Recepcao da comunidade pitagorica na comedia antiga ateniense

Author
Cornelli, G.
Published in
UMA Trajetoria na Grecia antigua. Hommenagem a Neyde Theml
Year
2011
Subject
COMEDY
Language
Español
Category
C6 Language & literature
Archive number
7269

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UMA Pate Homes Ark qs vk Anecin à A Veyde ThemÀ Lo tf memes, Tramas de ritos ¢ deuscs: o limite, o estranho ¢ o pescador Ana Livia Bomfim Vieira nnn. 9 5 AZ +264 vak Atenas e Bizancio sob a acâo do Magelo: pesie e historia . een LR NEL ‚CG. Les. nas narrativas de Tucidides c |PEOCOPIO sers, wanne a LL] Ana Terese Marques Gangelves e Lyvia | ascancelos Baptista Praticas esportivas € Jogos helênicos neer bovecseceseceuueceeranece 143 Fabia de Senza Lessa Mutagao do imagmario polfade nas oracôes fünebres em ..... „159 Tucidides e Hipérides Manuel RolphCabecetras Corpor ¢campode |exercicio de experimentacdo comparada wu... woe 171 IL. VISÖES DA GRÉCIA ANTIGA coccccccccccccccccseccuncceceseceecceccunecesenes rene A musica grega antiga: oriwem, identidade e etnicidade wo. 18 Fabia 1 ereara Cerqueira Recepcao da comunmlade pit agerica na Comedia antiga atentense.... 20° i Gabriele Cornedi e »Indre leonardoCherftarese Cidade e territonio na Grecia Antiga Mutia Beatrix Borba Horenzano nnen creer werennerernnnnen 237 HE. NO MUNDO ROMANO u. nennen ZO Construinds fronteiras religiosas em Antioquia: as homitras “Ideersus Tedases de JoaoCrisöstomo ca fixacdo da idenridade crista... 265 Gilean b entura da Sire

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UMA TRAJE ORIA NA GR ÉCIA ANTIGA,H OM ENAG EM N E YO E TH EML

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COLEGAO AEDOS/ CONSELHO EDITORIAL Prof. dr. Alexandre Carneiro Cerqueira Lima (coordenador da coleçäo) Nücleo de Estudos de Representaçôes e de Imagens da Antiguidade (NEREIDA)/Programa de Pös-Graduagäo em Histöria (PPGH) da Universidade Federal Fluminense (UFF) Profa. dra. Adriene Baron Tacla (NEREIDA/ PPGH/ UFF) Profa. dra. Ana Livia Bomfim Vieira Universidade Estadual do Maranhäo (UEMA) Profa. dra. Claudia Belträo da Rosa Núcleo de Estudos e Referéncias da Antiguidade e do Medievo (NERO)/ Programa de Pós-Graduacáo em História (PPGH) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) Prof. dr. Fabio de Souza Lessa Laboratório de História Antiga (LHIA)/Programa de Pös-Graduagäo em História Comparada (PPGHC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRD Profa. dra. Maria Regina Candido Núcleo de Estudos da Antiguidade (NEA)/ Programa de Pös-Graduagäo em História (PPGH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERD

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ORGANIZADORES: Adriene Baron Tacla Norma Musco Mendes Ciro Flamarion Cardoso Alexandre Carneiro Cerqueira Lima ANA GA,HOM ENAG EM A DE THEML apicuri Rio de Janeiro

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Alexandre Carneiro Cerqueira Lima Todos os direitos reservados, Nenhuma parte desta edigäo pode ser utilizada ou reproduzida — em qualquer meio ou formula, seja mecanico ou eletrônico, por fotocöpia, por gravacao € etc. — nem apropriada ou estocada em sistema de bancos de dados sem a expressa autorizagào da editora. Este livro esta revisado segundo o Acordo Ortografico da Lingua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009. Edigäo apoiada pela Faperj. Editora responsavel Rosangela Dias Preparaçäo e revisäo Edio Pullig Luiz Fernando Oliveira da Silva Revisäo e copidesque Alvanisio Damasceno Editoraçäo eletrônica e projeto grafico Débora Souza Capa Clara Dias Epinetron de Eretria (430-420 a.C.) — National Archacological Museum, Atenas. Copyright: Hellenic Ministry of Culture and Tourism/ Archaeological Receipts Fund. CIP-BRASIL. CATALOGACAO-NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ T688 Uma trajetöria na Grécia antiga, homenagem à Neyde Theml / organizadores Adriene Baron Tacla... [et al.]. - Rio de Janeiro : Apicuri, 2011. 408p. - (Aedos) Inclui bibliografia ISBN 978-85-61022-44-0 1. Grécia - História - Até 146 a.C.. 2. Civilizacào grega - Até 146 a.C. 3. Civilizaçäo antiga. 4. Theml, Neyde. I. Tacla, Adriene Baron. 10-6201. CDD: 938 CDU: 94(38) 30.11.10 02.12.10 2011] Todos os direitos desta edicào reservados a Editora Apicuri Telefone/Fax (21)2533 7917 editora@apicuri.com.br www.apicuri.com.br

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SUMARIO "TABULA GRATULATORIA.....c.cccccsssccsscescsecseccsessceseeaeeneceesenssensaecsuserenes 13 ENTRODUCRO nun een 15 Ciro Flamarion Cardoso NEYDE THEML: o lugar de professor e o desejo de produzir 0 saber iii 23 Norma Musco Mendes DEPOIMENTOS ..........u neuen 39 UM FIO DE PALAVRAS COSTURANDO MEMORIAS ......cccsscsseesecssscsecsscssecssenes 49 Maria Manuela Ramos de Sousa e Silva I. EM TORNO DE NEYDE................ ran conc oronoran can ernnrcnnnnnos 63 Identidade e alteridade em Massália e Empórion: primeiras ODSETVAC ES issues 65 Adriene Baron Tacla O público e o privado: procissóes, banquetes e caca A Alexandre Carneiro Cerqueira Lima

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UMA TRAJETORIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML Tramas de ritos e deuses: o limite, o estranho e o pescador ............ Ana Livia Bomfim Vieira Atenas e Bizáncio sob a agäo do flagelo: peste e história nas narrativas de Tucídides € Procépio................. Ana Teresa Marques Goncalves e Lyvia Vasconcelos Baptista Prâticas esportivas e jogos helénicos.................................... Fabio de Sonza Lessa Mutacáo do imaginário poliade nas oragöes fúnebres em ............... Tucidides e Hipérides Manuel Rolph Cabeceiras Corpo: campo de exercício de experimentaçäo comparada mamona... Maria Regina Candido II. VISGES DA GRÉCIA ANTIGA.............. cirie A musica grega antiga: origem, identidade e etnicidade ................... Fabio Vergara Cerqueira Recepçäo da comunidade pitagórica na comédia antiga ateniense.... 209 Gabriele Cornelli e André Leonardo Chevitarese Cidade exterritorio Aa Grecia antiga, nennen Maria Beatriz Borba Florenzano III. NO MUNDO ROMANO... Construindo fronteiras religiosas em Antioquia: as homilias Adversus Iudaeos de Joao Crisóstomo e a fixaçäo da identidade cristà... 265 Gilvan Ventura da Silva

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA Lima (ORGS.) Da onomástica grega na Lusitânia romana............................ 301 José d'Encarnaçäo Politica e genero nas relaçôes de poder entre Cleöpatra, Julio César e Marco António: retratos de Plutarco de Queroneia........... 313 Margarida Maria de Carvalho e Natalia Frazao José A identidade dos eleitos ao reino de Deus e a impureza moral dos gentios no judaísmo do Segundo Templo .... Monica Selvatici IV. ANTIGUIDADE E MUNDO CONTEMPORANEO ......cccssesceessesesscens 357 A nostalgia dos impérios ou sistema de estados e suas origens nos séculos XVI-XVII na Eutopa... ascii 359 Francisco Carlos Teixeira da Silva Péricles segundo o Nouvel Observateur... José Antonio Dabdab Trabulsi

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RECEPCAO DA COMUNIDADE PITAGORICA NA COMEDIA ANTIGA ATENIENSE Gabriele Cornell e André Leonardo Chevitarese I Os modelos históricos gregos de associaçôes sio fundamentalmente de dois tipos: o #biasos e a hetairia. Enquanto o primeiro esta mais diretamente ligado a pratica comum de cultos, à partilha de ritos e saberes mistéricos, a hefairia esta mais ligada à ideia de uma associacäo de philoí, no sentido politico de aliados e confrades que se encontram em um clube privado. A comunidade pitagörica € quase que unanimamente considerada pela tradicäo uma hefairfa, ainda que bastante sui generis: de fato, procurando justificar a violenta revolta contra os pitagöricos, Jamblico revela o sentimento de estranhamento da populacao com relacäo a comunidade: Tomaram a frente da revolta exatamente aqueles que estavam em relaçôes de parentesco mais próximas com os pitagóricos. E a razao era que estes — exatamente como a populaçäo em geral — ficavam irritados com a conduta dos pitagóricos em praticamente qualquer aspecto dela, na medida em que esta era diferente (zdiasmos) daquela dos outros (lambl VP, 255). Essa diferença da comunidade, ligada a algumas prâticas estranhas a cultura e economia do tempo, como aquela da partilha dos bens, eram com toda probabilidade parte essencial do motivo da inimizade — acenada no testemunho acima — por parte das proprias familias dos 1 Professor adjunto de filosofia da Universidade de Brasilia (UNB) e coordenador do Archai. Professor associado de história antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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UMATRAJETORIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML membros da comunidade. Sublinha-se acima, no interior do panorama da critica, a questao da presença politica da comunidade pitagorica: essa presença sugeriria que a melhor identificacao seria mesmo com o modelo da hetairía. E, todavia, as fontes sao bastante insistentes em nos apresentarem uma comunidade francamente dedicada ao culto e a uma vida comunitaria baseada em akoúsmata e sÿmbola, isto €, em palavras secretas e sinais de identificacao. Com isso, num sentido contrario, a comunidade pitagórica encontraria seu lugar tipológico mais no ambito do thiasos.’ Baseando-se na inegável característica da diferenca da comunidade, Burkert (1982, p. 2 e 3, p. 19), seguido por Riedweg (2002, p. 166-171), considera que a melhor definicào para a comunidade pitagórica seja © termo sezta.* Consciente do uso comum depreciativo do termo, que leva diversos autores, incluindo o presente, a preferir uma designacáo mais neutra, como aquela até aqui usada de comunidade, a traduzir o grego koinonía, Burkert reclama para o termo seta a vantagem de um uso mais técnico, sociológico do mesmo, na esteira dos trabalhos de Bryan Wilson e Arnaldo Momigliano (Burkert, 1982, p. 3). Dessa forma, poderá identificar, no pitagorismo, as características mínimas que definem uma seita, do ponto de vista da sociología dos grupos religiosos. Estas contribuem para a descrigào da comunidade pitagórica como de um grupo de proporgöes numéricas bastante reduzidas, de caráter elitário, modos alternativos e algum nível de sigilo: encontros regulares ou vida em comum, certa partilha económica e espiritual, submissao à autoridade de um guia carismático e um forte sentimento identitário que leva a separacao das pessoas entre nos e eles. Açôes de vinganca contra os apóstatas, prescricóes reprodutivas que garantam a sobrevivencia diacronica da comunidade e intensa mobilidade geográfica concluem um retrato mo qual, como se verá, podem ser reconhecidas as características salientes do estilo de vida pitagórico. 3 Para uma ampla resenha da terminologia utilizada pelas fontes antigas para designar a comunidade pitagórica, cf. Minar (1942, p. 15-35). Tanto Philip (1966, p. 144) quanto Zhmud (1992, p. 241) consideram improvável a associacáo dos pitagóricos com o modelo do thíasos por causa da evidente atuaçäo politica da comunidade. Centrone (1996, p. 67 e 68) adota uma posiçäo menos cética, reconhecendo que, ainda que alguns tracos esotéricos da comunidade foram de fato sublinhados pela tradicáo tardia, este fato náo autoriza a negar tout court qualquer valor histórico a eles. Oprimeiro a usar o termo sekte é Rohde (1898, p. 103ss).

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) Na peneira da tradicäo, de fato, a classificaçäo proposta por Burkert revela-se em geral bastante apropriada. Serao visitadas algumas das tradicöes mais salientes que dizem respeito a esta possivel identificacäo do pitagorismo com uma seita. As duas Vidas, de Porfirio e Jamblico (de maneira especial esta ultima) sao ricas fontes de informaçäo sobre a comunidade e as regras de seu bios. Ainda que marcadas por interpolagöes tardias, € certamente possivel identificar estratos mais antigos da tradicäo em muitos dos testemunhos.” Numero limitado. Os pitagóricos ainda que influentes nas cidades por eles administradas na Magna Grécia, constituiram sempre uma comunidade minoritária, tanto no interior dos grupos aristocraticos das mesmas cidades, como no ambito maior da cultura intelectual do seu tempo. Apesar dos quatro discursos politicos de Pitagoras, na ocasiao da chegada em Crotona, terem conquistado — segundo Porfirio (VP, 20) e Jamblico (VP, 30) — um auditörio de duas mil pessoas, somente seiscentas delas se tornaram mesmo discipulos, “nao somente conduzidos por ele à filosofia, mas também prontos a ‘viver em comum’, como se dizia, conforme seus preceitos” (lambl. VP, 29).° A tradicäo parece sugerir ja uma selecäo inicial, portanto. O mesmo catálogo de Jamblico acima citado, em sua intencäo de confar os pitagóricos, pressupoe certamente um numero limitado deles. Caráter elitario. A tradicao acima referida dos discursos publicos de Pitägoras por ocasiäo da sua chegada em Crotona (Porph. IP, 20, lambl. VP, 30), e que resulta na adesäo dos seiscentos, poderia sugerir que fazer parte da comunidade e ter acesso aos seus ensinamentos fosse algo facil. Uma tradicâo de Antifonte, citada por Porfirio (VP, 9), recorda que, ainda em Samos, Pitagoras teria fundado um didaskaleion, uma escola: chamada de hemiciclo de Pitágoras, reunia os que discutiam de negocios püblicos. Ele proprio, todavia, refugiava-se num dvfros, nama gruta, onde poderia se consagrar exclusivamente à filosofia; a sugerir que este carater Para uma avaliacäo da influência da tradiçäo pitagórica sobre a evolugäo do género Vidas de 5 filésofos no mundo antigo, cf. Goulet (2001, p. 23-61, espec. p. 32-34, com uma análise de Porph. VP e lambl. VP). 6 Comontmero de seiscentos concorda Diógenes Láercio (Vidas VIII 15). Ja para Apolônio de Tiana o numero era ainda mais restrito, limitando-se a trezentos (FGrHist 1064 F, 254).

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UMA TRAJETÓRIA NA GRÉCIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML elitario e exclusivo da comunidade pitagórica estaria presente já mesmo nos anos iniciais da formacäo de Pitágoras. O mesmo caräter exclusivista pode ser observado no rigido critério de admissao a propria comunidade, marcado por um periodo probatório de dokimasia: Quando alguns jovens chegavam com o desejo de conviver com ele, nao os admitia imediatamente, esperando que fossem examinados e julgados. Primeiramente se inteirava das relaçôes que eles mantiveram com seus genitores € os outros parentes antes de se aproximarem a ele; depois verificava quem entre eles ria de maneira desconveniente, calava ou falava de modo despropositado, e ainda quais eram suas paixôes, quem eram seus parentes, que relacöes mantinham com estes, a que atividades dedicavam a maior parte do dia, e qual era o motivo de sua alegria e dor [...]. Aqueles que superavam este exame eram desprezados por trés anos, com a intencâo de colocar A prova sua firmeza e real amor pelo conhecimento [...]. Apös este periodo impunha aos aspirantes um siléncio de cinco anos, pata testar sua continéncia. Pois de todas as provas de autocontrole, aquela de frear a lingua é certamente a mais dura, como bem demonstram os fundadores dos ritos mistéricos (lambl. VP, p. 71e 72). A fonte da qual bebem tanto Porfirio como Jâmblico para estas referencias ao bios pitagörico é Nicömaco. A suspeita de que esta extrema rigidez da organizagâo do acesso à comunidade pitagérica (três anos de descaso, aos quais eram seguidos mais cinco de silencio) seja, na realidade, uma retro-projeçäo dele, € levantada tanto por Von Fritz (1940, p. 220) como por Philip (1966, p. 140). E, todavia, ha um paralelo testemunho em Didgenes Laércio (VIII, p. 10), cuja fonte seria desta vez Timeu, que confirmaria uma provavel antiguidade do testemunho: [Seus discipulos] permaneciam em siléncio por cinco anos, limitandose a escutar seus discursos, sem nunca ver Pitägoras, até que nao superassem a prova; a partir deste momento se tornavam parte de sua casa € eram admitidos à sua presenca (DL. Vidas VIII, p. 10). Vida em comum (cenöbio) e comunhäo dos bens. O testemunho acima citado é rico de outros sinais sectários, como o do sigilo, e, de maneira

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) especial da comunhâo dos bens. A mesma passagem de Jamblico acima citada, referida à dokimasta dos jovens aspirantes, detalha as modalidades dessa partilha: Neste periodo, os bens de cada um, isto é suas propriedades, eram colocadas em comum, e confiadas aos membros notaveis da comunidade encarregados disso, chamados políticos: alguns deles eram administradores, outros legisladores (lambl. TP, p. 72). O testemunho mais antigo da comunhao dos bens parece ser novamente o de Timeu: um escólio ao Fedro (Schol, In Phaedr. 279c) corresponde literalmente a uma passagem do livro IX de Timeu: Ora, quando os jovens vinham até ele e queriam viver com ele, nao lhes permitia fazê-lo, mas respondia que era necessário que colocassem em comum seus bens (Schol In Phaedr. 279c = FGrHist 566 F 13). Trata-se aqui do célebre dito &oina taphilon (ou koina ta ton philon) que aparece referido aos pitagóricos por Platao.’ Nao procede a observagäo de Philip pela qual em Aristöteles, ao contrario, “c/s meaning is quite unPythagorean” (1966, p. 142): o trecho da Etica Nicomaqueia pot ele citado (1159b, p. 25-32), ao contrario, ainda que sem uma referéncia direta à origem pitagörica do dito (seria preciso), insere o koind ta philén no interior de uma discussäo, de estampo notadamente pitagérico, sobre a comunidade de amigos como promotora de justiça, e, de consequencia, num evidente sentido econômico: Parece, portanto, conforme dissemos no inicio, que amizade e justiça digam respeito as mesmas coisas e se dêem entre as mesmas pessoas. De fato, em cada comunidade parece haver algo de justo, e amizade. Assim chamam-se amigos os companheiros de navegacao e de armas, e da mesma maneira aqueles que fazem parte de outras comunidades. Conforme participam da comunidade ha amizade, e também justiça. E diz bem o provérbio “as coisas dos amigos säo comuns”, pois a amizade está na comunidade (Aristóteles, EN 1159b, p. 25-32). Cf. as referências aos passos platônicos nos parágrafos imediatamente a seguir.

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Uma TRAJETÓRIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML Nao por acaso diversos autores utilizaram a expressao comunismo, ainda que muitas vezes entre aspas, dado o evidente anacronismo do termo — para indicar esta prâtica do dito koind ta philón entre os pitagoricos.® Esta mesma relaçäo entre phzloi e dikaion € encontrada em Platao, que, por outro lado, nao tem duvidas em referir o dito diretamente aos pitagóricos. Nao casualmente esta ligagäo entre pitagorismo e a philia aparece num passo central de Republica. No comeco do livro V (449c), Adimanto, a convite de Polemarco, repreende Socrates por ter deixado de lado, em sua argumentacao sobre a cidade justa e perfeita, o problema levantado pelo dito koiná ta philén aplicado a mulheres e filhos, fazendo assim sugir a suspeita de querer fugir da questao: Parece-nos que você esteja querendo se safar rapidamente, roubando uma parte inteira do discurso (e nao certamente a menor) para nao ter que discuti-lo, que tenha pensado em fugit deixando cair, de /eve, aquele dito pelo qual, com relacäo as mulheres e as crianças, para todos deveria ser evidente que tudo deve ser em comum entre os amigos (Resp. V 449c). O dito, introduzido phaulós, de leve, no livro IV (424a), requer ao conträrio — ao dizer de Adimanto — uma explicacäo com relaçäo ao trópos tés koinontas (V 449d), ao tipo, aos modos dessa comunhäo. Dessa forma, Söcrates passará a representar em detalhes o gynaikefon drama da cidade. O léxico dessa pagina é impregnado de pitagorismo: tanto a comunhao dos bens (e de mulheres e filhos), como a importancia da escuta como caracteristica do bios e da cidade justa, remetem imediatamente para as caracteristicas da vida pitagörica apontadas pela tradiçäo.” As modalidades da comunhao dos bens deviam alcancar uma articulacäo maior do que a da simples origanizacäo da partilha dos bens em comunidades de vida cenobitica. E certamente o que sugere o caso de Clinias de Tarento e Proros de Cirene: Narra-se que Clinias de Tarento, quando soube que Proros de Cirene, um seguidor das doutrinas pitagótica, estava correndo o risco de 8 Entre eles, Minar (1942, p. 29, 32, 35), Conybeare, em sua traduçäo da Vida de Apolônio de Tiana de Filostrato (1948-50) e Burkert (1982, p. 15). 9 Platäo refere o dito aos pitagóricos também em Lisis 207c e Leis 739c.

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) perder seu patrimônio, recolheu uma soma de dinheiro e embarcou em direcäo a Cirene, colocando em ordem os negócios de Proros, sem importar-se nao somente com suas perdas financeiras, como também com os perigos da navegacao (lambl. TP, p. 239). Como também a histöria edificante de um pitagörico que havia ficado gravemente doente durante uma longa viagem. Ao dono da pensao que o hospedava em seus ultimos dias de vida, e que cuidava dele com grande generosidade, o pitagórico, após ter gravado um simbolo sobre uma tabuinha: pediu que o pendurasse fora da porta da pensao, e que ficasse atento caso algum transeunte reconhecesse o sinal; pois neste caso, esta pessoa reembolsaria a ele todas as despesas e o agradeceria por sua conta. Quando o hóspede morreu, o dono da pensao o sepultou e cuidou com toda cura do caixao — sem preocupar-se com as despesas ou em receber algum reconhecimento de quem eventualmente fosse identificar a tabuinha. E, todavia, por curiosidade com relacäo à ordem recebida, quis coloca-la à prova, expondo a tabuinha para que pudesse ficar sempre visivel. Muito tempo depois, um pitagorico que passava por la, reconheceu o simbolo. Perguntou entao o que havia acontecido, e deu para o dono da pensäo uma quantia muito maior daquela que foi desembolsada (lambl. PI, p. 238). A historia nao diz de que simbolo se tratasse. Todavia, com base numa passagem de Luciano (Jacobiz I, p. 330), apreendemos que o sinal de reconhecimento dos pitagoricos era o pentagrama, sendo utilizado inclusive como assinatura em suas cartas. Estas histörias sao facilmente dataveis em época tardia. Ainda assim, referem-se a uma tradiçäo já antiga e que devia ser muito forte, resistindo como memoria da centralidade da comunhao de bens entre os pitagóricos. A amizade pitagórtca. O tema da philia € presente desde aqueles que sao considerados os primeiros discursos publicos de Pitagoras, os célebres quatro /6goi, proferidos quando de sua chegada em Crotona. Entre outros, no Primeiro Discurso, dirigido aos jovens, Pitagoras os exorta a cuidar bem dos amigos:

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UMA TRAJETÓRIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML Afirmava que teriam sucesso se mesmo nas relaçôes entre eles se comportariam deixando claro que nao seriam nunca hostis aos proprios amigos; ao contrario, estariam prontos a qualquer momento a se tornarem quanto antes amigos de seus proprios inimigos (lambl. VP, p. 40). ; 10 A discussao pitagérica sobre a philia extrapola o âmbito da gestao da vida comunitaria, para alcançar o patamar de um conceito-chave para a compreensâo de toda a realidade. Um exemplo disso é o testemunho de Jamblico (lambl. VP, p. 229 e 230 // WP, p. 69 e 70) que enumera os seis aspectos da philfa ensinada por Pitágoras: dos deuses para com os homens, das doutrinas entre elas, da alma com o corpo, dos homens entre eles e com os animais, e do corpo mortal em si mesmo."' Por ser tao proverbial, esta phi/ia entre os pitagoricos mereceu diversas historias que beiram o lendário, mas que, ainda assim, sao significativas para compreender a ética da philia que regia as comunidades pitagöricas: uma das mais significativas € certamente aquela, lembrada por Aristöxeno, da prova radical da amizade entre dois pitagóricos, Fintias e Damon, planejada pelo tirano de Siracusa, Dioniso. Aristoxeno afirma tê-la ouvido da boca do proprio tirano que — caido em desgraca — foi ser professor em Corinto: Um dia Dioniso q quis coloca-los à prova, > pois alguns asseguravam 8 que se os tivesse preso € aterrorizado, nâo teriam permanecido fiéis 10 Cf. o que foi dito acima com relagäo ao valor dos discursos como testemunhos da fundaçäo da comunidade pitagórica, especialmente com relaçäo aos estudos neste sentido, de Rostagni (1922) e De Vogel (1966). No entanto, com a necessaria prudéncia acima indicada. 11 lambl. (VP, p. 229 e 230): “Pitagoras ensinou com muita clareza a miAia de todos para com todos a comegar pela @iAia: 1) dos deuses para com os homens, através da piedade e de um culto baseado no conhecimento; 2) das doutrinas entre elas; 3) em geral da alma com o corpo e da parte racional da alma com a parte irracional gragas à filosofia e à contemplaçäo que Ihe é propria; 4) dos homens entre eles: dos cidadäos pela estrita observancia da lei, entre seres humanos de diversas etnias através do correto conhecimento da natureza [humana], do homem para com a mulher ou filhos ou irmaos ou parentes através de uma comunhäo indestrutivel; em resumo giAia de todos para com todos e até 5) de alguns animais irracionais por causa de um sentimento de justiga e de uma natural proximidade e solidariedade; 6) enfim, do corpo mortal com si mesmo, pacificagäo e conciliagäo das forgas contrárias que nele se escondem por meio da saúde e do regime [de vida] que a essa tende, e temperância através da imitaçäo da condiçäo de bem-estar que caracteriza os elementos celestiais. O fato de uma unica e so ser a palavra que tudo isso compreende, isto &, piAía, é opiniäo corrente que foi Pitagoras a descobri-lo e torna-lo lei; este ensinava a seus discipulos uma ia tao maravilhosa, que até hoje muitos dizem, a respeito daqueles que säo ligados entre si por uma reciproca benevoléncia, tratar-se de Pitagóricos”.

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) uns aos outros. Ele entäo agiu da seguinte forma: Fintias foi preso e conduzido na frente do tirano, que o acusou de conspiragao contra ele, acrescentando que o fato jä havia sido comprovado e que portanto o condenaria à pena capital. Fintias respondeu: “se assim decidiste, me seja ao menos concedido o restante deste dia para acertar meus negócios e aquele de Damon (era de fato companheiro € sócio dele e enquanto mais idoso, havia tomado conta de seus negocios). Fintias portanto pedia para ser deixado ir, e oferecia Damon como fiador [para ficar no lugar dele]. Dioniso concordou e foi chamado Damon que, ao saber o que havia ocorrido, aceitou imediatamente de ser fiador de Fintias e ficou esperando este voltar. (61) Dioniso, de sua parte, havia ficado impressionado com o ocorrido, enquanto aqueles que haviam inicialmente proposto a prova zombavam de Damon, dizendo que seria ali abandonado. Mas ao por-do-sol, Fintias chegou, pronto para morrer. E todos ficaram maravilhados; Dioniso, de sua parte, abraçou afetuosamente os dois e pediu de ser acolhido como terceiro na philia deles (Porph. VP, p. 60 e 61). À insistência da tradicâo € para com a proverbial fidelidade da philia pitagótica, portanto. Outra narrativa que representa bem esta fidelidade ao amigo, mas que Rohde define simplesmente boba (ene alberne Geschichte, 1872, p. 50), É a da philia entre Lisis e Eurifamo: Quanto aos pactos estabelecidos, Pitagoras preparou com tamanha eficácia seus discipulos a respeita-los sinceramente, que se narra que uma vez Lisis, saindo do tempo de Hera após ter feito suas oraçôes, encontrou Eurifamo de Siracusa, seu companheiro, que por sua vez estava entrando no templo. Por ter este ultimo solicitado a ele que o aguardasse enquanto realizava suas oracöes, Lisis sentou-se num banco de pedra pröximo à saída do templo. Apos as oracöes, Eurifamo, imerso em seus pensamentos e tomado com estava por uma profunda reflexäo, saiu do templo por outra porta. Lisis, de sua parte, permaneceu imövel, esperando, durante o dia todo e a noite inteira, e boa parte do dia seguinte. E provavelmente teria ficado muito mais, se, no dia seguinte Eurifamo, que havia se dirigido ao auditörio, näo tivesse se recordado do fato, apös ouvir que Lisias estava cercado de companheiros da comunidade. Somente entäo foi encontrá-lo: este, conforme o pacto, estava esperando por ele. Levou-o embora, explicando assim o motivo de seu esquecimento: “foi um deus a causar em mim este esquecimento, para que pudesse colocar à prova tua firmeza em observar os pactos” (lambl. IP, p. 185).

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UMA TRAJETÓRIA NA GRÉCIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML Por trás da anedota, esconde-se certamente a memória da dimensäo incondicional da fidelidade na philia pitagórica, que instaura uma identidade de grupo tao forte a ponto de configurar as relacöcs a partir da alternativa nós e eles. E tornar-se proverbial no mundo antigo. Vinganca contra os apóstatas. FE, com toda probabilidade novamente Timeu a descrever, no trecho imediatamente sucessivo aquele acima citado com relaçäo ao critério de admissäo e As formas da dokimasia, os procedimentos de expulsäo dos apóstatas, isto é, dos que, por algum motivo, traindo as regras do bios, eram excluidos da koinonia: No caso em que fossem recusados, recuperavam, em dobro, seus pertences, enquanto “aqueles que ouviam juntos” (omakoo/), como eram chamados todos os seguidores de Pitagoras, levantavam para eles uma lapide funebre, como se fossem mortos [...]. Se em outra ocasiäo acontecia de encontrar quem havia sido recusado, o consideravam como um estranho qualquer, e nao como um companheiro, pois havia morrido para eles (lambl. UP, p. 73 e 74). Tratava-se de uma exclusäo definitiva, portanto, que nao previa evidentemente alguma possibilidade de volta, como & indicado incontestavelmente pela comparaçäo com a propria morte. Modos alternatives. A vida cotidiana na comunidade pitagórica previa uma organizacâo do tempo e do espaco pouco comuns para os padrôes da época. A descriçäo mais coerente desta pode ser encontrada em Jamblico: na parte da manha realizavam passeios solitärios em lugares onde houvesse quietude e tranqüilidade, como templos c bosques, e algo que alegrasse o espirito. Estavam de fato convencidos que nao se devia encontrar ninguém antes de ter arrumado a alma e ordenado o pensamento |...]. Depois do passeio matutino, se reuniam entre eles, normalmente em santuärios, ou em lugares de natureza semelhante. Dedicavam estas ocasiöes ao ensino e à aprendizagem e à correcäo do caräter. Em seguida dedicavam-se a cura de seus pröprios corpos. [sel No almogo comiam pao, mel, mel misturado com cera, e näo tomavam vinho ao longo do dia. Dedicavam as horas da tarde aos negocios politicos, tanto os internos quanto os externos. [...] Ao aproximar-se do entardecer, voltavam a fazer os passcios, todavia näo sozinhos,

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) como de manhä, e sim em grupos de dois ou très, relembrando as coisas aprendidas e exercitando-se com belas ocupaçôes. Depois do passeio, tomavam banho e se dirigiam ao banquete comum [...]. Apos o banquete ofereciam libaçôes e acontecia a leitura [...] Uma vez pronunciadas estas palavras, cada um voltava para sua propria casa. Vestiam vestes brancas e puras, e usavam lengöis também brancos € puros, de linho, pois nao usavam peles (Iambl. IP, p. 96-100).'° A imagem cenobitica, tipicamente monastica, da vida pitagorica, pertence certamente a uma tradigäo tardia, provavelmente mediada pela tradicäo estoica medioplatônica, obedecendo mais diretamente ao ideal de vida calma e transcorrida em lugares bucólicos do ideal da vida filosófica helenística e depois imperial. Chama especialmente atengäo a indicacao da leitura em comum, melhor especificada por Jamblico logo em seguida (VP, p. 104) com relaçäo ao que € chamado de didaskalia dia tén sÿmbolôn, isto €, da explicagäo dos sinais: uma forma de exegese que incluiria, ao lado da prätica oral, a utilizacgio de uma série de diferentes tipos de escritos, desde anotaçôes até publicagöes ecdóticas. E obviamente impensavel uma complexidade literaria como esta para o VI e V século a.C. Esta devera, portanto, corresponder mais provavelmente à descricâo de uma mesa de estudo da Biblioteca de Alexandria, em época helenistica.” O vegetarianismo é certamente outro sinal de um estilo de vida culturalmente alternativo dos pitagóricos. A dieta vegetariana implica na recusa radical de uma pratica religiosa e social, aquela do sacrificio animal, que constitui um dos pilares da cultura grega antiga. O vegetarianismo esta diretamente ligado a crença na metempsicose e no parentesco universal entre todos os seres viventes, conforme mencionado no resumo inicial das doutrinas de Pitagoras por Porfirio: 12 Passagem paralela em Porfirio (VP, p. 32). O testemunho é com toda probabilidade aristoxénico, de maneira especial em sua parte final (Burkert 1982, p. 16). Sobre a recepçäo de Aristoxeno da ética pitagórica, no IV século a.C. e em âmbito peripatético, cf. os recentes estudos de Huffman (2006; 2008). 13 Jamblico fala mais especificamente de: diälogos (DiaAëgeic), instrugöes reciprocas (piAiai), anotagöes (rropvnpariopof), notas (TOONNEIWOEIG), tratados (ouyypáppara) e publicagöes (KOOOEIG) (lambl. VP, p. 104). O exercicio da comparagäo desta descriçäo pode ser estendido ainda mais, e englobar a semelhança dela com a descrigäo dos essênios em Flavio Josefo (A Guerra Judaica Il, p. 128-133) e dos terapeutas judeus do lago de Mareötida descritos por Filon (De vita contemplativa Il), apesar das reservas com relaçäo a esta ültima, expressas por Centrone (2000, p. 161, n. 47).

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UMA TRAJETÓRIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML Algumas de suas [de Pitagoras] afirmacöes ganharam notoriedade praticamente geral: 1) afirma que a alma é imortal; 2) que transmigra em outras espécies de seres vivos; 3) que, periodicamente, o que ja aconteceu uma vez volta a acontecer, e nada é absolutamente novo; e 4) que todos os seres animados devem ser considerados como do mesmo gênero. Ao que parece foi mesmo Pitágoras a introduzir pela primeira vez estas crencas na Grécia (Porph. VP, p. 19). A mencâo à introdugäo desta crenca na Grécia pressupôe, mais uma vez, uma estranheza geral a ela, configurando-se com isso, mais uma vez, a imagem de uma seita marcada por uma subcultura alternativa.'* Silöncio e segredo. Diversas citaçôes acima recordam a obrigacäo do silêncio e do segredo com relacäo as doutrinas. É esta uma das caracteristicas mais lembradas pela tradicäo. O testemunho mais antigo € certamente aquele do orador Isöcrates, contemporäneo de Platäo: “ainda hoje mais säo admirados aqueles que se professam seus discipulos [de Pitagoras] e se calam, do que aqueles que obtém grandissima fama através da palavra” (Isöcrates, Busiris 29 = 14 A4 DK). Alguns fragmentos da comédia de meio (DK 58 E) recordam esta obrigacäo do silêncio: “era necessärio suportar a escassez de comida, a sujeira, o frio, o silêncio, a severidade e a falta de higiene” (Alexis. A Pitagorizante fr. 201 Kassel- Austin = 58 E 1 DK). Analisaremos os mesmos em detalhes logo a seguir. Um célebre caso, melodramático, de quebra desta obrigacäo do segredo € o da revelacäo, por parte de Hipaso, da doutrina da incomensurabilidade, ou, numa outta versio, da inscricäo do dodecaedro numa esfera.'” À tradicäo matemática do pitagorismo atribui a Hipaso, alem disso, o roubo da originalidade da descoberta, que foi certamente Dele (tof andrós, lambl. VP, p. 88), isto é, do também inominável Pitágoras. Nesta atribuicâo revela-se um dos motivos comuns da insistência 14 A confirmaçäo disso, Burkert define a metempsicose como “um corpo religiao grega” (1977, p. 430). estranho no interior da 15 Orig.: Tl yp ka vv Toc TTPOOTTOIOUNEVOUG KEÏVOU HaBNTs eval HAAOV oryvras Oaupádouoiv TOS TTTAËVEIV Heyiornv S6fav xovras (lsócrates, Busiris, p. 29). 16 E Burkert (1972, p. 455) quem fala de um “veritable melodrama in intellectual history” com relaçäo a essa tradiçäo dos incomensuráveis. Refere-se provavelmente a Hipaso (VP, p. 74), que menciona a possibilidade de alguém instruido nas ciéncias ser expulso da comuni dade, ainda que nao o cite nominalmente. Para a referência explicita a Hipaso, cf. lambl. VP (p. 88, p. 247).

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) no segredo das doutrinas: frente a resistencia dos acusmáticos em considerarem como parte fundamental da tradiçäo pitagorica questoes matemäticas deste gênero, o lado dos watemäticos utiliza a escamoteacao tipica do argumento de autoridade, atribuindo-as diretamente a E/. De fato, da mesma maneira, quando — em época helenística — inicia-se uma vasta produçäo de apócrifos, o argumento da consignacao do segredo sobre as doutrinas entre os primeiros pitagóricos servirá ao propósito de justificar o aparecimento somente tardio de cartas atribuidas falsamente a Pitágoras ou aos primeiros familiares ou discipulos.'” Com razäo, anota Huffman (2008), uma testemunha importante como Aristöteles näo revela em seus escritos alguma dificuldade em ter acesso aos textos pitagóricos (ao contrário, escreve três livros sobre Arquitas). Disso deriva que: ou grande parte das doutrinas pitagoricas nao eram, de fato, sigilosas, ou o segredo foi muito mal guardado (Huffman, 2008, p. 218). E, todavia, a presença da obrigacâo do segredo é tao significativa, especialmente com relaçäo às tradigöes dos akousmata e symbola, ao ponto de nao poder ser reduzida simplesmente a uma falsificacao helenistica: esta configura exatamente um dos critérios centrais para a constituicao de uma scita: isto é, aquele de uma linguagem esotérica, que precise de senhas especificas para ser compreendida. Creio que uma boa soluçäo da questäo do segredo na comunidade e literatura pitagérica é aquela proposta por Gemelli (2007): no interior de uma atenta análise da linguagem esotérica utilizada pelos pré-socráticos, Gemelli anota que: É caractetistica do texto esotérico uma estreita ligacao entre linguagem e experiéncia, que nada diz a quem nao tiver a capacidade de “tornar concreta” a palavra. O siléncio pretendido pelos pitagóricos nao € um silêncio sobre as palavras, e sim sobre as experiencias. Pois umas sem as outras permanecem um cofre trancafiado (Gemelli, 2007, p. 438). O segredo, portanto, seria uma estratégia da comunidade para manter as experiéncias que dentro dela se desenvolvem como prerrogativa gäo 17 O mesmo de Filolau se recorda uma quebra do sigilo em ocasiäo da divulga dos célebres très é utilizada para legitimar um livros comprados por Platäo (D.L. Vidas, VIII, p. 85). E mesmo essa noticia VIII, p. 6). Cf., para isso, Burkert falso pitagórico de idade helenistica (ja mencionado em D.L. Vidas, (1972, p. 223-227) e Huffman (1993, p. 12-14).

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A NEYDE THEML exclusiva dos iniciados; a tese de Gemelli é muito convincente e impregnada de consequências para a compreensao da do protopitagorismo. dinamica esotérica Guia carismätico. A presença carismática do fundador Pit ágoras paira sobre as diversas características até aqui detectada s na seta pitagörica. Tanto a referência acima de Aristöteles da natureza intermediäria dele entre deuses e homens (lambl. UP, Pp. 31), como a expressäo tof andrés como de uma seita. Para além disso, é tecorrente a tradicao da atribuicao (lambl. PP, p. 88) para referir-se a Pitägoras sem nomeá-lo, sugerem de fato a presenca de mais este critério de identificacä o do pitagorismo da autoridade de praticamente qualquer doutrina ao mestre Pitágoras, lembrada pela expressio Autos épha, ipse dixit (lambl. VP, p. 46). Prescrigöes reprodutivas. Entre as doutrinas que con stituem a comunidade pitagörica como alternativa aos háb itos comuns da sociedade grega, há certamente aquela da ascensäo das mulheres ao mesmo status social dos homens. Nao acaso a pita górica, acima citada como personagem principal da comédia de Alexis, tor na-se um caräter bastante presente na comédia de meio. Desde a noticia do sucesso de seus discursos inaugurais em Crotona, a tradic âo lembra que a comunidade pitagérica que surge em consequencia do sucesso deles é composta tambem por mulheres (Porph. UP, p- 19 e 20; Iambl. VP, p. 30). O primeiro nome lembrado é aquele de Tea no: as fontes oscilam entre considerä-la filha ou esposa do fundador.'® Para além das anedotas elaboradas para mostrar a forca e fidelidade à comuni dade das mulheres — € este Oo caso da gravida Timica, que resiste a tor tura de Dioniso II (lambl. VP, p. 194) — destaca-se uma série de tes temunhos relativos 4 regulacao da reproducâo e dos rituais a ela conexos, que revelam uma diferente relacäo de género entre os pitagoricos: Dizem que, quando Teano foi interrogada sobre quanto de um intercurso sexual com um homem uma s dias depois mulher recupera a puteza, teria respondido: “da relacäo com o prép rio esposo, de imediato, daquela com um estranho, nunca”. Exortava a [esposa] que ia ter com seu proprio marido a abandonar, junto com os vestidos, o pudor; e uma vez levantada, a recupera-lo junto com estes. E quando 18 Cf., para uma sinopse das fontes sobre Teano, Delat te (1922, p. 246 e 248).

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223 ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) Ihe foi perguntado: “Quais?”, ela respondeu: “aqueles pelos quais me chamam de mulher” (D.L. Vidas, VIII 43). Veja-se também, na mesma linha, a memoria da katabasis de Pitägoras ao Hades: entre outros castigados, ele teria visto os homens que nao quiseram ter intercursos sexuais com suas esposas (D.L. Vedas, VIII, p. 21). Jamblico (VP, p. 132, 195) lembra de Pitagoras convencendo os crotonenses a abandonar as concubinas. Aqui nao estaria tanto em questäo, ao que parece, a isonomia de obrigaçôes morais conjugais entre homens e mulheres, e, sim, uma atitude tipica de pequenas comunidades sectárias que, por meio do controle da reproduçäo no interior do proprio grupo, tende a garantir sua sobrevivencia. Os varios ditos dedicados a necessidade de procriar para honrar os deuses, em si aparentemente genéricos, assumem, na relativamente pequena comunidade pitagörica, tons de autêntica dramaticidade. Intensa mobilidade geográfica. Enfim, uma intensa mobilidade geogräfica € implicita à narrativa da anedota acima citada de Timica, que — enquanto grávida — antes de cair na emboscada de Dioniso II, ser presa e torturada, viajava junto com outros nove companheiros, de Tarento para Metaponto (lambl. WP, p. 189-194). A tradigao € attibufda a Neantes e foi certamente elaborada no modelo das anedotas biogräficas helenisticas. Ainda assim, observa justamente Burkert (1982, p. 17), nos revela uma Ultima caracteristica tipica de uma seita, aquela da mobilidade de seus membros, pois: “eles seguiam a mudança das estacöes e escolhiam lugares adequados para suas reuniöcs” (Iambl. VP, p. 189). A mobilidade da comunidade significa recusa à pertenca a uma cidade especifica e a substituicäo da relacâo poliade pela relaçäo sectaria. Ainda que nao haja propriamente contradicäo entre as noticias do envolvimento politico dos pitagöricos (Porph. VP, p. 20 € lambl. VP, p. 30) e a característica sectaria da comunidade.” E de fato o caso de concordar com a afirmacäo de Burkert, pela qual esta contradiçäo nao haveria lugar na Grécia antiga: 19 Cf. lambl. (VP, 84). 20 Por uma anâlise exaustiva da politica pitagórica, cf. Cornelli (2010)

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Uma TRAJETORIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML Nao ha incompatibilidade entre este [pol itico] e o lado religioso e ritualistico do Pitagorismo. De fato , a sociedade de culto e um clube politico estäo na origem praticame nte idênticos. Cada grupo organizado se expressa em termos de um culto comum, e toda a sociedade de culto & ativo politicament e, como hetaitia (Burkert, 1972, p. 119).2! I] As dificuldades em se tratar da comunida de pitagórica originária dependem, em boa parte, da ampla questäo das fontes para o pitagorismo,” De fato, ha um número reduzidissimo de © pitagorismo nos autores inseridos entre primeira metade do IV séculos a.C referéncias sobre Pitagoras e a segunda metade do V e a .” Excetuando o material comico , objeto de análise central deste trabalho, esses dados estäo testritos a três autores basicamente. 1°. Heródoto refere-se a Pitagoras em forma direta e incontestavel, enquan dois momentos: um de to que em um outto momento, essa teferéncia aparece de maneira nao tio clara assim. O referido historiador aponta também outras qua tro passagens relacionadas aos Pitagéricos. Com relaçäo a Pitagoras, fic a evidente que Heródoto está lidando com algum tipo de memoria pre servada na sua propria época. Essa lembranca está presente no seu discurso, no momento em que ele afirma (Heródoto 4:95) ser Pitágo ras um dos homens mais sabios entre os helenos. Ela parece, no entant o, ser questionada com outros da dos que esse historiador dispôe. Heró doto (2:123) afirma que os egipcios foram os primeiros a afirmar a imortalidade da alma humana e a diz er que por ocasiäo da morte do corp vivo em vias de nascer. Nessa parte o ela entra em outro ser da sua narrativa, porém, ele observa que ha alguns helenos, uns mais cedo — possivelmente estaria aqui se referindo a Pitägoras (?) — € outros mai s tarde, que apresentam essa 21 “There is no inconsistency betwee n this [political] and the religiou s and ritual side of Pythagoreanism. In fact, cult society and political club are in origin virtually identical. Eve ry organized group expresses itself in terms of a common worship, and every cult society is active poli tically as a hetairia”. Mas vejamse também os argumentos de Zhm ud (1992, 247 n. 5), que discorda dessa interpretaçäo, negando importancia a componente religios a da comunidade pitagórica. Da mes ma forma Philip (1966, 138), 22 Cf. para isso Cornelli 2002 e 200 3. 23 Todas as datas contidas neste text o sao antes de Cristo (a.C.), salvo aqu elas por mim especificadas.

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RION CARDOSO E ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA Lima (ORGS.) @ 225 doutrina como se fosse sua. O referido historiador deixa clato para os seus leitores que ele conhece os seus nomes, muito embora (e isso € uma pena para nós) nâo vá escrevê-los. Em outros quatro passos de sua obra, Herödoto deixa transparecer alguns importantes elementos referentes as caracteristicas básicas que marcavam a comunidade pitagorica, entre a vitada da primeira para a segunda metade do V século — momento em que ele esta escrevendo a sua obra. Os pitagóricos, segundo o referido historiador (Heródoto 2:81), usariam túnica de linho com franjas que se enrolam nas pernas, chamada de calasiris, e um manto branco de là solto por cima dela.”* Nos templos, eles näo usariam roupa alguma de la, ja que isso seria contra os preceitos religiosos. Herödoto recorda, inclusive, que os iniciados näo poderiam ser enterrados com roupas que levassem esse tipo de tecido. Eles compartilham (Herödoto 2:123) da crenga da imortalidade da alma humana e dizem que por ocasiäo da morte do corpo ela entra em outro ser vivo em vias de nascer. Ao mesmo tempo, o historiador de Halicarnaso (4:95) recolhe informacöes referentes a Aristeas e a Zälmoxis. O primeiro näo aparece diretamente relacionado com Pitägoras na sua narrativa (Herödoto 4:13-15), muito embora, nessa mesma passagem, possam ser vistos indicios da presenca de circulos pitagöricos em Atenas. Esses circulos possivelmente seriam os responsäveis pelos detalhes contidos na narrativa. Herödoto conta que Aristeas havia ressuscitado”, depois ter mortido na oficina de um pisoeiro no Proconeso, e aparecido em diversos lugares, para diferentes pessoas. Com relacao a Zálmoxis, ele sim um discipulo de Pitägoras, o referido historiador conta que ele ensinava aos seus concidadäos träcios (provavelmente, os mais proeminentes) nao que alma humana fosse imortal, mas que eles e seus descendentes jamais morreriam. Todos eles itiam para um lugar onde sobreviveriam eternamente e desfrutariam de todas as coisas boas (para outros dados envolvendo Zálmoxis / Pitagoras em: Dodds, 1988, p. 159). 24 Price (1999, p. 119, incluindo a nota 33) observa que as confusöes entre Orfeu e Pitagoras ocorrem tanto nos textos antigos, como no caso desta passagem de Heródo to, quanto nos autores modernos. Para as estreitas relaçôes entre orfismo e pitagorismo nas comédias antigas . 25 Bellido (1972, p. 39) vé em Söfocles (Electra, p. 62-65) um possiv el eco de um relato diretamente conectado com a vida de Pitagoras, onde esse ultimo, depois de morto, teria ressuscitado e voltado para casa.

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UMA TRAJETÓRIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML 2°, Isécrates deixa transparecer nao apenas um tipo de memoria presente no seu tempo histörico, como também qual o conceito gozado pelos pröprios pitagéricos (em Atenas). Ele observa (Isöcrates. Busitis, p. 28) que Pitagoras, em uma visita ao Egito, teria se tornado um estudante da religiao do povo e foi o primeiro a trazer para os gregos toda a filosofia. A sua reputacäo ultrapassou a de todos os outros (helenos), de modo que os mais jovens desejavam ser seus discipulos, enquanto que os mais velhos sentiam-se orgulhosos de verem os seus filhos junto ao referido sabio. Referindo-se a sua propria época, o orador constata que os que professam ser seguidores do ensino de Pitagoras sao mais admirados pelo siléncio (que os caracteriza) do que aqueles que tém o maior renome para eloquéncia. 3°. Platao estabelece um interessante contraponto entre Homero e Pitagoras. A passagem (A Republica 599b-600a) começa no exato momento em que Söcrates busca analisar o envolvimento de Homero na esfera privada ou publica, a fim de saber no que o referido poeta ajudou como administrador ou legislador, como conselheiro ou esträtego, como propagador de alguma ideia ou responsävel por alguma invencäo, a tornar a vida de uma cidade melhor. Neste momento da narrativa (A República 600a-b), Söcrates estabelece uma comparagäo, enfatizando aí, de forma clara, as oposiçôes, entre as contribuiçôes legadas por Homero e aquelas deixadas por Pitagoras. Os dados podem ser condensados no seguinte quadro. Quadro 1 — Comparacoes estabelecidas por Söcrates entre Homero e Pitagoras Nao dirigiu a educacao de nenhuma Dirigiu a educaçäo de algumas pessoas. pessoa. A sua companhia nao era estimada pot | À sua companhia era estimada pelos ninguém. discipulos. Nao se conhece a transmissao à | Foi transmitido à posteridade o estilo posteridade do estilo de vida homérico. | de vida pitagörico.

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA Lima (ORGS.) 227 Muito embora nao seja esse o objeto do trabalho (e por isso, ele nao sera aqui aprofundado), é interessante observar (dos dados advindos do Quadro 1) que se a divergéncia define a relacio Homero / Pitagoras, a convergencia caracteriza o par Söcrates / Pitägoras. Ainda no mesmo passo, Platäo (A República 600e-d) diz que se Homero fosse capaz de educar os homens e de fazê-los melhores, cle seria dotado da capacidade de criar numerosos discipulos que o honrassem e estimassem. Citando Protágoras de Abdera e Prédico de Ceos e outros tantos (pode-se admitir, o pröprio Pitagoras, muito embora ele nao tenha sido citado), Sócrates observa que eles foram capazes de convencer os seus discipulos a se submeterem a sua educaçäo, como forma de administrar melhor a sua casa e a sua cidade. É por isso que eles sao estimados com tal veeméncia, tendo ao seu redor numerosos discipulos. Neste ponto da narrativa (A Republica 600d), Sócrates parece falar de um tipo de estilo de vida (pitagérico?) que deve ser adotado pelo discipulo: ele deve ser mais apegado ao mestre; ele deve viver com o seu mestre; ele deve ser transformado em pedagogo, seguindo o seu mestre onde quer que ele va. Dos dados advindos dos trés autores antigos gregos citados, podem ser estabelecidos quatro pontos básicos que delineariam, em Atenas, as ideias concernentes a Pitagoras e ao movimento pitagörico entre a segunda metade do V e a primeira metade do IV seculos: 1°) Pitágoras era tido como um homem extremamente sábio; 2°) ele esteve no Egito; 3°) a sua doutrina contempla a ideia de imortalidade e de transmigracâo da alma no momento em que o corpo morte; e 4°) a presença de comunidades pitagóricas em Atenas, as quais parecem ser responsaveis pela disseminaçäo da propria memoria de Pitagoras, bem como dos grandes feitos que ele e outros personagens (Aristeas e Zalmoxis) realizaram. IT As comédias antigas abordam trés grupos básicos de temas pitagoricos: imortalidade da alma e a sua transmigracäo após a morte do corpo; prescricöes dietéticas; e instrucôes orais. Muito embora Bellido (1972, p. 49) esteja correto em afirmar que estes trés erupos

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UMA TRAJETORIA NA GRECIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML constituem o que há de mais externo ao pitagorismo, proporcionando assim um rico material para a constituigäo de um tipo comico, podese admitir, refinando ainda mais a colocacao do referido autor, que especificamente as prescricöes dietéticas, funcionando como um código unico de restricöes na vida grega, causaram um profundo impacto entre os näo-membros da comunidade pitagórica, isto é, entre os de fora, o que acabou produzindo elementos irresistiveis para os poetas cômicos explorarem nas suas pegas (Parker, 1996, p. 291), Outros temas ligados ao pitagorismo (as questöes envolvendo os nümeros”, por exemplo) nao foram mencionados pelos comediógrafos. Convém observar, considerando a enorme quantidade de fragmentos ligados a comédia antiga, o baixissimo numero de referencias ao pitagorismo no corpus estabelecido por Edmonds. Ainda como ponto de partida, deve ser salientado que apesar de existirem diferencas entre orfismo e pitagorismo, nao ha critérios seguros para definir quais sao os elementos mais antigos e os mais tardios no interior das crencas pitagóricas e Orficas, nem para propor o contorno de uma linha clara de demarcacäo entre essas duas escolas” (Parker, 1996: 290). Essa auséncia de critérios vivida hoje pelos pesquisadores poderia também estar presente entre os proprios agentes sociais do periodo classico, o que ajudaria a explicar o porquê dos temas trabalhados pelos poetas cômicos dizerem respeito ao que existe de mais estreito entre esses dois movimentos, como por exemplo: alguns tipos de abstinéncias alimentares; a doutrina da metempsicose; a crenga em penas; e recompensas de uma vida futura (Delate, 1915, p. 5). Imortalidade da Alma e a sua Transmigracao Sob o ponto de vista da transmigracâo da alma, a sua principal referência entre os comediógrafos, talvez mesmo, a Unica passagem bem 26 Bellido (1972, p. 38) identifica a passagem de Esquilo (Prometeu Acorrentado, p. 456-461) como sendo pitagórica, na medida em que confere aos numeros uma primazia sobre os demais campos da ciéncia. 27 Convém registrar aqui a observagäo feita por Nilsson (1949, p. 187) de que os pitagoricos nao devem ser vistos como uma escola filosófica, mas como seita religiosa.

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) atestada, € aquela de Ferécrates, na peça DoulodidavskaloV™, escrita em 421. Lé-se, neste fragmento, um curto diálogo entre uma mulher e um personagem, ambos nao sao nomeados, onde este ultimo diz para ela que no seu sonho ele era um peixe (kivgaroV) e como tal andava pela cidade. Uma outra referencia aparece também em Platao, o comico, na peca Oie> LavkwneV ou Oie> Poihtaiv” de 401. Encontra-se af um breve diálogo envolvendo um personagem e um poeta trágico, ambos nao nomeados, onde o primeiro diz ao segundo que ele voltou a vida e que, portanto, ele nao esta morto. O poeta Ihe responde que o seu corpo esta morto, mas que Esopo acabou de voltar. Outras passagens dizem respeito à imortalidade da alma. Ferécrates, na peca /Agrioi® de 420, fala da felicidade (wakariovthV) do morto quando ele for enterrado. Da mesma forma, Amipsias”, cujo titulo da comedia e data da apresentacäo nos sao desconhecidos, observa a molicie (#rufhr) entre os mortos. Em Aristófanes, na peca Oe Taghnistaiv” de 422, lê-se o argumento que corpo e alma sao diferentes, sendo que a alma “é algo kenovn, vazio, que no momento da morte marcha provV ton Diva, signiticando aqui Diva evidentemente o ai*gevr” (Bellido, 1972, p. 54). Convém observar, apesar de a questao ser mais pertinente ao subitem seguinte, que a prescrigâo pitagórica de se abster de determinados tipos de animais terrestres e marinhos, conectando este tema com a ideia de imortalidade e de transmigraçäo da alma. Este parece ser o caso em Cratino, na peca TrofwvnioV” datada entre 455 e 453. Prescricöes Dietéticas Este subitem diz respeito à abstengao de certos de tipos de alimentos, principalmente, mas nao exclusivamente, das carnes de 28 Kock, frg. 39; Edmonds, vol. |, 222-223; Bellido, 1972, p. 50 e 51; Ateneu. Deipnosofistas 7:305f-306°. 29 Kock, frg. 68; Edmonds, vol. |, p. 511; Bellido, 1972, p. 51. 30 Kock, frg. 5; Edmonds, vol. |, p. 209 e 210; Bellido, 1972, p. 52; Platäo. Protagoras 327d. 31 Kock, frg. 23; Edmonds, vol. |, p. 485; Bellido, 1972, p. 52. 32 Kock, frg. 488; Aristóteles. Fisica 4.6:213; Bellido, 1972, p. 53. 33 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58.

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ADRIENE BARON TACLA, 229 ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) atestada, € aquela de Ferécrates, na peça DowlodidavskaloV”, escrita em 421. Lé-se, neste fragmento, um curto diálogo entre uma mulher e um personagem, ambos nao sao nomeados, onde este ultimo diz para ela que no seu sonho ele era um peixe (kivgaroV) e como tal andava pela cidade. Uma outra referéncia aparece também em Platao, o comico, na peca Oi> LavkwneV ou Oi Poihtaiv”” de 401. Encontra-se ai um breve diálogo envolvendo um personagem e um poeta tragico, ambos nao nomeados, onde o primeiro diz ao segundo que ele voltou a vida e que, portanto, ele nao esta morto. O poeta lhe responde que o seu corpo esta morto, mas que Esopo acabou de voltar. Outras passagens dizem respeito a imortalidade da alma. Ferécrates, na peca /Agrio’™ de 420, fala da felicidade (makariovthV) do morto quando ele for enterrado. Da mesma forma, Amipsias”!, cujo titulo da comédia e data da apresentacäo nos sao desconhecidos, observa a molicie (¢rufhv) entre os mortos. Em Aristófanes, na peça O1¢> Taghnistaiv” de 422, lê-se o argumento que corpo e alma sao diferentes, sendo que a alma “é algo enovn, vazio, que no momento da morte marcha provV tol’n Diva, significando aqui Diva evidentemente o af*gevr” (Bellido, 1972, p. 54). Convém observar, apesar de a questao ser mais pertinente ao subitem seguinte, que a prescrigäo pitagörica de se abster de determinados tipos de animais terrestres e marinhos, conectando este tema coma ideia de imortalidade e de transmigracäo da alma. Este parece ser o caso em Cratino, na peça TrofwvnioV” datada entre 455 e 453. Prescricöes Dietéticas Este subitem diz respeito à abstengâo de certos de tipos de alimentos, ptincipalmente, mas nâo exclusivamente, das carnes de 28 Kock, frg. 39; Edmonds, vol. |, 222-223; Bellido, 1972, p. 50 e 51; Ateneu. Deipnosofistas 7:305f-306°. 29 30 31 32 Kock, frg. 68; Edmonds, vol. |, p. 511; Bellido, 1972, p. 51. Kock, frg. 5; Edmonds, vol. |, p. 209 e 210; Bellido, 1972, p. 52; Platäo. Protagoras 327d. Kock, frg. 23; Edmonds, vol. |, p. 485; Bellido, 1972, p. 52. Kock, frg. 488; Aristóteles. Fisica 4.6:213; Bellido, 1972, p. 53. 33 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58.

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UMA TRAJETÓRIA NA GRÉCIA ANTIGA, HOMENAGEM À NEYDE THEML animais e de peixes. Essas observancias, muito mais do que serem vistas como práticas temporärias, fariam parte de um estilo de vida permanente da comunidade pitagörica. Ha pelo menos um caso onde se constata a preocupaçio do poeta cômico em nomear (e até mesmo em especificar) os peixes que devem ser banidos da dieta alimentar. Cratino, na pega TrofivvnioV®*, situada entre 455 e 453, fala da necessidade de se abster do salmonete (de carne vermelha do dêmos ätico de Aixionides), do ruivo e do peixe de cauda preta. Em outros casos, no entanto, as teferências contidas nos fragmentos dos comediögrafos aparecem de forma mais genérica, parecendo se referir a um conjunto bem maior de animais terrestres e marinhos. Este parece ser o caso de Crates, na sua peca Tav Ohriva”, do ano de 436, que fala da interdicâo de se comer carne (ArevaV), costeletas (tavkwnaV) € chourico (a*lla‘ntaN). Ja Platäo, o comico, em Ai &Eortair" de 413, manda se abster da carne de todos os quadrúpedes, com excecäo da do javali (ue>w'n), que como o pröprio poeta comico observa, tem uma carne saborosa (tal kreva h@dist’ elconsı) Instruçôes Orais Enconttam-se, neste subitem, frases dispersas nos fragmentos dos poetas cômicos áticos, as quais parecem estar diretamente conectadas 4s ideias vinculadas pelo pitagorismo. Parker (1996, p. 295) procurou associat os symbola com a evidencia antropolögica, demonstrando que por deträs de regras de conduta aparentemente estäo os principios essenciais de uma sociedade particular para o ordenamento do mundo. Deve-se ter em mente, porem, que os akéusmata nao sao normas para toda a sociedade, mas principios adotados por um grupo restrito. Uma vez mais, a adocäo de tais principios marca as fronteiras entre os membros de dentro e os de fora. 34 Kock, frg. 221; Edmonds, vol. |, p. 103; Bellido, 1972, p. 58. 35 Kock, frg. 17; Edmonds, vol. |, p. 161; Bellido, 1972, p. 61 e 62. 36 Kock, frg. 28; Edmonds, vol. I, 499; Bellido, 1972, p. 62. 37 Para outros exemplos, ver: Aristöfanes. Ai&Wrai, de 407 (Kock, frg. 564; Edmonds, vol. |, 725); Heniocos. &O TrocivloV, de 411 (Kock, frg. 4); Frinico. Mou'sai, de 405 (Kock, frg. 69; Edmonds, p. 471; Bellido, 1972, p. 63).

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (oras.) Ha dois grupos básicos de symbola nos fragmentos dos poetas cômicos*: a) nao comer aquilo que cai da mesa, porque ele pertence aos heróis®; b) algumas regras relacionadas aos banhos públicos, como por exemplo: (b.1) nao colocar o pé direito no calçado e o esquerdo no banho”; (b.2) näo tomar banhos quentes*!; (b.3.) nao lavar os pés fora da porta dos banhos*; e (b.4) nao entrar em atrito com o vizinho do banho.* Dos dados advindos dos fragmentos dos comediógrafos, podem ser estabelecidos os seguintes pontos concernentes a Pitágoras e As ideias que lhe estavam associadas em Atenas durante a segunda metade do V e a primeira metade do IV séculos: 1°) a sua doutrina contemplava a ideia de imortalidade e de transmigracao da alma no momento em que o corpo mortia; 2°) essa mesma doutrina estabelecia prescrigöes alimentares, ditando o que podia e o que nao podia ser ingerido pelo ser humano, pelo menos entre aqueles que almejam seguir os passos de Pitágoras; 3°) os akóusmata podem ser lidos como máximas ou ditos transmitidos oralmente (Burkert, 1972, p. 166); e 4°) os temas desenvolvidos pelos poetas cômicos deixam claro que havia um numero (provavelmente pequeno) de espectadores capaz de decodifica-los. IV Ao comparar os pontos que condensam os resultados obtidos anteriormente, obtém-se alguns elementos interessantes, os quais fornecem o grau de conhecimento (em forma de pistas ou indicios) que as camadas populares atenienses detinham acerca de Pitagoras e dos pitagó ricos. 38 Para outros exemplos, ver: Burkert, 1972, p. 172ss. 39 Aristófanes. Oi& &HrweV 320, de 409 (Kock, frg. 305; Bellido, 1972, p. 64); Eúpolis. KovlakeV, de 421 (Kock, frg. 146b; Edmonds, vol. |, p. 371; Bellido, 1972, p. 64); Aristófanes. Oi& Taghnistaiv, de 422 (Kock, frg. 672; Edmonds, vol. |, p. 755; Bellido, 1972, p. 64). 40 Aristofanes. Nefevlai A (?), de 423 (Kock, frg. 914; Edmonds, vol. |, p. 789; Bellido, 1972, p. 65). 41 Hermipo. *Adhviwn Dramavtwn (Kock, frg. 76; Bellido, 1972, p. 65). 42 Aristofanes. Oi& &HrweV, de 409 (Kock, frg. 306; Bellido, 1972, p. 65). 43 Eúpolis. &O Diaivtwn (Kock, frg. 136; Bellido, 1972, p. 65).

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UMA TRAJETÓRIA NA GRÉCIA ANTIGA, HOMENAGEM A NEYDE THEML Parece ser um fato inquestionável a existência de uma memória acerca de Pitagoras na Atenas clássica. A sua preservacao parece ter sido obra de comunidades pitagoricas ali instaladas. Dos trés temas trabalhados pelas comédias, pode-se pressupor que o plêthos ateniense, basicamente o urbano (ja que ele se encontrava mais proximo dessa memoria), via Pitagoras como um homem sábio, cujas ideias nao eram faceis de serem assimiladas. Talvez isto explique o porqué de um numero tao reduzido de passagens referentes as ideias pitagóricas nos fragmentos dos poetas cömicos, por um lado, bem como o fato dos comediögrafos insistirem no que havia de mais estreito entre orfismo e pitagorismo, por outro. Estes dois aspectos parecem reforçar o argumento de que haveria um númeto provavelmente pequeno de espectadores — possivelmente situados no espaco urbano — capaz de decodifica-las e, ao mesmo tempo, de conseguirem estabelecer claramente as fronteiras entre esses dois movimentos. Pode-se admitir que as prescricöes dietéticas, inseridas no interior de fronteiras nao muito bem definidas entre os movimentos Orfico € pitagórico, podem ser lidas como uma reacäo contra a religiäo tradicional polfade (Parker, 1996, p. 296; Burkert, 1972, p. 182). Esse tema encontrou resistencias muito sérias nao apenas nas camadas populares, ptincipalmente, mas nao exclusivamente, as rurais, como também entre uma parcela significativa da elite ateniense. Os pitagóricos, ao se recusarem em matar animais (Detienne e Vernant, 1979, p. 14; Price, 1999, p. 122), em comer ovos e favas, em beber vinho (Price, 1999, p. 121) e em participar de sacrificios de animais* (Detienne, 1972, p. 86 e 87; Detienne e Vernant, 1979, p. 14; Price, 1999, p. 122), colocavam em xeque as hecatombes e a cinegética, esta ultima pensada nao sö como complemento alimentar para as camadas campesinas, mas também como esporte € treinamento militar para as elites (Chevitarese, 2002, p. 24-48). Convém recuperar aqui a interessante observacao feita por Detienne e Vernant (1979, p. 17, 22) de que Pitagoras tinha uma aversäo aos cacadores e cozinheiros. 44 Zaidman e Pantel (1992, p. 38 e 39) observam constatam a existéncia de duas tendéncias entre os pitagoricos: uma, que se aproximava mais dos órficos, retirou-se inteiramente da vida politica, na medida em rejeitava por completo comer carne e participar dos sacrificios de animais em seus altares; a outra tendéncia admitiria algumas concessöes, como, por exemplo, sacrificar o bode e o porco.

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ALEXANDRE CARNEIRO CERQUEIRA LIMA (ORGS.) Quanto à doutrina da imortalidade da alma e a sua transmigracäo, no momento em que o corpo morte, para outro ser vivo prestes a nascer, pode-se admitir, muito embora esta admissao esteja assentada em um pequeno numero de fragmentos cömicos, que esse topico (imortalidade e transmigracao da alma) é de dominio de uma pequena parcela da populaçäo, possivelmente localizada no espaco urbano de Atenas e do Pireu. Essa memoria indicava Pitagoras como o pai dessa doutrina.* No interior desta argumentacao, Bellido (1972, p. 52 e 53) mostrou que esse töpico pitagörico encontra ecos em outros textos teatrais do periodo classico (Euripides. Suplicantes 531-536), além de ser bem atestado em inscricoes funerarias. Diferentemente dos trés autores citados acima (Heródoto, Isócrates e Platao), os fragmentos dos poetas cômicos mencionam alguns akónsmata. Essas citaçôes, na medida em que estao inseridas nas comédias, podem servir como indicios de que tais symbola conheceram um certo grau de popularizacao na Atenas do V século. V Este trabalho procurou relacionar os indicios pitagoricos contidos na comédia antiga com os modelos histöricos gregos de associaçôes e com o péthos urbano ateniense. Muito embora os comediógrafos áticos tenham proporcionado um baixissimo numero de referências acerca do pitagorismo em suas peças, foi possivel relacioná-las com a populagäo urbana (de Atenas e do Pireu), tornando-a a unica plenamente capaz de decodificar essas mensagens. Documentaçäo textual ARISTOTELE. Tre Etiche. Milano: Bompiani, 2008. DIOGENE LAERZIO. Vite e dottrine dei più celebri filosofi: a cura di G. Reale. Milano: Bompiani, 2005. EDMONDS, J. M. The Fragments of Attic Comedy. Vol. 1. Leiden: Brill,1957. 45 A ênfase de Heródoto em afirmar, como se ele estivesse tentando corrigir um erro, que essa doutrina seria egipcia, só reforgaria o nosso argumento.

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