Mostra testo completo28 pagine
Pagina 1
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)CERQUEIRA
DOI: 10.1590/permusi2017-05
Article code: PerMusi2017-05
SCIENTIFIC ARTICLE
A música e o fantástico na Grécia Antiga:
o imaginário, entre mito e filosofia
Music and the Fantastic in Ancient Greece:
The Imaginary, Between Myth and Philosophy
Fábio Vergara Cerqueira
Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, Rio Grande do Sul, Brasil.
fabiovergara@uol.com.br
Resumo: Tem-se por objetivo aqui compartilhar, com pesquisadores e estudantes da área de música, um
panorama sobre a música grega antiga, enfocando sua relevância cultural em seu contexto original e,
sobretudo, a singularidade dos aspectos fantásticos a ela ligados no imaginário social da época. Tomam-se
os mitos e a filosofia como lugares de vigência do simbolismo do fantástico, que transborda, no plano das
narrativas sobre o real, para particularidades, como a educação musical escolar, e até mesmo bizarrices,
como os relatos de morte de músicos. Estudam-se aqui deuses e heróis músicos, cujas narrativas ilustram
o fantástico, mas, ao mesmo tempo, revelam dimensões simbólicas da música no imaginário grego, cujos
efeitos podem igualmente ser verificados no pensamento de filósofos como Platão e Aristóteles, e de
teóricos musicais como Dámon de Atenas, Arquitas de Tarento e Filolau de Cróton.
Palavras-chave: música; Grécia antiga; imaginário; mitologia; filosofia.
Abstract: The central aim here is to share a panorama of ancient Greek music with students and scholars
devoted to the field of music, focusing on its cultural relevance in its original context, and, principally, its
singularity concerning the fantastic treats attributed to music in the social imaginary of that epoch. Myths
and Philosophy are taken into consideration as places of agency of the symbolism of the fantastic,
overflowing symbolism, in the realm of narratives about the real, into particularities such as the musical
school education, and even into the bizarre, as the stories about musicians’ death. Gods and heroes that are
known as musicians and whose mythic narratives illustrate the fantastic are analyzed here. These gods
and heroes reveal symbolic dimensions of music in Greek imaginary with results that can be verified in the
thought of philosophers as Pythagoras, Plato and Aristotle, as well as in the thought of music theorists, as
Damon of Athens, Archytas of Taras and Philolaus of Croton.
Keywords: music; ancient Greece; imaginary; mythology; philosophy.
Data de recebimento: 09/02/2016
Data de aprovação: 30/04/2016
Parece haver na harmonia e no ritmo uma certa harmonia com o
homem, e por isso muitos dentre os filósofos afirmam que a alma é
uma harmonia. (ARISTÓTELES, Política 8.5)
Heráclito censura o autor do verso:
“Quem dera que a discórdia desaparecesse
de entre os deuses e os homens”,
pois não haveria escala musical se não existissem o som agudo e o
grave,nem seres vivos sem fêmea e macho, que são opostos.
(HERÁCLITO, Apud ARISTÓTELES, Ética a Eudemo, H.1.1235-25)
Pagina 2
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)1 - Introdução: a música grega, sua relevância na
Antiguidade e seus estudos modernos
Na maioria dos manuais de História de Grécia Antiga, alguns direcionados ao grande
público, outros a estudantes secundaristas ou universitários, quando o autor se
lembra de falar algo sobre a música, dedica-lhe no máximo umas duas ou três páginas,
quando muito — portanto, de uma forma desproporcional à relevância que a música
possuía no conjunto da vida social e cultural dos antigos gregos.
Não é nosso objetivo, aqui, inventariar os motivos das deficiências do helenismo
moderno face ao fenômeno musical. Diríamos que, entre outros fatores, essas
deficiências resultam de uma dificuldade fundamental, enraizada na própria natureza
do fenômeno musical e na relação deste com os vestígios documentais que nos foram
legados. Os gregos, apesar de disporem de um sistema de notação musical e de
produzirem conhecimentos aprofundados de teoria musical, preferiram preservar
seu repertório na memória — entre a escrita e a oralidade, privilegiaram esta última.
Com isso, a incomensurável riqueza de um universo incontável de composições
musicais — algumas delas preservadas por gerações e séculos até o Baixo Império —
pôde parecer quase radicalmente perdida e jogada num inevitável esquecimento
eterno. Diferentemente, podemos apreciar as criações do gênio grego na tragédia, na
comédia e na poesia lírica; na historiografia e na filosofia; na pintura de vasos, na
escultura e na arquitetura. Isso gerou na historiografia, no tocante à música, uma
confusão entre a riqueza de dados legados pela documentação literária ou
arqueológica e a cultura e sociedade que se queria descrever — resultou num
fenômeno de inversão, pelo qual se subestimou o valor do conhecimento do
fenômeno musical para uma compreensão global da Grécia Antiga. Hoje sabemos
analisar esse esvanecimento da cultura musical entre os vestígios da cultura grega
antiga: sua prática fazia parte da cultura imaterial dos gregos, de modo que, ao longo
das gerações, na Antiguidade, sua riqueza e sua erudição passaram a integrar seu
acervo de patrimônio cultural intangível, aquele cuja substância imaterial jazia na
memória social ativa e nas práticas de sociabilidade cotidiana, não obstante tenha
tido sua expressão material, largamente documentada no registro arqueológico, seja
Pagina 3
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)pelos estudos arqueo-organológicos dos instrumentos musicais antigos, seja pelas
representações iconográficas da pintura de vasos, esculturas e estatuária, seja, ainda,
pelos contextos arquitetônicos de performance musical (como, por exemplo, os
teatros, os odeons ou os santuários).
Todavia, existe uma tradição ocidental de seis séculos, construída por estudiosos que
não se acomodaram e escolheram como meta restaurar, na memória moderna que
temos do Mediterrâneo Antigo, o devido lugar ocupado pela música. Inicia na Itália,
na Renascença — com o pai de Galileu, que estudou os manuscritos medievais que
traziam composições atribuídas a Mesomedes de Creta —, passa na França, durante o
Iluminismo Setecentista, por Rameau e Rousseau, chegando, no séc. XIX, a
Bellermann, na Alemanha, que decifra a notação musical a partir da tábua de Alípius,
o primeiro a traduzir a grande obra teórica de Aristoxeno. Ainda no séc. XIX, passa
igualmente por Théodore Reinach, que publica os Hinos a Apolo de Delfos e o Epitáfio
de Seikilos, descobertos no final daquele século em escavações arqueológicas
empreendidas pela Escola Francesa de Arqueologia, identificando a natureza musical
de inscrições até então incompreendidas quanto à sua significação, e estabelecendo a
tradução ao nosso sistema de notação musical. No séc. XX, passa por Max Wegner,
com seu Musikleben der Griechen (1949), que elaborou um estudo sistemático da
iconografia de vasos áticos, retratando parte do cotidiano musical; e chega,
finalmente, na aurora do séc. XXI, a Annie Bélis, com seu conjunto Kerylos, que, graças
ao meticuloso trabalho realizado pelo luthier Jean-Claude Condi, sob orientação dela,
utiliza kitharai, lyrai, kroupezai, tympana e um aulos transversal, construídos com o
máximo de fidelidade aos moldes antigos, para gravar, no CD De la pierre au son, um
repertório selecionado de 15 peças, interpretadas com base numa sólida erudição que
se sustenta sobre o estudo minucioso da notação musical, da teoria e dos gestos e
técnicas registrados na pintura de vasos ou esculturas.
Esses estudiosos e muitos outros redescobriram, por meio de testemunhos de
natureza a mais variada, o mundo da música entre os gregos. Seguramente, as
escassas dezenas de fragmentos musicais de que dispomos nos dão uma pequena,
mas muito pequena ideia do imenso repertório melódico grego. A música aparecenos, no entanto, por meio do cruzamento de diversos tipos de documentos históricos
Pagina 4
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)e arqueológicos, uns musicais, outros não. Entre os registros musicais, somam-se aos
fragmentos de composições os tratados teóricos, os manuais de ensino, com suas
tábuas reproduzindo o sistema de notação, bem como os vestígios arqueológicos de
instrumentos musicais — restos de instrumentos verdadeiros ou miniaturas votivas.
Cotejamos essas informações, qual a montagem de um quebra-cabeça, com dados
trazidos pelas reflexões de filósofos, como Platão e Aristóteles, pelas descrições de
mecânica, como Vitrúvio, pelos estudos de plantas, como Teofrasto, pelas detalhadas
explicações dos dicionaristas tardios, como Póllux ou mesmo a enciclopédia bizantina
Suda do início do segundo milênio, pelas várias descrições de cenas cotidianas e de
mitos, contidas em textos literários que vão da história à poesia trágica, passando
pela epopeia homérica, pela comédia, pela lírica e pela elegia, entre outros gêneros.
Por fim, dispomos do registro iconográfico, com imagens que nos restituem a vivência
cotidiana da música, ao mesmo tempo em que nos informam sobre as técnicas de
construção e de execução dos instrumentos musicais.
Inúmeras evidências empíricas permitem-nos identificar um espaço extremamente
significativo ocupado pela atividade musical na cultura grega, apesar de os estudos
históricos serem mais abundantes no que concerne a outras formas de expressão
artística, tais como a poesia, a arquitetura, a escultura e a estatuária. Essa importância
atribuída à atividade musical pode ser constatada tanto na frequente participação da
música no cotidiano grego como no simbolismo ligado às práticas musicais. Gostaríamos
de nos ater ao segundo aspecto, o simbolismo, pelo quanto margeia o fantástico e, por
vezes, até o bizarro.
2 - Singularidade da música grega no imaginário e na cultura
O mais singular da cultura musical grega são as significações que o imaginário helênico
atribui às práticas musicais, ao som, à voz, ao canto, ao ritmo e à harmonia, daí
decorrendo um lugar especial reservado no sistema educativo.
A própria etimologia do significante mousike é bastante expressiva a este respeito.
Mousike, feminino substantivado do adjetivo mousikos, significa musical no sentido de
Pagina 5
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)“das Musas”, portanto, o que se relaciona às Musas, filhas de Zeus e Mnemosine,
guardiãs e inspiradoras de todas as atividades intelectuais e artísticas que,
caracterizando o espírito humano, são ausentes entre animais. Desse modo, mousike, um
aspecto definidor do humano em oposição ao animal e ao monstruoso designava,
inicialmente, tudo o que compunha a educação do homem distinto: harmonia
intelectual, vida moral e elegância artística. Referia-se à formação do caráter e do
espírito como um todo, ao passo que à gymnastike cabia a formação do corpo, a garantia
da virilidade e da combatividade. Entendia-se por educação musical algo amplo,
enciclopédico, uma preparação do espírito para saber distinguir o justo do injusto, o
belo do feio. A palavra reservada à atividade musical, propriamente dita, era harmonike
(COMBARIEU, 1920, p.62).
À época de Platão, porém, encontramos a identificação do significante mousike ao
significado amplo, de formação humanista global, tanto que em inúmeras passagens dos
diálogos platônicos há uma identificação entre música e filosofia (“a música é a mais alta
filosofia”- Fédon, 61a); mas vemos, também, a conceituação de música como atividade
musical propriamente dita, “a arte que regrando a voz, vai até a alma e lhe inspira o
gosto e a virtude” (PLATÃO, Leis 2).
A conexão simbólica entre música como educação geral do espírito e música como a arte
do ritmo, da harmonia e da melodia, estabelece-se, simbolicamente, por meio da noção
de que são o ritmo e a harmonia que atingem diretamente a alma, efetivando a Paideia
ao introduzirem o “sentimento de ordem e desordem nos movimentos”. Esse
sentimento, do qual os animais estão privados, “regra nossos movimentos sob a direção
desses deuses” que nos deram o sentimento de medida e harmonia e “nos ensinam a
formar entre nós uma espécie de corrente pelo canto e pela dança” (PLATÃO, Leis 2).
Esses aspectos do imaginário grego resultam na instituição do ensino musical desde a
mais tenra infância, como sendo a arte educadora por excelência, graças a seu papel de
formação moral, pois “toda vida tem necessidade de eurythmia1” (PLATÃO, Protágoras
326). Exemplo disso é o próprio Sócrates, que — mesmo nunca tendo se dedicado à arte
1 Poderíamos traduzir por “boa ritmicidade”.
Pagina 6
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)musical propriamente dita —, devido aos fundamentos que recebera na juventude, tinha
condições de compor uma melodia. Pouco antes de sua morte, interpretou um sonho
que tivera no sentido de que devia praticar a arte musical, o que o levou a compor e
musicar um hino ao deus Apolo (PLATÃO, Fédon 61a).
No século IV, a disseminação dos conhecimentos musicais entre os gregos resultou num
aprofundamento da discussão teórica, de modo que existiam especialistas na ciência
musical, os pitagóricos e os harmonicistas: a maior parte deles nós os conhecemos
somente por meio de referências em outros autores, como indicações de Platão e
Aristóteles sobre Agátocles e seu famoso discípulo Dámon, a quem se deve a teoria do
ethos musical; a única exceção para esse período são alguns fragmentos dos pitagóricos
Filolau de Cróton e Arquitas de Tarento, além da importantíssima obra de Aristóxeno de
Tarento, considerado pela musicologia moderna como o grande gênio da teoria musical
grega, pela sofisticação dos seus ensinamentos de harmonia e rítmica.
3 - A música, os mitos e o fantástico: deuses e heróis músicos
A peculiaridade cultural pode também ser averiguada em diversos aspectos da
mitologia grega, fundamentando mentalmente o caráter e a proporção que adquire o
cultivo da música. “Que outro povo pode criar um mito igual ao de Orfeu, cujo canto
transtorna as leis do Universo, que com o poder mágico de seu instrumento doma as
feras e consegue arrebatar sua esposa da morte?” (SACHS, 1934, p.73).
Orfeu relaciona-se ao campo intelectual, aos livros, aos homens civilizados, à lira, ao
canto. Liga-se ao poder do homem sobre a natureza. Tocava, pois, com tanta perfeição,
que árvores e rochedos deixavam seus lugares, os rios suspendiam suas correntes, e as
feras corriam ao redor dele para escutá-lo. Liga-se, também, ao poder da civilização
sobre a barbárie. Orfeu aparece, na iconografia, vestido à moda grega, em companhia de
guerreiros trácios subjugados pelo canto do citaredo (Figura 1).
Pagina 7
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Figura 1: Orfeu tocando lyra entre guerreiros trácios.2 Cratera em cálice. Ápulo inicial
(430-420 a.C.). Painter of the Berlin Dancing Girl. Zurique, Mercado. Arete, ex Anagni,
Museo del Duomo.
Com Orfeu, aparece na mitologia a figuração imaginária do poder da música sobre a
natureza e sobre o espírito humano. Do mesmo modo, Orfeu, associado ao mesmo
tempo à lira e ao livro, à música e à escrita, a Apolo e às Musas, integra em sua imagem
tanto a atividade musical como a cultura geral (enkyklios mathesis), reforçando
simbolicamente o primado da música na cultura (DETIENNE, 1991, p.86).
As narrativas míticas sobre Orfeu colocam, ainda, ao historiador um elemento
fundamental que embasa a importância atribuída à música: a anterioridade do som, da
voz, em relação à palavra, sendo a música, portanto, anterior ao verso. As reflexões
morais feitas pelos gregos relativamente à música levam em consideração, em primeiro
plano, a qualidade humana da voz e da palavra articulada em canto, não como sendo
somente uma forma de comunicação e de linguagem estética, mas como dádivas divinas
que possibilitam o desenvolvimento espiritual, possuindo até poderes mágicos para
estabelecer uma relação entre o homem e o sobrenatural.
Daí advém o poder de encantamento do canto de Orfeu, da melodia. É um aspecto do
mito que nos revela, de um lado, o estranhamento do grego arcaico diante do fenômeno
sonoro, na desconhecimento que persistia até o advento das teorias pitagóricas sobre a
acústica, e, de outro, o maravilhamento diante da faculdade vocal.
Enquanto os aedos e os citaredos celebravam altos feitos dos homens e
dos deuses [...], a voz de Orfeu começou além do canto que recita e
conta. Trata-se de uma voz anterior à palavra articulada, e cujo estatuto
2 Os desenhos usados neste artigo foram elaborados pelo autor, com exceção da figuras 4, elaborada
por Lidiane Carderaro.
Pagina 8
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)de execução é marcado [...]: designa Orfeu para o mundo da música
antes do verso, a música sem palavra, um domínio onde ele não imitava
ninguém, onde ele era o começo e a origem [...]. O canto de Orfeu jorra
como uma encantação original. Ele se conta mais em seu efeito que em
seu conteúdo. E de início em sua virtude centrípeta, que reúne em torno
da voz os seres vivos animados ou inanimados da terra, do céu e do mar.
(Figura 2) Uma voz estranha ao círculo estreito dos ouvintes, mas em
torno do qual, na plenitude de seu júbilo, reúnem-se as árvores, as
pedras, os pássaros e os peixes. (DETIENNE, 1991, p.87-88)3
Figura 2: Orfeu tocando cítara, encantando animais domésticos, selvagens ou
fantásticos. Mármore. Relevo funerário ou pé de mesa decorado. Séc. IV ou V d.C.
Atenas, Museu Bizantino, GT 93.
A voz de Orfeu acalma o ímpeto bárbaro dos guerreiros trácios. Ela congrega, une,
produz philia (amor, amizade), unidade, num mundo habitado pela eris (discórdia), pelo
agon (disputa), pela diversidade. O poder de produzir philia da voz de Orfeu, que une ao
seu redor a natureza dividida, lembra a corrente produzida entre os homens, pelo canto
e pela dança, quando a medida e a harmonia se introduzem na alma (PLATÃO, Leis 2).
O poder do canto de Orfeu, de certa forma, estabelece uma estreita ligação entre a
música e uma unidade primeira, dando ao som musical um caráter de arkhe, de
fundamento, que possui a qualidade de princípio/primórdio cósmico e a potência de
poder. Com ele, a música adquire qualidade de produzir o sentido da união que deve
alimentar a comunidade de cidadãos, concretizada no canto coral. Não é ao acaso que o
“nome de coro (khoros) deriva naturalmente da palavra que significa alegria (kharas)”
3 Grifo nosso.
Pagina 9
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)(PLATÃO, Leis 2), pois alegria é o sentimento que essa união proporciona, que o canto de
Orfeu causa nas “vidas mais mudas, nos animais do silêncio” (DETIENNE, 1991, p.88).
Para além de Orfeu, é notável o grande número de divindades e heróis que tocavam
instrumentos musicais ou aos quais se associavam narrativas em que os instrumentos
musicais e os cantos compunham a parte central do enredo. Recordemos das histórias
da invenção da lyra por Hermes e de quando este repassou este instrumento a Apolo.
Lembremo-nos do Apolo citaredo e de seu coral das Musas, patronas das atividades
artísticas e intelectuais, representadas tocando os mais variados instrumentos.
Destaquemos o papel que este deus, músico por excelência, possuía no que concerne
às atividades civilizadoras, representativas da cultura. Lembremos, ainda, a invenção
do aulos por Atena e seu posterior repúdio a este instrumento, do qual o sileno
Mársias apropriou-se. Este sileno, tornando-se notável auletes, veio a enfrentar Apolo
em um agon (competição), do qual saiu perdedor e vítima da fúria do deus músico.
Temos, também, o desafio musical feito às Musas por Tamiras, filho da Musa Calíope,
sendo penalizado, após sua derrota, com a surdez.
Retornando a Orfeu, recordemos que o poder da sua música convenceu as divindades
dos infernos a lhe devolverem sua amada, Eurídice. Orfeu, vítima de violência em seu
assassinato pelas mãos das mulheres trácias, remete-nos a toda uma cadeia de
violência, agressões e mortes bizarras que acometem vários músicos.
Não esqueçamos a tentativa frustrada de assassinato do músico Arion, quando
retornava de sua tournée musical na Sicília; ou ainda a morte bizarra, mas real, do
músico-poeta Simônides, que faleceu enquanto dormia sob uma árvore, tendo se
engasgado com um figuinho que caiu dos seus galhos, desfecho trágico que a tradição
atribui ainda a outros músicos. Não esqueçamos, também, a morte trágica do mítico
professor de música trácio, Linos, irmão de Orfeu, nas mãos do violento jovem
Héracles, que se negava a seguir suas aulas de música (Figura 3). Não esqueçamos
tampouco a deusa Mãe, Reia, sempre com seu grande tympanon à mão.
Pagina 10
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Figura 3: Jovem Héracles, atacando seu professor de música Linos, que se defende
com sua lyra, enquanto os demais, exaltados, correm. Esta ação resultará na morte do
lendário citaredo, irmão de Orfeu. Kylix ática, figuras vermelhas. Proveniência: Vulci.
Pintor Duris (ARV² 437/128). c. 480 a.C. Munique, Antikensammlungen, inv. 2646.4
Outra figura muito forte era a imagem aterrorizadora das Sereias, personagens
mitológicas com corpo de ave e cabeça humana que atraíam com sua música os
navegadores que, inebriados e seduzidos pela beleza de seu canto, morriam
naufragando junto aos rochedos em que elas se encontravam. Aqui, novamente,
destaca-se nosso Orfeu, que, com seu canto, acompanhado de sua phorminx (cítara
homérica com base côncava), conseguiu superar o efeito mortal do canto das Sereias,
permitindo que os argonautas passassem pelos rochedos incólumes. No séc. IV
tornou-se comum colocar estátuas de Sereias tocando lyra junto aos túmulos, como
protetoras das almas no mundo dos mortos (Figura 4). Percebemos que as Sereias
transformaram-se em espelhos das Musas, como o duplo destas no mundo dos
mortos.
4 Fotografia do autor (2014). Agradeço a curadora Anastasia Meintani pela autorização para publicar.
Pagina 11
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Figura 4: Sereia tocando lyra. Mármore. Esculturas funerárias. Meados do séc. IV.
Proveniência: Cerâmico. Atenas, Museu Nacional, 774.
Os casos míticos arrolados acima participam de um rico acervo de narrativas
permeadas pela música, em que deuses e heróis têm protagonismo musical, algo
próprio do imaginário mitológico e musical grego. Exemplo desse protagonismo
musical de deuses e heróis pode ser encontrado em mitos que abordam a educação
musical.
4 - A educação musical nas narrativas míticas
Os gregos preocupavam-se com que seu filho, futuro cidadão, fosse iniciado na cultura
políade por meio da música, reencontrando nela a base para a formação de seu caráter.
A mesma importância os mitos atribuem, na formação de Herácles e de seu irmão
gêmeo Íficles, ao seu professor de música, Linos (irmão de Orfeu), inventor dos versos
líricos e canções (Figuras 5a e 5b).
Figura 5a e 5b - Face A: Íficles aprende a arte da lyra de seu professor, o kitharistes
Linos. Face B: Escrava Geropso, acompanhando Héracles até sua aula de música.
Skýphos. Figuras Vermelhas. Oleiro Pistóxenos (assinado). Pintor de Pistóxenos. Em
torno de 470a.C. Procedência: Cerveteri (Caere), Etrúria. Schwerin, Staatliches
Museum, inv. 708.
Mais do que a Linos, a tradição mitológica confere ao centauro Quíron um papel
fundamental na formação de Aquiles (Figura 6), modelo do ideal de bravura
aristocrática, assim como de outros onze heróis. Lembraremos aqui de Aquiles,
tocando sua lyra e acalmando, assim, as próprias divindades, encantadas com a
doçura de sua música. O ciclo de Aquiles mousikos desfrutou de muita popularidade
Pagina 12
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)na época imperial romana, sobretudo o Grupo Aquiles-Quíron, tema de afrescos
romanos.
Figura 6: Centauro Quíron, ensinando lyra ao jovem Aquiles. Afresco (4° estilo).
Terceiro quartel do séc. I d.C. Prov.: Herculano, Augusteum (Basilica). Nápoles, Museo
Archeologico Nazionale, inv.9109.5
Afinal, foram vários os heróis que aprenderam na juventude a arte da lyra, muitos
deles alunos do centauro Quíron. Pensemos em Ânfion ou em Páris. Quíron não ensina
somente o canto e a lira: como professor de música, é o responsável pela formação geral
desses jovens heróis. O centauro que o mito coloca como sendo modelo do professor, do
educador, é um músico. Desse modo, “nas sociedades aristocráticas jônicas do século
VII, eólicas e dóricas do VI, a habilidade musical era vista como inseparável de uma boa
instrução” (COMBARIEU, 1920, p.160-161).
E as cenas “pedagódico-amorosas” como de Pã ensinando seu amado Dáfnis a tocar a
syrinx, ou Mársias ensinando o jovem Olimpos a tocar o aulos6. Ora, já nos mitos,
vemos a sobreposição simbólica entre o homoerotismo, a música e a educação, que
transborda sobre práticas cotidianas.
5 - Simbolismos da música, do mundo mítico ao
pensamento filosófico
5
©wikicommons
6 Famoso tocador de aulos da mitologia grega, mais tarde considerado personagem histórico, que teria
vivido em torno de 700 a.C. Sua ligação com Mársias varia conforme o autor, oscilando entre pai,
versão menos comum, filho ou amante, versões mais frequentes, conforme as quais ele teria aprendido
a tocar aulos com Mársias. Em Atenas, era vinculado às Musas. Após a violenta morte de Mársias por
Apolo, Olimpos o enterrou e o pranteou.
Pagina 13
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)É de se pensar o quanto se pode aduzir desta particular presença da música no universo
mítico, com seus deuses e heróis, em termos de uma projeção mental sobre o universo
mítico do valor que a música assume no imaginário grego. A riqueza fabulosa de
pormenores poéticos e fantásticos nos remete a significados imaginários da música e a
distintas formas de sua integração na vida social. Vejamos alguns exemplos:
A deusa Cibele (ELLMERICH, 1962, p.25) inventou os címbalos (kymbala), pratos
metálicos, e foi venerada pelos sacerdotes com música barulhenta. Ao longo de alguns
séculos, com versões diversas, circulou a história do sacerdote emasculado de Cibele
que recorreu ao seu imenso tympanon e, com seu som aterrorizador, espantou o leão
que estava prestes a vitimá-lo, na caverna em que se escondia do frio.
Dáfnis, pastor siciliano filho de Hermes e de uma ninfa, é o inventor dos cantos
bucólicos. Hermes, seu pai, deus mensageiro, notabilizou-se pela eloquência, pelo poder
de sedução de seu discurso: do mesmo modo, sendo frequentemente associado à lyra,
sabia na perfeição a música. Hermes serviu-se da lyra para adormecer e matar Argo, que
guardava a vaca Io; tocando-a, metamorfoseou Bato em pedra de tocar e livrou Ares da
prisão. A música, portanto, conferia-lhe poderes mágicos.
A forma poética como Pã criou sua flauta, a syrinx, utilizando-se dos juncos onde
morrera sua ninfa amada, quando fugia ao seu assédio, chama-nos a atenção, pelo
dom que os sons deste instrumento têm de expressar as dores do amor, ao mesmo
tempo em que a ele se agregavam poderes místicos no universo pastoril.
A literatura arcaica, desde os hinos homéricos (Hino homérico a Pã 14-21), liga a
syrinx a Pã, associação que foi lembrada por autores do séc. V (EURÍPIDES, Electra
699sq; Ion 492sq.)7. E Pã era sempre lembrado como um deus músico, simbolizando a
importância da música no contexto rural. Acreditava-se que ele, a quem havia sido
7 Cf. Antologia grega. Antologia Planudeana (XVI), 12. “Sobre uma estátua de Pã colocada sob uma
fonte.” (Anônimo); 13. “Sobre uma estátua de Pã colocada sob uma fonte.” (PLATÃO, autor ao qual
Meleagro atribui três dúzias de epigramas, cuja atribuição é questionada, séc. III a.C. ou anterior)
Autores tardios: Antologia grega. Epigramas Votivos (VI), 82. “A Pã.” (PAULO SILENCIÁRIO, ciclo de
Agathias, corte de Justiniano, séc. VI); Antologia Planudeana (XVI), 225. “Sobre uma estátua de Pã.”
(ARABIOS O ESCOLÁSTICO, época de Justiniano).
Pagina 14
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)dedicado um pequeno santuário perto da casa de Píndaro em Tebas, teria cantado um
dos seus hinos (PLUTARCO, Moralia 1113b).
A associação da syrinx a Pã, do ponto de vista mítico, tinha sua contrapartida
ritualística. A syrinx era o instrumento mais característico dos rituais pastoris, talvez
até por ser o que a maioria dos pastores devia saber tocar e fabricar. Sacrifícios a Pã
eram realizados com hinos acompanhados pela syrinx. Mesmo o culto da deusa trácia
Áttis, divindade de função pastoril, era realizado com o uso da flauta de Pã (LONGUS,
Pastorais 2.31. HALDANE, 1966, p.105-6).
Era comum que camponeses oferecessem sua syrinx a Pã em um santuário, como exvoto.8 (Figura 7) Poetas helenísticos cantaram a tristeza da syrinx que jazia muda
num templo, no lugar de estar entretida com o amor — afinal, Pã a inventou como
substitutivo de sua amada, a ninfa Syrinx, que o rejeitara.9 Crenças místicas deviam se
associar à flauta de Pã, pois, se os rebanhos escutassem a música sagrada dos seus
lábios repousados sobre os caniços, bons ventos soprariam sobre as fazendas e mais
leite as vacas produziriam.10
Figura 7: Syrinx (flauta de Pã). Materiais: junco e têxtil. Séc. I-V d.C.
Medidas: 8,5 x 13,5 x 1,5 cm. Mannheim, Rheiss-Engelhorn Museum, Ag 12.11
A mitologia estabelece o vínculo desse deus com esse instrumento. Filho de Hermes
(que também seria inventor da syrinx, segundo tradição que remonta aos hinos
8 Antologia grega. Epigramas Votivos (VI), 177. “A Pã.” (TEÓCRITO DE SIRACUSA, séc. III a.C.).
9 Antologia grega. Epigramas descritivos (IX), 324. “A une syrinx.”
10 Antologia grega. Antologia Planudeana (XVI), 17. “Sobre uma estátua de Pã.” (Anônimo, Íbico?)
©rem-mannheim. Agradeço ao conservador Lukas Bohnenkaemper pela cedência da imagem.
Pagina 15
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)homéricos), com uma ninfa, Pã era uma antiga divindade arcádica que tinha por
função garantir a proteção e a multiplicação dos rebanhos. Deus dos bosques e pastos,
era cultuado como protetor dos pastores. Sua forma física era uma transição entre a
forma animal e a humana: tinha chifres e pernas de bode, além de um rosto feio com
fortes traços animais.
Apaixonou-se pela ninfa Syrinx, que o rejeitou devido a seu rosto assustador; esta,
pedindo ajuda a seu pai, o rio Ladon, escapou de Pã transformando-se em caniços. Ele
se jogou sobre eles e os abraçou, pensando ser sua amada ninfa; suspirou, e, então, os
caniços agitados emitiram um som agradável e queixoso. Comovido com esse som,
pegou sete caniços de tamanho desigual, colou-os com cera e criou o instrumento que
recebe o nome de sua primeira amada, Syrinx, conhecido também como “flauta de
Pã”. Sua música caiu no agrado de todos, até das ninfas, que antes o evitavam e agora
o procuram para dançar ao seu redor12, e até mesmo de Baco, que o convidou para
participar de seus festejos. Também por sua filiação, tendo Hermes por pai,
combinava a dimensão do pastoreio e da música. Lembremos que fora Hermes quem
inventara os instrumentos pastoris por excelência, a lyra e a syrinx.
O mito, do mesmo modo, informa como a syrinx foi transmitida da divindade
protetora aos pastores: Pã, apaixonado pelo jovem pastor Dáfnis, o mesmo
mencionado anteriormente, ensinou-lhe a tocar a syrinx. Dáfnis foi, então, o primeiro
entre os mortais a encostar seus lábios nos caniços sagrados, produzindo um “sopro
melodioso com os juncos colados com cera” e “modulando canções bucólicas”.13 Tornouse, assim, o propagador desta arte pastoril entre os mortais.
Mársias, o famoso sátiro frígio, tornou-se célebre como tocador do aulos, instrumento
que tomara da deusa Atena, que o jogara fora, pois havia ficado desgostosa com sua
invenção, devido aos sons estridentes e à expressão monstruosa que marcava o
semblante daquele que o tocasse. Conforme PLATÃO (Simpósio, 215c), no Elogio de
12 Antologia grega. Antologia Planudeana (XVI), 226. “Sobre uma estátua de Pã.” (ALCEU, final do séc. III
e início do II a.C., contemporâneo de Filipe V da Macedônia.). Antologia grega. Epigramas Descritivos
(IX), 823. (PLATÃO; três dúzias de epigramas atribuídos a ele, na Coroa de Meleagro, devem se tratar
de pastiches, compostos entre 250 e 230 a.C., de textos mais antigos.)
13 Antologia grega. Epigramas descritivos (IX), 433 (TEÓCRITO); Epigramas Votivos (VI), 177
(TEÓCRITO). Cf. Antologia grega. Epigramas descritivos (IX), 341.
Pagina 16
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Sócrates pronunciado por Alcibíades, “Mársias encantava os homens com os efeitos que
a sua boca tirava da flauta, e encantava também sempre que tocavam suas melodias,
como aquelas executadas por Olimpo, seu aluno na arte da música”. O mito de Mársias
proporciona a Alcibíades rudimentos que fundamentam a crença no poder da música
sobre o espírito humano, pois “quer essas melodias sejam tocadas por um grande
artista, quer por um artista sem mérito, essas melopeias [de Olimpo] têm o condão de
nos seduzir os corações e, por que são divinas, fazem cair na razão os que necessitam
dos deuses e das iniciações”.
Mársias, o tocador de aulos, desafiou o deus Apolo, tocador de lira, em uma competição.
Apolo, vencendo, esfolou o sátiro. A vitória da lira sobre o aulos é plena de simbolismo.
Atena jogara fora esse instrumento que lhe “degradava à categoria do monstruoso,
convertendo seu rosto num arremedo de máscara gorgoneana”, como lembra Vernant,
“os sons da flauta excluem a palavra articulada, o canto poético, a locução humana [...] [o
aulos] impede que o executante utilize a palavra. Opõe-se à necessidade de instrução”
(VERNANT, 1986, p.77-78). Associa-se a um ethos orgiástico, catártico, sendo o
instrumento do transe, da orgia, do delírio, dos ritos e das danças de possessão. Segundo
ARISTÓTELES (Política 8.4), o repúdio de Atena à flauta deve-se ao fato de que o
“aprendizado das artes de tocar flauta em nada contribui para o aperfeiçoamento da
inteligência, porquanto atribuímos a Atena o patrocínio das ciências e das artes”. Desse
modo, entendemos também o repúdio de Alcibíades (PLUTARCO, Alcibíades 2) ao aulos:
para ele, “ocupando e obstruindo a boca”, esse instrumento “rouba ao executante a
palavra e a voz”. Alcibíades recomendava que deixasse a flauta aos tebanos que não
sabem conversar, e lembrava aos atenienses que a deusa fundadora, Atena, havia
atirado longe a flauta, e que o deus ancestral, Apolo, havia esfolado o flautista.
A vitoriosa lira, em mãos de Apolo, emitia uma melodia harmoniosa, colocando em
acordo o canto e a palavra humana que acompanhava. Assim, Alcibíades (PLUTARCO,
Alcibíades 2) considerava a lyra digna de um homem livre. “O manejo do plektron e da
lyra, para ele, em nada comprometia a figura e o espectro garboso [...] Quando se toca a
lyra é possível falar e cantar ao mesmo tempo”. Em oposição ao caráter orgiástico dos
aulos, a lyra é portadora de um potencial ético, que justifica seu emprego na educação do
jovem.
Pagina 17
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Apolo, que referencia miticamente, como simbolização do equilíbrio e da proporção, a
arete da sophrosyne (virtude do comedimento), é o deus das artes, da música, da poesia
e da medicina. Com a lyra na mão, rege o coral das Musas. O coral, em uníssono, é o
gênero musical que efetiva a unidade da diversidade, motivo de orgulho nas celebrações
cívicas gregas; as Musas e Apolo são guardiões e inspiradores das artes e de todas as
atividades nobres de espírito. Apolo, com a lyra em punho, regendo o coral das Musas,
significa a unidade, a partir da música, das manifestações humanas de inteligência e
elegância artística, na medida em que a música é o ponto de partida, a unidade primeira,
tal como o canto de Orfeu, onde ainda está uno o que se fará diviso, ou onde a
diversidade está reduzida à unidade, pois, reportando-nos a Heráclito, “a unidade, ao
opor-se a si mesma, concorda consigo, tal como a harmonia que sai do arco e da lira”
(HERÁCLITO, 51). Desse modo, a harmonia, desejada tanto no cosmos como na pólis, é
fruto da guerra entre os opostos, tal como na harmonia musical se opõem o tom grave e
o agudo, o ritmo breve e o longo. Talvez, somente pela música o homem se aproxime da
harmonia invisível, que, segundo Heráclito, é mais forte que a visível.
Na relação entre música e harmonia, encontramos, possivelmente, a raiz da centralidade
de Apolo no panteão helênico como modelo de conduta na Paideia, uma vez que esse
deus músico, citaredo, rege o coral que simboliza a harmonia e o sentido de unidade.
Essa unidade, que produz a philia, tem como agente, segundo PLATÃO (Simpósio, 186a),
no discurso do médico Erixímaco, o amor, pois, para este, a música pode ser vista como
uma ciência de Eros, do amor em relação à harmonia e ao ritmo. Para Erixímaco, a
música, tal qual a medicina, estabelece o acordo entre os elementos opostos, ao colocar o
amor e a concórdia entre eles. É por ação da música que se unem o agudo e o grave, do
mesmo modo que é por ação da medicina que se unem o seco e o úmido, o frio e o
quente, cuja desarmonia causa a insanidade segundo a teoria médica hipocrática do
equilíbrio dos humores.
Não é por acaso que Platão coloca na voz de um médico essa valorização do papel
harmonizador da música; tampouco é ao acaso que deuses associados à medicina
apareçam como deuses músicos: como veremos, os gregos acreditavam que
determinadas melodias pudessem curar doenças, provocar cicatrização e neutralizar o
Pagina 18
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)veneno de cobras. Associando a figura do médico e do músico, o mito coloca a crença
nos poderes mágicos do encantamento musical como método curativo.
Sócrates (PLATÃO, Cármides 156-157) adverte acerca dos ensinamentos que recebera
de seu médico trácio, Zalmoxis, sobre a cura dos males do corpo e do espírito pelo
encantamento:
É na alma, com efeito, dizia o meu Trácio, que, para o corpo e para todo
o homem, os males e os bens têm seu ponto de partida [...] Nossos
primeiros cuidados devem ater-se a esses males [...] Ora, é pelo
encantamento que se cuida dos males da alma. Esse encantamento é
feito pelos discursos que contêm pelos pensamentos; ora os discursos
que contêm tal sorte fazem nascer na alma uma sabedoria moral, cuja
aparição e presença permitem doravante procurar a boa saúde do corpo
como do espírito.14
Ora, voltando a PLATÃO (Laques 188), aprendemos que o belo discurso, aquele que
encanta, é um discurso de qualidade musical. E um homem que pronuncia belos
discursos “é um homem digno de seus discursos”, pois neles há “o acorde harmonioso
entre as palavras pronunciadas e aquele que as pronuncia. [...] Um homem assim é um
perfeito músico, pois (um belo discurso) é o mais magnífico acorde que ele realiza”.
6 - A instituição da educação musical
Ora, toda a preeminência que a tradição cultural helênica confere à música traduz-se na
organização das práticas, concepções e instituições educacionais, com base em todo o
significado que o imaginário lhe atribui, desde a epopeia homérica e desde um antigo
caldo de cultura condensado pela psikhe grega em sua mitologia.
Desse modo, a educação tradicional, de cunho aristocrático, não se preocupando
inicialmente tanto com as letras e com os números, pregava que o jovem devia dedicarse à ginástica e à música. Assim, o ensino da música entre os gregos é mais antigo que o
das letras, sendo, portanto, mais essencial para a formação do cidadão, juntamente ao
disciplinamento guerreiro do corpo pela ginástica. Aristófanes, dentro de seu ímpeto de
crítica dos costumes modernos do final do século V e de resgate dos paradigmas
14 Grifo nosso.
Pagina 19
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)tradicionais, da antiga politeia (constituição), evoca a antiga educação, na sua comédia
As Nuvens (423 a.C.), nas palavras do personagem Justo em seu diálogo com o Injusto:
Mostrarei, portanto, qual era a educação quando eu, defendendo a
justiça, crescia e a sabedoria era norma. Exigia, antes de tudo, que as
crianças não ouvissem respirar. Além disso, todas as crianças de um
bairro andavam bem disciplinadas com o mestre de música: mas,
nevasse denso feito farinha, andavam nus. Ele lhes ensinava
primeiramente a cantar [...] Alto um grito de longe nos chega trazendo
aquele canto que nos foi transmitido pelos nossos pais. E se algum deles
se fizesse de palhaço ou tentasse desafinar, como fazem hoje em dia as
crianças de Frines15, apanhava de santa razão: pelo ultraje às Musas.
(ARISTÓFANES, As Nuvens 961-985)
Aristófanes, além de confirmar o caráter tradicional da educação musical, evoca o tom
sacro que devia revestir, numa atitude piedosa, o comportamento da criança no
aprendizado da arte das Musas.
Em Esparta e Creta, a educação de espírito dórico se dava coletivamente, nas tropas
(aghelai) ou nos coros (khoroi). Tal era a importância que o ensino musical assumia
entre os espartanos que, de acordo com o Onomastikon (Dicionário) de Póllux, a escola
era chamada de khoros, o mestre, de khoregos (mestre de coro), e, para o verbo ensinar,
empregava-se khoregein (MANACORDA, 1989, p.47).
O ensino da música ocorria nos centros de iniciação (thiasoi), como aqueles em que
atuavam Safo, em Lesbos, ou Alcman de Sárdis, em Esparta, na segunda metade do
século VII. Em Atenas, no período clássico, a criança era entregue ao mestre de música
(kitharistes) e ao mestre de ginástica (paidotribes), sob os cuidados do paidagogos,
escravo particular que a acompanhava da casa à escola, e sob as vistas do paidonomos,
magistratura pública criada no final do século V para a inspeção das escolas.
7 - A música, do ponto de vista do logos, e a educação
musical, do ponto de vista da filosofia
15 Frines de Mitilene (em torno de 450, iniciou a lecionar em Atenas), junto com Timóteo de Mileto, seu
discípulo, divulgaram a música moderna, vinda da Jônia, acrescentando cordas às cítaras e multiplicando o
colorido dos sons, insinuando-se na heterofonia, o que levou à proibição da atuação musical de Timóteo na
conservadora Esparta.
Pagina 20
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)A instituição do ensino musical é acompanhada por uma reflexão filosófica acerca do
valor da música na formação do cidadão, seus benefícios e suas desvantagens, bem
como por um enquadramento da cultura musical no domínio do logos (pensamento
racional) a partir da elaboração de uma teoria e do emprego de uma escrita musical. O
desenvolvimento da teoria e técnica musicais e do conceito do valor moral da música se
confundem, de modo que a teoria musical grega não era somente um estudo físico,
acústico, harmônico, mas também um estudo das relações eficazes entre os fenômenos
acústicos, harmônicos e a ética.
O primeiro que conhecemos e se dedicou ao conhecimento musical foi Lasos de
Hermione, mestre de Píndaro, que observou as vibrações sonoras, no século VI. Porém, é
a Pitágoras que devemos o estabelecimento da base da epistemologia musical, a partir
do cálculo dos intervalos musicais de oitava, quinta e quarta, com base na observação
empírica da relação existente entre a altura e extensão das cordas da lyra. Pitágoras
funda o primado da música na Paideia a partir da relação que estabelece entre harmonia
cósmica e harmonia musical, com base na teoria do número.
O cosmos seria formado por estrelas esféricas que giravam em torno do
fogo central. As proporções numéricas estabelecidas entre as esferas
coincidem com os intervalos musicais, que haviam sido calculados
empiricamente através da relação da qual Pitágoras se apercebera entre
a altura dos sons e o comprimento das cordas da lira. Portanto, se a
harmonia universal do cosmos regia os intervalos musicais, então a
educação na qual se ministrasse o aprendizado musical resultava na
formação de um cidadão com firmeza moral, responsabilidade jurídica e
espírito equilibrado. (CERQUEIRA, 1988, p.48)
Tendo-se dedicado à matemática, os pitagóricos pressupõem que o número é o
“princípio de todas as coisas”, a arkhe. “Afirmavam a identidade de determinada
propriedade numérica com a justiça, uma outra com a alma e o espírito [...]; observando
também as relações e leis do número com as harmonias musicais [...], supuseram que
todo o universo é harmonia e número [...]” (ARISTÓTELES, Metafísica 1.5). Assim, a
teoria numérica é mais do que a simples procura de um princípio derivante de tudo, a
que tudo se reduza: o número, em Pitágoras, é um paradigma ordenador, estabelecedor
da harmonia, da proporção e do ritmo. A teoria pitagórica garante à música o poder
moral do número. Ora, “nem a natureza do número nem a harmonia abrigam em si a
falsidade. [...] A falsidade não se insinua de nenhuma forma no número. [...] pois a
Pagina 21
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)falsidade é hostil e inimiga de sua natureza, ao contrário da verdade, conforme e
congênita à natureza do número” (FILOLAU, 11).
É por meio da música, pois, que o homem tem contato direto com o número e com o
caráter harmônico, ordenador e verdadeiro que lhe é próprio, pois, segundo o pitagórico
Filolau, a natureza e a potência do número desenvolvem sua força na música (FILOLAU,
14). Além disso, na medida em que “Pitágoras e Filolau explicam a alma como sendo
uma harmonia” (MACROBION, Scip1.14.19 in: BORNEHIM s/d, p.88), o ritmo e a melodia
estabelecem uma comunicação entre a harmonia cósmica e a harmonia da alma, que
contribuem para introduzir a eurythmia no espírito do homem educado pela arte
musical. E, conforme PLATÃO (Protágoras, 326), a ordem da cidade requer eurythmia
entre os cidadãos, compondo a harmonia que é a “unidade do misturado e a
concordância das discordâncias” (FILOLAU, 10).
Platão e Aristóteles, que não foram teóricos musicais, apresentam-nos inúmeras
considerações acerca da importância do aprendizado musical e das relações entre a
teoria musical e a ética. Ambos concordam que a música é indispensável à formação do
caráter do cidadão, sendo, portanto, necessária ao equilíbrio da pólis, que precisa de
homens que tenham marcada em sua alma a eurythmia. O ideal colocado é o do mousikos
aner (homem musical ou homem das Musas), que significa não somente ser habilidoso
no canto e na execução da lira, mas, principalmente, ter os princípios de harmonia,
proporção e comedimento gravados na alma, pois o “ritmo e a harmonia se introduzem
no mais recôndito da alma e ali se aferram tenazmente, infundindo a graça na pessoa
corretamente educada” (PLATÃO, República 3.399).
Conforme o pensamento platônico, o valor da educação musical está em tornar as
harmonias e os ritmos tão familiares às almas das crianças, ao ponto que elas possam
aprender a ser mais gentis, harmoniosas e ritmadas e, assim, mais aptas à palavra e à
ação, pois a vida do homem, por toda a parte, pensava-se, precisa de harmonia e ritmo.
As ideias de Platão acerca do valor da educação musical na formação do cidadão podem
ser bem analisadas na passagem do diálogo em que Protágoras expõe o seu ponto de
vista sobre a educação, em que confirma não somente que a “moralidade é fruto da
educação”, como também que a música “torna as crianças mais civilizadas” (PLATÃO,
Pagina 22
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Protágoras 323b, 326b). Protágoras faz uma longa exposição sobre o processo de
formação, destacando o caráter ético do ensino musical:
E quando [após ensinarem a diferenciar o certo do errado], os pais
enviam a criança a um mestre, é mais para velar por uma boa conduta,
que para progredir na lira ou na escrita ou para tocar a cítara. O mestre,
por sua vez, vela pela conduta da criança, e quando esta aprendeu bem a
lira e precisa compreender o que ela lê, como inicialmente compreendia
a palavra, ele faz os alunos conhecerem, sentados em seus bancos, os
poemas dos bons poetas; ele obriga a aprender de cor, pois os poemas
contêm várias máximas úteis para se lembrar, vários exemplos
desenvolvidos; sem falar dos elogios dos homens de valor do passado e
de sua glorificação, no designo de que, por emulação, a criança os emite
e tenha desejo de se assemelhar a eles. É a vez, agora, dos mestres de
música, de fazer o mesmo num domínio diferente: preocupar-se em dar
a modéstia à juventude, de impedir que ela se conduza mal em qualquer
coisa. Independente disso, ele lhes ensina, quando a criança aprendeu a
tocar lira, poemas de outros bons poetas, líricos desta vez: os mestres
fazem as crianças cantarem acompanhadas pela lira, e forçam assim que
o ritmo e a harmonia se tornem familiares à alma das crianças, afim de
torná-las mais civilizadas, com mais felicidade ficam regradas em seus
movimentos, equilibradas e, assim, capazes de se fazer apreciar mais
tarde como oradores ou homens de ação: pois a vida humana tem, em
seu todo, necessidade de atividade bem regrada e de bom equilíbrio.
Isto ainda não é tudo: é ao mestre de ginástica que os pais levam seus
filhos a fim de que tenham um corpo em melhores condições de se
colocar a serviço dos desígnios honrosos de seu espírito, e que sua
miséria física não o constranja a fugir negligentemente aos riscos da
guerra, ou de toda ordem de atividade. Assim, procedem ao mais alto
nível os pais que têm recursos para tanto. Ora, aqueles que têm os
meios, são os ricos: seus filhos começavam desde a mais tenra idade a
frequentar os mestres e separam-se desses o mais tarde possível.
(PLATÃO, Protágoras 325-26)16
Platão não se preocupa propriamente com o aprendizado musical: para ele, o objetivo
da criança não é em si frequentar as aulas de música, aprender o canto e a execução da
lyra. O fundamental é aprender as qualidades morais que a música propicia.
Ele vê a música como a expressão mais perfeita da filosofia, estabelecendo em várias
passagens paralelismos entre a música e a filosofia (PLATÃO, Fédon 61; Simpósio 215 cd), entre as belas harmonias e ritmos e os belos discursos (PLATÃO, Laques 188). Nessa
medida, a educação musical, para Platão, consiste em um “estudo da disciplina não com
fins práticos, mas para a elevação (epanagoghe) e conversão (anastrofe) do espírito,
para atingir a disciplina suprema, a dialética ou a filosofia” (MANACORDA, 1989, p.57).
16 Grifo nosso
Pagina 23
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)Assim, o estudo da aritmética, da geometria, da astronomia e da harmonia (música)
constitui um método de treinamento do espírito, de formação do caráter.
ARISTÓTELES (Política 8), empregando termos técnicos adequados, demonstra
conhecer a teoria musical em mais profundidade do que Platão. Com seu espírito
científico, sistematiza a discussão sobre o valor da educação musical, expondo quais são
seus propósitos e como ela deve ser regulamentada.
O pensamento aristotélico, por sua vez, postula o valor da música, e encontra nela
utilidades necessárias à vida do cidadão, tais como: a) divertimento; b) entretenimento;
e c) promoção de qualidades morais.
a) Divertimento: a música consiste num passatempo que permite ao cidadão relaxar,
esquecendo-se temporariamente de seus problemas. Nesse sentido, ela desempenha a
mesma função da dança, do sono e da bebida. Assim a música, portadora da qualidade
de ser agradável, age como um remédio para as penas resultantes do esforço,
promovendo alegria. Como lembra Aristóteles, “cantar é o maior prazer dos mortais, e é
com boas razões que se inclui a música nas festas e entretenimentos, por seu poder de
alegrar os homens”, afirmava o bardo Musaios, personagem meio lendário, meio
histórico (ARISTÓTELES, Política 8.5). A música, enquanto divertimento, propicia
condições para a felicidade, o que justifica sua introdução na educação do jovem.
b) Entretenimento: possibilitando o cultivo do espírito, compõe uma atividade do ócio
do homem livre. Distante do mundo da necessidade, a apreciação de uma bela melodia,
seja em um banquete, recital ou em um concurso musical, constitui um momento de
elevação espiritual.
c) Promoção de qualidades morais: do mesmo modo que a ginástica produz as
qualidades do corpo, a música promove as qualidades do espírito, pois ela pode exercer
uma influência sobre o caráter e sobre a alma. Assim, as melodias de Olimpos,
compositor e auletes frígio do século VII, enchem a alma de entusiasmo, que é uma
emoção da parte ética da alma. “Ora, os ritmos e as harmonias contêm representações
de cólera e de doçura, e também de coragem e de moderação e de todos os sentimentos
Pagina 24
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)antagônicos e de qualidades morais, correspondentes com mais aproximação à
verdadeira natureza destas qualidades” (ARISTÓTELES, Política 8.5). Aristóteles
acredita que a música contenha em si mesma a imitação das afecções do caráter, de
forma que diferentes melodias imitam distintos tipos de caráter. O jovem, ao ser
encaminhado para o aprendizado da música, deve entrar em contato com as melodias
que imitam o caráter que se deseja do cidadão (livre, temperante, comedido, corajoso e
viril).
Além das qualidades do divertimento, do entretenimento e da educação moral, que
justificam sua participação na Paideia, a música, no âmbito religioso, também
desempenha uma função excitante, a promoção da catarse.
8 - A teoria do ethos musical:
ação ético-moralizante da música sobre o caráter
Uma vez que, conforme o tipo de melodia, a música produz um efeito moral distinto, a
teoria musical encarregou-se de conceituar e classificar os diferentes tipos de ação da
música sobre o caráter. É importante lembrar que os teóricos musicais se dedicaram
tanto aos assuntos relativos à estrutura da linguagem musical (ritmo, harmonia e
melodia) quanto àqueles ligados à influência moralizante da música. Esse efeito moral
os gregos denominaram ethos, com base na teoria ensinada por Dámon no século V.
ARISTÓTELES (Política 8.7), que acompanhava a discussão teórica musical, apresentanos uma classificação, agrupando os diferentes tipos de efeitos morais em quatro
variedades de ethos musical, que podem ser assim descritos (LOCATELLI DE PÉRGAMO,
1980, p.117):
a) ethos praktikon: o ethos prático, qualidade das melodias chamadas ativas,
estimulava a realização das ações heroicas impulsivas ou voluntariosas e o
aumento da atividade.
b) ethos ethikon: era um atributo das melodias designadas éticas, por estimularem e
intensificarem a força espiritual do homem, desenvolvendo sua firmeza moral.
Relacionava-se, então, à virilidade, à gravidade, à majestade e à temperança.
Pagina 25
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)c) ethos threnodes: esse ethos confere às melodias o poder de debilitar e, até,
corroer o equilíbrio moral. Esse efeito era denominado também por ethos
malakon, apropriado à música trágica e dolorosa e, inclusive, empregado em
cantos fúnebres (threnes).
d) ethos enthousiastikon: confere à música o poder de promover o êxtase
momentâneo e uma perda de consciência volitiva e ativa, apresentando um
caráter dionisíaco, tanto que era atribuído ao modo frígio, utilizado na
composição dos ditirambos e nos rituais dionisíacos.
O ethos era resultado de uma combinação de fatores: registros musicais determinados
(médio, agudo ou grave); modo melódico; modo rítmico; maneira de atacar ou emitir
sons; e instrumento empregado na execução. A lyra, por exemplo, ligava-se ao ethos
ethikon, enquanto o aulos, por sua vez, associava-se ao ethos threnodes e enthousiastikon.
O modo dórico, por um lado, tendo uma origem nacional (imaginava-se), fortalecia o
espírito viril beligerante, determinado; o modo frígio, por outro lado, de origem asiática,
era empregado em canções de caráter orgiástico, com fins catárticos, bem como no
drama trágico.
9 - Ensino musical sob o controle dos filósofos
Aristóteles, do mesmo modo que Platão, ao aceitar a possibilidade de a música
influenciar os estados de alma, confirma sua importância no processo educativo. Além
disso, na medida em que ela pode influenciar o espírito, tanto de forma positiva como de
forma negativa, reforça a ideia, já colocada por Platão, da necessidade de regulamentar o
aprendizado musical e disciplinar a atuação musical do cidadão ao longo de sua vida.
Assim, é importante que o jovem aprenda música tocando, pois a execução do
instrumento “amacia a inquietude” (ARISTÓTELES, Política 8.6), ao mesmo tempo em
que lhe ensina a apreciar a música. É importante, porém, que se saiba o que é próprio
para cada idade. Assim, evitam-se as vulgaridades da prática da música, apregoadas por
alguns, se forem tomadas algumas medidas disciplinadoras:
Pagina 26
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)a) Definir o grau de participação na execução musical dos meninos que estão sendo
preparados para a vida pública. (ARISTÓTELES, Política 8.6)
b) Definir os ritmos e melodias adequados à formação do jovem. (ARISTÓTELES,
Política 8.7)
c) Definir instrumentos empregados no aprendizado musical. (ARISTÓTELES,
Política 8.7)
PLATÃO (República 399) demonstra, de forma mais radical, um projeto de legislação,
disciplinamento e normatização das práticas musicais. Preocupava-se com que se
praticassem somente os modos que estimulassem a virilidade, a determinação, devendo
os outros ser banidos da cidade. Assim, deviam-se expurgar as harmonias lídias, a mista
e a aguda, por estimularem a tristeza. Já a jônica e outras variedades lídias deviam
igualmente ser eliminadas, mas por levarem à embriaguez, moleza e indolência, sendo
próprias somente aos banquetes. Somente a dórica e a frígia seriam preservadas na
República de Platão.
Quanto à preservação do modo dórico, Platão e Aristóteles concordam. Segundo
Heráclides do Ponto, a alegria é estranha à harmonia dórica. Ela repudia a moleza.
Sombria e enérgica, não reconhece a riqueza dos coloridos, nem a flexibilidade da forma.
Possui um caráter viril e grandioso. Sendo severa, austera, augusta e venerada, tem as
características que devem marcar a comunidade políade.
10 - Considerações finais
Como vimos, é próprio do imaginário mitológico grego o rico acervo de narrativas em
que deuses e heróis participam de histórias ligadas a instrumentos musicais e ao
canto. Dificilmente encontraremos outro povo com um repertório de narrativas
míticas tão rico em seus elementos musicais. Sem dúvida isto reflete (ou instaura?)
um cotidiano, nas suas dimensões pública, doméstica, religiosa e funerária, repleto de
práticas sociais realizadas com o acompanhamento musical.
Exemplo disso são as ditas “árias de trabalho”, que eram uma característica do dia a
dia de uma série de atividades laboriosas, sobretudo aquelas que envolvessem
Pagina 27
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)procedimentos físicos repetitivos e extenuantes, em atividades tão diferentes quanto
bater a massa de pão, remar embarcações ou colher uva. Há registros iconográficos e
textuais de cantos específicos, muitas vezes com o acompanhamento do aulos ou da
lyra, que eram realizados durante estas práticas sociais. Muito peculiar entre os
gregos era a prática de utilização de instrumentos musicais para acompanhar
atividades atléticas, tanto nos treinamentos como nas competições: isto incluía desde
provas de habilidade, mais ritmadas, como o salto com halteres ou arremesso de
dardo ou disco, nas quais o aulos contribuía para ordenar e cadenciar os movimentos,
até provas de força física, como as lutas e a corrida a pé, sendo a salpinx (trompete)
utilizada nas barulhentas corridas com quadriga.
Ora, toda a preocupação encontrada entre os filósofos para regulamentar as práticas
musicais, toda a reflexão que permeava as considerações sobre a formação musical do
cidadão, toda a organização das instituições de ensino, todos os mitos fantásticos, todos
os fatos bizarros que envolviam a história da música entre os gregos, como a proibição
ao citaredo Timóteo de Mileto para atuar em Esparta, por ter acrescentado uma corda à
lyra, ou ainda as peculiaridades da teoria musical grega em suas definições sobre o
efeito moral da música, todos estes aspectos tinham um ponto nevrálgico em comum: a
convicção de que a música exercia um poder sobre a matéria e sobre o espírito,
convicção que gravitava entre o fantástico, o bizarro e o lógico, entre o mítico, o cósmico
e o filosófico.
Referências
1. BORNHEIM, G. (Org.). [s/d]. Os pré-socráticos. São Paulo: Cultrix.
2. CERQUEIRA, F.V. (1988). "O primado da música na paidéia". In: Simpósio de História Antiga, 1, Porto
Alegre, 1988. Anais... Porto Alegre: Gráfica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
3. COMBARIEU, J. (1920). Histoire de la musique, des origines au début du XXe siècle. Paris: Armand
Colin. Tomo I.
4. DETIENNE, M. (1991). A escrita de Orfeu. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.
5. ELLMERICH, L. (1962). História da Música. 2.ed. São Paulo: Editora Boa Leitura.
6. HALDANE, J.A. (1966). “Musical Instruments in Greek Worship”. Greece and Rome, 13. p.98-107.
7. LOCATELLI DE PÉRGAMO, A.M. (1980). La musica tribal, oriental y de las antiguas culturas
mediterraneas. Buenos Aires: Ricordi Americana.
8. MANACORDA, M.A. (1989). História da Educação da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez.
Pagina 28
Vedi nel PDF(si apre in una nuova finestra)9. SACHS, C. (1924). Die Musik des griechischen Altertums. Breslau: Jedermanns Bücherei.
10. VERNANT, J. (1986). La muerte en los ojos. Figuras del Outro em la antigua Grecia. Barcelona: Gedisa.
11. WEGNER, M. (1949). Das Musikleben der Griechen. Leipzig: Walter de Gruyter.
Leitura recomendada
1. ARISTOPHANE. (1996). Théatre Complet. Traduction, introduction, notices e notes par Marc-Jean
Alfonsi. Paris: GF-Flammarion.
2. ARISTOTE. (2013). Les Métaphysiques. Traduction analytique d’André de Muralt. Sagesses Médiévales.
Paris: Les Belles Lettres.
3. ARISTÓTELES. (1988). Política. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. 2.ed. Brasília:
Editora da UnB.
4. FILOLAU DE CRÓTON. [s/d]. Fr.10, fr.11, fr.14. In: BORNHEIM,G. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo:
Cultrix. p.85-88.
5. HERÁCLITO. [s/d]. Fr.51. In: BORNHEIM,G. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix. p.35-46.
6. MACROBION. [s/d]. Scip.1.14.9. In: BORNHEIM,G. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix. p.88.
7. PLATON. (1959). Oeuvres completes. Traduction nouvelle et notes par Léon Robin. Bibliothèque de la
Pléiade. Paris: Librairie Gallimard.
9. PLUTARCO. (1991). Vidas Paralelas. Tradução Gilson Cezar Cardoso. São Paulo: PAUMAPE. 4v.
10. PLUTARQUE. (1957-1979). Vies. Texte établi et traduit par R. Flacelière, E. Chambryet M. Juneaux.
Paris: Les Belles Lettres. (Alcibíades, Címon, Licurgo, Nícias, Péricles).
Nota sobre o autor
Fábio Vergara Cerqueira: Pesquisador CNPq PQ-2 em Arqueologia. Professor
Associado IV do Departamento de História da Universidade Federal de Pelotas (desde
1991), sendo Professor Permanente do Programa de Pós-graduação em História (desde
2010) e do Programa de Pós-graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural
(desde 2007). Graduado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul,
em 1989. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Musicologia – UFPel, até 2013, e do
Grupo de Pesquisa Estudos de Gênero, Corpo e Música – UFRGS, desde 2014,
coordenados pela musicóloga Isabel Porto Nogueira. Doutor em Antropologia Social,
com concentração em Arqueologia Clássica, pela Universidade de São Paulo, em 2001.
Estágio pós-doutoral na Grécia, pela Escola Francesa de Arqueologia de Atenas.
Participou de campanhas arqueológicas na Grécia, em Delos (2000 e 2008) e em Argos
(2008). Entre 2014 e 2017, realizou estágio de pesquisa na Universidade de Heidelberg,
no Instituto de Arqueologia Clássica, como bolsista da Fundação Alexander von
Humboldt, na modalidade de “Pesquisador Experiente”. Dedica-se à área de História
Antiga e Arqueologia Clássica, com abordagens focadas na música, na cultura material e
na iconografia, abordando temas como gênero, trabalho, guerra, educação,
homoerotismo, cotidiano, memória, tradição e recepção da Antiguidade. Atuou como
violoncelista, nas décadas de 1980 e 1990, em orquestras e formações de câmera no
estado do Rio Grande do Sul.