia muito maior
daquela que foi desembolsada (lambl. PI, p. 238).
A historia nao diz de que simbolo se tratasse. Todavia, com base
numa passagem de Luciano (Jacobiz I, p. 330), apreendemos que o sinal
de reconhecimento dos pitagoricos era o pentagrama, sendo utilizado
inclusive como assinatura em suas cartas. Estas histörias sao facilmente
dataveis em época tardia. Ainda assim, referem-se a uma tradiçäo já antiga
e que devia ser muito forte, resistindo como memoria da centralidade da
comunhao de bens entre os pitagóricos.
A amizade pitagórtca. O tema da philia € presente desde aqueles
que sao considerados os primeiros discursos publicos de Pitagoras, os
célebres quatro /6goi, proferidos quando de sua chegada em Crotona.
Entre outros, no Primeiro Discurso, dirigido aos jovens, Pitagoras os
exorta a cuidar bem dos amigos:
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Afirmava que teriam sucesso se mesmo nas relaçôes entre eles se
comportariam deixando claro que nao seriam nunca hostis aos
proprios amigos; ao contrario, estariam prontos a qualquer momento
a se tornarem quanto antes amigos de seus proprios inimigos (lambl.
VP, p. 40).
;
10
A discussao pitagérica sobre a philia extrapola o âmbito da gestao
da vida comunitaria, para alcançar o patamar de um conceito-chave para
a compreensâo de toda a realidade. Um exemplo disso é o testemunho
de Jamblico (lambl. VP, p. 229 e 230 // WP, p. 69 e 70) que enumera
os seis aspectos da philfa ensinada por Pitágoras: dos deuses para com
os homens, das doutrinas entre elas, da alma com o corpo, dos homens
entre eles e com os animais, e do corpo mortal em si mesmo."'
Por ser tao proverbial, esta phi/ia entre os pitagoricos mereceu
diversas historias que beiram o lendário, mas que, ainda assim, sao
significativas para compreender a ética da philia que regia as comunidades
pitagöricas: uma das mais significativas € certamente aquela, lembrada
por Aristöxeno, da prova radical da amizade entre dois pitagóricos,
Fintias e Damon, planejada pelo tirano de Siracusa, Dioniso. Aristoxeno
afirma tê-la ouvido da boca do proprio tirano que — caido em desgraca
— foi ser professor em Corinto:
Um dia Dioniso q quis coloca-los à prova, > pois alguns
asseguravam
8
que se os tivesse preso € aterrorizado, nâo teriam permanecido fiéis
10 Cf. o que foi dito acima com relagäo ao valor dos discursos como testemunhos da fundaçäo da
comunidade pitagórica, especialmente com relaçäo aos estudos neste sentido, de Rostagni (1922) e
De Vogel (1966). No entanto, com a necessaria prudéncia acima indicada.
11 lambl. (VP, p. 229 e 230): “Pitagoras ensinou com muita clareza a miAia de todos para com todos
a comegar pela @iAia: 1) dos deuses para com os homens, através da piedade e de um culto baseado
no conhecimento; 2) das doutrinas entre elas; 3) em geral da alma com o corpo e da parte racional da
alma com a parte irracional gragas à filosofia e à contemplaçäo que Ihe é propria; 4) dos homens entre
eles: dos cidadäos pela estrita observancia da lei, entre seres humanos de diversas etnias através do
correto conhecimento da natureza [humana], do homem para com a mulher ou filhos ou irmaos ou
parentes através de uma comunhäo indestrutivel; em resumo giAia de todos para com todos e até 5)
de alguns animais irracionais por causa de um sentimento de justiga e de uma natural proximidade e
solidariedade; 6) enfim, do corpo mortal com si mesmo, pacificagäo e conciliagäo das forgas contrárias
que nele se escondem por meio da saúde e do regime [de vida] que a essa tende, e temperância
através da imitaçäo da condiçäo de bem-estar que caracteriza os elementos celestiais. O fato de uma
unica e so ser a palavra que tudo isso compreende, isto &, piAía, é opiniäo corrente que foi Pitagoras
a descobri-lo e torna-lo lei; este ensinava a seus discipulos uma ia tao maravilhosa, que até hoje
muitos dizem, a respeito daqueles que säo ligados entre si por uma reciproca benevoléncia, tratar-se
de Pitagóricos”.
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uns aos outros. Ele entäo agiu da seguinte forma: Fintias foi preso e
conduzido na frente do tirano, que o acusou de conspiragao contra
ele, acrescentando que o fato jä havia sido comprovado e que portanto
o condenaria à pena capital. Fintias respondeu: “se assim decidiste,
me seja ao menos concedido o restante deste dia para acertar meus
negócios e aquele de Damon (era de fato companheiro € sócio dele e
enquanto mais idoso, havia tomado conta de seus negocios). Fintias
portanto pedia para ser deixado ir, e oferecia Damon como fiador
[para ficar no lugar dele]. Dioniso concordou e foi chamado Damon
que, ao saber o que havia ocorrido, aceitou imediatamente de ser
fiador de Fintias e ficou esperando este voltar. (61) Dioniso, de sua
parte, havia ficado impressionado com o ocorrido, enquanto aqueles
que haviam inicialmente proposto a prova zombavam de Damon,
dizendo que seria ali abandonado. Mas ao por-do-sol, Fintias chegou,
pronto para morrer. E todos ficaram maravilhados; Dioniso, de sua
parte, abraçou afetuosamente os dois e pediu de ser acolhido como
terceiro na philia deles (Porph. VP, p. 60 e 61).
À insistência da tradicâo € para com a proverbial fidelidade da
philia pitagótica, portanto. Outra narrativa que representa bem esta
fidelidade ao amigo, mas que Rohde define simplesmente boba (ene
alberne Geschichte, 1872, p. 50), É a da philia entre Lisis e Eurifamo:
Quanto aos pactos estabelecidos, Pitagoras preparou com tamanha
eficácia seus discipulos a respeita-los sinceramente, que se narra que
uma vez Lisis, saindo do tempo de Hera após ter feito suas oraçôes,
encontrou Eurifamo de Siracusa, seu companheiro, que por sua
vez estava entrando no templo. Por ter este ultimo solicitado a ele
que o aguardasse enquanto realizava suas oracöes, Lisis sentou-se
num banco de pedra pröximo à saída do templo. Apos as oracöes,
Eurifamo, imerso em seus pensamentos e tomado com estava por
uma profunda reflexäo, saiu do templo por outra porta. Lisis, de sua
parte, permaneceu imövel, esperando, durante o dia todo e a noite
inteira, e boa parte do dia seguinte. E provavelmente teria ficado
muito mais, se, no dia seguinte Eurifamo, que havia se dirigido ao
auditörio, näo tivesse se recordado do fato, apös ouvir que Lisias
estava cercado de companheiros da comunidade. Somente entäo foi
encontrá-lo: este, conforme o pacto, estava esperando por ele. Levou-o
embora, explicando assim o motivo de seu esquecimento: “foi um deus
a causar em mim este esquecimento, para que pudesse colocar à prova
tua firmeza em observar os pactos” (lambl. IP, p. 185).
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Por trás da anedota, esconde-se certamente a memória da
dimensäo incondicional da fidelidade na philia pitagórica, que instaura
uma identidade de grupo tao forte a ponto de configurar as relacöcs a
partir da alternativa nós e eles. E tornar-se proverbial no mundo antigo.
Vinganca contra os apóstatas. FE, com toda probabilidade novamente
Timeu a descrever, no trecho imediatamente sucessivo aquele acima
citado com relaçäo ao critério de admissäo e As formas da dokimasia, os
procedimentos de expulsäo dos apóstatas, isto é, dos que, por algum
motivo, traindo as regras do bios, eram excluidos da koinonia:
No caso em que fossem recusados, recuperavam, em dobro, seus
pertences, enquanto “aqueles que ouviam juntos” (omakoo/), como
eram chamados todos os seguidores de Pitagoras, levantavam para eles
uma lapide funebre, como se fossem mortos [...]. Se em outra ocasiäo
acontecia de encontrar quem havia sido recusado, o consideravam
como um estranho qualquer, e nao como um companheiro, pois
havia morrido para eles (lambl. UP, p. 73 e 74).
Tratava-se de uma exclusäo definitiva, portanto, que nao previa
evidentemente alguma possibilidade de volta, como & indicado
incontestavelmente pela comparaçäo com a propria morte.
Modos alternatives. A vida cotidiana na comunidade pitagórica
previa uma organizacâo do tempo e do espaco pouco comuns para os
padrôes da época. A descriçäo mais coerente desta pode ser encontrada
em Jamblico:
na parte da manha realizavam passeios solitärios em lugares onde
houvesse quietude e tranqüilidade, como templos c bosques, e algo
que alegrasse o espirito. Estavam de fato convencidos que nao se
devia encontrar ninguém antes de ter arrumado a alma e ordenado o
pensamento |...]. Depois do passeio matutino, se reuniam entre eles,
normalmente em santuärios, ou em lugares de natureza semelhante.
Dedicavam estas ocasiöes ao ensino e à aprendizagem e à correcäo do
caräter. Em seguida dedicavam-se a cura de seus pröprios corpos. [sel
No almogo comiam pao, mel, mel misturado com cera, e näo tomavam
vinho ao longo do dia. Dedicavam as horas da tarde aos negocios
politicos, tanto os internos quanto os externos. [...] Ao aproximar-se
do entardecer, voltavam a fazer os passcios, todavia näo sozinhos,
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como de manhä, e sim em grupos de dois ou très, relembrando as
coisas aprendidas e exercitando-se com belas ocupaçôes. Depois do
passeio, tomavam banho e se dirigiam ao banquete comum [...]. Apos
o banquete ofereciam libaçôes e acontecia a leitura [...] Uma vez
pronunciadas estas palavras, cada um voltava para sua propria casa.
Vestiam vestes brancas e puras, e usavam lengöis também brancos €
puros, de linho, pois nao usavam peles (Iambl. IP, p. 96-100).'°
A imagem cenobitica, tipicamente monastica, da vida pitagorica,
pertence certamente a uma tradigäo tardia, provavelmente mediada
pela tradicäo estoica medioplatônica, obedecendo mais diretamente ao
ideal de vida calma e transcorrida em lugares bucólicos do ideal da vida
filosófica helenística e depois imperial. Chama especialmente atengäo a
indicacao da leitura em comum, melhor especificada por Jamblico logo
em seguida (VP, p. 104) com relaçäo ao que € chamado de didaskalia
dia tén sÿmbolôn, isto €, da explicagäo dos sinais: uma forma de exegese
que incluiria, ao lado da prätica oral, a utilizacgio de uma série de
diferentes tipos de escritos, desde anotaçôes até publicagöes ecdóticas. E
obviamente impensavel uma complexidade literaria como esta para o VI
e V século a.C. Esta devera, portanto, corresponder mais provavelmente
à descricâo de uma mesa de estudo da Biblioteca de Alexandria, em
época helenistica.”
O vegetarianismo é certamente outro sinal de um estilo de vida
culturalmente alternativo dos pitagóricos. A dieta vegetariana implica na
recusa radical de uma pratica religiosa e social, aquela do sacrificio animal,
que constitui um dos pilares da cultura grega antiga. O vegetarianismo
esta diretamente ligado a crença na metempsicose e no parentesco
universal entre todos os seres viventes, conforme mencionado no
resumo inicial das doutrinas de Pitagoras por Porfirio:
12 Passagem paralela em Porfirio (VP, p. 32). O testemunho é com toda probabilidade aristoxénico,
de maneira especial em sua parte final (Burkert 1982, p. 16). Sobre a recepçäo de Aristoxeno da ética
pitagórica, no IV século a.C. e em âmbito peripatético, cf. os recentes estudos de Huffman (2006; 2008).
13
Jamblico fala mais especificamente de: diälogos (DiaAëgeic), instrugöes reciprocas (piAiai),
anotagöes (rropvnpariopof), notas (TOONNEIWOEIG), tratados (ouyypáppara) e publicagöes (KOOOEIG)
(lambl. VP, p. 104). O exercicio da comparagäo desta descriçäo pode ser estendido ainda mais, e
englobar a semelhança dela com a descrigäo dos essênios em Flavio Josefo (A Guerra Judaica Il, p.
128-133) e dos terapeutas judeus do lago de Mareötida descritos por Filon (De vita contemplativa Il),
apesar das reservas com relaçäo a esta ültima, expressas por Centrone (2000, p. 161, n. 47).
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Algumas de suas [de Pitagoras] afirmacöes ganharam notoriedade
praticamente geral: 1) afirma que a alma é imortal; 2) que transmigra
em outras espécies de seres vivos; 3) que, periodicamente, o que ja
aconteceu uma vez volta a acontecer, e nada é absolutamente novo;
e 4) que todos os seres animados devem ser considerados como do
mesmo gênero. Ao que parece foi mesmo Pitágoras a introduzir pela
primeira vez estas crencas na Grécia (Porph. VP, p. 19).
A mencâo à introdugäo desta crenca na Grécia pressupôe, mais
uma vez, uma estranheza geral a ela, configurando-se com isso, mais uma
vez, a imagem de uma seita marcada por uma subcultura alternativa.'*
Silöncio e segredo. Diversas citaçôes acima recordam a obrigacäo
do silêncio e do segredo com relacäo as doutrinas. É esta uma das
caracteristicas mais lembradas pela tradicäo. O testemunho mais antigo €
certamente aquele do orador Isöcrates, contemporäneo de Platäo: “ainda
hoje mais säo admirados aqueles que se professam seus discipulos [de
Pitagoras] e se calam, do que aqueles que obtém grandissima fama através
da palavra” (Isöcrates, Busiris 29 = 14 A4 DK). Alguns fragmentos da
comédia de meio (DK 58 E) recordam esta obrigacäo do silêncio: “era
necessärio suportar a escassez de comida, a sujeira, o frio, o silêncio, a
severidade e a falta de higiene” (Alexis. A Pitagorizante fr. 201 Kassel-
Austin = 58 E 1 DK). Analisaremos os mesmos em detalhes logo a
seguir.
Um célebre caso, melodramático, de quebra desta obrigacäo
do segredo € o da revelacäo, por parte de Hipaso, da doutrina da
incomensurabilidade, ou, numa outta versio, da inscricäo do dodecaedro
numa esfera.'” À tradicäo matemática do pitagorismo atribui a Hipaso,
alem disso, o roubo da originalidade da descoberta, que foi certamente
Dele (tof andrós, lambl. VP, p. 88), isto é, do também inominável Pitágoras.
Nesta atribuicâo revela-se um dos motivos comuns da insistência
14 A confirmaçäo disso, Burkert define a metempsicose como “um
corpo
religiao grega” (1977, p. 430).
estranho no interior da
15 Orig.: Tl yp ka vv Toc TTPOOTTOIOUNEVOUG KEÏVOU HaBNTs eval HAAOV oryvras
Oaupádouoiv TOS TTTAËVEIV
Heyiornv S6fav xovras (lsócrates, Busiris, p. 29).
16 E Burkert (1972, p. 455) quem fala de um “veritable melodrama in intellectual history”
com relaçäo
a essa tradiçäo dos incomensuráveis. Refere-se provavelmente a Hipaso (VP, p.
74), que menciona
a possibilidade de alguém instruido nas ciéncias ser expulso da comuni
dade, ainda que nao o cite
nominalmente. Para a referência explicita a Hipaso, cf. lambl. VP (p. 88, p. 247).
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no segredo das doutrinas: frente a resistencia dos acusmáticos em
considerarem como parte fundamental da tradiçäo pitagorica questoes
matemäticas deste gênero, o lado dos watemäticos utiliza a escamoteacao
tipica do argumento de autoridade, atribuindo-as diretamente a E/. De
fato, da mesma maneira, quando — em época helenística — inicia-se uma
vasta produçäo de apócrifos, o argumento da consignacao do segredo
sobre as doutrinas entre os primeiros pitagóricos servirá ao propósito de
justificar o aparecimento somente tardio de cartas atribuidas falsamente
a Pitágoras ou aos primeiros familiares ou discipulos.'” Com razäo,
anota Huffman (2008), uma testemunha importante como Aristöteles
näo revela em seus escritos alguma dificuldade em ter acesso aos textos
pitagóricos (ao contrário, escreve três livros sobre Arquitas). Disso
deriva que: ou grande parte das doutrinas pitagoricas nao eram, de fato,
sigilosas, ou o segredo foi muito mal guardado (Huffman, 2008, p. 218).
E, todavia, a presença da obrigacâo do segredo é tao significativa,
especialmente com relaçäo às tradigöes dos akousmata e symbola, ao ponto
de nao poder ser reduzida simplesmente a uma falsificacao helenistica:
esta configura exatamente um dos critérios centrais para a constituicao
de uma scita: isto é, aquele de uma linguagem esotérica, que precise de
senhas especificas para ser compreendida.
Creio que uma boa soluçäo da questäo do segredo na comunidade
e literatura pitagérica é aquela proposta por Gemelli (2007): no interior de
uma atenta análise da linguagem esotérica utilizada pelos pré-socráticos,
Gemelli anota que:
É caractetistica do texto esotérico uma estreita ligacao entre linguagem
e experiéncia, que nada diz a quem nao tiver a capacidade de “tornar
concreta” a palavra. O siléncio pretendido pelos pitagóricos nao € um
silêncio sobre as palavras, e sim sobre as experiencias. Pois umas sem
as outras permanecem um cofre trancafiado (Gemelli, 2007, p. 438).
O segredo, portanto, seria uma estratégia da comunidade para
manter as experiéncias que dentro dela se desenvolvem como prerrogativa
gäo
17 O mesmo de Filolau se recorda uma quebra do sigilo em ocasiäo da divulga
dos célebres très
é utilizada para legitimar um
livros comprados por Platäo (D.L. Vidas, VIII, p. 85). E mesmo essa noticia
VIII, p. 6). Cf., para isso, Burkert
falso pitagórico de idade helenistica (ja mencionado em D.L. Vidas,
(1972, p. 223-227) e Huffman (1993, p. 12-14).
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exclusiva dos iniciados; a tese de Gemelli
é muito convincente e
impregnada de consequências para a compreensao da
do protopitagorismo.
dinamica esotérica
Guia carismätico. A presença carismática do fundador Pit
ágoras paira
sobre as diversas características até aqui detectada
s na seta pitagörica.
Tanto a referência acima de Aristöteles da natureza
intermediäria dele
entre deuses e homens (lambl. UP, Pp. 31), como
a expressäo tof andrés
como de uma seita. Para além disso, é tecorrente a
tradicao da atribuicao
(lambl. PP, p. 88) para referir-se a Pitägoras sem
nomeá-lo, sugerem
de fato a presenca de mais este critério de identificacä
o do pitagorismo
da autoridade de praticamente qualquer doutrina ao
mestre Pitágoras,
lembrada pela expressio Autos épha, ipse dixit (lambl.
VP, p. 46).
Prescrigöes reprodutivas. Entre as doutrinas que con
stituem a
comunidade pitagörica como alternativa aos háb
itos comuns da
sociedade grega, há certamente aquela da ascensäo
das mulheres ao
mesmo status social dos homens. Nao acaso a pita
górica, acima citada
como personagem principal da comédia de Alexis, tor
na-se um caräter
bastante presente na comédia de meio. Desde a
noticia do sucesso
de seus discursos inaugurais em Crotona, a tradic
âo lembra que a
comunidade pitagérica que surge em consequencia
do sucesso deles é
composta tambem por mulheres (Porph. UP, p- 19
e 20; Iambl. VP, p.
30). O primeiro nome lembrado é aquele de Tea
no: as fontes oscilam
entre considerä-la filha ou esposa do fundador.'® Para
além das anedotas
elaboradas para mostrar a forca e fidelidade à comuni
dade das mulheres
— € este Oo caso da gravida Timica, que resiste a tor
tura de Dioniso II
(lambl. VP, p. 194) — destaca-se uma série de tes
temunhos relativos 4
regulacao da reproducâo e dos rituais a ela conexos,
que revelam uma
diferente relacäo de género entre os pitagoricos:
Dizem que, quando Teano foi interrogada sobre quanto
de um intercurso sexual com um homem uma
s dias depois
mulher recupera a
puteza, teria respondido: “da relacäo com o prép
rio esposo, de
imediato, daquela com um estranho, nunca”. Exortava
a [esposa] que
ia ter com seu proprio marido a abandonar, junto
com os vestidos, o
pudor; e uma vez levantada, a recupera-lo junto com
estes. E quando
18 Cf., para uma sinopse das fontes sobre Teano,
Delat
te (1922, p. 246 e 248).
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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.)
Ihe foi perguntado: “Quais?”, ela respondeu: “aqueles pelos quais me
chamam de mulher” (D.L. Vidas, VIII 43).
Veja-se também, na mesma linha, a memoria da katabasis de
Pitägoras ao Hades: entre outros castigados, ele teria visto os homens
que nao quiseram ter intercursos sexuais com suas esposas (D.L. Vedas,
VIII, p. 21). Jamblico (VP, p. 132, 195) lembra de Pitagoras convencendo
os crotonenses a abandonar as concubinas. Aqui nao estaria tanto em
questäo, ao que parece, a isonomia de obrigaçôes morais conjugais entre
homens e mulheres, e, sim, uma atitude tipica de pequenas comunidades
sectárias que, por meio do controle da reproduçäo no interior do proprio
grupo, tende a garantir sua sobrevivencia. Os varios ditos dedicados a
necessidade de procriar para honrar os deuses, em si aparentemente
genéricos, assumem, na relativamente pequena comunidade pitagörica,
tons de autêntica dramaticidade.
Intensa mobilidade geográfica.
Enfim, uma intensa mobilidade
geogräfica € implicita à narrativa da anedota acima citada de Timica,
que — enquanto grávida — antes de cair na emboscada de Dioniso II,
ser presa e torturada, viajava junto com outros nove companheiros,
de Tarento para Metaponto (lambl. WP, p. 189-194). A tradigao €
attibufda a Neantes e foi certamente elaborada no modelo das anedotas
biogräficas helenisticas. Ainda assim, observa justamente Burkert (1982,
p. 17), nos revela uma Ultima caracteristica tipica de uma seita, aquela
da mobilidade de seus membros, pois: “eles seguiam a mudança das
estacöes e escolhiam lugares adequados para suas reuniöcs” (Iambl. VP,
p. 189). A mobilidade da comunidade significa recusa à pertenca a uma
cidade especifica e a substituicäo da relacâo poliade pela relaçäo sectaria.
Ainda que nao haja propriamente contradicäo entre as noticias do
envolvimento politico dos pitagöricos (Porph. VP, p. 20 € lambl. VP,
p. 30) e a característica sectaria da comunidade.” E de fato o caso de
concordar com a afirmacäo de Burkert, pela qual esta contradiçäo nao
haveria lugar na Grécia antiga:
19 Cf. lambl. (VP, 84).
20 Por uma anâlise exaustiva da politica pitagórica, cf. Cornelli (2010)
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HOMENAGEM A NEYDE THEML
Nao ha incompatibilidade entre este [pol
itico] e o lado religioso
e ritualistico do Pitagorismo. De fato
, a sociedade de culto e um
clube politico estäo na origem praticame
nte idênticos. Cada grupo
organizado se expressa em termos de
um culto comum, e toda a
sociedade de culto & ativo politicament
e, como hetaitia (Burkert,
1972, p. 119).2!
I]
As dificuldades em se tratar da comunida
de pitagórica originária
dependem, em boa parte, da ampla questäo das
fontes para o pitagorismo,”
De
fato, ha um número reduzidissimo de
© pitagorismo nos autores inseridos entre
primeira metade do IV séculos a.C
referéncias sobre Pitagoras e
a segunda metade do V e a
.” Excetuando o material comico
,
objeto de análise central deste trabalho,
esses dados estäo testritos a três
autores basicamente.
1°. Heródoto refere-se a Pitagoras em
forma direta e incontestavel, enquan
dois momentos: um de
to que em um outto momento,
essa teferéncia aparece de maneira nao
tio clara assim. O referido
historiador aponta também outras qua
tro passagens relacionadas aos
Pitagéricos. Com relaçäo a Pitagoras, fic
a evidente que Heródoto está
lidando com algum tipo de memoria pre
servada na sua propria época.
Essa lembranca está presente no seu
discurso, no momento em que
ele afirma (Heródoto 4:95) ser Pitágo
ras um dos homens mais sabios
entre os helenos. Ela parece, no entant
o, ser questionada com outros
da
dos que esse historiador dispôe. Heró
doto (2:123) afirma que os
egipcios foram os primeiros a afirmar
a imortalidade da alma humana
e a diz
er que por ocasiäo da morte do corp
vivo em vias de nascer. Nessa parte
o ela entra em outro ser
da sua narrativa, porém, ele observa
que ha alguns helenos, uns mais cedo
— possivelmente estaria aqui se
referindo a Pitägoras (?) — € outros mai
s tarde, que apresentam essa
21 “There is no inconsistency betwee
n this
[political] and the religiou
s and ritual side of Pythagoreanism.
In fact, cult society and political club
are in origin virtually identical. Eve
ry organized group expresses
itself in terms of a common worship,
and every cult society is active poli
tically as a hetairia”. Mas vejamse também os argumentos de Zhm
ud (1992, 247 n. 5), que discorda
dessa interpretaçäo, negando
importancia a componente religios
a da comunidade pitagórica. Da mes
ma forma Philip (1966, 138),
22 Cf. para isso Cornelli 2002 e 200
3.
23 Todas as datas contidas neste text
o sao antes de Cristo (a.C.), salvo aqu
elas por mim especificadas.
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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA Lima (ORGS.)
@ 225
doutrina como se fosse sua. O referido historiador deixa clato para os
seus leitores que ele conhece os seus nomes, muito embora (e isso € uma
pena para nós) nâo vá escrevê-los. Em outros quatro passos de sua obra,
Herödoto deixa transparecer alguns importantes elementos referentes
as caracteristicas básicas que marcavam a comunidade pitagorica, entre
a vitada da primeira para a segunda metade do V século — momento em
que ele esta escrevendo a sua obra. Os pitagóricos, segundo o referido
historiador (Heródoto 2:81), usariam túnica de linho com franjas que
se enrolam nas pernas, chamada de calasiris, e um manto branco de
là
solto por cima dela.”* Nos templos, eles näo usariam roupa alguma de
la, ja que isso seria contra os preceitos religiosos. Herödoto recorda,
inclusive, que os iniciados näo poderiam ser enterrados com roupas
que levassem esse tipo de tecido. Eles compartilham (Herödoto 2:123)
da crenga da imortalidade da alma humana e dizem que por ocasiäo
da morte do corpo ela entra em outro ser vivo em vias de nascer. Ao
mesmo tempo, o historiador de Halicarnaso (4:95) recolhe informacöes
referentes a Aristeas e a Zälmoxis. O primeiro näo aparece diretamente
relacionado com Pitägoras na sua narrativa (Herödoto 4:13-15), muito
embora, nessa mesma passagem, possam ser vistos indicios da presenca
de circulos pitagöricos em Atenas. Esses circulos possivelmente seriam
os responsäveis pelos detalhes contidos na narrativa. Herödoto conta
que Aristeas havia ressuscitado”, depois ter mortido na oficina de um
pisoeiro no Proconeso, e aparecido em diversos lugares, para diferentes
pessoas. Com relacao a Zálmoxis, ele sim um discipulo de Pitägoras, o
referido historiador conta que ele ensinava aos seus concidadäos träcios
(provavelmente, os mais proeminentes) nao que alma humana fosse
imortal, mas que eles e seus descendentes jamais morreriam. Todos eles
itiam para um lugar onde sobreviveriam eternamente e desfrutariam de
todas as coisas boas (para outros dados envolvendo Zálmoxis / Pitagoras
em: Dodds, 1988, p. 159).
24 Price (1999, p. 119, incluindo a nota 33) observa que as confusöes entre
Orfeu
e Pitagoras ocorrem
tanto nos textos antigos, como no caso desta passagem de Heródo
to, quanto nos autores modernos.
Para as estreitas relaçôes entre orfismo e pitagorismo nas comédias antigas
.
25 Bellido (1972, p. 39) vé em Söfocles (Electra, p. 62-65) um possiv
el eco de um relato diretamente
conectado com a vida de Pitagoras, onde esse ultimo, depois de morto, teria
ressuscitado e voltado
para casa.
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2°, Isécrates deixa transparecer nao apenas um tipo de memoria
presente no seu tempo histörico, como também qual o conceito gozado
pelos pröprios pitagéricos (em Atenas). Ele observa (Isöcrates. Busitis, p.
28) que Pitagoras, em uma visita ao Egito, teria se tornado um estudante
da religiao do povo e foi o primeiro a trazer para os gregos toda a
filosofia. A sua reputacäo ultrapassou a de todos os outros (helenos),
de modo que os mais jovens desejavam ser seus discipulos, enquanto
que os mais velhos sentiam-se orgulhosos de verem os seus filhos junto
ao referido sabio. Referindo-se a sua propria época, o orador constata
que os que professam ser seguidores do ensino de Pitagoras sao mais
admirados pelo siléncio (que os caracteriza) do que aqueles que tém o
maior renome para eloquéncia.
3°. Platao estabelece um interessante contraponto entre Homero
e Pitagoras. A passagem (A Republica 599b-600a) começa no exato
momento em que Söcrates busca analisar o envolvimento de Homero na
esfera privada ou publica, a fim de saber no que o referido poeta ajudou
como administrador ou legislador, como conselheiro ou esträtego,
como propagador de alguma ideia ou responsävel por alguma invencäo,
a tornar a vida de uma cidade melhor. Neste momento da narrativa (A
República 600a-b), Söcrates estabelece uma comparagäo, enfatizando aí,
de forma clara, as oposiçôes, entre as contribuiçôes legadas por Homero
e aquelas deixadas por Pitagoras. Os dados podem ser condensados no
seguinte quadro.
Quadro 1 — Comparacoes estabelecidas por Söcrates entre Homero e
Pitagoras
Nao dirigiu a educacao de nenhuma
Dirigiu a educaçäo de algumas pessoas.
pessoa.
A sua companhia nao era estimada pot | À sua companhia era estimada pelos
ninguém.
discipulos.
Nao
se
conhece
a
transmissao
à | Foi transmitido à posteridade o estilo
posteridade do estilo de vida homérico. | de vida pitagörico.
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227
Muito embora nao seja esse o objeto do trabalho (e por isso, ele
nao sera aqui aprofundado), é interessante observar (dos dados advindos
do Quadro 1) que se a divergéncia define a relacio Homero / Pitagoras,
a convergencia caracteriza o par Söcrates / Pitägoras.
Ainda no mesmo passo, Platäo (A República 600e-d) diz que
se Homero fosse capaz de educar os homens e de fazê-los melhores,
cle seria dotado da capacidade de criar numerosos discipulos que o
honrassem e estimassem. Citando Protágoras de Abdera e Prédico de
Ceos e outros tantos (pode-se admitir, o pröprio Pitagoras, muito embora
ele nao tenha sido citado), Sócrates observa que eles foram capazes de
convencer os seus discipulos a se submeterem a sua educaçäo, como
forma de administrar melhor a sua casa e a sua cidade. É por isso que
eles sao estimados com tal veeméncia, tendo ao seu redor numerosos
discipulos. Neste ponto da narrativa (A Republica 600d), Sócrates parece
falar de um tipo de estilo de vida (pitagérico?) que deve ser adotado pelo
discipulo: ele deve ser mais apegado ao mestre; ele deve viver com o seu
mestre; ele deve ser transformado em pedagogo, seguindo o seu mestre
onde quer que ele va.
Dos dados advindos dos trés autores antigos gregos citados,
podem ser estabelecidos quatro pontos básicos que delineariam, em
Atenas, as ideias concernentes a Pitagoras e ao movimento pitagörico
entre a segunda metade do V e a primeira metade do IV seculos: 1°)
Pitágoras era tido como um homem extremamente sábio; 2°) ele esteve
no Egito; 3°) a sua doutrina contempla a ideia de imortalidade e de
transmigracâo da alma no momento em que o corpo morte; e 4°) a
presença de comunidades pitagóricas em Atenas, as quais parecem
ser responsaveis pela disseminaçäo da propria memoria de Pitagoras,
bem como dos grandes feitos que ele e outros personagens (Aristeas e
Zalmoxis) realizaram.
IT
As comédias antigas abordam trés grupos básicos de temas
pitagoricos: imortalidade da alma e a sua transmigracäo após a morte
do corpo; prescricöes dietéticas; e instrucôes orais. Muito embora
Bellido (1972, p. 49) esteja correto em afirmar que estes trés erupos
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constituem o que há de mais externo ao pitagorismo, proporcionando
assim um rico material para a constituigäo de um tipo comico, podese admitir, refinando ainda mais a colocacao do referido autor, que
especificamente as prescricöes dietéticas, funcionando como um código
unico de restricöes na vida grega, causaram um profundo impacto entre
os näo-membros da comunidade pitagórica, isto é, entre os de fora, o
que acabou produzindo elementos irresistiveis para os poetas cômicos
explorarem nas suas pegas (Parker, 1996, p. 291), Outros temas ligados
ao pitagorismo (as questöes envolvendo os nümeros”, por exemplo)
nao foram mencionados pelos comediógrafos. Convém observar,
considerando a enorme quantidade de fragmentos ligados a comédia
antiga, o baixissimo numero de referencias ao pitagorismo no corpus
estabelecido por Edmonds.
Ainda como ponto de partida, deve ser salientado que apesar
de existirem diferencas entre orfismo e pitagorismo, nao ha critérios
seguros para definir quais sao os elementos mais antigos e os mais
tardios no interior das crencas pitagóricas e Orficas, nem para propor o
contorno de uma linha clara de demarcacäo entre essas duas escolas”
(Parker, 1996: 290). Essa auséncia de critérios vivida hoje pelos
pesquisadores poderia também estar presente entre os proprios agentes
sociais do periodo classico, o que ajudaria a explicar o porquê dos temas
trabalhados pelos poetas cômicos dizerem respeito ao que existe de mais
estreito entre esses dois movimentos, como por exemplo: alguns tipos
de abstinéncias alimentares; a doutrina da metempsicose; a crenga em
penas; e recompensas de uma vida futura (Delate, 1915, p. 5).
Imortalidade da Alma e a sua Transmigracao
Sob o ponto de vista da transmigracâo da alma, a sua principal
referência entre os comediógrafos, talvez mesmo, a Unica passagem bem
26 Bellido (1972, p. 38) identifica a passagem de Esquilo (Prometeu Acorrentado, p. 456-461) como
sendo pitagórica, na medida em que confere aos numeros uma primazia sobre os demais campos da
ciéncia.
27 Convém registrar aqui a observagäo feita por Nilsson (1949, p. 187) de que os pitagoricos nao
devem ser vistos como uma escola filosófica, mas como seita religiosa.
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atestada, € aquela de Ferécrates, na peça DoulodidavskaloV™, escrita em
421. Lé-se, neste fragmento, um curto diálogo entre uma mulher e um
personagem, ambos nao sao nomeados, onde este ultimo diz para ela
que no seu sonho ele era um peixe (kivgaroV) e como tal andava pela
cidade. Uma outra referencia aparece também em Platao, o comico, na
peca Oie> LavkwneV ou Oie> Poihtaiv” de 401. Encontra-se af um breve
diálogo envolvendo um personagem e um poeta trágico, ambos nao
nomeados, onde o primeiro diz ao segundo que ele voltou a vida e que,
portanto, ele nao esta morto. O poeta Ihe responde que o seu corpo esta
morto, mas que Esopo acabou de voltar.
Outras passagens dizem respeito à imortalidade da alma. Ferécrates,
na peca /Agrioi® de 420, fala da felicidade (wakariovthV) do morto quando
ele for enterrado. Da mesma forma, Amipsias”, cujo titulo da comedia
e data da apresentacäo nos sao desconhecidos, observa a molicie (#rufhr)
entre os mortos.
Em Aristófanes, na peca Oe Taghnistaiv” de 422, lê-se o argumento
que corpo e alma sao diferentes, sendo que a alma “é algo kenovn, vazio,
que no momento da morte marcha provV ton Diva, signiticando aqui
Diva evidentemente o ai*gevr” (Bellido, 1972, p. 54).
Convém observar, apesar de a questao ser mais pertinente ao
subitem seguinte, que a prescrigâo pitagórica de se abster de determinados
tipos de animais terrestres e marinhos, conectando este tema com a ideia
de imortalidade e de transmigraçäo da alma. Este parece ser o caso em
Cratino, na peca TrofwvnioV” datada entre 455 e 453.
Prescricöes Dietéticas
Este subitem diz respeito à abstengao de certos de tipos de
alimentos, principalmente, mas nao exclusivamente, das carnes de
28 Kock, frg. 39; Edmonds, vol. |, 222-223; Bellido, 1972, p. 50 e 51; Ateneu. Deipnosofistas
7:305f-306°.
29 Kock, frg. 68; Edmonds, vol. |, p. 511; Bellido, 1972, p. 51.
30 Kock, frg. 5; Edmonds, vol. |, p. 209 e 210; Bellido, 1972, p. 52; Platäo. Protagoras 327d.
31 Kock, frg. 23; Edmonds, vol. |, p. 485; Bellido, 1972, p. 52.
32 Kock, frg. 488; Aristóteles. Fisica 4.6:213; Bellido, 1972, p. 53.
33 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58.
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229
ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.)
atestada, € aquela de Ferécrates, na peça DowlodidavskaloV”, escrita em
421. Lé-se, neste fragmento, um curto diálogo entre uma mulher e um
personagem, ambos nao sao nomeados, onde este ultimo diz para ela
que no seu sonho ele era um peixe (kivgaroV) e como tal andava pela
cidade. Uma outra referéncia aparece também em Platao, o comico, na
peca Oi> LavkwneV ou Oi Poihtaiv”” de 401. Encontra-se ai um breve
diálogo envolvendo um personagem e um poeta tragico, ambos nao
nomeados, onde o primeiro diz ao segundo que ele voltou a vida e que,
portanto, ele nao esta morto. O poeta lhe responde que o seu corpo esta
morto, mas que Esopo acabou de voltar.
Outras passagens dizem respeito a imortalidade da alma. Ferécrates,
na peca /Agrio’™ de 420, fala da felicidade (makariovthV) do morto quando
ele for enterrado. Da mesma forma, Amipsias”!, cujo titulo da comédia
e data da apresentacäo nos sao desconhecidos, observa a molicie (¢rufhv)
entre os mortos.
Em Aristófanes, na peça O1¢> Taghnistaiv” de 422, lê-se o argumento
que corpo e alma sao diferentes, sendo que a alma “é algo enovn, vazio,
que no momento da morte marcha provV tol’n Diva, significando aqui
Diva evidentemente o af*gevr” (Bellido, 1972, p. 54).
Convém observar, apesar de a questao ser mais pertinente ao
subitem seguinte, que a prescrigäo pitagörica de se abster de determinados
tipos de animais terrestres e marinhos, conectando este tema coma ideia
de imortalidade e de transmigracäo da alma. Este parece ser o caso em
Cratino, na peça TrofwvnioV” datada entre 455 e 453.
Prescricöes Dietéticas
Este subitem diz respeito à abstengâo de certos de tipos de
alimentos, ptincipalmente, mas nâo exclusivamente, das carnes de
28 Kock, frg. 39; Edmonds, vol. |, 222-223; Bellido, 1972, p. 50 e 51; Ateneu. Deipnosofistas
7:305f-306°.
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Kock, frg. 68; Edmonds, vol. |, p. 511; Bellido, 1972, p. 51.
Kock, frg. 5; Edmonds, vol. |, p. 209 e 210; Bellido, 1972, p. 52; Platäo. Protagoras 327d.
Kock, frg. 23; Edmonds, vol. |, p. 485; Bellido, 1972, p. 52.
Kock, frg. 488; Aristóteles. Fisica 4.6:213; Bellido, 1972, p. 53.
33 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58.
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animais e de peixes. Essas observancias, muito mais do que serem vistas
como práticas temporärias, fariam parte de um estilo de vida permanente
da comunidade pitagörica.
Ha pelo menos um caso onde se constata a preocupaçio do poeta
cômico em nomear (e até mesmo em especificar) os peixes que devem ser
banidos da dieta alimentar. Cratino, na pega TrofivvnioV®*, situada entre 455
e 453, fala da necessidade de se abster do salmonete (de carne vermelha
do dêmos ätico de Aixionides), do ruivo e do peixe de cauda preta. Em
outros casos, no entanto, as teferências contidas nos fragmentos dos
comediögrafos aparecem de forma mais genérica, parecendo se referir
a um conjunto bem maior de animais terrestres e marinhos. Este parece
ser o caso de Crates, na sua peca Tav Ohriva”, do ano de 436, que fala da
interdicâo de se comer carne (ArevaV), costeletas (tavkwnaV) € chourico
(a*lla‘ntaN). Ja Platäo, o comico, em Ai &Eortair" de 413, manda
se abster da carne de todos os quadrúpedes, com excecäo da do javali
(ue>w'n), que como o pröprio poeta comico observa, tem uma carne
saborosa (tal kreva h@dist’ elconsı)
Instruçôes Orais
Enconttam-se, neste subitem, frases dispersas nos fragmentos dos
poetas cômicos áticos, as quais parecem estar diretamente conectadas
4s ideias vinculadas pelo pitagorismo. Parker (1996, p. 295) procurou
associat os symbola com a evidencia antropolögica, demonstrando que por
deträs de regras de conduta aparentemente estäo os principios essenciais
de uma sociedade particular para o ordenamento do mundo. Deve-se
ter em mente, porem, que os akéusmata nao sao normas para toda a
sociedade, mas principios adotados por um grupo restrito. Uma vez
mais, a adocäo de tais principios marca as fronteiras entre os membros
de dentro e os de fora.
34 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58.
35 Kock, frg. 17; Edmonds, vol. |, p. 161; Bellido, 1972, p. 61 e 62.
36 Kock, frg. 28; Edmonds, vol. I, 499; Bellido, 1972, p. 62.
37 Para outros exemplos, ver: Aristöfanes. Ai&Wrai, de 407 (Kock, frg. 564; Edmonds, vol. |, 725);
Heniocos. &O TrocivloV, de 411 (Kock, frg. 4); Frinico. Mou'sai, de 405 (Kock, frg. 69; Edmonds,
p. 471; Bellido, 1972, p. 63).
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Ha dois grupos básicos de symbola nos fragmentos dos poetas
cômicos*:
a) nao comer aquilo que cai da mesa, porque ele pertence aos
heróis®;
b) algumas regras relacionadas aos banhos públicos, como por
exemplo: (b.1) nao colocar o pé direito no calçado e o esquerdo
no banho”; (b.2) näo tomar banhos quentes*!; (b.3.) nao lavar
os pés fora da porta dos banhos*; e (b.4) nao entrar em atrito
com o vizinho do banho.*
Dos dados advindos dos fragmentos dos comediógrafos, podem
ser estabelecidos os seguintes pontos concernentes a Pitágoras e As ideias
que lhe estavam associadas em Atenas durante a segunda metade do V e
a primeira metade do IV séculos: 1°) a sua doutrina contemplava a ideia
de imortalidade e de transmigracao da alma no momento em que o corpo
mortia; 2°) essa mesma doutrina estabelecia prescrigöes alimentares,
ditando o que podia e o que nao podia ser ingerido pelo ser humano,
pelo menos entre aqueles que almejam seguir os passos de Pitágoras;
3°) os akóusmata podem ser lidos como máximas ou ditos transmitidos
oralmente (Burkert, 1972, p. 166); e 4°) os temas desenvolvidos pelos
poetas cômicos deixam claro que havia um numero (provavelmente
pequeno) de espectadores capaz de decodifica-los.
IV
Ao comparar os pontos que condensam os resultados obtidos
anteriormente, obtém-se alguns elementos interessantes, os quais
fornecem o grau de conhecimento (em forma de pistas ou indicios) que
as camadas populares atenienses detinham acerca de Pitagoras e dos
pitagó ricos.
38 Para outros exemplos, ver: Burkert, 1972, p. 172ss.
39 Aristófanes. Oi& &HrweV 320, de 409 (Kock, frg. 305; Bellido, 1972, p. 64); Eúpolis. KovlakeV, de
421 (Kock, frg. 146b; Edmonds, vol. |, p. 371; Bellido, 1972, p. 64); Aristófanes. Oi& Taghnistaiv, de 422
(Kock, frg. 672; Edmonds, vol. |, p. 755; Bellido, 1972, p. 64).
40 Aristofanes. Nefevlai A (?), de 423 (Kock, frg. 914; Edmonds, vol. |, p. 789; Bellido, 1972, p. 65).
41 Hermipo. *Adhviwn Dramavtwn (Kock, frg. 76; Bellido, 1972, p. 65).
42 Aristofanes. Oi& &HrweV, de 409 (Kock, frg. 306; Bellido, 1972, p. 65).
43 Eúpolis. &O Diaivtwn (Kock, frg. 136; Bellido, 1972, p. 65).
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Parece ser um fato inquestionável a existência de uma memória
acerca de Pitagoras na Atenas clássica. A sua preservacao parece ter
sido obra de comunidades pitagoricas ali instaladas. Dos trés temas
trabalhados pelas comédias, pode-se pressupor que o plêthos ateniense,
basicamente o urbano (ja que ele se encontrava mais proximo dessa
memoria), via Pitagoras como um homem sábio, cujas ideias nao eram
faceis de serem assimiladas. Talvez isto explique o porqué de um numero
tao reduzido de passagens referentes as ideias pitagóricas nos fragmentos
dos poetas cömicos, por um lado, bem como o fato dos comediögrafos
insistirem no que havia de mais estreito entre orfismo e pitagorismo, por
outro. Estes dois aspectos parecem reforçar o argumento de que haveria
um númeto provavelmente pequeno de espectadores — possivelmente
situados no espaco urbano — capaz de decodifica-las e, ao mesmo tempo,
de conseguirem estabelecer claramente as fronteiras entre esses dois
movimentos.
Pode-se admitir que as prescricöes dietéticas, inseridas no
interior de fronteiras nao muito bem definidas entre os movimentos
Orfico € pitagórico, podem ser lidas como uma reacäo contra a religiäo
tradicional polfade (Parker, 1996, p. 296; Burkert, 1972, p. 182). Esse tema
encontrou resistencias muito sérias nao apenas nas camadas populares,
ptincipalmente, mas nao exclusivamente, as rurais, como também
entre uma parcela significativa da elite ateniense. Os pitagóricos, ao se
recusarem em matar animais (Detienne e Vernant, 1979, p. 14; Price,
1999, p. 122), em comer ovos e favas, em beber vinho (Price, 1999,
p. 121) e em participar de sacrificios de animais* (Detienne, 1972, p. 86
e 87; Detienne e Vernant, 1979, p. 14; Price, 1999, p. 122), colocavam
em xeque as hecatombes e a cinegética, esta ultima pensada nao sö como
complemento alimentar para as camadas campesinas, mas também
como esporte € treinamento militar para as elites (Chevitarese, 2002,
p. 24-48). Convém recuperar aqui a interessante observacao feita por
Detienne e Vernant (1979, p. 17, 22) de que Pitagoras tinha uma aversäo
aos cacadores e cozinheiros.
44 Zaidman e Pantel (1992, p. 38 e 39) observam constatam a existéncia de duas tendéncias entre
os pitagoricos: uma, que se aproximava mais dos órficos, retirou-se inteiramente da vida politica, na
medida em rejeitava por completo comer carne e participar dos sacrificios de animais em seus altares;
a outra tendéncia admitiria algumas concessöes, como, por exemplo, sacrificar o bode e o porco.
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Quanto à doutrina da imortalidade da alma e a sua transmigracäo,
no momento em que o corpo morte, para outro ser vivo prestes a nascer,
pode-se admitir, muito embora esta admissao esteja assentada em um
pequeno numero de fragmentos cömicos, que esse topico (imortalidade
e transmigracao da alma) é de dominio de uma pequena parcela da
populaçäo, possivelmente localizada no espaco urbano de Atenas e do
Pireu. Essa memoria indicava Pitagoras como o pai dessa doutrina.* No
interior desta argumentacao, Bellido (1972, p. 52 e 53) mostrou que esse
töpico pitagörico encontra ecos em outros textos teatrais do periodo
classico (Euripides. Suplicantes 531-536), além de ser bem atestado em
inscricoes funerarias.
Diferentemente dos trés autores citados acima (Heródoto,
Isócrates e Platao), os fragmentos dos poetas cômicos mencionam
alguns akónsmata. Essas citaçôes, na medida em que estao inseridas nas
comédias, podem servir como indicios de que tais symbola conheceram
um certo grau de popularizacao na Atenas do V século.
V
Este trabalho procurou relacionar os indicios pitagoricos contidos
na comédia antiga com os modelos histöricos gregos de associaçôes e
com o péthos urbano ateniense. Muito embora os comediógrafos áticos
tenham proporcionado um baixissimo numero de referências acerca do
pitagorismo em suas peças, foi possivel relacioná-las com a populagäo
urbana (de Atenas e do Pireu), tornando-a a unica plenamente capaz de
decodificar essas mensagens.
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Reale. Milano: Bompiani, 2005.
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J. M. The Fragments of Attic Comedy. Vol. 1. Leiden: Brill,1957.
45 A ênfase de Heródoto em afirmar, como se ele estivesse tentando corrigir um erro, que essa
doutrina seria egipcia, só reforgaria o nosso argumento.
Page 37
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