Afficher le texte intégral6 pages
Page 1
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)IVMANITAS — Vol. XLVII (1995)
AIRES RODEIA PEREIRA
PENSE
AA ) Ax.
Universidade Nova de Lisboa
>
PEREIRA, Aires Rodeia. - A estética musical em Aristóxeno de Tarento.
Humanitas 1995 47 (1): 469-479. + L'esthétique musicale d'Aristoxène, véritable
phénoménologie fondée sur les possibilités infinies du son mélodique, accorde une
[66-00571
importance égale à la théorie et à l'inspiration créatrice du musicien.
A ESTETICA MUSICAL EM ARISTOXENO DE
TARENTO *
O tema da estética musical é abordado por Aristóxeno nos dois livros
que constituem os Elementa Harmonica '. Neles o autor justifica a especificidade da ciéncia da música como corpo autónomo do conhecimento
recorrendo ás faculdades que configuram o povoikds (músico e teórico
musical’), entre as quais se salienta a percepçäo (alo8noic).
Ao atribuir à percepçäo a importáncia de faculdade interveniente na
formagáo dos conceitos da teoria musical, Aristóxeno deixa claro que a
determinagáo intervalar náo deverá ser feita exclusivamente a partir de
rationes matemáticas. Desta ideia central que percorre todo o seu pensa-
* Este tema foi-nos sugerido pela leitura de um passo da obra de Maria Helena
Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, 1 vol. —Cultura Grega,
Lisboa, 1994, 632, que, ao assinalar a distáncia entre Aristóxeno de Tarento e os outros
teóricos musicais que Ihe sucederam afirma: «o seu tratamento estava mais próximo
das ciéncias matemáticas do que das musicais.» Refere-se a Cleónides, Téon de
Esmirna, Cláudio Ptolemeu, Nicómaco de Gerasa, Gaudéncio, Aristides Quintiliano,
Alípio e Baquio. Aristóxeno, contrariamente aos seus sucessores propóe uma interpretagio dos problemas musicais partindo da faculdade de percepçäo (alo0ntixós) que o
músico possui.
Estamos gratos à Senhora Professora Doutora Maria de Fátima de Sousa e Silva
pela disponibilidade manifestada em rever as tradugóes dos textos de Aristóxeno.
' Para a traduçäo tomámos como base a cdigáo crítica de Macran, The
Harmonics of Aristoxenus, Oxford, 1902, comparando os passos que foram objecto de
estudo com a ediçäo de Da-Rios, Aristoxeni Elementa Harmonica, Roma, 1954.
Relativamente ao texto de Plolemeu, seguimos a edigáo: Ptolemy, Die Harmonielehre
des Klaudios Ptolemaios, Ed. e comm., Diiring, Gothenburg, 1932. Para Plutarco, utilizamos a edigäo: Plutarque, De la Musique, Edd. e comm., Weil e Reinach, Paris, 1900.
Page 2
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)471
mento originou-se uma polémica em torno da concepgäo de pouoiwkt que
bidos pela percepgáo. Se tal acontecer, a razáo torna-se inconsequente,
os Testimonia nos dao conta, ao mesmo tempo que levantam uma questáo
porque o conteúdo dos seus juízos deve articular-se com os fenómenos
epistemológica que atinge a natureza da &nıothun TAG novankfig 2; qual
musicais e náo abstrair-se deles.
a relaçäo entre razáo e percepcáo na criaçäo dos conceitos musicais?
Porfirio, contrariamente a Ptolemeu vé no pensamento de Aristéxeno
A teoria musical deve ser naturalmente construída pelo novoıkög a
partir da experiéncia que faz, por exemplo, ao interpretar uma obra musia clarificaçäo da ideia de que a razäo näo pode contradizer os dados rececal. Na música, ao contrário da matemática, os conceitos tém sempre uma
funcionalidade que resulta da sua aplicagáo A prática interpretativa. Deste
modo, relacionam-se em particular com o ékog vocal, que constitui um
?
Ptolemeu Harm. 1,. 2: «of te Mudayópeior xal oi "Apiotokéveoi-
Siapapreiv éxdtepotr ol pév Tlvdayopırol undè Ev ol dvayxaiov fiv
año: 17 tfig aKoijc npocfoAf KataxoAovOkouvtes Epúppocav taic êtapopais tüv ywópwv Adyoug dvorkeloug nohiax fi toig paivoyuévoic, [...] oi dè
Apiotokéveror nAriotov dévteg rois dirà ing aisbicews Karakapfavouévorg 6500 népepyov donep xatexpijcavto ta Aóyo, Kal nmap”
adròv xal
xapá tó paivépevov’ nap’ avróv pév Bu pù taig t@v yooov Srapopais
paradigma da música grega.
O objectivo de Aristóxeno náo foi criar um modelo empirista para
interpretar os fenómenos musicais. A sua inovagáo consistiu em introduzir
a percepçäo como elemento do método, a partir do qual sao originados
os
problemas teóricos da música >.
¿papuólovo1 tobs Gpilpovg, tovtéot: tag sixévag tóv Adywv, adhe Toig
dıaotänacıv ubırav, napa tó Yaıvönevov di Str Kal tovtoug nl
avorkelov taig alodnrıkais svyxatabéceo rapofiállovo: nepionövn.
(«Pitagóricos e Aristoxénios estáo errados, uns e outros. Segundo os Pitagóricos, náo é
indispensável seguir as impressdes auditivas em factos nos quais todos 08 outros as
seguem. No estabelecimento de diferenciagöes entre sons, estabelecem rationes, que na
maior parte dos casos se manifestam inapropriadas aos fenómenos.[...] Em contraste,
os Aristoxénios pensam as coisas, o mais possível como dependentes da percepgao e
usam mal a razáo, ao tomá-la como acidente de percurso, entrando em contradiçäo
com a razáo em si mesma e com a actividade fenoménica. Contrariam a razáo, na
medida em que nao distinguem a principal característica dos sons, a0 recusar os números, isto €, as imagens das rafiones, e aceitam apenas os intervalos entre sons.
Contrariam a evidencia fenoménica, na medida em que associam os números aos intervalos, o que inconscientemente é uma submissáo aos sentidos.») Porfírio, nos comentários que elabora a este mesmo texto de Ptolemeu, assume uma posigáo oposta a esta,
que reflecte uma leitura diferente do pensamento de Aristóxeno: cf. Comm. in Prol.
Harm. 9, 12: «oi pév épolws dupótepa icodvvapotvta napédafov tiv +
alo@now «kal tòv Adyov, of Se td Etepov mponyobpevov, tò è’ Étepov
éxdpevov. duotwg piv du@pétepa "Apıoröbevog à Tapavtivec».(«Uns valorizam razäo e percepgäo atribuindo-Ihes igual poder. Outros entendem que uma é dominante e a outra subalterna. Aristéxeno de Tarento aceita-as em igualdade»). Na
sequéncia deste passo, Porfirio explica como se articulam as faculdades do povotKds:
cf. ibidem, 9. 14: «dpysofar piv yap fipàg drò av parvonévov, rà de
cvyBefnxóte tor Ady@ Ericuvarter dkodovlws, dpodoyobpeva toic qui
vope’vorg Kal obdéxote Evavtioctatoivta abtoic. tov yap Adyov évraiida
tov Ev purvópevov 717 aicOtjoce: döbvarov dvriokoyñoat. {...] tà ôè
ouußulvovra émoKoneiv Kara td aioßnosı ónoloyodpevov Kal tò
änote’keopa $e toiodtov Bewpeiv, olov elvar ovvédov ráliv tí
aisOncev. («Comegamos a partir dos fenómenos, e, em conformidade com eles, as
suas consequéncias devem estar de acordo com a razäo. Estas consequéncias sio consonantes com os fenómenos que surgem à percepçäo e náo podem de modo algum
entrar em contradigáo com eles. Á razáo torna-se impossível oferecer razdes para aquilo que é evidente à percepçäo. Ao investigarmos as consequéncias [de um fenómeno]
de acordo com a percepçäo €, ao constatarmos o seu resultado final, verificamos mais
uma vez que ele estava em harmonia com a percepçäo».)
2
tdEtv
Cf. El. Harm. Il, 33: «tà Se povoixd. oxedóv éotiv ápxñis ~xovou
à
tig
ulolñnoeus
alo0avéuevov eb
Afyew
dxpifera,
nepl
todtwv
of
dv
yap
pndéva
¿vóéxerar
tpérov
pPadàdog
aloláverar».
(«Para o estudioso da ciéncia musical o rigor da percepçäo situa-se,
na ordem de
importáncia em primeiro lugar. No entanto, se a percepgio for deficiente, é-Ihe
impossivel captar a medida exacta dos fenömenos que de nenhum modo foram percepcionados.») De acordo com Macran, Opus cit., 258, a expressáo pouoixôc nio representa
o
músico, no sentido de artista, mas o estudioso da ciéncia da música, o qual deve
possuir, nessa qualidade, uma percepçäo rigorosa. A este propósito Aristóxeno salienta
que a percepgáo € necessária ao artista, mas torna-se indispensável A
compreensäo da
música enquanto ciéncia. No entanto, esta faculdade deve ser cultivada para apreender
a diversidade dos genera e intervalos, Cf. El Harm. ll, 36: «ó pèv yap YconÉtpnc
oddtv xpfitar th tîig aiodñoceos duváper, où yap £0{Cer thy Swiv obre
to cbOb odre tó repipepis ott’ dildo oditv tHv toiodtev obre YubAwg
obre eb kpiverv [...] tó SÌ povorii oxedóv gotiv úápxñis Éxovoa tdkıv
n tic aic®hcems dxpifere, ob yap évdéxetar paddle aiodavónevo
v eb
Atyerv nepl tobtwv dv pydéva tpérov uiodáverar». («O geómetra nao usa da
forga da percepçäo, nem exercita a sua vista a julgar bem ou mal a recta, o circulo,
qualquer outra figura. [...] Porém, para o músico, o rigor da percepçäo mantém
ou
o primeiro lugar na ordem da importáncia, pois se ele tiver uma percepgäo deficiente,
nio
pode descrever bem fenémenos que de modo algum foram percebidos sensorialmente»). Barker, Greek Musical Writings, vol. II, Cambridge 1989, 151, interpreta este
passo como referente à percepçäo de pequenos intervalos, como
por exemplo a diesis
cromática. Neste sentido, o músico näo poderá perceber os fenómenos musicais
se nio
captar os mais pequenos intervalos, isto &, se nio possuir uma faculdade que the
permita perceber a funcionalidade, ou a dynamis das notas. O conceito central do liv. II
dos El. Harm. € o de dynamis, referindo-se as fungöes melódicas e à fungäo
de cada
nota na melodia. Neste sentido, a geraçäo dos princípios da povoix# resulta da articulagäo das dynameis das notas e intervalos elaborada pela percepgäo. Este método
constituigäo dos principios musicais é completamente distinto do método demonstrativo da geometria,
Page 3
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)Deste
modo,
a alo@nois está presente
na
émiothpn
tis
povorxtig, pois os fenómenos musicais possuem as características inerentes à natureza da música, que a tornam inseparável da percepgäo *.
Na exposiçäo sistemätica dos conceitos, Arist6xeno apresenta razôes
de ordem estética para justificar o facto de centrar na percepçäo o nücleo
da sua teoria musical. Para tal, aduz que a compreensäo musical (tig
povoik7jc Gdveoic) se realiza com base em dois elementos: um fixo e
outro môvel. O elemento fixo diz respeito aos conceitos, enquanto o
mövel situa-se no dominio da criaçäo e da interpretagäo da obra musical.
A ligaçäo de ambos é feita por meio de um jogo entre duas faculdades: a
percepgäo (aloPyoic) e a memória (uvñun). A aïoûnois capta um som e
a wir] recorda-o*. Este jogo das faculdades aplica-se, tanto à compre-
*
473
A ESTÉTICA MUSICAL EM ARISTOXENO DE TARENTO
AIRES RODEIA PEREIRA
Cf. El. Harm, 11, 35: «od Sei $” dyvociv, Bu À tig povoix%s Eúveors
dina pévovrôs tivos xal kivovpévov torl cal rovro oxedóv 514 néonç xal
Kara näv pépog abtijs, bo einsiv Anköc, Siatelver [...] towdtnv è’
¿xodons quo tig povoikfig évaykuiov Kal Ev toig nepl td Appoopévov
cuvebiobiivar thy te bidvoiav Kal tiv afoOnow Kalos Kplveiv tó te
uévov xal tó te pévov Kal 1d Kivodpevove. («É necessario náo desconhecer
que a compreensäo da música integra, ao mesmo tempo, o elemento fixo e o móvel e
que esta caracteristica a afecta, por assim dizer, na globalidade e em cada uma das suas
partes.|...) Em funçäo de ser esta a natureza da música, € indispensável, na melodia
harmonizada, habituar a razäo e a percepçäo a julgar com rigor aquilo que se mantém
ensäo de uma sequéncia melódica, ou à associaçäo de uma melodia a
outras ji ouvidas, como à ligaçäo de um h006 a uma melodia. E de facto,
através desse jogo, que o povo1xóc póe em prätica a critica musical, ou
seja, a compreensäo da müsica por jufzos da razäo, que transportam todo
o seu poder criativo.
A estética é o método reflexivo que Aristóxeno adopta como compreensäo da música. E esta leitura do fenómeno músical assenta sobre o princípio de que os elementos náo fixos da música só podem ser determinados
pelo músico quando este se defronta com problemas, como sejam os da consonáncia e dissonáncia *, e o das harmoniai” e sua relagáo com os ritmos,
É sobretudo no dominio da harmonia que a intervençäo da ato@no16,
torna evidente a existéncia de uma visáo estética que suporta a teoria
musical exposta nos Elementa Harmonica 8, Para clarificar tal visio, podemos tomar, como exemplo, as relagóes entre intervalos, harmoniai e genera. Assim. numa harmonia existem notas fixas, isto é, invariáveis nas
relagóes intervalares, notas móveis, que caracterizam os genera e a nota
néon, que € central relativamente ás restantes. As modulagöes entre genera realizam-se através de pequenas alteragóes intervalares. Á estas modulaçôes Aristóxeno chama mudanças de cor (xp@ua), pois uma das fungöes das notas móveis é dar um novo ‘pitch’ á mesma nota em diferentes
genera. Para realizar as modulagóes recorre-se à representagäo da atofixo e o que muda.») Este mesmo principio também se aplica à distingäo dos genera.
Cf. El Harm. U, 34: «eb0éws yap tag tev yevov Siagopàg alodavóueda tot
HEV repiéxovtog pévovtog, tev DE péowv xivovuévov» («Por exemplo, percebemos as diferenças dos genera quando as notas limites permanecem fixas, embora as
intermédias sejam móveis».)
3
Cf. El. Harm. II, 39: «&x 660 yép 5h tobtwv $ tñg povaikñc
Ebveols gotiv, ulolñnoeds te Kal uvhunçs alodávecdar pév yap Sel tó
yıyvönevov, uvnpovevew SÌ
tó yeyovóc». («A compreensäo da música provém
de duas faculdades, que sáo a percepçäo e a memöria, pois deve perceber-se o som
pelo ouvido e recordar-se 0 que se ouviu».) Neste passo apresenta-se cxplicitamente a
complementaridade entre as duas faculdades. Macran, Opus cit. 269, considera que é a
melodia que estä em causa, entendendo-a como uma sucessäo articulada de sons ¢
intervalos, que o ouvido capta na sua unidade, À razäo cabe relacionar os clementos
entre si, e à memória € atribuída a fungäo de manter presentes os sons já ouvidos, permente como rationes entre duas alturas, Barker opus cit. 155, considera mesmo que,
nesta determinagáo estética dos intervalos, está implícito o centro da música helénica,
isto é, cabe sempre ao povoikóg a compreensäo € criaçäo da povori uma vez que
use em simultáneo a alo8nors e a pvhun.
|
6 A atoünois fornece referenciais auditivos ao povaiKds, como sejam as con55:
sonäncias, a partir dos quais Ihe € possível atingir as dissonáncias. Cf. El Harm.AIl,vois
atobnoic
Y
moteder
ney&lscı
v
cupgadvo
tHv
toig
paddov
«moAb
h did
tv Siapóvov: áxpifeorárn $” Av eln ôtapovou diactadpatos Añwis do
ovupwvlug.» («A percepçäo confia muito mais nas grandezas das consonänciasserá que
por
das dissonäncias. A forma mais exacta de construir um intervalo dissonante
meio da consonäncia».)
7 Náo se pode traduzir ápuovla por’ harmonia”, pois o termo grego significa,
possfvel inferir que uma obra musical nao se descodifica pela simples percepgäo das
entre outras coisas, o modo como säo ordenados os intervalos que formam as escalas.
) tem
suas partes singulares, mas pela síntese delas, obtida pela unidade entre a memória e a
o sentido de elementos ou principios da melodia,
mitindo que se estabelegam relagócs de continuidade entre eles. Destas consideragöes €
razäo. Em continuidade com o exposto, encontramos em Plutarco, De Musica 1143
f-1144 c, um tratamento semelhante da questäo, mas atribuindo ao som ouvido e à
relaçäo deste com o som que lhe sucede o centro da compreensäo da melodia. Tal processo € descrito por Plutarco como ultrapassando a simples representagäo matemätica,
para passar a ter implicagöes melödicas, estabelecidas através das relagöes entre notas
dentro da mesma tessitura. Neste caso, os intervalos nao säo determinados matematica-
Assim, o titulo da obra de Aristöxeno dpuovixè otowxeia (Elementa Harmonica
* Cf. II, 44: <8xos torostov olov év apotorg dirò aicOhoews
cuvopiclar tiv tis &ppoviciis rpayuatelas wepdv' tO yap nwg drartobv
andöcıEıv ode Eo dpyoe1idég.» («los principios musicais] devem ter uma natureza, que sobretudo Ihes permita o reconhecimento pela percepgäo sensorial, como uma
das partes principais da ciéncia harmónica. De facto, aquilo que de algum modo requer
demonstraçäo € um principio fundamental».)
Page 4
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)475
Onorc, pois € esta faculdade que distingue os genera”. O mesmo procedienquanto a razäo teoriza sobre as suas potencialidades. A realizaçäo deste
mento aplica-se 4 andlise dos intervalos. Deste modo, a oitava nao deve
juizo desenvolve-se com o hábito '*, tal como a apreensäo dos elementos
apenas ser vista como uma ratio 2:1, mas ao mesmo tempo, como uma
da harmonia. Uns fazem parte da natureza humana e, por isso, säo mais
consonáncia. A anälise matemática de um som deve ser aplicada ás condifacilmente descobertos e postos em pratica, enquanto outros implicam
cóes nas quais ele se produz e náo contrariamente a elas. Como salienta
Macran ", no caso do intervalo de tom o que está em causa é o contraste
tempo e esforço para a percepçäo se adaptar a eles . Neste domínio,
entre a difinigáo de tévog dos Pitagóricos e de Aristóxeno. De acordo
com os Pitagéricos '' o tévog é representado pela ratio 9:8, enquanto
Aristéxeno define-o como a diferença entre os intervalos de quarta (4:3) e
quinta (3:2), pois estes säo consonäncias que a percepgäo identifica mais
rigorosamente. Só é possível ouvir o tôvos se forem percepcionadas com
clareza cada uma das consonáncias '?. Um procedimento semelhante é
usado
para
distringar
os
sons
musicais
dos
nao
musicais.
O som musical € percebido pela ato@now como nio contínuo, isto €, que
se move por intervalos. Este facto é o principio da teoria musical, e nele a
percepgäo estä presente quando se define o som musical como aquele que
€ percebido de forma contínua e o náo musical, de forma descontinua’’.
Desta forma, os fenómenos sao estudados segundo um acordo auditivo
entre os factos e a razáo, isto €, o ouvido julga a grandeza dos intervalos,
4
Cf. El. Harm Il, 32: «Eo. 5h tó pèv giov fuiv <ñ> Cewpla repl
péÂouc
xavtdg povoikod tod yiyvopévov év Pwvii te Kai épyévoic.
avayerar È’
npaypatela cic S00, sfc te thy dxohv Kal elo thy
didvoruv. tH pév yap diofj kpivopev tá tHv Siaotnuétov pey¿0n, th Se
Sravolg Oewpoipev tag tobrwv Suvduers. dei odv t0100ffvar Exacta dxpiBag Kplveiv:» («A nossa ciéncia diz respeito em geral a toda a melodia musical, vocal
e instrumental. Na sua execuçäo depende de dois agentes: o ouvido e a razäo. Por meio
do ouvido julgamos a grandeza dos intervalos e por meio da razäo teorizamos sobre as
suas potencialidades. É necessario criar o häbito de julgar cada coisa com rigor.)
'S Ao referir-se aos genera, Aristóxeno esclarece, Opus cit. 1, 19: «palvetar 5’
eig tpiu- xnav yap tó AauBavéuevov péAog [tav] eig tó Appoopévov tot
didtovév tot i xpopaticóv À ¿vapuóviov. xp@tov pév obv xal
npeoPitatov aitav Bettov td bidtovov, xpHtov yap abtod y tod dvOpadmov Pbcıg Rpootvyxdvei, Sevtepov Sè tò ypopatixév, tpltov Sè kai
dvdtatov TO évapydviov, tedevtaim yap abta Kai pólig peta noAdAod
révov ovveßlleren y atoPnoic.» («Parecem ser trés, pois toda a harmonia com
harmonizagao pode ser diatónica cromática ou enarmónica. Entre eles, o diatónico deve
ser considerado o primeiro e o mais antigo, pois foi a primeiro que se ofereceu à natu-
>
Cf. ibidem Il, 48: «d7jAov 8’ Str oddèv tobtav gotl mpdg tiv tig
alodñozos pavraclav: ¿xelvn pév yap eig dpotdtnta Evög tivos efdoug
Pléxovoa té te xpôuu Ayer cal thy dppoviav, dii’ oùr eig Evég tivos
Siaothuatoc uéyedos» («E evidente que nenhum destes procedimentos corresponde
ao modo de representaçäo da percepçäo sensfvel, pois essa distingue os genera enarmönico e cromätico, considerando a semelhanga com uma ünica forma, e näo a grandeza de um ünico intervalo».)
10
reza humana, o segundo foi o cromático e o terceiro e mais elevado, o enarmónico; a
este
último
só
com
muito
tempo
e
esforgo
a
percepgáo
se
adapta.»)
A percepgäo nao pode ser confundida com ouvido, pois Aristóxeno atribui-Ihe o estatuto de faculdade que ordena os elementos acústicos e Ihes atribui conjuntamente com a
razáo um significado musical. Mas a percepçäo também tem limitaçôes. Cf. El. Harm.
I. 90: «Bow yap dv nükAov Exdomv tóv povóv piuv te «al Éctnkuiav
thy abthy noijowpev, tocobtwr gaivetat ti uiolhoer td uédos
kal
axpıßeotepov» («Quanto mais tornarmos cada uma das emissöes vocais una, estacio-
Cf. opus cit. 245.
"A referéncia aos Pitagóricos € feita por Aristóxeno: cf. El. Harm. 1. 8.
? Cf. EL Harm. II, 56: «toby dkpoug tiv apicopévwv pOdyyov ¿nl thv
alodnoıv énavaxréov' ci ptv obv Qavhoovran didgwvor, 5Aov Sti oùk
Zotar td dik tecodpawv, S540 tévwv Kal huloeos, ei SÈ cupgwvigovar bd
névte [téocapa] ShAov Sti dio tévwv Kal fhytoeog dorar td did
tecodpav.» («Deve remeter-se para a percepgäo a determinagäo dentro de cada intervalo, dos sons extremos. Se estes soarem em dissonantes a quarta nao sera evidentemente composta de dois tons e meio. Mas se soarem à concordäncia de quinta, € claro
que a quarta serä composta de dois tons e meio».)
néria € uniforme, tanto mais rigorosa surge a melodia à percepçäo»). A apreensäo dos
sons vocais necessita ser clara e distinta, para que a percepçäo elabore sobre ela a
melodia. O som continuo da voz é percepcionado como um continuo sem siléncios. Cf.
El. Harm. 1, 8: «xatà pév obv thy ovvexñ ténov tivà Siebiévar $ povh 17
uisbijce: obtwo dg Av unôauob iotapévy und” En’ adtdv tÓv repátov
Kara ye thy tic alodñosos pavtaciav, dAAd peponévn ovvexüg péxpr
ciwrfjg.» («Em caso algum, no movimento contínuo a voz aparece à percepçäo que se
mantém em repouso. Assim, de modo nenhum, segundo a percepgio, ela estaciona
antes de atingir os seus pröprios limites. Pelo conträrio € levada ininterruptamente até
5 Cf. El, Harm. I, 12: «obö&v yap Fttov hueig téte pñoouev ¿orávar
thy pováv, Stav hpiv i) alodnaıg abthy éropñnvn phat’ ¿mi 1d deb pat
éxi td Bapb épuüouv, obSév Aldo xoiobvtes rAhv tó to1odtar made
ao siléncio»). Em continuidade com este passo, € significativo outro que o complementa; cf. El. Harm. I, 14: «¿ml pév obv tó pikpóv dpa mag éolkaoiv 4 te
povh «al à alo@norg ¿Eaduvareiv» («Na sua progressáo para o intervalo mais
AS puvis tobto tò Svopa tifépevori.» («Näo podemos deixar de afirmar que a
voz permanece imövel quando a nossa percepgäo revela que ela näo se move nem para
entre som musical e siléncio, a percepçäo apresenta algumas limitaçôes, náo se passano agudo nem para o grave. Em tais circunstáncias nada mais nos resta do que dar um
nome a esta característica da voz».)
n
pequeno, a voz c a percepgäo mostram-se incapazes de se sintonizarem».) Na relacio
do o mesmo na afinaçäo dos instrumentos. Cf. II, 43: «Str $” oùôèv t@v ópyávov
abtd dppdéttetar didà à aloOnalg gotiv i tovro Kupla, SHAOV Sri odds
Page 5
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)477
Arist6xeno refere-se principalmente aos genera considerados mais antigos
Em Plutarco ’ encontramos a determinagäo dos conhecimentos a parno tempo (diatónico e cromático) que sáo também aqueles que mais imetir daquelas faculdades que tornam completo o müsico. Existe mesmo
diatamente ocorrem à prätica composicional, ao contärio do género enaruma coincidéncia em variados aspectos entre Aristéxeno e Plutarco quanmönico que, por resultar de uma criagäo conceptual, se torna mais dificil
de audigáo e, ao mesmo tempo, de aplicaçäo.
E compreensfvel que a teoria musical de Aristéxeno tenha como centro o müsico, entendido como compositor e intérprete, uma vez que os
conhecimentos teöricos que este possui näo sao um fim em si, antes estäo
inseridos na ciéncia musical que inclui teoria e prâtica. Existe assim um
grau desta ciéncia musical, que é verdadeiramente superior, pois consiste
na interpretaçäo de uma obra.
O intérprete nao € um simples executante técnico, mas um músico que
€ capaz de compreender os problemas musicais, entendendo a müsica no
seu sentido artístico como uma estética'®. Todos os problemas de um grau
mais elevado, que se colocam quando a arte jä emprega sistemas e tons,
näo pertencem ao dominio da ciéncia harménica, mas a uma ciéncia mais
geral que envolve a harmonia e todas as ciéncias particulares respeitantes a
música. É esta a ciéncia que o músico possui e se designa estética. A música € aqui vista como ¿mor
n e como roirorc, isto €, uma arte elevada
que emprega sistemas e tons que sio domfnio da ciéncia harmönica.
É o músico que possui a faculdade de reflexáo sobre a obra de arte
musical. Tal faculdade de ver na música uma obra de arte alarga as suas
dimensóes matemática e geométrica. Por isso, os Elementa Harmonica
estudam largamente as faculdades do músico, partindo do princípio de que
a ciéncia da música encontra a sua especificidade no povorxócs, cujas
capacidades configuram a originalidade inerente 4 singularidade e irrepetibilidade da composigäo e interpretaçäo de uma obra musical.
Adyou Seitat, pavepdv yap» (LÉ evidente, e náo necessita de nenhuma explicitagäo
o facto de nenhum instrumento de cordas se harmonizar a si próprio, mas através da
percepçäo».) Nesta forma de inserir a percepgáo nos problemas musicais, fica-nos a
ideia de que Aristóxeno pretendeu mostrar através dos limites e possibilidades desta
faculdade, a importáncia do músico como centro da «organizaçäo maravilhosa» que é a
música. Cf, II, 42: «tdEiv yáp tiva kudódov tv tod Apuocuévov Lavpaothy
petadaufdver tüv dépyavav Ékaotov Ep" Scov Sbvatat, tig uicOijcews
abtoig éxotatotons npög Av avdyata: Kal taita wal th lord tv xatà
Hovoikty» («Cada um dos instrumentos participa, tanto quanto Ihe € possivel numa
certa organizaçäo maravilhosa de que faz parte a natureza da harmonizaçäo em geral
sob a supervisäo da percepçäo. Da percepçäo depende essa mesma harmonia, e as restantes matérias relativas à música».)
'©
Cf. El. Harm. 1, |.
to à concepgäo de müsico. De acordo com Plutarco, a ciéncia harmönica
nao poderä ser alcangada de modo total por alguém que limitou os estudos apenas a um conhecimento parcial. Para alingir a música é necessário
familiarizar-se com todas as ciéncias especificas e com todo o corpo das
ciencias musicais, bem como com as combinagöes e mutagöes das suas
partes. Nesta exposigäo estäo implícitas críticas, que se dirigem àqueles
que limitam a ciéncia da müsica à harmonia. A este propösito, Plutarco
mostra que é necessärio, acima de tudo, compreender a audiçäo. Uma
obra musical deve apreciar-se no complexo formado pela melodia, ritmo e
palavras. As sílabas e os sons ouvidos independentemente nao tém sentido, pois a obra náo consiste numa sucessáo de sons independentes, nem a
palavra é uma sucessáo simples de sílabas. As sílabas formam palavras e
sentidos, mas também tém uma expressáo que emerge do seu próprio
som, do movimento das quantidades e da acentuacáo. A melodia das palavras e a melodia musical interligam-se.
Aristóxeno explica todo este jogo de relagóes através da percepgáo
musical, que é a faculdade central da compreensáo dos complexos musicais (poesia, música, métrica). A ciéncia harmónica segue de perto a
noinoic de uma obra musical no que respeita à relaçäo entre as faculdades do noucıxög e a 0ewpla. Como podemos verificar, a contribuigáo de
Aristóxeno para a estética musical resultou da reflexáo sobre as faculdades que se relacionam directamente com a composiçäo musical e com a
sua ligaçäo à construgáo da teoria da música '*.
A expressäo y tc povoirig Ebveois pode ser entendida como
“intuigáo musical”, isto €, uma capacidade inerente ao povo1xós '. A este
"Cf. De Musica 1143 f.
18
Cf. Levin, «Synesis in Aristoxenian Theory», Trans. Am. Phil. Ass., 103,
1972, 224.
”
Sobre um dos sentidos de Edvecig vide Platào, Crat. 412 a; ouvie'von
‘obveyt) ‘vir junto”. Etimologicamente ovvinpu ’apreender’ ‘perceber’. Também ocorre como faculdade, Platäo, Craft. 411 a «ppóvnolg te kal Edveoic»; Eurípides, Her.
655 «Ebveaic Kal cogia»; Pindaro, Nem, 7.60 «obveciv ... ppev@v»; Tucidides
1,75 «yvo'ung Evve'oewg»; Aristöteles, De An. 410 b 3 (Ébveois on. a dyvora).
A ocorrência do termo com um genitivo denota ‘inteligéncia’, ‘sagacidade’ (v.g. Platáo,
Crat. 412 C «tf toò Sicalou cuvvécew). Esta mesma construçäo pode ver-se em
Aristóxeno «h tic povoiKijc Edvectc». É este sentido que os principais comentadores de Arist6xeno dio à expressäo (v.g. Macran opus. cit., 167; Levin, opus. cit., 212).
Page 6
Voir dans le PDF(s’ouvre dans une nouvelle fenêtre)479
propösito, Levin vé em Aristöxeno a concepçäo da müsica a partir de uma
çäo, enquanto a dissonáncia € medida tendo como referencial a consonáncausa eficiente que € a faculdade designada por synesis (intuigáo musical) ?.
cia. Mas Aristóxeno póe cm causa que a razáo e a sensaçäo sejam as úni-
E, de facto a antiguidade conhecia Aristéxeno como o «povaixdc» *', pois
cas fontes do conhecimento. De facto, a mediçäo da intuigáo é o núcleo da
concepçäo auditiva do autor. O que está em causa é a origem da obra de
a sua concepgäo de müsico alargava a prätica musical ao conhecimento teérico, fazendo um e outro parte de um complexo inseparävel.
arte musical a partir das faculdades específicas do músico. Este deve con-
A teoria musical de Aristöxeno é uma articulagäo de ritmo, métrica,
ceber um principio que ligue a sensacáo e a teoria à sua actividade criatiinstrumentaçäo, harmonia e composiçäo. Todas estas partes colhem exemva. Ele cria música ouvindo e desenvolvendo a sua capacidade criativa a
plos da composiçäo melédica, da dança, do teatro, que fornecem elemenpar do ouvido.
tos prâticos para a construçäo de uma fenomenologia musical, a partir da
qual é construfda toda a conceptualizaçäo.
A capacidade de conceptualizaçäo de escalas e principios da harmonia é uma condigáo para que melhor possa reter, reconhecer e até anteci-
Num reencontro com o conceito de noucıcr) que representa um
par os factos musicais”, O conhecimento conceptual é uma antecipagäo
complexo de müsica e literatura, Aristöxeno funda a sua teoria musical
da ideia de consonáncia e de mensurabilidade da dissonáncia; de determicomo uma «gramática» ? da música, na qual o sistema de regras € gerado
das questöes fenomenológicas sendo a intuiçäo (Gbveoic) a faculdade pela
naçäo das relaçôes entre graus nos sistemas para melhor gerar as melodias.
O sistema é inseparável da melodia. Cabe ao músico dar ás escalas uma
qual o povoixôc estabelece a ligagáo entre a teoria e a prática musical.
funcionalidade original, através do cunho pessoal tornando as suas obras
Implicita à teoria musical de Aristéxeno, existe um reconhecimento
únicas e imediatamente reconhecíveis como obras possuidoras da marca de
um autor. Nesse caso todas as obras que o autor compôe possuiráo, por
das possibilidades infinitas do som”. O som melódico € estudado em particular nas suas mültiplas combinagöes e possibilidades. E o som melédico o núcleo essencial da teoria de Aristóxeno. Segundo este teérico, os
limites do som éxi to pixpév e ¿ni to péya dependem da intuigäo
musical.
um lado, a diversidade criativa, e por outro, a unidade resultante da intuigio musical do seu autor (o seu ethos). A intuiçäo, segundo Aristóxeno €
a faculdade criativa, que em cada compositor se manifesta como singular e
irrepetivel, quando este aplica a conceptualizaçäo à criaçäo de uma obra.
Laloy ” interpreta a synesis como a faculdade inata que permite produzir o juizo musical (juizo estético). A criaçäo musical nao parte da
notaçäo ou da ciéncia harmönica, mas da synesis uma sintese do ouvido
e do intelecto °°, A synesis é o processo intelectual responsável pela criacäo da müsica.
Como salienta Lippman”’ o ouvido e a razäo nao realizam um acto
conjunto. A razäo € responsável pela estrutura lógica da ciéncia e pela sua
argumentagäo, como por exemplo a determinagäo da relagáo funcional
entre tons, mas nao participa no juizo sobre tipos de intervalos, Este acto
depende mais da percepçäo. A consonáncia surge como resultado da audi-
©
2"
2
Cf. El. Harm. I, 41.
Cf. Testimónia apud Wehrli, Die Schule des Aristoteles Il, Basel 1945.
A ideia de gramática é de Levin, opus. cit., 228.
3
Cf. El. Harm. I, 15.
Laloy, Aristoxene de Tarente et La Musique de I’ Antiquité, Paris, 1904, 262.
BR Cf.
El. Harm. 1,41.
%
2
Cf. El. Harm. 1, 38.
Cf. Lippman, Musical Thought in Ancient Greece, New York, 1975, 149.
Cf. El, Harm. 1, 44.